Ser PortuguĆŖs, Ainda

Para ser portuguĆŖs, ainda, vive-se entre letras de poemas e esperanƧas, cantigas e promessas, de passados esquecidos e futuros desejados, sem presente, sem pensamento, sem Portugal. Para ser portuguĆŖs, ainda, aprende-se a existir no gume da tristeza, como um equilibrista num andaime de navalhas levantadas, numa obra que se vai construindo sob uma arquitectura de demoliĆ§Ć£o. TĆ­nhamos direito a um Portugal inteiro, com povo e com a terra, mas o povo enlouqueceu e a terra foi arrasada e tudo o que era pĆ”tria, doce e atrevida, se afasta Ć  medida que olhamos para ela, tal Ć© a Ć¢nsia de apagamento e de perdiĆ§Ć£o. Restam-nos sons e riscos. Portugal encolheu-se. Escondeu-se nos poetas e cantores. Recolheu-se nas vozes fundas de onde nasceu. Portugal abrigou-se em portugueses e portuguesas nos quais uma ideia de Portugal nunca se perdeu.

Para se ser portuguĆŖs, ainda, Ć© preciso estreitar os olhos e molhar a garganta com vinho tinto para poder gritar que isto assim nĆ£o Ć© Portugal, nĆ£o Ć© paĆ­s, nĆ£o Ć© nada. Torna-se cada vez mais difĆ­cil que o povo e a terra e a ideia se possam alguma vez reunir.
Ɖ preciso defender violentamente as instituiƧƵes: a Universidade, o Parlamento,

Continue lendo…