Cita√ß√Ķes de Ant√≥nio Ramos Rosa

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Ant√≥nio Ramos Rosa para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Aqui Mereço-te

O sabor do p√£o e da terra
e uma luva de orvalho na m√£o ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um p√£o enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visivel entre as árvores.
√Č aqui e agora o dilatado abra√ßo das ra√≠zes claras do sono.
Sob as p√°lpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.

A m√£o flui liberta t√£o livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena l√Ęmpada.
Tudo o que eu disser s√£o os l√°bios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
o murm√ļrio do ar e do fogo sobre a terra,
o incessante alimento que percorre o meu corpo.

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√Č por Ti que Escrevo

√Č por ti que escrevo que n√£o √©s musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
√Č porque amo a c√°lida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de √°gua iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a t√ļmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um o√°sis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

Para um Amigo Tenho Sempre

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse rel√≥gio n√£o marca o tempo in√ļtil.
S√£o restos de tabaco e de ternura r√°pida.
√Č um arco-√≠ris de sombra, quente e tr√©mulo.
√Č um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

A Partir da Ausência

Imaginar a forma
doutro ser Na língua,
proferir o seu desejo
O toque inteiro

N√£o existir

Se o digo acendo os filamentos
desta nocturna l√Ęmpada
A pedra toco do silêncio densa
Os veios de um sangue escuro

Um muro vivo preso a mil raízes

Mas não o vinho límpido
de um corpo
A lucidez da terra
E se respiro a boca n√£o atinge
a nudez una
onde começo

Era com o sol E era
um corpo

Onde agora a m√£o se perde
E era o espaço

Onde não é

O que resta do corpo?
Uma matéria negra e fria?
Um hausto de desejo
retém ainda o calor de uma sílaba?

As palavras soçobram rente ao muro
A terra sopra outros voc√°bulos nus
Entre os ossos e as ervas,
uma outra mão ténue
refaz o rosto escuro
doutro poema

Poema dum Funcion√°rio Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as m√£os
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcion√°rio apagado
um funcion√°rio triste
a minha alma n√£o acompanha a minha m√£o
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma n√£o dan√ßa com os n√ļmeros tento escond√™-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcion√°rio cansado dum dia exemplar
Porque n√£o me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irm√£o beijo namorada
m√£e estrela m√ļsica

S√£o as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na pris√£o da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

N√£o Choro pela P√°tria

Não choro pela pátria Ninguém chora pela pátria
Retém-se o grito que lavra pelo corpo
sulcos sangrentos e o faz sentir em si a pele
que se separa e se encolhe ante a violência
da dispers√£o comum e do falso fulgor
que encobre a irrepar√°vel divis√£o
de se ter perdido o universo e a viva comunidade
Onde est√£o aqueles que poderiam metamorfosear
a indigência da separação real
abrindo um espaço de respiração solar
e reunir num todo os que conhecem a sua solid√£o
e os que nem sequer sentem a vertigem de a nada pertencerem
senão à negação que se afirma em lugar da integridade viva?

A Leitora

A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. √Č um torvelinho harmonioso,
um p√°ssaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.

Um Ofício que Fosse de Intensidade e Calma

Um ofício que fosse de intensidade e calma
e de um fulgor feliz E que durasse
com a densidade ardente e contempor√Ęneo
de quem está no elemento aceso e é a estatura
da água num corpo de alegria E que fosse   fundo
o fervor de ser a metamorfose da matéria
que j√° n√£o se separa da incessante busca
que se identifica com a concavidade origin√°ria
que nos faz andar e estar de pé
expostos sempre √† √ļnica face do mundo
Que a palavra fosse sempre   a travessia
de um espaço em que ela própria fosse aérea
do outro lado de nós e do outro lado de cá
tão idêntica a si que unisse o dizer e o ser
e j√° sem dist√Ęncia e n√£o-dist√Ęncia nada a separasse
desse rosto que na travessia é o rosto do ar e de nós próprios

O Construtor

O construtor, antes de levantar a primeira pedra do dia, contempla e considera as suas feridas que enfraquecem a vontade de construir, com a sua pr√≥pria subst√Ęncia de cinzas e sangue petrificado, a habita√ß√£o em que a f√©nix poder√° renascer com todo o esplendor original de um astro. Nada mais lhe resta do que lan√ßar-se a um trabalho para o qual a disposi√ß√£o ainda n√£o surgiu, mas que poder√° despertar os impulsos da constru√ß√£o solar e abrir o horizonte luminoso e tranquilo de um rio em torno da morada. A constru√ß√£o est√° envolta numa espessa bruma e n√£o h√° nela sinais de figuras ou formas, porque essa n√©voa √© o pr√≥prio nada da confus√£o inicial e do fim de toda a constru√ß√£o como possibilidade de vida e de renovo. √Č do obscuro fundo da retina que surge um t√©nue raio cintilante que penetra na massa nebulosa da constru√ß√£o e a faz palpitar e estremecer. O construtor poder√° ent√£o discernir algumas linhas de for√ßa, algumas estruturas e bases numa crescente e sincopada clarifica√ß√£o. Haver√° um momento em que ele sentir√° que o edif√≠cio dan√ßa porque tudo se duplica e se reflecte e se anima. De algum modo, √© j√° a f√©nix que resplandece no fulgor da edifica√ß√£o e na plenitude do ser e do olhar na sua m√ļtua cria√ß√£o.

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A Verdade

A verdade é semelhante a uma adolescente
vibrante, flexível, em radiosa sombra.
Quando fala √© a noite transl√ļcida no mar
e a esfera germinal e os anéis da água.
Um apelo suave obstinado se adivinha.

Ela dorme t√£o perfeitamente despertada
que em si a verdade é o vazio. Ela aspira
à cegueira, ao eclipse, à travessia
dos espelhos at√© ao √ļltimo astro. Ela sabe
que o muro está em si. Ela é a sede

e o sopro, a falha e a sombra fascinante.
Ela funda uma arquitectura volante
em suspensas superfícies ondulantes.
Ela é a que solicita e separa, delimita
e dissemina as sílabas solidárias.

Estar S√≥ √© Estar no √ćntimo do Mundo

Por vezes   cada objecto   se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim t√£o breve e t√£o profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos d√°
a cintilante subst√Ęncia do s√≠tio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre min√ļsculas luzes
E √© astro imediato de um l√ļcido sono
fluvial e um n√ļbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

A Palavra

Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda resson√Ęncia.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.

Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.

O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre h√° um ardor soberano.

A Mulher

Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso √© a dist√Ęncia fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.

O Jardim

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispers√Ķes, transpar√™ncia de estruturas,
pausas de areia e de √°gua, f√°bulas min√ļsculas.

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direc√ß√Ķes de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsa√ß√Ķes de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murm√ļrio de omiss√Ķes, um c√Ęntico do √≥cio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros vol√ļveis.
√Č aqui, √© aqui que se renova a luz.

O Silêncio não Existe

O sil√™ncio n√£o existe porque √© o constante rumor de uma inexist√™ncia. O que se ouve, para al√©m do movimento da cidade, √© o mon√≥tono murm√ļrio do nada. Apenas sombra de nada, quem nele procura um apelo ou uma resposta n√£o os encontra ou encontra um sinal negativo. Nada diz esse murm√ļrio nulo, que √© o eco inalter√°vel do vazio do mundo, mas quem o ouve sente a radicalidade da sua nega√ß√£o como se a cada momento nos dissesse: N√£o h√°.

Vertentes

As palavras esperam o sono
e a m√ļsica do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro n√£o a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

H√° um olhar que entra pelas paredes da terra
sem l√Ęmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre ext√°tica que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a m√£o do teu seio
sou o teu l√°bio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a √°gua cai sem tempo

A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
√Č o vazio ou o cimo? √Č um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Rela√ß√Ķes, varia√ß√Ķes, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
√Č aqui a ab√≥bada transparente, o vento principia.
No centro do dia h√° uma fonte de √°gua clara.
Se digo √°rvore a √°rvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

O Poema √© uma √Ārvore de um S√≥ Fruto

Creio que nenhum de v√≥s h√°-de estranhar que eu diga que o poeta √© aquele que perdeu a palavra antes de a poder dizer; dito de outro modo. Ele √© o que fala ou escreve antes de conhecer o enunciado do que vai dizer. O grito, o sil√™ncio, a aridez da n√£o inspira√ß√£o determinam inicialmente a cria√ß√£o po√©tica; o poema nunca √© real, nunca se efectiva numa conclus√£o, ou num objectivo determinado. O poema nasce de um grito, de um assombro, de uma ruptura, da noite do nada e da disponibilidade da linguagem relacional; √© sempre a transposi√ß√£o de um referente real ou imagin√°rio para uma linguagem de equival√™ncia, mas necessariamente, livremente, distanciada da refer√™ncia. Esta linguagem √© a ¬ęcoer√™ncia da incoer√™ncia¬Ľ, ¬ęuma linguagem na linguagem¬Ľ, mantendo embora a voz mesma do existente ausente que √© o poeta, no ¬ęfingimento¬Ľ, na fic√ß√£o, na heteron√≠mia do poema. Longe de ser um astro fixo, o poema suspende o enunciado para fluir numa rela√ß√£o metam√≥rfica de palavras, de imagens, de sons e de rela√ß√Ķes que s√£o todos os elementos consonantes do poema; o poema √©, assim, um √©brio fluir de chamas, de estrelas, de possibilidades, de vibra√ß√Ķes, de sil√™ncios de uma respira√ß√£o errante em que a verdade nos escapa no mist√©rio da sua nostalgia,

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√Č por Ti que Vivo

Amo o teu t√ļmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu h√°lito de p√°ssaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro n√£o o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofere√ßo-te esta fr√°gil Ô¨āor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

M√£e

Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.
Vejo-te menina e noiva, vejo-te m√£e mulher de trabalho
Sempre fr√°gil e forte. Quantos problemas enfrentaste,
Quantas afli√ß√Ķes! Sempre uma for√ßa te erguia vertical,
sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento
a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas,
tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade.
E assim est√°s no meio do amor como o centro da rosa.
Essa √Ęnsia de amor de toda a tua vida √© uma onda incandescente.
Com o teu amor humano e divino
quero fundir o diamante do fogo universal.