Sonetos

2370 resultados
Sonetos de autores conhecidos para ler e compartilhar. Os melhores sonetos est√£o em Poetris.

a fava

espero que me calhe aquela fava
que é costume meter no bolo-rei:
quer dizer que o comi, que o partilhei
no natal com quem mais o partilhava

numa ordem das coisas cuja lei
de afectos e memória em nós se grava
nalgum lugar da alma e que destrava
tanta coisa sumida que, bem sei,

pela sua presença cristaliza
saudade e alegria em sons e brilhos,
sabores, cores, luzes, estribilhos…
e até por quem nos falta então se irisa

na mais pobre semente a intensa dança
de tempo adulto e tempo de criança.

As L√°grimas

Exaltemos as l√°grimas. Na pele das veias,
bom dia, águas. Gratidão ao rosto, às cores,
ao sulco nos olhos. Porquê este ardor, este
temor da erva pisada? Adormecem comigo,

meigas f√°bricas de quietude e solid√£o
no calmo azul branco da sua breve cor.
Que longe se vão no ar amargo, sob o ímpeto
delirante de as transformar em leis extintas,

ironias ou j√ļbilos. Rolem ou finjam
incans√°veis trabalhos ou dores, assim
conspiram em outras portas, outros mistérios.

Perco-as entre conversas, o sono, o amor.
Aos olhos desertos sua ausência os desgasta.
Louvemos nas l√°grimas o seu fulgor v√£o.

Aonde, Amor Cruel, aonde me Guias?

Aonde, amor cruel, aonde me guias?
S√£o estes os teus bosques consagrados
Onde só vejo peitos lacerados,
Cora√ß√Ķes em extremas agonias?

Só respondem as duras penedias
A míseros gemidos em vão dados;
Olhos formosos, rostos delicados
S√£o ministros das tuas tiranias.

Já me rasgam o peito em mil pedaços:
Marcia me disparou acerbos tiros,
L√° vai fugindo com velozes passos.

Suspende, ó ninfa, os apressados giros,
Deixa cruel, ao menos, que em teus braços
Amintas lance os √ļltimos suspiros.

Descida

O que tinha de ser j√° foi… E est√° perdida
aquela √Ęnsia de espera, de desejo e f√©,
e tudo o que virá será cópia esbatida
da Vida que foi Vida e hoje Vida n√£o √©…

Muito pouco de tudo ainda resta de p√©…
Agora, nunca mais estr√©ias… Repetida
a alma se reverá um desespero, até
que a vida j√° n√£o valha a pena ser vivida…

Do que foi canto e flor restam só as raízes,
e ao tédio que envenena os dias mais risonhos
repito: nunca mais estr√©ias… s√≥ reprises…

E que importa o que vier? Sejam anos ou meses?
– Nunca mais a beleza dos primeiros sonhos!
– Nunca mais a surpresa das primeiras vezes!

A um Crucifixo

Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!

Por que morreu sem eco, o eco de teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste… ah! dorme em paz! n√£o volvas, que descrente
Arrojaras de novo √† campa os membros lassos…

Agora, como ent√£o, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo c√©u, frio como um sud√°rio…

E agora, como ent√£o, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar ‚ÄĒ de que serviu o sangue
Com que regaste, √≥ Cristo, as urzes do Calv√°rio? ‚ÄĒ

Jovens Filhos Da P√°tria, Em Vossos Peitos

Jovens filhos da p√°tria, em vossos peitos
Dep√Ķe a p√°tria seu porvir de gl√≥ria:
Revolve sonhos de imortal de imortal memória,
Adejando inquieta em vossos leitos.

De vós espera sublimados feitos,
P’ra ornar de palmas a futura hist√≥ria;
Espera em vós, como espera em Dória,
Dória tão jovem, como vós, nos pleitos.

Atletas do porvir, marchai seguros
Da liberdade à festa sacrossanta,
A levantar-lhe mais altivos muros.

Marchai: Рque aos livres nem o céu suplanta,
E o índio do Brasil, sem elmos duros,
No olhar sòmente os déspotas espanta.

O Louro Ch√° no Bule Fumegando

O louro ch√° no bule fumegando
De Mandarins e Br√Ęmanes cercado;
Brilhante a√ß√ļcar em torr√Ķes cortado;
O leite na caneca branquejando.

Vermelhas brasas, alvo p√£o tostado;
Ruiva manteiga em prato bem lavado;
O gado feminino rebanhado,
E o pisco Ganimedes apalpando;

A ponto a mesa est√° de enxaropar-nos.
Só falta que tu queiras, meu Sarmento,
Com teus discretos ditos alegrar-nos.

Se vens, ou caia chuva, ou brame o vento,
N√£o pode a longa noite enfastiar-nos,
Antes tudo ser√° contentamento.

O Mar

O mar é triste como um cemitério,
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela im√°cula brancura
De ondas chorando num albor etéreo.

Ah! dessas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do amor; só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!

Quando a c√Ęndida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solid√£o das fragas,
Onde a quebrar-se t√£o fugaz se esfuma.

Reflete a luz do sol que j√° n√£o arde,
Treme na treva a p√ļrpura da tarde,
Chora a saudade envolta nesta espuma!

Nas grandes horas em que a insónia avulta

Nas grandes horas em que a insónia avulta
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,

Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me far√£o nada, como frase estulta.

Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
Repete seu monótono torpor

Na sombra, no delírio da clareza,
E n√£o h√° Deus, nem ser, nem Natureza
E a própria mágoa melhor fora dor.

Se Eu Fosse Um Padre

Se eu fosse um padre, eu, nos meus serm√Ķes,
n√£o falaria em Deus nem no Pecado
– muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas sedu√ß√Ķes,

n√£o citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terr√≠veis maldi√ß√Ķes…
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a inf√Ęncia me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
… a um belo poema – ainda que de Deus se aparte –
um belo poema sempre leva a Deus!

Amor, Co A Esperança Já Perdida

Amor, co a esperança já perdida,
teu soberano templo visitei;
por sinal do naufr√°gio que passei,
em lugar dos vestidos, pus a vida.

Que queres mais de mim, que destruída
me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar me, que não sei
tornar a entrar onde não há saída.

Vês aqui alma, vida e esperança,
despojos doces de meu bem passado,
enquanto quis aquela que eu adoro:

nelas podes tomar de mim vingança;
e se inda n√£o est√°s de mim vingado,
contenta te com as l√°grimas que choro.

Ausência Misteriosa

Uma hora só que o teu perfil se afasta,
Um instante sequer, um só minuto
Desta casa que amo — vago luto
Envolve logo esta morada casta.

Tua presença delicada basta
Para tudo tornar claro e impoluto…
Na tua ausência, da Saudade escuto
O pranto que me prende e que me arrasta…

Secretas e sutis melancolias
Recuadas na Noite dos meus dias
Vêm para mim, lentas, se aproximando.

E em toda casa, nos objetos, erra
Um sentimento que não é da Terra
E que eu mudo e sozinho vou sonhando…

Presa Do √ďdio

Da tu’alma na funda galeria
Descendo às vezes, eu às vezes sinto
Que como o mais feroz lobo faminto
Teu ódio baixo de alcatéia espia.

Do Desespero a noite cava e fria,
De boêmias vis o pérfido absinto
P√īs no teu ser um negro labirinto,
Desencadeou sinistra ventania.

Desencadeou a ventania rouca,
surda, tremenda, desvairada, louca,
Que a tu’alma abalou de lado a lado.

Que te inflamou de cóleras supremas
e deixou-te nas tr√°gicas algemas
Do teu ódio sangrento acorrentado!

Cartas

Vou correndo busc√°-las – s√£o t√£o leves!
mas trazem a minha alma um grande encanto,
– por que as cartas que escreves custam tanto?
– por que demora tanto o que me escreves?

N√£o deves torturar-me assim, n√£o deves!
– Do teu sil√™ncio muita vez me espanto…
Mando-te longas cartas – e entretanto
como tuas respostas s√£o t√£o breves!…

Recebes cartas minhas todo dia,
e elas n√£o dizem tudo o que eu queria
mas falam-te de amor… de coisas belas!

Tuas cartas… Mas dou-te o meu perd√£o,
– que me importa afinal ter raz√£o,
se gosto tanto de esperar por elas!

Sem Esperança

√ď c√Ęndidos fantasmas da Esperan√ßa,
Meigos espectros do meu v√£o Destino,
Volvei a mim nas leves ondas do Hino
Sacramental de Bem-aventurança.

Nas veredas da vida a alma n√£o cansa
De vos buscar pelo Vergel divino
Do céu sempre estrelado e diamantino
Onde toda a alma no Perd√£o descansa.

Na vol√ļpia da dor que me transporta,
Que este meu ser transfunde nos Espaços,
Sinto-te longe, ó Esperança morta.

E em v√£o alongo os vacilantes passos
À procura febril da tua porta,
Da ventura celeste dos teus braços.

Doce Abismo

Coração, coração! a suavidade,
Toda a doçura do teu nome santo
√Č como um c√°lix de falerno e pranto,
De sangue, de luar e de saudade.

Como um beijo de m√°goa e de ansiedade,
Como um terno crep√ļsculo d’encanto,
Como uma sombra de celeste manto,
Um soluço subindo a Eternidade.

Como um sud√°rio de Jesus magoado,
Lividamente morto, desolado,
Nas auréolas das flores da amargura.

Coração, coração! onda chorosa,
Sinfonia gemente, dolorosa,
Acerba e melancólica doçura.

Sem Causa, Juntamente Choro e Rio

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.

√Č tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
Num’ hora acho mil anos, e √© de jeito
Que em mil anos n√£o posso achar um’ hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Ela

À beleza tão pura do semblante,
à luz sublime que há nos olhos dela,
– pergunto-me a mim mesmo a todo instante,
como t√£o simples pode ser t√£o bela…

Diferente das outras, diferente
dos moldes t√£o comuns de uma mulher,
– ela me faz pensar num mundo ausente
deste que a gente sem querer j√° quer…

Bem que a quis esquecer – e noutro amor
procurei me enganar, acreditando
ser do meu pobre cora√ß√£o, senhor…

Em v√£o tentei… Em v√£o… Vendo-a naquela
doce e pura express√£o – fico pensando
que √© imposs√≠vel n√£o pensar mais nela!…

Absurdo

Ninguém te disse nada, ninguém soube
do anel que se perdia em tuas m√£os
e crescia nas coisas reduzindo-as
à ausência mais completa do existir.

Mesmo quando o limite era essa zona
fugidia de gestos e silêncios
e a noite desdobrava em tua pele
o mapa das cidades compassivas,

ningu√©m p√īde saber do imprevis√≠vel,
do lado mais secreto e numeroso
que havia em ti, na vida que buscavas

e que perdias sempre, por mais fundo,
por mais limpo que fosse o privilégio
da mágoa sempre nova de perdê-la.

Vejo que nem um Breve Engano Posso Ter

Quando de minhas m√°goas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece,
Que para mi foi sonho nesta vida.

L√° numa soidade, onde estendida
A vista por o campo desfalece,
Corro após ela; e ela então parece
Que mais de mi se alonga, compelida.

Brado: ‚ąí N√£o me fujais, sombra benina. ‚ąí
Ela (os olhos em mi c’um brando pejo,
Como quem diz que j√° n√£o pode ser)

Torna a fugir-me; torno a bradar: ‚ąí Dina…
E antes que diga mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.