Vida Insuport√°vel

24 resultados
Reflex√Ķes sobre as dificuldades da vida

O Medo do Aborrecimento

O género de aborrecimento de que sofre a população das cidades modernas está intimamente ligado à sua separação da vida da Terra. Essa separação torna o seu viver ardente, poeirento e ansioso, tal como uma peregrinação no deserto. Nos que são suficientemente ricos para escolher o seu género de vida, o estigma peculiar de insuportável aborrecimento que os distingue é devido, por muito paradoxal que isso possa parecer, ao seu medo do aborrecimento. Ao fugirem do aborrecimento que é fecundo, são vítimas de outro de natureza pior. Uma vida feliz deve ser, em grande medida, uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer.

O Inseguro

A eterna can√ß√£o: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveit√°-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para n√£o fazer absolutamente nada ‚ÄĒ quer dizer, para sentir que n√£o estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. A√≠, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse…
Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escava√ß√£o tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substitu√≠ a no√ß√£o de profundidade pela de altura. N√£o quis saber de minera√ß√Ķes. Cravei os olhos no espa√ßo,

Continue lendo…

Porque Te Devo Amar

Porque te devo amar,
perguntas,
e eu falo-te no barulho do vento na janela quando me apertas, a tua cabe√ßa no mist√©rio que fica entre os bra√ßos e os ombros, escondo os dedos no interior do teu cabelo e ou√ßo-te respirar, pessoas como n√≥s n√£o procuram explica√ß√Ķes mas sobreviv√™ncias,
Devíamos aprender a querer devagar,
arriscas,
mas entretanto já pousei os meus lábios nos teus, é insuportável o teu cheiro se não puder tocar-te, ficaríamos completos se apenas houvesse palavras, e o mais absurdo é que nem precisamos de falar, pessoas como nós não procuram a eternidade mas os sentidos,
Cada instante merece um orgasmo,
invento,
tento provar-te que os poemas s√£o feitos de carne, nunca de versos, estranhamente n√£o ripostas e deixas-te olhar, fico mais de uma hora s√≥ a ver-te e √© tudo, pe√ßo-te que te coloques nas mais diversas posi√ß√Ķes, h√°-de haver um √Ęngulo qualquer em que n√£o seja completamente teu e o teu sorriso o quase c√©u, mas n√£o o encontro, pessoas como n√≥s n√£o procuram a pele mas a faca,
H√° uma certa dignidade na maneira como nos abandonamos,
despeço-me,
visto-me com lentid√£o enquanto te amo finalmente,

Continue lendo…

O Início do Conhecimento

Um primeiro sinal do in√≠cio do conhecimento √© o desejo de morrer. Esta vida parece insuport√°vel, a outra, intang√≠vel. A pessoa j√° n√£o se envergonha mais de querer morrer, pede para ser levada da velha cela que ela odeia para uma nova, que s√≥ ent√£o aprender√° a odiar. Persiste um res√≠duo de f√© durante a transfer√™ncia se o senhor do lugar casualmente passar pelo corredor, avistar o prisioneiro e disser: ¬ęEste homem voc√™s n√£o podem prender outra vez. Ele vai para a minha casa¬Ľ.

O Nascimento do Prazer

O prazer nascendo d√≥i tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao ins√≥lito prazer. A alegria verdadeira n√£o tem explica√ß√£o poss√≠vel, n√£o tem a possibilidade de ser compreendida ‚Äď e se parece com o in√≠cio de uma perdi√ß√£o irrecuper√°vel. Esse fundir-se total √© insuportavelmente bom ‚Äď como se a morte fosse o nosso bem maior e final, s√≥ que n√£o √© a morte, √© a vida incomensur√°vel que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos ‚Äď pois √© a vida nascendo. E quem n√£o tiver for√ßa, que antes cubra cada nervo com uma pel√≠cula protetora, com uma pel√≠cula de morte para poder tolerar a vida. Essa pel√≠cula pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer sil√™ncio ou em v√°rias palavras sem sentido. Pois o prazer n√£o √© de se brincar com ele. Ele √© n√≥s.

H√° duas coisas a que temos de nos habituar, sob pena de acharmos a vida insuport√°vel: s√£o as inj√ļrias do tempo e as injusti√ßas dos homens.

Vamos Buscar as Nossas Ideias ao Estrangeiro

Que ideias gerais temos? As que vamos buscar ao estrangeiro. Nem as vamos buscar aos movimentos filos√≥ficos profundos do estrangeiro; vamos busc√°-las √† superf√≠cie, ao jornalismo de ideias. E assim as ideias que adoptamos, sem altera√ß√£o nem cr√≠tica, s√£o ou velhas ou superficiais. Falamos a s√©rio nas ideias pol√≠ticas de Le√≥n Blum ou de Edouard Herriot, nenhum dos quais teve alguma vez ideias ‚ÄĒ pol√≠ticas ou outras ‚ÄĒ em sua vida. Falamos a s√©rio em Bourget, Maurras […].

Plagiamos o fascismo e o hitlerismo, plagiamos claramente, com a desvergonha da inconsciência, como a criança imita sem hesitar. Não reparamos que fascismo e hitlerismo, em sua essência, nada têm de novo, porventura nada de aproveitável, como ideias; o que não sabemos imitar, porque seria mais difícil, é a personalidade de Mussolini.

As ideias de Maurras, que qualquer raciocinador hábil desfaz sem dificuldade, se tiver a paciência de vencer o tédio quase insuportável de o ler, passam por leis da natureza, por tão indiscutíveis como, não direi já a teoria atómica, que tem elementos discutíveis, mas o coeficiente de dilatação do ferro, ou a lei de Boyle ou de Mariotte.

Temos poetas de mérito. Que fazem eles?

Continue lendo…

Ser Português é Difícil

Os Portugueses t√™m algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso pa√≠s e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou ¬ęculpa de sermos portugueses¬Ľ. N√£o queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta mis√©ria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses t√™m o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor pa√≠s do mundo. Se lhes perguntarmos ‚ÄúQual √© actualmente o melhor e o maior pa√≠s do mundo?‚ÄĚ, n√£o arranjam resposta. Nem dizem que √© a Uni√£o Sovi√©tica nem os Estados Unidos nem o Jap√£o nem a Fran√ßa nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem s√≥, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: ¬ęPodia ter sido Portugal…¬Ľ E isto que vai salvando os Portugueses: t√™m vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas ¬ętamb√©m n√£o v√£o ao ponto de quererem ser outra coisa¬Ľ.

Revela-se aqui o que n√≥s temos de mais insuport√°vel e de comovente: s√≥ nos custa sermos portugueses por n√£o sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo n√£o √© aquele de quem diz ‚ÄúPortugal √© o melhor pa√≠s do mundo‚ÄĚ (esse √© simplesmente parvo ou parvamente simples),

Continue lendo…

O Ideal Português como Ideal para o Mundo

Tr√™s pontos, segundo Cam√Ķes, sobre os quais temos que meditar, e ver como √©. Ponto n√ļmero 1: √© preciso que os corpos se apaziguem para que a cabe√ßa possa estar livre para entender o mundo √† volta. Enquanto n√≥s estamos perturbados com existir um corpo que temos que alimentar, temos que fartar, que temos de tratar o melhor poss√≠vel, cometendo para isso muitas coisas extremamente dif√≠ceis, nessa altura, quando a nossa cabe√ßa estiver inteiramente livre e l√≠mpida, n√≥s podemos ouvir aquilo que Cam√Ķes chama ¬ęa voz da deusa¬Ľ. E que faz a voz da deusa? Arranca √†queles marinheiros as limita√ß√Ķes do tempo e as limita√ß√Ķes do espa√ßo. Arranca-os √†s limita√ß√Ķes do tempo o que faz que eles saibam qual vai ser o futuro de Portugal. E arranca-os √†s limita√ß√Ķes do espa√ßo porque eles v√™em todo o mundo ao longe, o universo que est√° ao longe, a deusa lho mostra, embora com o sistema errado, digamos assim, ou imperfeito, de Ptolomeu, e eles est√£o portanto inteiramente fora do espa√ßo. Aquilo que foi o ideal dos gregos, e que os gregos nunca conseguiram realizar. Ent√£o o que √© que aconteceu? Aconteceu que um dia houve outro portugu√™s que tinha ido para o Brasil,

Continue lendo…

√Ālvaro

… Diabo de homem, este √Ālvaro… Agora chama-se √Ālvaro de Silva… Vive em Nova Iorque… Passou quase toda a vida na selva nova-iorquina… Imagino-o a comer laranjas a horas ins√≥litas, queimando com o f√≥sforo o papel dos cigarros, fazendo perguntas vexat√≥rias a toda a gente… Foi sempre um mestre desordenado, possuidor de uma brilhante intelig√™ncia, intelig√™ncia inquiridora que parecia n√£o o levar a pparte nenhuma, excepto a Nova Iorque. Era em 1925…

Entre as violetas que se lhe escapavam da m√£o quando corria para as entregar a uma transeunte desconhecida, com a qual queria logo ir deitar-se, sem saber como ela se chamava nem donde era, e as suas intermin√°veis leituras de Joyce, revelou-me a mim e a muitos outros insuspeitadas opini√Ķes, pontos de vist-a de grande cidad√£o que vive dentro da urbe, na sua cova, e sai a explorar a m√ļsica, a pintura, os livros, a dan√ßa… Sempre a comer laranjas, a descascar ma√ß√£s, insuport√°vel diet√©tico, assombrosamente intrometido em tudo, v√≠amos nele, por fim, o sonhado antiprovinciano que todos n√≥s, os provincianos, t√≠nhamos querido ser, sem as etiquetas coladas nas malas, antes circulando dentro de si pr√≥prio, com uma mistura de pa√≠ses e concertos, de caf√©s ao alvorecer,

Continue lendo…