Textos sobre Necessidades

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Textos de necessidades escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Pressuposto Indispens√°vel para se Ser um Grande-Escritor

O pressuposto indispens√°vel para se ser um grande-escritor √©, ent√£o, o de escrever livros e pe√ßas de teatro que sirvam para todos os n√≠veis, do mais alto ao mais baixo. Antes de produzir algum bom efeito, √© preciso primeiro produzir efeito: este princ√≠pio √© a base de toda a exist√™ncia como grande-escritor. √Č um princ√≠pio miraculoso, eficaz contra todas as tenta√ß√Ķes da solid√£o, por excel√™ncia o princ√≠pio goethiano do sucesso: se nos movermos apenas num mundo que nos √© prop√≠cio, tudo o resto vir√° por si. Pois quando um escritor come√ßa a ter sucesso d√°-se logo uma transforma√ß√£o significativa na sua vida. O seu editor p√°ra de se lamentar e de dizer que um comerciante que se torna editor se parece com um idealista tr√°gico, porque faria muito mais dinheiro negociando com tecidos ou papel virgem. A cr√≠tica descobre nele um objecto digno da sua actividade, porque os cr√≠ticos muitas vezes at√© nem s√£o m√°s pessoas, mas, dadas as circunst√Ęncias epocais pouco prop√≠cias, ex-poetas que precisam de um apoio do cora√ß√£o para poderem p√īr c√° fora os seus sentimentos;s√£o poetas do amor ou da guerra, consoante o capital interior que t√™m de aplicar com proveito, e por isso √© perfeitamente compreens√≠vel que escolham o livro de um grande-escritor e n√£o o de um comum escritor.

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Testemunhas Aparentes

N√£o me preocupa tanto qual eu seja para outrem como me preocupa qual eu seja em mim mesmo. Quero ser rico por mim, n√£o por empr√©stimo. Os estranhos v√™em apenas os acontecimentos e as apar√™ncias externas; cada qual pode ter um ar alegre exteriormente e por dentro estar cheio de febre e receio. Eles n√£o v√™em o meu cora√ß√£o; v√™em apenas o meu comportamento. Tem-se raz√£o em depreciar a hipocrisia que existe na guerra; pois o que √© mais f√°cil para um homem oportunista do que esquivar-se dos perigos e fazer-se de bravo, tendo o √Ęnimo repleto de frouxid√£o? H√° tantos meios de evitar as ocasi√Ķes de arriscar-se pessoalmente que teremos enganado o mundo mil vezes antes de encetarmos um passo perigoso; e mesmo ent√£o, vendo-nos entravados, nesse momento bem sabemos encobrir o nosso jogo com um ar alegre e uma palavra serena, embora a alma nos trema interiormente.
E se algu√©m pudesse usar o anel de Plat√£o, que tornava invis√≠vel quem o levasse no dedo e o virasse para a palma da m√£o, muitas pessoas ami√ļde se esconderiam quando mais √© preciso apresentar-se e se arrependeriam de estar colocadas num lugar t√£o honroso, no qual a necessidade as torna seguras: Quem pode alegrar-se com falsas honrarias e temer a cal√ļnia,

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A Pluralidade Humana

A pluridade humana, condi√ß√£o b√°sica da ac√ß√£o e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e diferen√ßa. Se n√£o fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus antepassados, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades das gera√ß√Ķes vindouras. Se n√£o fossem diferentes, se cada ser humano n√£o diferisse de todos os que existiram, existem ou vir√£o a existir, os homens n√£o precisariam do discurso ou da ac√ß√£o para se fazerem entender. Com simples sinais e sons poderiam comunicar as suas necessidades imediatas e id√™nticas.
Ser diferente n√£o equivale a ser outro – ou seja, n√£o equivale a possuir essa curiosa qualidade de ¬ęalteridade¬Ľ, comum a tudo o que existe e que, para a filosofia medieval, √© uma das quatro caracter√≠sticas b√°sicas e universais que transcendem todas as qualidades particulares. A alteridade √©, sem d√ļvida, um aspecto importante da pluralidade; √© a raz√£o pela qual todas as nossas defini√ß√Ķes s√£o distin√ß√Ķes e o motivo pelo qual n√£o podemos dizer o que uma coisa √© sem a distinguir de outra.
Na sua forma mais abstracta, a alteridade est√° apenas presente na mera multiplica√ß√£o de objectos inorg√Ęnicos, ao passo que toda a vida org√Ęnica j√° exibe varia√ß√Ķes e diferen√ßas,

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Desejar Aplausos

Desejar aplausos em arte √© mais uma necessidade do que uma vaidade. √Č sentir que se √© necess√°rio, que nos querem. N√£o h√° nada mais esterilizante do que estar o dia inteiro no consult√≥rio √† espera de doentes que nos passam √† porta e v√£o √† consulta do vizinho. Escrever para a posteridade n√£o consola nem estimula ningu√©m. A leg√≠tima ora√ß√£o de todo o artista, quer queiram, quer n√£o, tem de ser esta: dai-nos, Senhor, um pouco de gl√≥ria em vida.

Todos Pensam de Forma Diferente, e Muitas Vezes Efémera

Cada indiv√≠duo v√™ o mundo – e o que este tem de acabado, de regular, de complexo e de perfeito – como se se tratasse apenas de um elemento da Natureza a partir do qual tivesse que constituir um outro mundo, particular, adaptado √†s suas necessidades. Os homens mais capazes tomam-no sem hesita√ß√Ķes e procuram na medida do poss√≠vel comportar-se de acordo com ele. H√° outros que n√£o se conseguem decidir e que ficam parados a olhar para ele. E h√° ainda os que chegam ao ponto de duvidar da exist√™ncia do mundo.
Se algu√©m se sentisse tocado por esta verdade fundamental, nunca mais entraria em disputas e passaria a considerar, quer as representa√ß√Ķes que os outros possam fazer das coisas, quer a sua, como meros fen√≥menos. Porque de facto verificamos quase todos os dias que aquilo que um indiv√≠duo consegue pensar com toda a facilidade pode ser imposs√≠vel de pensar para um outro. E n√£o apenas em rela√ß√£o a quest√Ķes que tivessem uma qualquer influ√™ncia no bem estar ou no sofrimento das pessoas, mas tamb√©m a prop√≥sito de assuntos que nos s√£o totalmente indiferentes.

Somos para Nós mesmos Objecto de Descontentamento

Se os outros se observassem a si próprios atentamente como eu achar-se-iam, tal como eu, cheios de inanidade e tolice. Não posso livrar-me delas sem me livrar de mim mesmo. Estamos todos impregnados delas, mas os que têm consciência de tal saem-se, tanto quanto eu sei, um pouco melhor.
A ideia e a prática comuns de olhar para outros lados que não para nós mesmos de muito nos tem valido! Somos para nós mesmos objecto de descontentamento: em nós não vemos senão miséria e vaidade. Para não nos desanimar, a natureza muito a propósito nos orientou a visão para o exterior. Avançamos facilmente ao sabor da corrente, mas inverter a nossa marcha contra a corrente, rumo a nós próprios, é um penoso movimento: assim o mar se turva e remoinha quando em refluxo é impelido contra si mesmo.
Cada qual diz: ¬ęOlhai os movimentos do c√©u, olhai para o p√ļblico, olhai para a querela deste homem, para o puso daquele, para o testamento daqueloutro; em suma, olhai sempre para cima ou para baixo, ou para o lado, ou para a frente, ou para tr√°s de v√≥s.¬Ľ
O mandamento que na antiguidade nos preceituava aquele deus de Delfos ia contra esta opini√£o comum: ¬ęOlhai para dentro de v√≥s,

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O Absoluto do Ser

РDeus não é bom?
– N√£o, para falar com propriedade, Deus n√£o √© bom: √©. Bom, mau, s√£o pobres palavras que se aplicam a um conjunto de regras respeitantes a alguns pormenores da nossa vida material. Porque √© que Deus seria limitado pelas nossas pobres palavras e valores? N√£o, Deus n√£o √© bom. √Č mais do que isso. √Č a forma mais rica, mais completa, mais poderosa do ser, de qualquer maneira. Torna concreta a abstrac√ß√£o mesmo da forma do ser. E penso que o ¬ęenvisagement¬Ľ do ser n√£o podia ser poss√≠vel se Deus n√£o lhe tivesse dado anteriormente o seu estado. Deus √© a cria√ß√£o. √Č pois um princ√≠pio inextingu√≠vel, n√£o orientado, a pr√≥pria vida. Lembrem-se das palavras: ¬ęEu sou Aquele que sou¬Ľ. Nenhuma outra palavra humana compreendeu e relatou melhor a forma divina. Intemporal, n√£o, nem sequer intemporal e infinita. O princ√≠pio. O facto de que h√° qualquer coisa no lugar onde n√£o havia nada.
– Mas ent√£o, Deus n√£o tem necessidade…
– E at√© mesmo para l√° de toda a express√£o. Se quiser, eu sou Deus. N√£o h√° d√ļvida a sustentar, pergunta a fazer. Voc√™ existe. Portanto √© Deus. Voc√™ n√£o pode existir de outro modo.

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Os Livros Representam a Essência de um Espírito

As obras s√£o a quintess√™ncia de um esp√≠rito: por conseguinte, mesmo se este for o esp√≠rito mais sublime, elas sempre ser√£o, sem compara√ß√£o, mais ricas de cont√ļdo do que a sua companhia, e a substituir√£o tamb√©m na ess√™ncia – ou melhor, ultrapass√°-la-√£o em muito e a deixar√£o para tr√°s: At√© mesmo os escritos de uma cabe√ßa med√≠ocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e divertidos, justamente porque s√£o sua quintess√™ncia, o resultado, o fruto de todo o seu pensamento e estudo; enquanto a sua companhia n√£o nos consegue satisfazer. Sendo assim, podem-se ler livros de pessoas em cujas companhias n√£o se encontraria nenhum prazer, e √© por essa raz√£o que uma cultura intelectual elevada nos induz pouco a pouco a encontrar o nosso prazer quase exclusivamente na leitura dos livros, e n√£o na conversa com as pessoas.
Não há maior refrigério para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: tão logo temos um deles nas mãos, e mesmo que seja por apenas meia hora, sentimo-nos imdediatamente refrescados, aliviados, purificados, elevados e fortalecidos; como se nos tivéssemos deleitado na fonte fresca de uma rocha. Tal facto depende das línguas antigas e da sua perfeição ou da grandeza dos espíritos,

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O Homem Certo

Hoje, numa √©poca em que se misturam todos os discursos, em que profetas e charlat√£es usam as mesmas f√≥rmulas com m√≠nimas diferen√ßas, cujo percurso nenhum homem ocupado tem tempo de seguir, num tempo em que as redac√ß√Ķes dos jornais s√£o constantemente incomodadas por gente que acha que √© um g√©nio, √© muito dif√≠cil ajuizar do valor de um homem ou de uma ideia. Temos de nos deixar guiar pelo ouvido para podermos perceber se os rumores, os sussurros e o raspar de p√©s diante da porta da redac√ß√£o s√£o suficientemente fortes para poderem ser admitidos como voz da polis. A partir desse momento, por√©m, o g√©nio passa a outra condi√ß√£o. Deixa de ser mat√©ria f√ļtil da cr√≠tica liter√°ria ou teatral, cujas contradi√ß√Ķes os leitores que qualquer jornal deseja ter levam t√£o pouco a s√©rio como a tagarelice de uma crian√ßa, para aceder ao estatuto de factos concretos, com todas as consequ√™ncias que isso tem.
Certos fan√°ticos insensatos ignoram a necessidade desesperada de idealismo que se esconde por detr√°s de tal situa√ß√£o. O mundo dos que escrevem porque t√™m de escrever est√° cheio de grandes palavras e conceitos que perderam a subst√Ęncia. Os atributos dos grandes homens e das grandes causas sobrevivem ao que quer que seja que lhes deu origem,

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A Má Consciência

РLevanta-se sempre muito cedo, sr. Spinell Рdisse a mulher do sr. Kloterjahn. Por acaso, já o vi sair duas ou três vezes de casa às sete e meia da manhã.
РMuito cedo? Oh, é preciso distinguir! Se me levanto cedo é porque, no fundo, gosto de dormir até tarde.
РExplique-nos como é isso, sr. Spinell
A senhora conselheira Spatz também desejava ser elucidada.
– Ora… se algu√©m tem o costume de se levantar cedo, parece-me, em todo o caso, que n√£o precisa de ser t√£o matinal. A consic√™ncia, minha senhora, que coisa p√©ssima que √© a consci√™ncia! Eu e os meus semelhantes andamos toda a vida √†s turras com ela, e temos um trabalh√£o para a enganarmos de vez em quando e procurar-lhe umas satisfa√ß√Ķezinhas estultas. Somos criaturas in√ļteis, eu e os meus semelhantes; fora algumas breves horas satisfat√≥rias, arrastamo-nos na certeza da nossa inutilidade, at√© ficarmos a sangrar e doentes. Odiamos o que √© √ļtil, sabendo-o vulgar e feio, e defendemos esta verdade como se defendem as verdades absolutamente necess√°rias. E, contudo, estamos t√£o corro√≠dos pela nossa m√° consci√™ncia que n√£o achamos em n√≥s um ponto s√£o.
Além disso, a maneira como vivemos interiormente,

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Agradar a Todos e a Ninguém

Aqueles que procuram agradar andam muito enganados. Para agradar, tornam-se male√°veis e d√ļcteis, apressam-se a corresponder a todos os desejos. E acabam por trair em todas as coisas, para serem como os desejam. Que hei-de eu fazer dessas alforrecas que n√£o t√™m ossos nem forma? Vomito-os e restituo-os √†s suas nebulosas: vinde ver-me quando estiverdes constru√≠dos.
As pr√≥prias mulheres se cansam quando algu√©m, para lhes demonstrar amor, aceita fazer-se eco e espelho, porque ningu√©m tem necessidade da sua pr√≥pria imagem. Mas eu tenho necessidade de ti. Est√°s constru√≠do como fortaleza e eu bem sinto o teu n√ļcleo. Senta-te ali, porque tu existes.
A mulher desposa e torna-se serva daquele que é de um império.

Rica Ignor√Ęncia

A ignor√Ęncia degrada as pessoas apenas quando associada √† riqueza. O pobre √© limitado pela sua pobreza e pela sua necessidade; as suas realiza√ß√Ķes substituem nele a instru√ß√£o e ocupam os seus pensamentos. Em contrapartida, os ricos, que s√£o ignorantes, vivem meramente para os seus prazeres e assemelham-se √†s bestas, como se pode ver todos os dias. Quanto a isso, acrescente-se ainda a exproba√ß√£o de que a riqueza e o √≥cio n√£o teriam sido desfrutados para aquilo que lhes confere o maior valor.

Antecipar a Recusa

Não cometas a asneira de pedir a alguém um objecto raro que lhe é querido, sobretudo se não tens necessidade expressa dele. Porque, se to recusar, sentirá que te ofendeu e guardar-te-á rancor; se consentir, também te quererá mal, porque passará a considerar-te como um pedinchão incómodo e indelicado.
Como é sempre desagradável ouvir uma recusa, nada peças que não estejas certo de obter. Por isso é que mais vale nada pedir directamente, mas dar a entender por meias palavras o que nos faz falta.
Quando tencionas solicitar um favor, não o deixes adivinhar antes de o teres obtido. Declara mesmo abertamente que nada esperas nesse sentido. Anuncia por toda a parte que foi concedido a outra pessoa aquilo que por um momento cobiçaras e vai felicitar o feliz eleito.
Se te recusarem alguma coisa, compra uma pessoa que tenha mais possibilidades que tu, de modo a que te entregue discretamente o objecto desejado, uma vez obtido.
Se algu√©m disputa uma honra que tamb√©m cobi√ßas, envia-lhe secretamente um emiss√°rio que, em nome da amizade, o dissuada falando-lhe dos m√ļltiplos obst√°culos que em todo o caso teria de enfrentar.

√Č Preciso Regressar ao Amigo √ćntimo

Custa, mas o melhor é ver o problema a toda a luz. No conceito do homem abstracto é necessário afinal meter tanto estrume, que não há entusiasmo que resista. Feito de mil incoerências, movido por sentimentos ocasionais, preso a necessidades rudimentares, o bípede real, ao ser premido no molde da abstracção, rebenta a forma. E é preciso regressar ao amigo íntimo, ao compadre, para se calcar terra firme. Numa palavra: não há um homem-símbolo que se possa venerar: há simples indivíduos cujas virtudes e defeitos toleram um convívio social urbano.

A Minha Família é a Minha Casa

A solid√£o absoluta √© n√£o ter ningu√©m a quem dizer um simples: ‚Äútenho vontade de chorar‚ÄĚ. N√£o precisamos de muito para viver bem ‚Äď para ser feliz basta uma fam√≠lia e pouco mais.

A fam√≠lia √© a casa e a paz. O ref√ļgio onde uma vontade de chorar n√£o √© motivo de julgamento, apenas e s√≥ uma necessidade s√ļbita de… fam√≠lia. De um equil√≠brio para o qual o outro √© essencial… assim tamb√©m se passa com a vontade de sorrir que, em fam√≠lia, se contagia apenas pelo olhar.

Nos dias de hoje vai sendo cada vez mais dif√≠cil encontrar gente capaz de ser fam√≠lia. Os ego√≠smos abundam e cultiva-se, sozinho, o individual. Como se n√£o houvesse espa√ßo para o amor. Dizem que amar √© arriscado, que √© coisa de loucos…
Todos temos sentimentos mais profundos. Cada um de n√≥s √© uma unidade, mas o que somos passa por sermos mais do que um. Parte de unidades maiores. Estamos com quem amamos e quem amamos tamb√©m est√°, de alguma forma, connosco. O amor √© o que existe entre n√≥s e nos enla√ßa os sentimentos mais profundos. Onde uma vontade de chorar √© um sinal de que h√° algo em mim que √© maior do que eu…

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A Maior Necessidade do Homem

A maior necessidade do homem √© sentir que √© necess√°rio. Se no mundo n√£o existir ningu√©m que precise de n√≥s, cometeremos suic√≠dio, n√£o conseguiremos viver. √Č estranho – talvez nunca tenham pensado nisto, que estamos continuamente √† procura de quem precise de n√≥s. Isto faz de n√≥s seres preciosos, d√°-nos valor, um certo significado. Talvez as mulheres se casem com os homens apenas para preencher a necessidade de se sentir necess√°ria. E a raz√£o poder√° ser igualmente v√°lida para os homens, talvez desejem sentir que uma determinada mulher precisa deles.

Os homens tentaram impedir as mulheres de ganharem dinheiro, de trabalharem, de se instru√≠rem e educarem. As explica√ß√Ķes para isso s√£o de ordem pol√≠tica, econ√≥mica, entre outras, mas a raz√£o psicol√≥gica reside no facto de os homens desejarem a depend√™ncia das mulheres para que elas nunca deixem de precisar deles e os fa√ßam sentirem-se bem por haver algu√©m que precisa deles. Juntos ter√£o filhos e ambos se sentir√£o bem pelo facto de essas crian√ßas precisarem deles: √© um motivo para viver. Temos de viver pelo bem dessas crian√ßas, temos de viver pelo bem da nossa mulher, temos de viver pelo bem do nosso marido: a vida deixa de ser algo desprovido de sentido.

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Amo-te

Talvez n√£o seja pr√≥prio vir aqui, para as p√°ginas deste livro, dizer que te amo. N√£o creio que os leitores deste livro procurem informa√ß√Ķes como esta. No mundo, h√° mais uma pessoa que ama. Qual a relev√Ęncia dessa not√≠cia? √Ä sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores n√£o dever√£o impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instant√Ęneos poder√£o diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto ser√° como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apag√°-las. E poss√≠vel que, perante esta longa afirma√ß√£o, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde j√°, toda a raz√£o.
Eu sei. Talvez não seja próprio vir aqui dizer aquilo que, de modo mais ecológico, te posso afirmar ao vivo, por email, por comentário do facebook ou mensagem de telemóvel, mas é tão bom acreditar, transporta tanta paz. Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido.

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Símios Aperfeiçoados II

A trag√©dia √© a cristaliza√ß√£o da massa humana, t√£o perigosa como a estagna√ß√£o do esp√≠rito do homem que se torna acad√©mico ou fenece por falta de entusiasmo. Gostava de saber quantas pessoas pensam em macacos durante o correr de um dia? Quantas? O homem-massa, num futuro pr√≥ximo – em rela√ß√Ķes antropol√≥gicas o pr√≥ximo leva geralmente centenas de anos – transformar-se-√° num novo espect√°culo de jardim zool√≥gico. Em vez de jaula e aldeias de s√≠mios, ele ter√° balne√°rios p√ļblicos e campos para habilidades desportivas, com ocasionais jogos nocturnos. Dar√° palmas em del√≠rio ouvindo ainda o som distante da sineta tocada pelo elefante num acto m√°ximo de intelig√™ncia paquid√©rmica. Ter√° circuitos fechados, com pistas perfeitamente cimentadas, para passear o t√©dio da fam√≠lia aos domingos, circular√° repetidamente em metropolitanos convencido de que cada nova paragem √© diferente da anterior.
E estou absolutamente crente que do naufrágio calamitoso apenas se hão-de salvar os que pela porta do cavalo fugirem ao triturar das grandes colectividades humanas, ou os que por força invencível e instintiva se libertarem para uma nova categoria de homem, ou, melhor dizendo, para a sua verdadeira categoria de homem, de homem-pensamento, na linha directa de um Platão, de um Homero, de um Aristófanes,

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Sou um Verdadeiro Solit√°rio

O meu sentido ardente de justi√ßa social e de dever social estiveram sempre em estranho desacordo com uma marcada car√™ncia de necessidade directa de liga√ß√£o com os homens e com as comunidades humanas. Sou um verdadeiro solit√°rio (¬ęEinsp√§nner¬Ľ), que nunca pertenceu inteiramente e de todo o cora√ß√£o ao Estado, √† P√°tria, ao c√≠rculo dos amigos ou at√© mesmo √† fam√≠lia mais chegada, mas antes pelo contr√°rio experimentou sempre, em rela√ß√£o a todas essas liga√ß√Ķes, um sentimento indom√°vel de estranheza e de √Ęnsia de isolamento, um sentimento que com a idade mais se intensifica. Apercebemo-nos nitidamente, mas sem o lamentarmos, que nos √© limitada a conviv√™ncia em sociedade com outros seres humanos. Um homem desta natureza perde, de certo modo, uma parte da sua maneira de ser inocente e despreocupada mas ganha em se sentir largamente independente das opini√Ķes, dos h√°bitos e ju√≠zos dos homens, e n√£o cai na tenta√ß√£o de estabelecer o seu equil√≠brio numa base t√£o pouco s√≥lida.

A Crise da Democracia

√Č natural que a crise da democracia, imposs√≠vel de negar, se revele sob o aspecto de sucessivas crises pol√≠ticas. Mas para qu√™ jogar com as palavras? Quando a m√°quina se desarranja, frequentemente, por melhor eco e por mais vistosas engrenagens que possua, torna-se urgente p√ī-la de lado como in√ļtil, aproveitando-lhe, √© claro, as inova√ß√Ķes, tudo o que for suscept√≠vel de aplicar a outra m√°quina…
(…) N√£o √© poss√≠vel negar certas verdades e conquistas da democracia que s√£o hoje indispens√°veis √† vida de todos os regimes. Mas os sistemas propriamente ditos, na sua inteireza, nascem, vivem e morrem como os homens. As escolas pol√≠ticas e sociais s√£o como as escolas liter√°rias. Esgotada a sua capacidade criadora, a sua flama, perdem a for√ßa, extinguem-se, depois de terem deixado a sua marca, o tra√ßo profundo da sua influ√™ncia. Os pr√≥prios defensores da democracia procuram transigir com o esp√≠rito do seu tempo, confessando e admitindo a necessidade de modificar o sistema das suas ideias, de renovar os √≥rg√£os da democracia. Mas que prop√Ķem eles, afinal, para que se efective essa renova√ß√£o? Medidas rid√≠culas que n√£o se adaptam ao pr√≥prio sistema: ligeiras altera√ß√Ķes no regulamento interno das C√Ęmaras, limita√ß√Ķes no tempo dos discursos, restri√ß√Ķes no uso da palavra,

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