Cita√ß√Ķes de Rafael Chirbes

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Rafael Chirbes para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Vivemos de Matar

Os vivos alimentam-se e engordam √†s custas dos mortos. √Č a ess√™ncia da natureza. Basta ver os document√°rios sobre a vida selvagem na televis√£o, aves corpulentas arrancando com o bico as tripas das v√≠timas, disputando-as entre si; a leoa de focinho enterrado na carne ensanguentada da zebra. Mas nem √© preciso ir t√£o longe: as prateleiras dos supermercados s√£o deprimentes cemit√©rios: paletes de cordeiro morto, ossos e costeletas de boi esfaqueado, v√≠sceras de vaca sacrificada, lombo de porco eletrocutado, tudo isso em embalagens fabricadas com restos de √°rvores abatidas. Vivemos do que matamos. Vivemos de matar, ou do que nos √© servido morto: os herdeiros consomem os despojos do predecessor, e isso nutre-os, fortalece-os no momento de levantar voo. Quanto maior a quantidade de carne consumida, mais alto e majestoso o voo. E mais elegante, claro. Nada que seja alheio √†s regras da natureza.

O que melhor suporta a passagem do tempo é a mentira. Abrigas-te nela e sustenta-la sem que se deteriore. Em contrapartida, a verdade é instável, corrompe-se, dilui-se, esquiva-se, foge. A mentira é como a água, incolor, inodora e insípida: o paladar não dá por ela, mas refesca-nos.

Os Momentos Decisivos

Tendemos a pensar que a verdade das pessoas emerge nos momentos decisivos, no fio da navalha, quando se testam os limites. A hora dos santos e dos her√≥is. Ora bem, nesses momentos o comportamento humano n√£o costuma ser nem exemplar nem animador. A chusma que se acotovela para chegar primeiro √† bilheteira da sala de concertos; os espectadores que se atropelam ao fugir de um teatro em chamas, espezinhando os mais fracos sem se aperceberem deles, a crian√ßa, as cansadas carnes do anci√£o, calcadas pelos tac√Ķes das jovens mulheres que se aperaltaram para a sa√≠da noturna; os honrados cidad√£os, incluindo as senhoras ‚ÄĒ de boas fam√≠lias, ou de fam√≠lias humildes, nisso n√£o h√° distin√ß√Ķes ‚ÄĒ, que golpeiam furiosamente com os remos as cabe√ßas dos n√°ufragos que tentam subir para o bote salva-vidas superlotado. Salve-se quem puder.

√Čs perseguido por tudo o que n√£o alcan√ßas. N√£o se trata do princ√≠pio e do fim da pe√ßa de teatro, do sobe-o-pano-cai-o-pano, mas da pr√≥pria pe√ßa, do seu desenvolvimento, √© que isso que importa.

√Č assim t√£o long√≠nqua a felicidade? No tempo, refiro-me √† sua dist√Ęncia no tempo; em termos de perspetiva, n√£o est√° longe nem perto, a felicidade √© algo por que se espera, que se procura, e quando come√ßas a cansar-te de esperar, o dono do local onde marcaste encontro com ela tem pressa em fechar o estabelecimento (espere, espere, n√£o me empurre, por favor, deixe-me acabar esse copo). √Ä tua frente, a porta em dire√ß√£o √† qual ele te empurra, e l√° fora estende-se a noite que ter√°s de enfrentar sozinho, a escurid√£o que assusta a crian√ßa, e n√£o queres mergulhar nesse negrume.

O conhecimento converte o trabalho em raz√£o, e converte-te a ti num homem que pensa: s√≥ √© homem aquele que pensa. Para milh√Ķes de seres humanos, o trabalho √© a √ļnica atividade que os instrui e civiliza. Para outros, √© uma forma de embrutecimento a troco de alimento ou dinheiro.

O Amor na Lama

– Esteban, o homem n√£o poderia fazer grandes obras sem trabalhos pequenos; na maqueta do carpinteiro est√° todo o edif√≠cio do arquiteto, n√£o h√° profiss√Ķes grandes e pequenas: alegro-me que tenhas decidido ficar connosco na carpintaria, mas conv√©m que te lembres disso. N√£o te esque√ßas de que Deus tamb√©m se senta numa cadeira e come a uma mesa e dorme numa cama. Como qualquer um. Pode prescindir dos ret√°bulos, das est√°tuas e dos livros que lhe dedicam, incluindo a B√≠blia, mas n√£o da cadeira, da mesa e da cama. ‚ÄĒ O meu tio esfor√ßava-se muito. Queria que eu me sentisse bem na profiss√£o. Que come√ßasse a gostar dela. Acreditava que eu vivia como um fracasso a decis√£o de ter abandonado a Escola de Belas–Artes. Intu√≠a certamente que eu precisava de desenvolver a minha autoestima. Mas tudo isso me parecia mera ret√≥rica ‚ÄĒ e era-o ‚ÄĒ, a verdade √© que por essa altura j√° tinha come√ßado a sair com Leonor e era ela quem eu amava, aprendia a gostar de mim atrav√©s dela. Descobria o meu corpo em cada palmo do corpo dela, e o meu corpo ganhava valor porque lhe pertencia, era o seu complemento: acreditava que partilh√°vamos dois corpos que jamais poderiam separar-se e viver cada um por si.

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Para resistir, para continuar vivo, é preciso uma boa dose de idealismo. Capacidade de mentirmos a nós próprios. Só sobrevivem aqueles que acreditam ser o que não são.

Há séculos que sabemos que os ricos não são generosos; os generosos encalham sempre na etapa anterior à riqueza, esbracejam, fazem sinais em direção à costa durante algum tempo e depois afogam-se. Os seus cadáveres desaparecem para sempre no mar da economia, ou no mar da vida, o que vai dar ao mesmo. Morrem na indigência.

A pobreza é pessimista por natureza. Os pobres estão convencidos de que, por muito que sofram, ainda lhes pode acontecer algo pior.

Só tenho aquilo que me falta. O que não fui capaz de alcançar, o que perdi, é tudo o que possuo, o que me pertence verdadeiramente, o vazio de que sou feito. Tenho aquilo de que careço.

Um Ser Humano não é Grande Coisa

N√£o tenhamos ilus√Ķes: um ser humano n√£o √© grande coisa. De facto, h√° tantos que os governos n√£o sabem o que fazer com eles. Seis mil milh√Ķes de humanos √† face da Terra e apenas seis ou sete mil tigres de Bengala – ora digam l√° qual das esp√©cies necessita de mais prote√ß√£o, de cuidados especiais. Sim, escolham voc√™s mesmos. Um negro, um chin√™s, um escoc√™s, ou um belo tigre que cai v√≠tima de um ca√ßador. Um tigre, com a sua pelagem listrada de cores incompar√°veis e os seus olhos coruscantes, √© bastante mais belo do que um velhote cheio de varizes como eu. Que diferen√ßa de porte. Comparem a agilidade de um com a in√©pcia do outro. Vejam como se movem. Metam-nos em jaulas do jardim zool√≥gico, lado a lado. Diante da jaula do velho concentram-se as crian√ßas que riem ao v√™-lo catar-se e p√īr-se de c√≥coras para defecar; diante da do tigre, arregalam os olhos de admira√ß√£o. Acabou essa ilus√£o segundo a qual o homem √© o centro do universo. √Č verdade que no animal humano distinguimos os gestos, os rostos e as vozes, o que estimula a nossa empatia, mas tamb√©m distinguimos caracter√≠sticas particulares, que associamos a sentimentos,

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Um Pedaço do Céu

– √Č verdade, Liliana. De momento, nesta tarde t√£o h√ļmida e nublada, com este fio que se nos mete pelos ossos adentro, Deus √© um caf√© bem quente e arom√°tico, feito com gr√£os acabados de moer; no ver√£o, procura Deus num belo gelado, num desses gelados t√£o saborosos, de torr√£o, de chocolate; ou de papaia e manga, porque agora os espanh√≥is tamb√©m j√° fazem gelados de manga, e de goiaba e papaia, e um dia destes at√© gelados de d√ļrio h√° de haver, embora os espanh√≥is n√£o gostem do cheiro do d√ļrio, t√£o forte, parece que lhes mete nojo. Eu tamb√©m n√£o gosto do cheiro, mas o fruto √© uma del√≠cia. Pensa que a√≠ mesmo, na geladaria da pra√ßa, est√° um peda√ßo do c√©u com que sonh√°mos, ou do c√©u que podemos alcan√ßar e que ainda n√£o nos tiraram. Senta-te com os teus filhos numa esplanada, num fim de tarde de agosto, come um gelado de manga bem cremoso, e ver√°s que √© a√≠ que est√° o Deus do ver√£o, assim como est√° no tintico o Deus do inverno. Quando os espanh√≥is chegaram para nos conquistar, n√≥s sab√≠amos que n√£o existe um s√≥ deus, mas muitos deuses, h√° um deus para cada coisa,

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Não há outro céu além deste amontoar de coisas, e esse céu custa dinheiro, o dinheiro é a chave do céu, e isto causa muita desesperança quando não se tem os euros necessários.

Um Homem de Sucesso

Uma pessoa n√£o √© exatamente o que come, como diz o ditado e como eu pr√≥prio dei por garantido; uma pessoa √© sobretudo o lugar onde come, e com quem come, e a corre√ß√£o com que nomeia o que come e a seguran√ßa com que escolhe, da ementa, os pratos certos, perante testemunhas. Um homem de sucesso √©, muito especialmente, aquele que depois diz onde comeu e com quem. S√£o essas coisas que definem o seu estatuto e a altitude a que voa, e que determinam se vaie a pena perder um quarto de hora com ele, pagar-lhe um copo e at√© tentar marcar um jantar para outro dia, estabelecer uma rela√ß√£o. Ou se, pelo contr√°rio, deves responder-lhe que est√°s atrasado para uma reuni√£o e consultar duas ou tr√™s vezes o rel√≥gio antes de te afastares rapidamente, mesmo que ele esteja disposto a pagar–te o jantar.

A Solidão é Pior do que a Pobreza

Ris-te do que te digo, mas quando chegar a tua hora, ver√°s a falta que te vai fazer um apoio e o muito que precisamos de carinho para ir vivendo, √† medida que os anos passam. Algu√©m que esteja ao teu lado, que te pegue na m√£o nos teus √ļltimos instantes (que mais podemos fazer a um moribundo?). E quando os ouves falar assim, angustias-te, imaginas-te sem conseguires levantar-te da cama, agarrado √†s costas das cadeiras para te moveres dentro de casa, apoiando-te √†s paredes para alcan√ßares a casa de banho, ensopado num ran√ßoso suor senil; ou morrendo asfixiado, engasgado com qualquer coisa, com um peda√ßo de cartilagem de vaca mal mastigado, um simples gole de √°gua, uma migalha de p√£o, um desses comprimidos que tomas para a hipertens√£o, para facilitar o fluxo sangu√≠neo, para o colesterol, para a hiperglicemia; v√™s-te afogado na tua pr√≥pria saliva: tosses, sufocas, sem ningu√©m por perto que te d√™ uma palmada nas costas, ou te meta os dedos na boca para te ajudar a expelir o que tens atravessado na garganta, algu√©m que chame o 112 ou te meta num carro e te leve a toda a velocidade para o hospital ou o centro de sa√ļde mais pr√≥ximo.

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O Dinheiro Tem uma Qualidade Detergente

O dinheiro tem, entre outras incont√°veis virtudes, uma qualidade detergente. E m√ļltiplas qualidades nutricionais. Alegra-te os belos olhos, engorda-te as bochechas, permite-te esse modo de ocupares uma poltrona, de pernas bem esticadas e jornal nas m√£os. D√°-te essas m√£os impolutas que emergem dos punhos de algod√£o branco da camisa. J√° n√£o √©s tu quem vagueia √† noite. Podes contratar quem capture, degole e esfole as presas que constituem os ingredientes indispens√°veis do cozido ou da paella dos domingos. Assim se fez sempre nas casas das boas fam√≠lias.

N√£o √© o senhor da casa que desfere o golpe fatal ao coelho, n√£o √© a senhora que crava a faca no pesco√ßo da galinha e a depena, com o pote de barro entre as pernas, cheio de p√£o migado que o sangue h√° de empapar como deve ser, para o rico ensopado. Aos senhores os animais chegam sempre j√° cozinhados, servidos numa bandeja coberta por uma reluzente camp√Ęnula de prata, ou na ca√ßarola, guarnecidos, irreconhec√≠veis de t√£o desfigurados e, por isso mesmo, apetitosos na sua aparente inoc√™ncia. Assim se fez sempre, assim se continua a fazer; n√≥s pr√≥prios adquirimos em poucos anos esse privilegiado estatuto, a ilus√£o de sermos todos senhores: em remotos pavilh√Ķes industriais,

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