Passagens sobre Lixo

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Frases sobre lixo, poemas sobre lixo e outras passagens sobre lixo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Educação Colectiva Não Funciona

A nossa pol√≠tica educacional baseia-se em duas enormes fal√°cias. A primeira √© a que considera o intelecto como uma caixa habitada por ideias aut√≥nomas, cujos n√ļmeros podem aumentar-se pelo simples processo de abrir a tampa da caixa e introduzir-lhes novas ideias. A segunda fal√°cia, √© que, todas as mentes s√£o semelhantes e podem lucrar como o mesmo sistema de ensino. Todos os sistemas oficiais de educa√ß√£o s√£o sistemas para bombear os mesmos conhecimentos pelos mesmos m√©todos, para dentro de mentes radicalmente diferentes.
Sendo as mentes organismos vivos e não caixotes do lixo, irremediavelmente dissimilares e não uniformes, os sistemas oficiais de educação não são como seria de esperar, particularmente afortunados. Que as esperanças dos educadores ardorosos da época democrática cheguem alguma vez a ser cumpridas parece extremamente duvidoso. Os grandes homens não podem fazer-se por encomenda por qualquer método de ensino por mais perfeito que seja.
O máximo que podemos esperar fazer é ensinar todo o indivíduo a atingir todas as suas potencialidades e tornar-se completamente ele próprio. Mas o eu de um indivíduo será o eu de Shakespeare, o eu de outro será o eu de Flecknoe. Os sistemas de educação prevalecentes não só falham em tornar Flecknoes em Shakespeares (nenhum método de educação fará isso alguma vez);

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O Preço do Amor

N√£o √© f√°cil estar apaixonado por uma mulher e fazer alguma coisa de jeito. √Čs devorado pela ansiedade. N√£o conv√©m deixares-te embei√ßar por uma mulher que se mostre dif√≠cil de conquistar, isso e como passar o resto da vida a tentar escalar o Everest. Escolhe uma mulher que possas conservar sem muito esfor√ßo. Quanto a mulheres boas, podemos compr√°-las. Por meia d√ļzia de euros, arranjas uma russa de dezoito anos, dessas que nem nos filmes se veem. Fodes, pagas e regressas a casa para jantar com a fam√≠lia, com a tua mulher, que cozinha bem e fode mal, mas que n√£o lhe passa pela cabe√ßa separar-se de ti, entre outras coisas porque ningu√©m a olha com particular interesse. Ela vai √†s reuni√Ķes de pais na escola, controla as AMPAS, as APLAS, todas essas associa√ß√Ķes que nem sei como se chamam, esses servi√ßos, esse jarg√£o, esse lixo social-democrata que os do PP copiam com entusiasmo porque soa a fam√≠lia moderna e feliz, e tamb√©m um pouco a Opus Dei, e mete os mi√ļdos na ordem e sabe escolher o detergente mais eficaz no Mercadona e o melhor queijo e o melhor foie gras de fabrico pr√≥prio da charcutaria. Passa-te as camisas a ferro e cose-te os bot√Ķes.

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Os Livros S√£o Janelas

Vi um livro no lixo e arrepiei-me pensando que h√° livros que nascem mortos. Pode-se viver sem ler ? Quem n√£o l√™ n√£o entra no rio da hist√≥ria e quem l√™ √© como o mar onde desaguam muitos rios. Comprar um livro √© sempre como a primeira vez, como quem marca um encontro para receber uma confid√™ncia. Uma casa sem livros est√° desabitada, √© uma pens√£o… Os livros s√£o janelas. Hoje vou abrir uma delas.

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A Realidade é um Bocado de Sol Simples

√Č preciso criar abismos, para a humanidade que os n√£o sabe saltar se engolfar neles para sempre.
Criar todos os prazeres, os mais artificiais poss√≠vel, os mais est√ļpidos poss√≠vel, para que a chama atraia e queime.
O problema da sobrepovoa√ß√£o, o problema da sobreprodu√ß√£o eliminam-se criando-se focos de elimina√ß√£o humana (por meio de todos os v√≠cios), criando focos de in√©rcia humana (por meio de todas as sedu√ß√Ķes). Fazer suicidas, eis a grande solu√ß√£o sociol√≥gica.
√Č facil ouvir de qualquer megera limpa que ¬ęn√£o cr√™ na Lei de Cristo¬Ľ, √© anim√°-la em seguir a n√£o-lei de Cristo. Em tr√™s anos est√° gasta e finda, e ent√£o descobre que o pior de n√£o seguir a lei de Cristo √© que os outros a n√£o seguem tamb√©m. E o caixote do lixo recebe-a como √†s teorias dos mestres a quem ela ensinou.
√Č nosso dever de soci√≥logos untar o ch√£o, ainda que seja com l√°grimas, para que escorreguem nele os que dan√ßam.
E comunistas, batonnières dos beiços, humanitários, cultos do internacionalismo Рtudo isso colabora ardentemente na eliminação deles mesmos que se precisa. Depois, dos recantos das províncias, onde tomam chá com a família, ou lavram as terras sem teorias nem desejos,

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A Casa do Escritor

O escritor organiza-se no seu texto como em sua casa. Comporta-se nos seus pensamentos como faz com os seus papéis, livros, lápis, tapetes, que leva de um quarto para o outro, produzindo uma certa desrodem. Para ele, tornam-se peças de mobiliário em que se acomoda, com gosto ou desprazer. Acaricia-os com delicadeza, serve-se deles, revira-os, muda-os de sítio, desfá-los. Quem já não tem nenhuma pátria, encontra no escrever a sua habitação. E aí produz, como outrora a família, desperdícios e lixo.

Mas j√° n√£o disp√Ķe de desv√£o e √©-lhe muit√≠ssimo dif√≠cil livrar-se da esc√≥ria. Por isso, ao tir√°-la da sua frente, corre o risco de acabar por encher com ela as suas p√°ginas. A exig√™ncia de resistir √† auto-compaix√£o inclui a exig√™ncia t√©cnica de defrontar com extrema aten√ß√£o o relaxamento da tens√£o intelectual e de eliminar tudo quanto tenda a fixar-se como uma crosta no trabalho, tudo o que decorre no vazio, o que talvez suscitasse, num est√°dio anterior, como palavriado, a calorosa atmosfera em que emerge, mas agora permanece bafiento e ins√≠pido. Por fim, j√° nem sequer √© permitido ao escritor habitar nos seus escritos.

O Homem ao Serviço dos Objectos

Pro√≠bo aos comerciantes que gabem de mais as mercadorias. Eles t√™m tend√™ncia a tornar-se pedagogos e mostram-te como fim aquilo que por ess√™ncia n√£o passa de um meio. Depois de assim te enganarem sobre o caminho a seguir, pouco falta para te perverterem. Se a m√ļsica deles √© vulgar, para ta vender, n√£o hesitar√£o em te fabricar uma alma vulgar. Ora, se √© bom que se alicercem os objectos para servir os homens, seria monstruoso que se exigissem alicerces aos homens para servir de caixote do lixo aos objectos.

Porque o Povo Diz Verdades

Porque o povo diz verdades,
Tremem de medo os tiranos,
Pressentindo a derrocada
Da grande pris√£o sem grades
Onde h√° j√° milhares de anos
A raz√£o vive enjaulada.

Vem perto o fim do capricho
Dessa nobreza postiça,
Irmã gémea da preguiça,
Mais asquerosa que o lixo.

J√° o escravo se convence
A lutar por sua prol
J√° sabe que lhe pertence
No mundo um lugar ao sol.

Do céu não se quer lembrar,
J√° n√£o se deixa roubar,
Por medo ao tal satan√°s,
J√° n√£o adora bonecos
Que, se os fazem em canecos,
Nem d√£o estrume capaz.

Mostra-lhe o saber moderno
Que levou a vida inteira
Preso àquela ratoeira
Que há entre o céu e o inferno.

Depravação e Génio

Uma vez que a maior parte das pessoas encara a santidade como qualquer coisa insulsa e conforme a uma pureza legal, é provável que a depravação represente uma maneira do génio dos sentidos, quer dizer, de desvio até ao extremo de uma vertente descida em liberdade e exterior às regras. Disto resulta que o génio, tal como é aceite, ou antes, tal como é tolerado, constitua uma depravação espiritual análoga a uma depravação dos sentidos. Muitas vezes uma arrasta a outra, e é raro um génio das letras, da escultura ou da pintura não se denunciar e, mesmo que lá não meta a sua carne, fazer prova de uma liberdade de ver, sentir e admirar que ultrapassa os limites consentidos.
(…) Acontece que nos interrogamos com estupefac√ß√£o sobre as in√ļmeras deprava√ß√Ķes de bairro lim√≠trofe que a pol√≠cia e os hospitais testemunham. S√≥ poderemos ver nelas o meandro onde os med√≠ocres se perdem quando decidem deixar-se arrastar e sair das regras que lhes foram destinadas.
Traduzam-se estas deprava√ß√Ķes noutra l√≠ngua, d√™-se-lhes eleva√ß√£o, transcend√™ncia, sejam elas revestidas de intelig√™ncia, e obter-se-√† uma imagem em ponto pequeno das altas deprava√ß√Ķes que as obras-primas da arte nos valem.
Tal como Picasso apanha o que encontra no lixo e o eleva à dignidade de servir,

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Na Califórnia não se joga o lixo fora. Eles o reciclam na forma de programas de TV.

Olhar para as Coisas com alguma Dist√Ęncia

Percorrendo as ruas fui descobrindo coisas espantosas que l√° ocorriam desde sempre, disfar√ßadas sob uma m√°scara t√©nue de normalidade: um vi√ļvo que, depois de se reformar, passava as tardes sentado no carro, a porta aberta, a perna esquerda fora, a direita dentro; um sujeito t√£o magro que se podia tomar por uma figura de cart√£o, ideia refor√ßada por andar de bicicleta e, sobretudo, por nela carregar o papel√£o que recolhia nos contentores do lixo; a mulher que, com uma regularidade cronom√©trica, vinha √† janela, olhava para um lado e para o outro, como se aguardasse h√° muito a chegada de algu√©m. Eram tr√™s exemplos de situa√ß√Ķes que – creio ser esta a melhor formula√ß√£o – aconteciam desde sempre e pela primeira vez. Se olharmos para as coisas com alguma dist√Ęncia, retirando-as do contexto, deixando-nos contaminar pela estranheza, tudo, tudo mesmo, adquire uma aura macabra e repetitiva, singular, reconhec√≠vel, que se mistura com a subst√Ęncia dos sonhos, a mat√©ria das mentes perturbadas. Penso sempre, n√£o sei porque, que talvez a resposta esteja naquela revista antiga que n√£o resistiu √†s tra√ßas: nos sobreviventes de Hiroxima, no clar√£o absoluto que os cegou, no mundo irreal em que foram condenados a viver a partir desse momento,

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Pessoas Estranhas

As pessoas s√£o estranhas. Algumas pessoas s√£o. Elas ser√£o conduzidas a descobrir coisas, mesmo que as mais triviais. Eles come√ßar√£o a relacion√°-las, sabendo contudo que podem estar enganadas. Voc√™ v√™ essas pessoas com blocos de notas, a raspar a sujidade das l√°pides, a lerem microfilmes, apenas pela esperan√ßa de encontrarem o fio √† meada, fazendo liga√ß√Ķes, resgatando qualquer coisa do lixo.

A velhice n√£o se enjeita
Como o lixo da calçada
País que os velhos rejeita
Não é país, não é nada.

Queixas de um Utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, j√° n√£o vejo televis√£o
h√° cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
p√ļblicos, raramente me esque√ßo
de deixar √°gua fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e n√£o cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
n√£o estou a ver resultado nenhum.

A f√© √© uma esp√©cie de coma. Deixamos de raciocinar, deixamos de duvidar. Deixamos de questionar. √Č natural, pois se estas s√£o as fun√ß√Ķes da nossa mente, quando elas desaparecem, a nossa mente p√°ra. Se n√£o √© usada, acumula lixo, e porque a d√ļvida n√£o √© permitida torna-se cada vez mais lenta.

Retrato de um Bêbado

Perdi-me vendo a pipa, o torno aberto;
Minha alma est√° metida em vinho tinto;
Tão bêbado estou que já não sinto
Ser bêbado coberto ou encoberto.

Tenho a cama longe, o sono perto,
No ch√£o estou e erguer-me n√£o consinto,
A barriga de inchada aperta o cinto,
Falando estou dormindo qual desperto.

Venha mais vinho e dêem-mo vezes cento,
Que alegra o coração, sustenta a vida,
E pouco vai que engrosse o entendimento.

Vingar-me quero, que é grande a bebida;
Tudo o que não é beber é lixo e vento,
Que para tão grande gosto é curta a vida.

Besta Célere

H√° quem lhe chame, por brincadeira, besta c√©lere para caracterizar a qualidade mediana (tomada por m√©dia) desse produto cultural (agora √© tudo cultural!) e, ao mesmo tempo, a rapidez com que ele se esgota em sucessivas edi√ß√Ķes. O best-seller √© um produto perfeita (ou eficazmente) projectado em termos de ¬ęmarketing¬Ľ editorial e livreiro. √Č para se vender – muito e depressa – que o best-seller √© constru√≠do com os olhos postos num leitor-tipo que vai encontrar nele aquilo que exactamente esperava. Nem mais, nem menos. Os exemplos, abundant√≠ssimos, nem vale a pena enumer√°-los. Conv√©m n√£o confundir, pelo menos em todos os casos, best-seller com ¬ętopes¬Ľ de venda. Embora seja cabe√ßa de lista, o best-seller tem, em rela√ß√£o aos livros ¬ęnormais¬Ľ, uma caracter√≠stica que logo o diferencia: foi feito propositadamente para ser um campe√£o de vendas. A sua raz√£o de ser √© essa e s√≥ essa. E aqui poderia dizer-se, recuperando o lugar-comum para um sentido s√©rio, que ¬ęo resto √© literatura¬Ľ.
Estou a pensar em bestas c√©leres como Love Story ou O Aeroporto. N√£o estou a pensar em ¬ętopes¬Ľ de venda como O Nome da Rosa ou Mem√≥rias de Adriano. estes √ļltimos s√£o boa, excelente literatura que, por raz√Ķes pontuais e,

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Finjo o tempo todo, rio, sou alegre, dispersivo, com aquele brilho superficial e ridículo. E em cada fim de noite me sinto um lixo.