Passagens de José Saramago

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Frases, pensamentos e outras passagens de José Saramago para ler e compartilhar. Os melhores escritores estão em Poetris.

Para que serve o arrependimento, se isso não muda nada do que se passou? O melhor arrependimento é, simplesmente, mudar.

O Espírito em Transe

O prazer profundo, inefável, que é andar por estes campos desertos e varridos pela ventania, subir uma encosta difícil e olhar lá de cima a paisagem negra, escalvada, despir a camisa para sentir directamente na pele a agitação furiosa do ar, e depois compreender que não se pode fazer mais nada, as ervas secas, rente ao chão, estremecem, as nuvens roçam por um instante os cumes dos montes e afastam-se em direcção ao mar, e o espírito entra numa espécie de transe, cresce, dilata-se, não tarda que estale de felicidade.

A Memória Coerente

A experiência pessoal e as leituras só valem o que a memória tiver retido delas. Quem tenha lido com alguma atenção os meus livros sabe que, para além das histórias que eles vão contando, o que ali há é um contínuo trabalho sobre os materiais da memória, ou, para dizê-lo com mais precisão, sobre a memória que vou tendo daquilo que, no passado, já foi memória sucessivamente acrescentada e reorganizada, à procura de uma coerência própria em cada momento seu e meu. Talvez essa desejada coerência só comece a desenhar um sentido quando nos aproximamos do fim da vida e a memória se nos apresenta como um continente a redescobrir.

…assim √© que a vida deve ser, quando um desanima, o outro agarra-se √†s pr√≥prias tripas e faz delas cora√ß√£o

Ninguém escreve um diário para dizer quem é. Por outras palavras, um diário é um romance com uma só personagem. Por outras palavras ainda, e finais, a questão central sempre suscitada por este tipo de escritos é, assim creio, a da sinceridade.

O amor n√£o resolve nada. O amor √© uma coisa pessoal, e alimenta-se do respeito m√ļtuo. Mas isto n√£o transcende para o colectivo. J√° andamos h√° dois mil anos a dizer isso de nos amarmos uns aos outros. E serviu de alguma coisa? Poder√≠amos mudar isso por respeitarmo-nos uns aos outros, para ver se assim tem maior efic√°cia. Porque o amor n√£o √© suficiente.

A globalização é um totalitarismo. Totalitarismo que não precisa nem de camisas verdes, nem castanhas, nem suásticas. São os ricos que governam e os pobres vivem como podem.

Tal como às vezes digo que, em vez da felicidade, eu acredito na harmonia, penso que o amor é o encontro da harmonia com o outro.

Estamos a destruir o planeta e o ego√≠smo de cada gera√ß√£o n√£o se preocupa em perguntar como √© que v√£o viver os que vir√£o depois. A √ļnica coisa que importa √© o triunfo do agora. √Č a isto que eu chamo a ¬ęcegueira da raz√£o¬Ľ.

Nada h√° que seja verdadeiramente livre nem suficientemente democr√°tico. N√£o tenhamos ilus√Ķes, a internet n√£o veio para salvar o mundo.

A pena pior, minha filha, não é a que se sente no momento, é a que se vai sentir depois, quando já não houver remédio, Diz-se que o tempo tudo cura, Não vivemos bastante para tirar-lhe a prova.

O cristianismo tentou convencer-nos de que devíamos amar-nos uns aos outros. Eu direi uma coisa muito clara: não tenho a obrigação de amar toda a gente, mas sim de a respeitar.

Estamos numa situação em que uma democracia que, segundo a definição antiga, é o governo do povo, para o povo e pelo povo, nessa democracia precisamente está ausente o povo.

A Globalização é uma Nova Forma de Totalistarismo

A globalização económica é compatível com os direitos humanos? Temos de fazer esta pergunta a nós próprios e ver que a resposta é que ou há globalização ou há direitos, por mais que os poderes tenham a hipocrisia de dizer que a globalização favorece os direitos humanos, quando o que faz é fabricar excluídos. A globalização é simplesmente uma nova forma de totalitarismo que não tem de chegar sempre com uma camisa azul, castanha ou negra e com o braço erguido; tem muitas caras e a globalização é uma delas. Devíamos voltar a Marx e a Engels para reverter a situação, ainda que seja pouco menos que politicamente incorrecto referirmo-nos a estes cadáveres da história quando a ideologia parece que morreu.

A Europa é um Comboio Disparado e sem Freios

Foi a falta de solidariedade que fez na Europa 18 milh√Ķes de desempregados, ou s√£o eles t√£o-somente o efeito mais vis√≠vel da crise de um sistema para o qual as pessoas n√£o passam de produtores a todo o momento dispens√°veis e de consumidores obrigados a consumir mais do que necessitam? A Europa, estimulada a viver na irresponsabilidade, √© um comboio disparado, sem freios, onde uns passageiros se divertem e os restantes sonham com isso.

Alegria

Já ouço gritos ao longe
J√° diz a voz do amor
A alegria do corpo
O esquecimento da dor

J√° os ventos recolheram
J√° o ver√£o se nos oferece
Quantos frutos quantas fontes
Mais o sol que nos aquece

J√° colho jasmins e nardos
J√° tenho colares de rosas
E danço no meio da estrada
As danças prodigiosas

J√° os sorrisos se d√£o
J√° se d√£o as voltas todas
√ď certeza das certezas
√ď alegria das bodas

Quando a esquerda chega ao poder, n√£o usa as raz√Ķes pelas quais chegou. A esquerda deixa de o ser muitas vezes quando chega ao poder e isso √© dram√°tico.

Se n√£o disseres nada compreenderei melhor […], h√° ocasi√Ķes em que as palavras n√£o servem de nada.