Poemas

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O Livro da Vida

Absorto, o S√°bio antigo, estranho a tudo, lia…
‚ÄĒ Lia o ¬ęLivro da Vida¬Ľ ‚ÄĒ heran√ßa inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clar√£o da primeira alvorada.

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos;
E ele sempre, ‚ÄĒ inclinada a dorida cabe√ßa,‚ÄĒ
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu espírito esclareça!

Cada p√°gina abrange um est√°dio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Ele tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os anos v√£o correndo;
Passam as gera√ß√Ķes; tudo √© p√≥, tudo √© v√£o…
E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
Nem o humano sofrer,

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√Ālbum de Fam√≠lia

Reconheço a mãe
comia legumes
vivia roendo
entre um cheiro
herbívoro
dizendo
¬ęcomo vegetais
por v√≠cio¬Ľ

a minha outra m√£e
mansa provinha
do ventre polar
de sua m√£e
deu-me à luz
eléctrica
sob a luz solar

a terceira m√£e
porque tinha fome
ou vertigem santa
tomba de onde mora
de um arranha-céus à hora

Mais Beijos

Devagar…
outro beijo… ou ainda…
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a c√°lida tempestade
que me desvaira o pensamento!

Mais beijos!…
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!

Sim, amor..
deixa que se alongue mais
este momento breve!…
‚ÄĒ que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
e nos leve!

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus l√°bios fendidos.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser m√ļsica
onde o silêncio aflui
e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada

Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e naveg√°vel
golfo do desejo,

onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas √°guas nuas.

O Segredo da Vida

quando acordo e os teus pés enrolados nos meus,
acordar é isto ou então não é nada disto, nem sequer acordar,
a vida a acontecer lá fora, carros, pessoas, corridas e medos, e nós numa paz inquieta,
o segredo da vida é inquietar levemente a paz, dar-lhe desassossego, e depois aparecer para a resgatar completa, adormecê-la nos braços, protegê-la do que não pára,
viver é isto ou então não é nada disto, nem sequer viver,
o segredo da vida é protegê-la do que não pára,
e nunca parar.

O criador

A m√£o de meu irm√£o desenha um jardim
e ele surge da pedra. H√° uma estrela no p√°tio.
Uma estrela de rosa e de ger√Ęnio.
Mas seu perfume n√£o me encanta a mim.
O que respiro é a glória de meu mano.

√ď Rosas Desmaiadas

√ď rosas desmaiadas,
Rosas de Maio, rosas de toucar,
√ď rosas do rei negro, aveludadas,
Abrindo à flava luz das madrugadas
As corolas em g√©rmen, cora√ß√Ķes a arfar‚Ķ
No tremular de cores da asa vaporosa,
Borboleta que passa, vem beijar a rosa,
E aos murm√ļrios da brisa que corre anelante,
A subtil feiticeira deixa a sua amante
A chorar, a chorar, suavíssimos perfumes
– Pensamentos d‚Äôamor a traduzir ci√ļmes‚Ķ
Borboleta que passa diz adeus à rosa,
No tremular de cores da asa vaporosa…
E aos murm√ļrios da brisa que desliza meiga,
Lá vai adormecer nas frescuras da veiga…
Deixando a rosa a soluçar, a soluçar,
Com pena de não ter asas para voar… voar!
Diversas flores, de diversas cores
Qual é de vós, dizei, os meus amores!

Poema da malta das naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gib√£o.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a m√£o esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no ch√£o, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
N√£o se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

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Tinha de Fachos Mil a Noite Ornado

1

Tinha de fachos mil a noite ornado
A argentada Princesa:
De amor, graça e beleza
O campo etéreo Vénus povoado.

2

A Terra, com perfume precioso
Em torno recendia;
E pl√°cido dormia
Sobre a dourada areia o pego undoso;

3

Quando veio roubar a formosura
De tudo o que é criado,
M√°rcia, fiel traslado
Da beleza do Céu, sublime e pura;

4

Com Lírios, que estendeu, vestiu ufana
A forma divinal;
Em aceso coral
Tingiu, sorrindo, a boca soberana,

5

As madeixas tomou das veias de ouro,
Nos olhos p√īs safiras,
Que das setas, que atiras,
S√£o, fero Amor, o mais caudal tesouro.

6

Todos seus dons lhe p√īs o C√©u no peito;
Como orna o Régio Sposo,
C’o enfeite mais custoso,
A Princesa, a quem rende a alma, sujeito.

7

Eu vi afadigados os Amores,
E as Graças, que cantavam
Enquanto se moldavam
Seus graciosos gestos vencedores.

8

Das Sereias o canto deleitoso
Lhe nasceu sem estudo;

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Por que n√£o Haver√° de Mim um Deus?

Se a cada coisa que h√° um deus compete,
Por que n√£o haver√° de mim um deus?
Por que o n√£o serei eu?
√Č em mim que o deus anima
Porque eu sinto.
O mundo externo claramente vejo ‚ÄĒ
Coisas, homens, sem alma.

Coroemo-nos Pois uns para os Outros

Tuas, não minhas, teço estas grinaldas,
Que em minha fronte renovadas ponho.
Para mim tece as tuas,
Que as minhas eu n√£o vejo.
Se n√£o pesar na vida melhor gozo
Que o vermo-nos, vejamo-nos, e, vendo,
Surdos conciliemos
O insubsistente surdo.
Coroemo-nos pois uns para os outros,
E brindemos uníssonos à sorte
Que houver, até que chegue
A hora do barqueiro.

O Noivado do Sepulcro

Vai alta a lua! na mans√£o da morte
J√° meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!… mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D’entre os sepulcros a cabe√ßa ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!… na amplid√£o celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!… com sombrio espanto
Olhou em roda… n√£o achou ningu√©m…
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

“Mulher formosa, que adorei na vida,
“E que na tumba n√£o cessei d’amar,
“Por que atrai√ßoas, desleal, mentida,
“O amor eterno que te ouvi jurar?

“Amor! engano que na campa finda,
“Que a morte despe da ilus√£o falaz:
“Quem d’entre os vivos se lembrara ainda
“Do pobre morto que na terra jaz?

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Ergo Meus Olhos

Ergo meus olhos vagos, na dist√Ęncia
Da sombra do meu Ser…
Pairam de mim al√©m, e a minha √ānsia
Cansa de me viver.

Meus olhos espectrais de comoção,
Olhos da alma, olhando-se a si,
Nimbam de luz a longa escurid√£o
Da vida que vivi.

Auréola de Dor, que finaliza
Na noite do abismo do meu nada;
Silêncio, prece, comunhão sagrada,
Sombra de luz que em Ti me diviniza,
Tortura do meu fim,
Alma ungida
E perdida
Na grandeza de Si. E j√° sem ver-me,
Maceração crepuscular de Mim,
Agonizo de Ser-me.

Aqui Louvo os Animais

S√ļbdito s√≥ de quem n√£o reina,
aqui louvo os animais.
H√°, entre mim e eles, uma funda
relação de videntes:
as paisagens que fendem
e a minha, sepulta,
perfazem um mesmo habitat.
Desde que os n√£o sondo,
fez-se luz em nosso convívio.
O ar inicial
que ensaiava, ic√°rico,
nas bolas de sab√£o,
mas n√£o atina com o v√°cuo
da cidade, vem-me
dos seus pulm√Ķes arborescentes.
Alheios à sua pele
na osmose dos textos,
ignoram que nas √°guas
por correr, desta p√°gina,
cruzam, saudando-se,
o ¬ęBeagle¬Ľ e a Arca de No√©.

Deslumbramentos

Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa arom√°tica e normal,
Com seu tipo t√£o nobre e t√£o de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me atrai como um tesouro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de ouro
E o seu nevado e l√ļcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina…
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E t√£o alta e serena como a Morte!…

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Brit√Ęnica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e m√ļsica no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um dem√īnio a ilumin√°-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas m√£os,
O modo diplom√°tico e orgulhoso
Que Ana de √Āustria mostrava aos cortes√£os.

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Morangos

No começo do amor, quando as cidades
nos eram desconhecidas, de que nos serviria
a certeza da morte se podíamos correr
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite
e acabar na praia a comer morangos
ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos

a vida inteira pela frente. Mas, amigos,
como pudemos pensar que seria assim
para sempre? Ou que a m√ļsica e o desejo
nos conduziriam de estação em estação
até ao pleno futuro que julgávamos

merecer? Afinal, o futuro era isto.
N√£o estamos mais s√°bios, n√£o temos
melhores raz√Ķes. Na viagem necess√°ria
para o escuro, o amor é um passageiro
ocasional e difícil. E a partir de certa altura
todas as cidades se parecem.

Amor é Teu Olhar que Sobe

Amor é teu olhar que sobe

e desce torna a subir ao ramo
desce ao poço detém-se

na água porque a sede avança

e torna a subir em carícia
pelo braço compraz-se

em resvalar pelo declive

do corpo em balanço
como o movimento de um

pêndulo e assim nunca

sabes se o caminho
para ele é ascensão

ou simplesmente espera

sobre um trilho de pedras
mais do que uma ideia

sentimento porque

o subir e o descer crescem
na viagem indiferentes

ao amor até que a ames

como se nunca a tivesses
conhecido somente

fora de teu alcance.

Nas √Āguas Vosso Amor Ponde

A palavra que te disse,
talvez por ser t√£o pequena,
em tais desprezos perdeu-se
que n√£o deixou nem pena.

Murmurei-a a uma cisterna
de turvas √°guas antigas
e foi-se de cova em cova
em m√ļltiplas cantigas.

Amadores deste mundo,
nas √°guas vosso amor ponde;
que elas vos dar√£o resposta,
quando ninguém responde.

Usos Deste Mundo

Nas praças uns perguntam novidades;
Outros dão volta às ruas, ao namoro;
Este usuras cobrar, esse as demandas
Lembrar corre ao Juiz que se diverte.
Ir de Jano aprender a ser bifronte,
De Merc√ļrio, no trato, a ser bilingue,
Franco no prometer, no dar escasso.
C’os olhos fitos no √°vido interesse
Ser consigo leal, com todos falso
√Č ser homem capaz, home’ entendido.
Assim, que vemos nós por este esconso
Mundo? Vemos logr√Ķes, vemos logrados;
Ningu√©m v√™s ir com c√Ęndido desejo
Aos Sénecas, aos Sócrates de agora
Perguntar as li√ß√Ķes t√£o necess√°rias
De ser honrado, ser com todos justo.
Tão sobejos se crêem de honra e virtude,
Que cuida cada um poder de sobra
Mostrar na Ocasi√£o virtude a rodo,
E chega a Ocasi√£o, falha a virtude.

Poema da Hora Escoada

Minhas m√£os
Рduas chamas débeis de vela
unidas no mesmo destino.

Minhas m√£os
derretidas em cera
que vai escorrendo,
gota a gota,
ao longo do corpo hirto
da vela moribunda.
Que vai escorrendo,
lenta,
na calmaria falsa e densa
da luz delida e mortu√°ria do meu quarto.

E o livro de Anatomia,
grave e in√ļtil,
aberto em frente.

E todo o mundo,
que me espera
e desespera,
nas p√°ginas in√ļteis e graves
do livro de Anatomia.

E as horas
morrendo, morrendo,
como uma vela que se vai derretendo
no quarto frio de um morto.

Ai! minhas m√£os, minhas m√£os
Рduas chamas débeis de vela
unidas no mesmo destino!

– Que horas ser√£o?

A vida
é uma vela de corpo hirto
que se vai derretendo, derretendo,
na calmaria falsa e densa
de um quarto de morto.