Citações de Manuel da Fonseca

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Frases, pensamentos e outras citações de Manuel da Fonseca para ler e compartilhar. Os melhores escritores estão em Poetris.

Romance do Terceiro-Oficial de Finanças

Ah! as coisas incrĂ­veis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!

As coisas incrĂ­veis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidĂŁo da vila quieta!…
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe o segredo dos grandes silĂŞncios
– os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!…

(As coisas incrĂ­veis eu sĂł as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propĂłsito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia namorar-te…)

Mas tudo isso, que era tudo para nĂłs,
nĂŁo era nada da vida!…
Da vida Ă© isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!…
– isto de tu seres a esposa sĂ©ria e triste
de um terceiro-oficial de finanças da Câmara Municipal!…

Menino

No colo da mĂŁe
a criança vai e vem
vem e vai
balança.
Nos olhos do pai
nos olhos da mĂŁe
vem e vai
vai e vem
a esperança.

Ao sonhado
futuro
sorri a mĂŁe
sorri o pai.
Maravilhado
o rosto puro
da criança
vai e vem
vem e vai
balança.

De seio a seio
a criança
em seu vogar
ao meio
do colo-berço
balança.

Balança
como o rimar
de um verso
de esperança.

Depois quando
com o tempo
a criança
vem crescendo
vai a esperança
minguando.
E ao acabar-se de vez
fica a exacta medida
da vida
de um portuguĂŞs.

Criança
portuguesa
da esperança
na vida
faz certeza
conseguida.
SĂł nossa vontade
alcança
da esperança
humana realidade.

Tragédia

Foi para a escola e aprendeu a ler
e as quatro operações, de cor e salteado.
Era um menino triste:
nunca brincou no largo.
Depois, foi para a loja e pĂ´s a uso
aquilo que aprendeu
— vagaroso e sério,
sem um engano,
sem um sorriso.
Depois, o pai morreu
como estava previsto.
E o Senhor AntĂłnio
(tĂŁo novinho e já era «o Senhor AntĂłnio»!…)
ficou dono da loja e chefe da famĂ­lia…
Envelheceu, casou, teve meninos,
tudo como quem soma ou faz multiplicação!…
E quando o mais velhinho
já sabia contar, ler, escrever,
o Senhor António deu balanço à vida:
tinha setenta anos, um nome respeitado…
— que mais podia querer?
Por isso,
num meio-dia de VerĂŁo,
sentiu-se mal.
Decentemente abriu os braços
e disse: — Vou morrer.
E morreu!, morreu de congestĂŁo…

SolidĂŁo

Que venham todos os pobres da Terra
os ofendidos e humilhados
os torturados
os loucos:
meu abraço é cada vez mais largo
envolve-os a todos!

Ă“ minha vontade, Ăł meu desejo
— os pobres e os humilhados
todos
se quedaram de espanto!…

(A luz do Sol beija e fecunda
mas os místicos andaram pelos séculos
construindo noites
geladas solidões.)

As Balas

Dá o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos Ă© dado
Dá a cama e a mesa o verde pinho
As balas dĂŁo o sangue derramado

Dá a chuva o Inverno criador
As sementes da sulcos o arado
No lar a lenha em chama dá calor
As balas dĂŁo o sangue derramado

Dá a Primavera o campo colorido
GlĂłria e coroa do mundo renovado
Aos corações dá amor renascido
As balas dĂŁo o sangue derramado

Dá o Sol as searas pelo Verão
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno dá o pão
As balas dĂŁo o sangue derramado

Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe Ă© negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dĂŁo o sangue derramado

Do meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
Ă€ paz de um mundo novo de viver
As balas dĂŁo o sangue derramado

Dá a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o Ăłdio armado
Que a vida construir Ă© destruir
Balas que o sangue derramado

Que as balas sĂł dĂŁo sangue derramado
SĂł roubo e fome e sangue derramado
SĂł ruĂ­na e peste e sangue derramado
SĂł crime e morte e sangue derramado.

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Tu e Eu Meu Amor

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
Ă© o nu contra o nu.

Nua a mĂŁo que segura
outra mĂŁo que lhe Ă© dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
Ă© o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como Ă© nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos Ă  vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
Ă© o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tĂŁo forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
Ă© ser livre e amar.

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Poemas da Infância

Segundo

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, Ă  tarde, brincar comigo?…
… Como nasci poeta
devia ter sido muito antes que as mĂŁes se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, nĂŁo sei ao certo.

Mas a histĂłria dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
TĂŁo grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossĂ­veis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.

E desafiava,
sem razĂŁo aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tĂŁo certeira
que levou o chapéu do Senhor Administrador!

Em toda a vila
se falou logo num caso de polĂ­tica;
o Senhor Administrador
mandou vir da cidade uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o cĂ©u…

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

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Vida

Vida:
sensualĂ­ssima mulher de carnes maravilhosas
cujos passos sĂŁo horas
cadenciadas
rĂ­tmicas
fatais.
A cada movimento do teu corpo
dispersam asas de desejos
que me roçam a pele
e encrespam os nervos na alucinação do «nunca mais».
Vou seguindo teus passos
lutando e sofrendo
cantando e chorando
e ficam abertos meus braços:
nunca te alcanço!
Meu suplício de Tântalo.
Envelheço…
E tu, Vida, cada vez mais viçosa
na oscilação nervosa
das tuas ancas fecundas e sempre virgens!
Ă€ punhalada dilacero a folhagem
e abro clareiras
na floresta milenária do meu caminho.
Humildemente se rasga e avilta
no roçar dos espinhos
minha carne dorida.
E quando julgo chegada a hora
meu abraço de posse fica escancarado no ar!
OlĂ­mpica
firme
gloriosa
tu passas e não te alcanço, Vida.
Caio suado de borco
no lodo…
O vento da noite badala nos ramos
sarcasmos canalhas.
NĂŁo avisto a vida!
Tenho medo, grito.
Creio em Deus e nos fantásticos ecos
do meu grito
que vĂŞm de longe e de perto
do sul e do norte
que me envolvem
e esmagam:
— maldita selva,

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Ansiedade

Quero compor um poema
onde fremente
cante a vida
das florestas das águas e dos ventos.

Que o meu canto seja
no meio do temporal
uma chicotada de vento
que estremeça as estrelas
desfaça mitos
e rasgue nevoeiros — escancarando sóis!

Noite de Sonhos Voada

Noite de sonhos voada
cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca armodaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tĂŁo dominado e tĂŁo solto
tĂŁo vencedor, tĂŁo vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angĂşstia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ă“ meu amor, já Ă© dia!…

Adormecer

Vai vida na madrugada fria.

O teu amante fica,
na posse deste momento que foi teu,
amorfo e sem limites como um anjo;
a cabeça cheia de estrelas…
Fica abraçado a esta poeira que teu pé levantou.
Fica inĂştil e hirto como um deus,
desfalecendo na raiva de nĂŁo poder seguir-te!

Dona Abastança

«A caridade é amor»
Proclama dona Abastança
Esposa do comendador
Senhor da alta finança.

FamĂ­lia necessitada
A boa senhora acode
Pouco a uns a outros nada
«Dar a todos não se pode.»

Já se deixa ver
Que nĂŁo pode ser
Quem
O que tem
Dá a pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai
E sai caro fazer o bem
Ela dá ele subtrai
Fazem como lhes convém
Ela aos pobres dá uns cobres
Ele incansável lá vai
Com o que tira a quem nĂŁo tem
Fazendo mais e mais pobres.

Já se deixa ver
Que nĂŁo pode ser
Dar
Sem ter
E ter sem tirar.

Todo o que milhões furtou
Sempre ao bem-fazer foi dado
Pouco custa a quem roubou
Dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo
De tĂŁo estranha caridade
Feita com dinheiro do povo
Ao povo desta cidade.

Antes que Seja Tarde

Amigo,
tu que choras uma angĂşstia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse paĂ­s inventado
onde tu Ă©s o Ăşnico habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renĂşncia
Ă s coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.