Passagens sobre Lagos

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Génios

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E disse-me: Poeta, ao longe no horizonte
Não vês quase a lamber a abóbada do céu
Brilhante e luminoso um t√ļmido escarc√©u?
Como alvacento le√£o, na r√°pida carreira
Vem sacudindo a juba… A natureza inteira
Cisma, contempla, escuta o c√Ęntico profundo
Em trágico silêncio. O Sol já moribundo
Resvala-lhe no dorso, iria-lho de chamas,
Como dum monstro enorme as f√ļlgidas escamas…
Rugindo enovelada em turbilh√£o insano,
A vaga colossal, rasoira do oceano,

L√° vem rolando grave, e deixa ao caminhar
Um campo atr√°s dum monte, um lago atr√°s dum
[mar!
Qual l√ļcida serpente agora ei-la decresce
Em curva indefinida;‚ÄĒalonga-se… parece
Que a terra há-de estoirar em brancos estilhaços
No círculo fatal dos seus enormes braços.
Como galope infrene! Ei-la que chega!… voa
Num ímpeto feroz, num salto de leoa
Aos rudes alcantis! e em hórrida tormenta
Na rígida tranqueira o vagalhão rebenta,
Bramindo pelo ar: trepa, vacila, nuta,
E ex√Ęnime por fim, vencida nesta luta,
Sem voz, sem força, inerte, exausta, esfarrapada   .
L√° vai… aonde a leve a r√≠spida nortada.

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Espera…

Não me digas adeus, ó sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos;
Sente o perfume da paix√£o antiga,
Dos nossos bons e c√Ęndidos abra√ßos!

Sou a dona dos místicos cansaços,
A fant√°stica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus bra√ßos…
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!

Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que n√£o lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!

Espera… espera… √≥ minha sombra amada…
Vê que pra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo!…

Jardim

Negro jardim onde violas soam
e o mal da vida em ecos se dispersa:
à toa uma canção envolve os ramos
como a est√°tua indecisa se reflete

no lago h√° longos anos habitado
por peixes, não, matéria putrescível,
mas por p√°lidas contas de colares
que alguém vai desatando, olhos vazados

e m√£os oferecidas e mec√Ęnicas,
de um vegetal segredo enfeitiçadas,
enquanto outras vis√Ķes se delineiam

e logo se enovelam: mascarada,
que sei de sua essência (ou não a tem),
jardim apenas, pétalas, presságio

Escrevo como quem Quer Ser Escrito

escrevo como quem quer ser escrito

uma √°rvore ou uma pena no centro da frase
um espelho branco onde observo a palavra

e dos seus troncos brotam folhas, letras
inunda√ß√Ķes de verde no lago azul do c√©u
que caem, voando, asas de papel

como tu, também eu sussurro
lentas sílabas à leve melancolia que nos abraça

Luto por uma Novidade de Espírito

Procuro me manter isolada contra a agonia de viver dos outros, e essa agonia que lhes parece um jogo de vida e morte mascara uma outra realidade, t√£o extraordin√°ria essa verdade que os outros cairiam de espanto diante dela, como num esc√Ęndalo. Enquanto isso, ora estudam, ora trabalham, ora amam, ora crescem, ora se afanam, ora se alegram, ora se entristecem. A vida com letra mai√ļscula nada pode me dar porque vou confessar que tamb√©m eu devo ter entrado por um beco sem sa√≠da como os outros. Porque noto em mim, n√£o um bocado de fatos, e sim procuro quase tragicamente ser. √Č uma quest√£o de sobreviv√™ncia assim como a de comer carne humana quando n√£o h√° alimento. Luto n√£o contra os que compram e vendem apartamentos e carros e procuram se casar e ter filhos mas luto com extrema ansiedade por uma novidade de esp√≠rito. Cada vez que me sinto quase um pouco iluminada vejo que estou tendo uma novidade de esp√≠rito.
Minha vida é um reflexo deformado assim como se deforma num lago ondulante e instável o reflexo de um rosto. Imprecisão trémula. Como o que acontece com a água quando se mergulha a mão na água.

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O Dinheiro Financia as Circunst√Ęncias

J√° dizia o fil√≥sofo: eu sou eu e as minhas circunst√Ęncias. Muito bem dito. Pois √© o dinheiro que te permite financiar as tuas circunst√Ęncias; se falta o dinheiro, ficas sozinho com o teu vazio, mero inv√≥lucro sem circunst√Ęncia que valha um tost√£o furado: abandona-te essa m√£o oportuna que te daria uma palmada nas costas para cuspires o fiapo de frango meio mastigado que nesse momento te entope a glote n√£o, n√£o o digo por ti, Liliana, como podes pensar uma coisas dessas, estou a falar em termos gerais, bem sei que tu nunca me abandonarias); se tens dinheiro, pelo contr√°rio, podes comprar companhia, um enfermeiro, uma enfermeira. Podes pagar a uma pedicura que te corte as unhas dos p√©s ‚ÄĒ uma tarefa que se te torna cada vez mais esgotante ‚ÄĒ e as lime para que n√£o se dobrem e se cravem na carne, uma profissional h√°bil e cuidadosa que te extraia os calos e te desinfete essas perigosas feridas na planta do p√© que a hiperglicemia amea√ßa tornar cr√≥nicas e que, se perdurarem e alastrarem, podem gangrenar e obrigar √† amputa√ß√£o do membro; tendo dinheiro, podes dar-te ao luxo de contratar um massagista, um cabeleireiro que te corte o cabelo e te barbeie na cama,

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Metan√°utica

Deixa-te ser vi√°vel como um bosque
ou jardim ou pomar por onde possa
ir passando a pessoa pela sombra
ou pela flor ou pelo fruto ou pela
singular vocação ambulatória:
deixa-te ser vi√°vel como um rio
ou lago ou mar por onde possa ir
passando o navegante ou nadador
pelo af√£ de chegar ou pelo puro
sentir-se em ti flutuante ou imerso:
deixa-te ser vi√°vel como um ar
por onde possa ir passando a asa
que como tal se procure ou encontre
firme ou fr√°gil… Mas bosque ou jardim ou
pomar ou rio ou lago ou mar ou ar,
deixa em ti leccionar-se o transeunte
que viver s√£o inst√Ęncias de passar.

Somos Uma Nação Que Se Regenera

Que somos n√≥s hoje? Uma na√ß√£o que tende a regenerar-se: diremos mais: que se regenera. Regenera-se, porque se repreende a si pr√≥pria; porque se revolve no loda√ßal onde dormia tranquila; porque se irrita da sua decad√™ncia, e j√° n√£o sorri sem vergonha ao insultar de estranhos; porque principia, enfim, a reconhecer que o trabalho n√£o desonra, e vai esquecendo as visagens senhoris de fidalga. Deixai passar essas paix√Ķes pequenas e m√°s que combatem na arena pol√≠tica, deixai flutuar √† luz do sol na superf√≠cie da sociedade esses cora√ß√Ķes cancerosos que a√≠ vedes; deixai erguerem-se, tombar, despeda√ßarem-se essas vagas encontradas e confusas das opini√Ķes! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o mar do povo agita-se debaixo da sua superf√≠cie. O sarga√ßo imundo, a escuma f√©tida e turva h√£o-de desparecer. Um dia o oceano popular ser√° grandioso, puro e sereno como saiu das m√£os de Deus. A tempestade √© a precusora da bonan√ßa. O lago asfaltite, o Mar Morto, esse √© que n√£o tem procelas.
O nosso estrebuchar, muitas veze col√©rico, muitas mais mentecapto e rid√≠culo, prova que a Europa se enganava quando cria que esta nobre terra do √ļltimo ocidente era o cemit√©rio de uma na√ß√£o cad√°ver.

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Velando

Junto dela, velando… E sonho, e afago
Imagens, sonhos, versos comovido…
Vejo-a dormir… O meu olhar √© um lago
Em que um l√≠rio alvorece reflectido…

Vejo-a dormir e sonho… S√≥ de v√™-la
Meu olhar se perfuma e em minha vista
Há todo um céu de Amor a estremecê-la
E a devo√ß√£o ansiosa dum Artista…

– Nuvem poisada, alvente, sobre a neve
Das montanhas do c√©u, ‚Äď √≥ sono leve,
H√°lito de jasmim, l√≠rio, luar…

Respira√ß√£o de flor, do√ßura, prece…
-√ď rouxin√≥is, calai! Fonte, adormece!…
Sen√£o o meu Amor pode acordar!…

A Memória da Leitura

N√£o h√° talvez dias da nossa inf√Ęncia que tenhamos t√£o intensamente vivido como aqueles que julg√°mos passar sem t√™-los vivido, aqueles que pass√°mos com um livro preferido. Tudo quanto, ao que parecia, os enchia para os outros, e que afast√°vamos como um obst√°culo vulgar a um prazer divino: a brincadeira para a qual um amigo nos vinha buscar na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol incomodativos que nos obrigavam a erguer os olhos da p√°gina ou a mudar de lugar, as provis√Ķes para o lanche que nos obrigavam a levar e que deix√°vamos ao nosso lado no banco, sem lhes tocar, enquanto, sobre a nossa cabe√ßa, o sol diminu√≠a de intensidade no c√©u azul, o jantar que motivara o regresso a casa e durante o qual s√≥ pens√°vamos em nos levantarmos da mesa para acabar, imediatamente a seguir, o cap√≠tulo interrompido, tudo isto, que a leitura nos devia ter impedido de perceber como algo mais do que a falta de oportunidade, ela pelo contr√°rio gravava em n√≥s uma recorda√ß√£o de tal modo doce (de tal modo mais preciosa no nosso entendimento actual do que o que l√≠amos ent√£o com amor) que, se ainda hoje nos acontece folhear esses livros de outrora,

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Erros Meus a que Chamarei Virtude

Erros meus a que chamarei virtude,
Por bem vos quero, e morro despedido
Sem amor, sem sa√ļde, o ch√£o perdido,
Erros meus a que chamarei virtude.

A terra cultivei, amargo e rude,
No sonho de melhor a ter servido;
Para ilus√£o de um palmo de comprido,
A terra cultivei, amargo e rude.

E o amor? A sa√ļde? Eis os dois Lagos
Onde os olhos me ficam debruçados
‚ÄĒ Azul e roxo, rasos de √°gua os Lagos.

Mas direis, erros meus, ainda amores?
‚ÄĒ S√£o bonitos os dias acabados
Quando ao poente o Sol desfolha flores.

Contemplo o Lago Mudo

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
N√£o sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
N√£o sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na √°gua adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha √ļnica vida?

O Seu Nome é Muito Próprio Dela

O seu nome é gracioso e muito próprio dela:
Respira um vago tom de m√ļsica inocente;
E lembra a placidez de um lago transparente;
Recorda a emanação tranquila duma estrela.

Lembra um título bom, que logo nos revela
A ideia do poema. E todo o mundo sente
N√£o sei que afinidade entre o seu ar dolente,
a sua morbidezza, e o próprio nome dela.

E chego acreditar – ingenuamente o digo –
Que havia um nome em branco, e Deus pensa consigo
Em traduzi-lo enfim numa express√£o qualquer:

De forma que a mulher suave e graciosa
Faz parte deste nome um tanto cor-de-rosa,
E este nome gentil faz parte da mulher.

Ninguém Meu Amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utiliz√°-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrig√°-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

Presídio

Nem todo o corpo √© carne… N√£o, nem todo
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco…?

E o ventre, inconsistente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
N√£o, meu amor… Nem todo o corpo √© carne:
√© tamb√©m √°gua, terra, vento, fogo…

√Č sobretudo sombra √† despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

Em certa idade as divers√Ķes n√£o distraem, afligem. Vive-se do passado, e para que o pensamento o retrate, √© mister que o remorso lhe d√™ a limpidez do lago tranquilo.

O Nosso Mundo

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu olhar eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos…

Os meus sonhos agora s√£o mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, √© mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A Vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilus√Ķes defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos v√£os?…
O mundo, Amor! … As nossas bocas juntas!…

Obsess√£o

Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que j√° se perdeu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
J√° lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.

Depois, son√Ęmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar…
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar…

Sobre um lago, onde em sossego
As águas olham o céu,
Ro√ßa a asa de um morcego…
E ao longe o cantar morreu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
J√° lhe perdi o sentido…
E este cen√°rio partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim.