Textos sobre Génios

108 resultados
Textos de génios escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Civilização e o Horror ao Vácuo

A expans√£o imperialista das grandes pot√™ncias √© um facto de crescimento, o transbordar natural√≠ssimo de um excesso de vidas e de uma sobra de riquezas em que a conquista dos povos se torna simples variante da conquista de mercados. As lutas armadas que da√≠ resultam, perdido o encanto antigo, transformam-se, paradoxalmente, na fei√ß√£o ruidosa e acidental da energia pac√≠fica e formid√°vel das ind√ļstrias. Nada dos velhos atributos rom√Ęnticos do passado ou da preocupa√ß√£o retr√≥grada do hero√≠smo. As pr√≥prias vit√≥rias perderam o significado antigo. S√£o at√© dispens√°veis. (…) Est√£o fora dos lances de g√©nio dos generais felizes e do fortuito dos combates. Vagas humanas desencadeadas pelas for√ßas acumuladas de longas culturas e do pr√≥prio g√©nio de ra√ßa, podem golpe√°-las √† vontade os advers√°rios que as combatem e batem debatendo-se, e que se afogam. N√£o param. N√£o podem parar. Impele-as o fatalismo da pr√≥pria for√ßa. Diante da fragilidade dos pa√≠ses fracos, ou das ra√ßas incompetentes, elas recordam, na hist√≥ria, aquele horror ao v√°cuo, com que os velhos naturalistas explicavam os movimentos irresist√≠veis da mat√©ria. Revelam quase um fen√īmeno f√≠sico. Por isso mesmo nesta expans√£o irreprim√≠vel, n√£o √© do direito, nem da Moral com as mais imponentes mai√ļsculas, nem de alguma das maravilhas metaf√≠sicas de outrora que lhes despontam obst√°culos.

Continue lendo…

O Papel do Sonho na Vida

Por vezes, o homem √© mais sincero e rico na desordem dos sonhos que na consci√™ncia unit√°ria do raciocinador acordado, mas n√≥s vivemos enquanto negamos o sonho e o tornamos in√ļtil. O g√©nio √© a extradi√ß√£o do sonho, porque enriquece a consci√™ncia com as reservas e as pessoas do inconsciente. Expulsa o selvagem e o delinquente, destila a sagacidade do louco, adopta a crian√ßa e escuta o poeta. N√£o √© autocrata surdo, como o homem vulgar, mas pai de iguais. A conc√≥rdia de se terem almas subterr√Ęneas faz a grandeza do g√©nio, e a sua obra √© a sublima√ß√£o do sonho, desenrolado na vida verdadeira, liberdade concedida aos pensamentos inocentes dos reclusos.
Escolher é próprio do homem, mas escolhe-se com a rejeição e mais com o acolhimento. Vencer não significa apenas destruir, mas incorporar. A razão será tanto mais razoável quanto maior a loucura que assumir em si; o herói será mais forte se transferir para si a energia do pecador, e a fantasia do poeta tornará mais profundos os cálculos do político.
Quando o chefe da alma é o poeta, verdadeiramente poeta, não encarcera a razão, mas condu-la consigo para cima, ao céu em que até o silogismo se torna fogo.

Continue lendo…

Todo o Génio é um Degenerado

Sendo certo que todo o g√©nio √© um degenerado (nem superior, nem inferior, porque h√° s√≥ degenerados de uma esp√©cie, mau grado a absurda escapat√≥ria dos psiquiatras modern style), cert√≠ssimo √©, sem d√ļvida, que entre os g√©nios, os da intelig√™ncia assumem um relevo m√°ximo de degenera√ß√£o. Um chefe pol√≠tico, um grande general, s√£o, no que g√©nios, degenerados, porque s√£o desvios do tipo normal e originais na sua ac√ß√£o e na sua individualidade. Mas s√£o normais porque s√£o homens de ac√ß√£o, porque vivem no meio da vida, e n√£o se pode fazer isso sem uma certa adapta√ß√£o a ela. O mais revolucion√°rio dos g√©nios pol√≠ticos tem de se adpatar ao que quer destruir para o poder destruir. Tem de mergulhar na vida que quer substituir para poder agir sobre ela.
Não assim na esfera da inteligência e da emoção intelectualizada Рna da filosofia e na da arte, digo. Sobre ser original, o artista, o pensador é um inadaptado às formas normais da vida, por isso que nem age no sentido da actividade normal (porque é original), nem age no que age, age vulgarmente (porque, em lugar de ter uma acção vulgar, orienta a sua vida sobretudo para a sensação e para a inteligência e não para a acção,

Continue lendo…

Sou os Sonhos que n√£o Realizei

A tristeza de n√£o ser mais do que aquilo que deixei de ser. De n√£o fazer mais do que aquilo que deixei por fazer. Sou os sonhos que n√£o realizei, os passos que n√£o dei. Sou a vida, sim, que n√£o vivi. E √© assim que vivo, entre pensamentos de que sou e a lucidez, sempre tempor√°ria mas sempre triste, de que n√£o sou. De que n√£o consigo ser. Os dias, lentos e parcimoniosos, s√£o leves brisas de tempo, folhas que o vento, sem esfor√ßo, carrega para o destino final. Escrevo porque s√≥ sei escrever. Escrevo porque nada sei fazer. E aguardo que, letra a letra, se v√°, imagem a imagem, o sonho prometido. E aguardo que, sonho a sonho, se v√°, promessa a promessa, o destino ansiado. Sou, mais do que o que sou, o que n√£o sou: o que n√£o fui capaz de ser. Fiquei a meio, sempre a meio, do que desejei finalizar. Meio escritor, meio humano, meio poeta e meio insano, meio senhor, meio crian√ßa, meio sorriso na meia inf√Ęncia. Fiquei a meio, sempre a meio, do que desejei finalizar. Fui o quase g√©nio, o quase artista, o quase pedinte, o quase louco. Fui quase feliz,

Continue lendo…

Mais Vale Ser Surdo que Ensurdecido

Antigamente as pessoas queriam criar-se uma reputa√ß√£o: isso j√° n√£o basta, a feira tornou-se demasiado vasta; agora √© necess√°rio vender aos berros. A consequ√™ncia √© que mesmo as melhores gargantas for√ßam a voz e as melhores mercadorias n√£o s√£o oferecidas por org√£os enrouquecidos; j√° n√£o h√° g√©nio, nos nossos dias, sem clamor e sem rouquid√£o. √Čpoca vil para o pensador: devemos aprender a encontrar entre duas barulheiras o sil√™ncio de que se tem necessidade e a fingir de surdo at√© chegar a s√™-lo. Enquanto n√£o se tiver chegado a isso, corre-se o risco de perecer de impaci√™ncia e de dores de cabe√ßa.

N√£o se Reconquista o Amor com Argumentos

Não te esqueças de que a tua frase é um acto. Se desejas levar-me a agir, não pegues em argumentos. Julgas que me deixarei determinar por argumentos? Não me seria difícil opor, aos teus, melhores argumentos.
Já viste a mulher repudiada reconquistar-te através de um processo em que ela prova que tem razão? O processo irrita. Ela nem sequer será capaz de te recuperar mostrando-te tal como tu a amavas, porque essa já tu a não amas. Olha aquela infeliz que, nas vésperas do divórcio, teve a ideia de cantar a mesma canção triste que cantava quando noiva. Essa canção triste ainda tornou o homem mais furioso.
Talvez ela o recuperasse se o conseguisse despertar tal como ele era quando a amava. Mas para isso precisaria de um génio criador, porque teria de carregar o homem de qualquer coisa, da mesma maneira que eu o carrego de uma inclinação para o mar que fará dele construtor de navios. Só assim cresceria essa árvore que depois se iria diversificando. E ele havia de pedir de novo a canção triste.
Para fundar o amor por mim, faço nascer em ti alguém que é para mim. Não te confessarei o meu sofrimento,

Continue lendo…

O Triunfo dos Imbecis

N√£o nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes t√™m por vezes de lutar contra si pr√≥prios e, como se isso n√£o bastasse, contra todos os med√≠ocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que v√°, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irm√£os e √©, por esp√≠rito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O est√ļpido s√≥ profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que √© imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o g√©nio tem o v√≠cio ter√≠vel de se contrapor √†s opini√Ķes dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.
Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis s√£o t√£o abundante e solicitamente louvadas – os ju√≠zes s√£o, quase na totalidade, do mesmo n√≠vel e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paix√Ķes med√≠ocres, expressas por algu√©m um pouco menos med√≠ocre do que eles.
Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares,

Continue lendo…

Depravação e Génio

Uma vez que a maior parte das pessoas encara a santidade como qualquer coisa insulsa e conforme a uma pureza legal, é provável que a depravação represente uma maneira do génio dos sentidos, quer dizer, de desvio até ao extremo de uma vertente descida em liberdade e exterior às regras. Disto resulta que o génio, tal como é aceite, ou antes, tal como é tolerado, constitua uma depravação espiritual análoga a uma depravação dos sentidos. Muitas vezes uma arrasta a outra, e é raro um génio das letras, da escultura ou da pintura não se denunciar e, mesmo que lá não meta a sua carne, fazer prova de uma liberdade de ver, sentir e admirar que ultrapassa os limites consentidos.
(…) Acontece que nos interrogamos com estupefac√ß√£o sobre as in√ļmeras deprava√ß√Ķes de bairro lim√≠trofe que a pol√≠cia e os hospitais testemunham. S√≥ poderemos ver nelas o meandro onde os med√≠ocres se perdem quando decidem deixar-se arrastar e sair das regras que lhes foram destinadas.
Traduzam-se estas deprava√ß√Ķes noutra l√≠ngua, d√™-se-lhes eleva√ß√£o, transcend√™ncia, sejam elas revestidas de intelig√™ncia, e obter-se-√† uma imagem em ponto pequeno das altas deprava√ß√Ķes que as obras-primas da arte nos valem.
Tal como Picasso apanha o que encontra no lixo e o eleva à dignidade de servir,

Continue lendo…

A Alma e o Génio

O que faz de um homem um homem de génio Рou melhor o que eles fazem Рnão são as ideias novas mas essa ideia, que nunca os larga, que o que já foi dito não o foi nunca suficientemente.
(…) O que tortura a minha alma √© a sua solid√£o. Quanto mais ela se dispersa pelos amigos e os prazeres comezinhos, mais esta me foge e se esconde na sua fortaleza. A novidade encontra-se no esp√≠rito que cria e n√£o na nautreza reproduzida.

Tu que sabes que o novo existe sempre, mostra-o aos outros – no que eles nunca souberam ver. Faz-lhes compreender que nunca tinham ouvido falar do rouxinol, do espect√°culo do mar imenso ou de tudo aquilo que os seus grosseiros √≥rg√£os s√≥ se encontram em condi√ß√Ķes de desfrutar depois de se ter tido o trabalho de sentir por eles.
E não faças da língua um empecilho, porque se cuidares da tua alma ela arranjará forma de se dar a entender. Criará uma nova linguagem que valerá os hemistíquios deste ou a prosa daquele. O quê?, diz-me que se considera uma pessoa original e fica insensível à leitura de Byron ou de Dante?

Continue lendo…

O Universal Op√Ķe-se a Qualquer √Čpoca

√Č admiss√≠vel que o g√©nio n√£o seja apreciado na sua √©poca porque a ela se op√Ķe; mas pode-se perguntar por que raz√£o √© apreciado nas √©pocas vindouras. O universal op√Ķe-se a qualquer √©poca, pois as caracter√≠sticas desta s√£o necessariamente particulares; porque ser√° ent√£o que o g√©nio, que se ocupa de valores universais e permanentes, √© mais favoravelmente recebido por uma √©poca do que por outra?
A raz√£o √© simples. Cada √©poca resulta da cr√≠tica da √©poca precedente e dos princ√≠pios subjacentes √† vida civilizacional da mesma. Enquanto que um s√≥ princ√≠pio est√° subjacente, ou parece estar subjacente, a cada √©poca, as cr√≠ticas desse princ√≠pio √ļnico s√£o variadas, tendo apenas em comum o facto de se ocuparem da mesma coisa. Ao opor-se √† sua √©poca, o homem de g√©nio critica-a implicitamente, integrando-se implicitamente numa ou noutra das correntes cr√≠ticas da √©poca seguinte.
Ele próprio pode produzir uma ou outra dessas correntes, como Wordsworth; pode não produzir nenhuma, como Blake, e contudo viver de acordo com uma atitude paralela à sua, surgida naquela época sem ser por um discipulado propriamente dito.
Quanto mais universal é o génio, mais facilmente será aceite pela época imediatamente a seguir, pois mais profunda será a crítica implícita da sua própria época.

Continue lendo…

Nada Pior que a Frivolidade

A frivolidade, meu amigo, aniquila os homens que a ela se apegam; talvez n√£o haja v√≠cio que n√£o se deva preferir a ela, pois ainda √© melhor ser vicioso do que n√£o ser nada. O nada est√° abaixo do tudo, o nada √© o maior dos v√≠cios; e que n√£o me diga que √© ser alguma coisa o ser fr√≠volo: √© n√£o ser nem para a virtude, nem para a gl√≥ria, nem para a raz√£o, nem para os prazeres apaixonados. Direis talvez: gosto mais de um homem nulo para qualquer vitude do que daquele que s√≥ existe para o v√≠cio. Eu vos responderei: aquele que √© nulo para a virtude n√£o est√° por isso livre dos v√≠cios; ele pratica o mal por leviandade e por fraqueza; ele √© o instrumento dos maus que t√™m mais g√©nio. Ele √© menos perigoso do que um homem seriamente empenhado no mal, isso √© poss√≠vel; mas ser√° necess√°rio ser grato ao gavi√£o por ele s√≥ destruir os insectos e por ele n√£o destruir os rebanhos e os campos como os le√Ķes e as √°guias? Um homem corajoso e dotado de sabedoria n√£o teme um homem mau; mas n√£o pode impedir-se de desprezar um homem fr√≠volo.

Continue lendo…

A Luta para a Supress√£o Radical das Guerras

A minha participa√ß√£o na produ√ß√£o da bomba at√≥mica consistiu numa √ļnica ac√ß√£o: assinei uma carta dirigida ao presidente Roosevelt, na qual se sublinhava a necessidade de levar a cabo experi√™ncias em grande escala, para investiga√ß√£o das possibilidades de produ√ß√£o duma bomba at√≥mica.
Tive bem consciência do grande perigo que significava para a Humanidade o êxito desse empreendimento. Mas a probabilidade de que os Alemães trabalhassem no mesmo problema e fossem bem sucedidos, obrigou-me a dar este passo. Não tinha outra solução, embora tivesse sido sempre um pacifista convicto. Foi, portanto, uma reacção de legítima defesa.
Enquanto, por√©m, as na√ß√Ķes n√£o estiverem resolvidas a trabalhar em comum para suprimir a guerra, a resolverem os seus conflitos por decis√£o pac√≠fica e a protegerem os seus interesses de maneira legal, v√™em-se obrigadas a preparar-se para a guerra. V√™em-se, mais, obrigadas a preparar todos os meios, mesmo os mais detest√°veis, para n√£o se deixarem ficar para tr√°s, na corrida geral aos armamentos. Este caminho conduz fatalmente √† guerra que, nas condi√ß√Ķes actuais, significa destrui√ß√£o geral.
Nestas condi√ß√Ķes, a luta contra os meios n√£o tem probabilidades de √™xito. S√≥ ainda pode valer a supress√£o radical das guerras e do perigo de guerra.

Continue lendo…

A Tirania Intelectual do N√ļmero

¬ęUma das mais estranhas ideias do vulgo, previu Henry Maine, √© que o sufr√°gio universal pode promover e promover√° progresso, criando novas ideias, novas inven√ß√Ķes, novas artes. Mas as probabiblidades s√£o para que s√≥ produza uma forma nociva de conservantismo¬Ľ. Temos de admitir, com os ingleses ricos em preconceitos, que a democracia √© hostil ao g√©nio e √† arte. Porque ela s√≥ d√° valor ao que cabe dentro da compreens√£o dos esp√≠ritos m√©dios; quando v√™ erguer-se o pal√°cio de um cinema, julga tratar-se do P√°rtenon; ¬ęse dependesse da assembleia ateniense nunca o mundo teria a Acr√≥pole¬Ľ (Plutarco, Vida de P√©ricles).
A tirania intelectual do n√ļmero pode tornar-se t√£o torturante como a dos monarcas; em alguns estados americanos o conhecimento acima de um certo limite j√° √© considerado coisa perigosa. A desconfian√ßa que a democracia tem da individualidade decorre da teoria da igualdade; desde que todos s√£o iguais, basta a contagem dos narizes para a descoberta da verdade ou a santifica√ß√£o de um costume. E a democracia n√£o √© apenas uma filha da era da m√°quina que governa por meio de ¬ęm√°quinas¬Ľ; ainda encerra em si a potencialidade da mais terr√≠vel das m√°quinas – a compuls√£o dos ignorantes contra a diferen√ßa,

Continue lendo…

O Grande Segredo da Felicidade

O grande segredo da felicidade n√£o √© ‚Äď como os pseudo-g√©nios da infelicidade defendiam e defendem ‚Äď n√£o pensar. O grande segredo da felicidade √© dis-pensar. Dispensar o que √© dispens√°vel: o que nasceu para ser dispens√°vel. S√≥ quem dispensa o que tem de ser dispens√°vel √© que √© feliz. E s√≥ √© capaz de dispensar quem sabe pensar. Pensar a s√©rio. S√≥ os g√©nios dispensam. Qualquer burro √© capaz de pensar. Mas dispensar est√° reservado a uma elite de predestinados. A uma elite de felicinados: de alienados de felicidade.

Glória Efémera ou Eterna

Via de regra, a glória será tanto mais tardia quanto mais for durável, pois tudo aquilo que é excelente amadurece de maneira lenta. A glória que se tornará póstera assemelha-se a um carvalho que cresce bem lentamente a partir da sua semente; a glória fácil, efémera, assemelha-se às plantas anuais, que crescem rapidamente, e a glória falsa parece-se com erva daninha, que nasce num piscar de olhos e que nos apressamos em arrancar. Esse desenrolar das coisas relaciona-se com o facto de que, quanto mais alguém pertence à posteridade, ou seja, à humanidade geral e inteira, tanto mais estranho será à sua época, pois o que ele produz não é especialmente dedicado a ela como tal, mas só na medida em que a mesma é uma parte da humanidade; logo, as suas obras não são tingidas com a cor local do seu tempo; todavia, em consequência disso, pode acontecer que tal indivíduo passe facilmente como um estranho pela sua época.
Esta prefere apreciar aqueles que tratam os assuntos do seu dia-a-dia ou que servem ao humor do momento, portanto, os factos que pertencem integralmente a ela, que com ela vivem e com ela morrem. Por isso, a hist√≥ria da arte e da literatura ensina geralmente que as mais elevadas realiza√ß√Ķes do esp√≠rito humano,

Continue lendo…

As Realidades do Sonho

O sonho √© a explos√£o dos s√ļbditos na aus√™ncia do rei. Se o homem fosse um ser √ļnico, n√£o sonharia. Mas cada um de n√≥s √© uma tribo em que somente um chefe tem os privil√©gios da vida iluminada. O chefe √© a pessoa reconhecida pelos semelhantes, o ¬ęmim¬Ľ legal da sociedade e da raz√£o, obrigado a uma concord√Ęncia fixa consigo mesmo. S√≥ ele tem rela√ß√Ķes expressas com o mundo exterior e o √ļnico a reinar nas horas de vig√≠lia. Mas abaixo dele h√° um pequeno povo de cadetes expulsos, de insurrectos punidos, de h√≥spedes indesej√°veis – exilados da zona da consci√™ncia, mas donos do subconsciente, encerrados no subterr√£neo, mas prontos para a evas√£o, vencidos mas n√£o mortos. H√° a crian√ßa que foi renegada pelo jovem, o delinquente imobilizado pela moral e a lei, o louco que todos os dias estende armadilhas √† raz√£o raciocinadora, o poeta que a pr√°tica condenou ao sil√™ncio, o bobo dominado pelas amarguras, o antepassado b√°rbaro que ainda se recorda do machado de pedra e dos festins de Tiestes.
O eu quotidiano e vulgar, o respeit√°vel, o vigilante, o vitorioso, dominou essa tribo de larvas inimigas, de irm√£os renegados e moribundos. E como a alma tem o seu subsolo,

Continue lendo…

Nenhuma √Čpoca Transmite a Outra a sua Sensibilidade

Nenhuma época transmite a outra a sua sensibilidade; transmite-lhe apenas a inteligência que teve dessa sensibilidade. Pela emoção somos nós; pela inteligência somos alheios. A inteligência dispersa-nos; por isso é através do que nos dispersa que nos sobrevivemos. Cada época entrega às seguintes apenas aquilo que não foi.

Um deus, no sentido pagão, isto é, verdadeiro, não é mais que a inteligência que um ente tem de si próprio, pois essa inteligência, que tem de si próprio, é a forma impessoal, e por isso ideal, do que é. Formando de nós um conceito intelectual, formamos um deus de nós próprios. Raros, porém, formam de si próprios um conceito intelectual, porque a inteligência é essencialmente objectiva. Mesmo entre os grandes génios são raros os que existiram para si próprios com plena objectividade.

Viver é pertencer a outrem. Morrer é pertencer a outrem. Viver e morrer são a mesma coisa. Mas viver é pertencer a outrem de fora, e morrer é pertencer a outrem de dentro. As duas coisas assemelham-se, mas a vida é o lado de fora da morte. Por isso a vida é a vida e a morte a morte, pois o lado de fora é sempre mais verdadeiro que o lado de dentro,

Continue lendo…

Os Tiranos de Génio

Sei perfeitamente que, para se alcançar qualquer finalidade organizadora, é necessário haver quem pense, coordene e, no total, assuma a responsabilidade. Porém, os conduzidos não devem ser constrangidos, mas antes poderem eleger o seu chefe. Um sistema autocrático de coacção degenera, a meu ver, dentro de pouco tempo, pois a violência atrai aqueles que são moralmente inferiores e, em regra, no meu entender, aos tiranos de génio sucedem-se geralmente patifes.

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

Continue lendo…

A Vida Oblíqua

S√≥ agora pressenti o obl√≠quo da vida. Antes s√≥ via atrav√©s de cortes retos e paralelos. N√£o percebia o sonso tra√ßo enviesado. Agora adivinho que a vida √© outra. Que viver n√£o √© s√≥ desenrolar sentimentos grossos ‚ÄĒ √© algo mais sortil√©gico e mais gr√°cil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a exist√™ncia fene√ßa no que tem de obl√≠quo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e n√£o existe nisso contradi√ß√£o.

A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.
Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante,

Continue lendo…