Passagens de Baltasar Gracián

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Achar a Chave para Cada Um

É a arte de mover vontades; mais consiste em destreza do que em resolução: saber por onde entrar em cada um. Não há vontade sem pendor especial, diferente segundo a variedade dos gostos. Todos são idólatras, uns da estima, outros do interesse, a maioria do deleite. A manha está em conhecer esses ídolos para motivar; conhecer o impulso eficaz de cada um é como ter a chave do querer alheio. Deve-se ir ao primeiro móbil, que nem sempre é o supremo; o mais das vezes é o ínfimo, porque no mundo são mais os desregrados que os subordinados. Primeiro há de se prevenir o génio, depois tocar-lhe o verbo, para atacar a afeição, que infalivelmente porá em mate o arbítrio.

O homem é tanto quanto sabe e, se for sábio, é capaz de tudo. O homem que não sabe nada é o mundo às escuras.

Muitos não se incomodam em ser superados em riqueza, caráter ou temperamento, mas ninguém gosta que o excedam em inteligência, muito menos um soberano. Trata-se, afinal, do maior dos atributos.

A estima consegue-se menos quanto mais se busca; depende do respeito alheio e assim ninguém a pode adquirir sem a merecer dos outros e sem a aguardar.

A Armadilha do Empenho

Fugir dos empenhos é das primeiras máximas da prudência. Nas grandes capacidades há sempre grandes distâncias, até aos últimos detalhes do término. Há muito para andar de um extremo ao outro, e eles estão sempre inebriados pela sua boa conduta: chegam tarde ao rompimento, pois é mais fácil furtar-se à ocasião perigosa do que se sair bem dela. Nas tentações do juízo, mais seguro é fugir do que vencer. Um empenho traz outro maior e está perto do despenho. Há homens que, por génio e mesmo por inclinação, metem-se em obrigações, mas quem caminha à luz da razão sempre vai com muita consideração. Estima-se ter mais valor o não se empenhar que o vencer, e, já que há um tolo profiado, escusa-se que com ele sejam dois.

Todas as coisas têm suas estações, até os valores estão sujeitos à moda. Mas o sábio tem uma vantagem: é eterno. Se este não é seu século, muitos outros serão.

Os tolos se perdem por não pensar. Nunca enxergam nem a metade das coisas, e, por não perceberem nem suas vantagens, nem seu prejuízo, empregam o seu esforço.

A lição mais importante que a experiência ensina é conservar a dependência, e alimentá-la sem satisfazê-la, mesmo diante de um rei. Mas não se chegue a extremos, calando-se para que os outros errem ou tornando o mal irreversível em proveito próprio.