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O Individual como Base do Colectivo

Tudo quanto é apenas colectivo é desordem. A ordem vem da composição individual. Mas a composição individual para formar em si a ordem necessita de que esta também se projecte no colectivo.
A express√£o do colectivo √© o p√Ęnico. O terror s√≥ se submete pelo terror. O p√Ęnico tem duas express√Ķes de terror: a centr√≠fuga e a centr√≠peta. A express√£o que se desfaz a si mesma e a que permanece est√°tica e se adentra.

A √ļnica maneira de aparentar a ordem no colectivo √© manejar o p√Ęnico. Mas como todo o estado ps√≠quico, por mais inteiro que se apresente tende a suavizar-se se era violento e a tornar-se violento se era suave, √© necess√°rio para manter o estado de p√Ęnico, que se lhe estabele√ßam tantas modalidades diferentes e sucessivas que consigam realmente fazer desviar as aten√ß√Ķes da sua insist√™ncia. Por√©m, este processo n√£o tem fim. √Č o processo da m√≠stica colectiva. Filha do desespero individual, a m√≠stica colectiva n√£o faz alterar a realidade mas consegue tempor√°riamente submeter todos os indiv√≠duos √†s mesmas circunst√Ęncias. E at√© que se formem as novas √©lites as m√≠sticas colectivas s√£o espera.
Ao vermos os grandes exércitos, reluzentes nas paradas ou disfarçados com a própria cor da terra das batalhas,

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O Espírito Negativo dos Filósofos

Ficam reduzidos a uma √ļnica frase bem sucedida os nossos grandes fil√≥sofos, os nossos maiores poetas, dizia ele, √© essa a verdade, lembramo-nos muitas vezes apenas daquilo a que se chama uma tonalidade filos√≥fica e mais nada, dizia ele, pensei. Estudamos uma obra grandiosa, a obra de Kant por exemplo, e essa obra fica, com o correr do tempo, reduzida √† pequena cabe√ßa de prussiano oriental, que √© a de Kant, e a um universo inteiramente vago, feito de noite e de n√©voa, que vai dar √† mesma incapacidade de todos os outros, dizia ele, pensei, Pretendia ser um universo de grandiosidade, e dele n√£o restou mais do que um pormenor ris√≠vel, assim dizia ele, pensei, e assim acontece com tudo. Aquilo a que chamamos grandeza n√£o passa, afinal, de algo que apenas nos comove por provocar o riso e a compaix√£o. O pr√≥prio Shakespeare confrange-nos com o seu rid√≠culo se tivermos um momento de lucidez, dizia ele, pensei. J√° h√° muito que os deuses figuram nas nossas canecas de cerveja adornados apenas duma barba, dizia ele, pensei. S√≥ o imbecil √© que venera, dizia ele, pensei. O chamado homem de esp√≠rito consome-se a produzir uma obra que ele considera digna de marcar uma √©poca,

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Não convém começar uma ofensa, pois uma ofensa provoca outras ofensas

Não convém começar uma ofensa, pois uma ofensa provoca outras ofensas.

A Fraqueza Fundamental do Homem

A fraqueza fundamental do homem n√£o √© nada que ele n√£o possa vencer, desde que n√£o possa aproveitar com a vit√≥ria. A juventude vence tudo, a impostura, a ast√ļcia mais dissimulada, mas n√£o h√° ningu√©m que possa deter no voo a vit√≥ria, torn√°-la viva, porque ent√£o a juventude deixou de existir. A velhice n√£o ousa tocar na vit√≥ria e a nova juventude atormentada pelo novo ataque que se desencadeia imediatamente, deseja a sua pr√≥pria vit√≥ria. √Č assim que o Diabo sem cessar vencido, nunca √© aniquilado.

A Tirania do Medo

O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo e insistir em mostrar-lhe os perigos que o amea√ßam s√≥ pode conduzi-lo √† apatia da desesperan√ßa. O contr√°rio √© que √© preciso: criar motivos racionais de esperan√ßa, raz√Ķes positivas de viver. Precisamos mais de sentimentos afirmativos do que de negativos. Se os afirmativos tomarem toda a amplitude que justifique um exame estritamente objectivo da nossa situa√ß√£o, os negativos desagregar-se-√£o, perdendo a sua raz√£o de ser. Mas se insistirmos em demasia nos negativos, nunca sairemos do desespero.

Possuir-te é Gozar de um Tesouro Infinito

Que suprema felicidade foi hoje a minha, querida desta alma! Como tu estavas, linda, terna, amante, encantadora! Nunca te vi assim, nunca me pareceste t√£o bela! Que deliciosa variedade h√° em ti, minha Rosa adorada! Possuir-te √© gozar de um tesouro infinito, inesgot√°vel. Juro-te que j√° n√£o tenho m√©rito em te ser fiel, em te protestar e guardar esta lealdade exclusiva que te hei-de consagrar at√© ao √ļltimo instante da minha vida: n√£o tenho m√©rito algum nisso. Depois de ti, toda a mulher √© imposs√≠vel para mim, que antes de ti n√£o conheci nenhuma que me pudesse fixar.

E o que eu te estimo e aprecio al√©m disso. A ternura de alma verdadeira que tenho por ti. Onde estavam no meu cora√ß√£o estes afectos que nunca senti, que s√≥ tu despertaste e que d√£o √† minha alma um bem-estar t√£o suave? Realmente que te devo muito, que me fizeste melhor, outro do que nunca fui. O que sinto por ti √© inexplic√°vel. Bem me dizias tu que em te conhecendo te havia de adorar deveras. √Č certo, assim foi, e estou agora seguro deste amor, porque repousa em bases t√£o s√≥lidas que j√° nada creio que o possa destruir.

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A Mulher de Negro

Os sons da floresta, as √°rvores, a bicicleta e, ao longe, o sil√™ncio im√≥vel de um vulto negro. Aproximei-me e era uma mulher vestida de negro. Um xaile negro sobre os ombros. Um len√ßo negro sobre a cabe√ßa. O som dos pneus da bicicleta a pararem, o som de amassarem folhas h√ļmidas e de fazerem estalar ramos. Os meus p√©s a pousarem no ch√£o. Os olhos da mulher entre o negro. Os olhos pequenos da mulher. O seu rosto branco. Vimo-nos como se nos encontr√°ssemos, como se nos tiv√©ssemos perdido havia muito tempo e nos encontr√°ssemos. O tempo deixou de existir. O sil√™ncio deixou de existir. Pousei a bicicleta no ch√£o para caminhar na direc√ß√£o da mulher. Era atra√≠do por segredos. Durante os meus passos, a mulher estendeu-me a m√£o. A sua m√£o era muito velha. A palma da sua m√£o tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, com todas as suas tentativas. Os seus olhos de pedra. Senti os ossos da sua m√£o a envolverem os meus dedos. N√£o me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu. Senti a sua respira√ß√£o no meu pesco√ßo.

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Se n√£o acumulaste na juventude, como queres encontrar na tua velhice

Se n√£o acumulaste na juventude, como queres encontrar na tua velhice?

O Valor da Obra de Arte

A fonte imediata da obra de arte √© a capacidade humana de pensar, da mesma forma que a ¬ępropens√£o para a troca e o com√©rcio¬Ľ √© a fonte dos objectos de uso. Tratam-se de capacidades do homem, e n√£o de meros atributos do animal humano, como sentimentos, desejos e necessidades, aos quais est√£o ligados e que muitas vezes constituem o seu conte√ļdo.
Estes atributos humanos s√£o t√£o alheios ao mundo que o homem cria como seu lugar na terra, como os atributos correspondentes de outras esp√©cies animais; se tivessem de constituir um ambiente fabricado pelo homem para o animal humano, esse ambiente seria um n√£o mundo, resultado de emana√ß√£o e n√£o de cria√ß√£o. A capacidade de pensar relaciona-se com o sentimento, transformando a sua dor muda e inarticulada, do mesmo modo que a troca transforma a gan√Ęncia crua do desejo e o uso transforma o anseio desesperado da necessidade – at√© que todos se tornem dignos de entrar no mundo transformados em coisas, reificados. Em cada caso, uma capacidade humana que, por sua pr√≥pria natureza, √© comunicativa e voltada para o mundo, transcende e transfere para o mundo algo muito intenso e veemente que estava aprisionado no ser.

A Arte é Indivíduo, não Colectividade

Arte √© esp√≠rito, e o esp√≠rito n√£o precisa, em absoluto, de se sentir obrigado a servir a sociedade, a colectividade. A meu ver, n√£o tem direito a faz√™-lo, devido √† sua liberdade e √† sua nobreza. Uma arte que ¬ęse mete com o povo¬Ľ, fazendo suas as necessidades das massas, do z√©-povinho, dos ignorant√Ķes, cai na mis√©ria. Prescrever-lhe isso como um dever, admitindo-se, talvez, por raz√Ķes pol√≠ticas, unicamente uma arte que a gentinha possa compreender, √© mesmo o c√ļmulo da grosseria e equivale a assassinar o esp√≠rito. Este – eis a minha firme convic√ß√£o – pode empreender os mais audaciosos, os mais incontidos avan√ßos, as tentativas e pesquisas menos acess√≠veis √†s multid√Ķes, e todavia ter a certeza de servir, de um modo elevado, indirectamente o homem, e √† la longue at√© os homens.

Vive o Instante que Passa

Vive o instante que passa. Vive-o intensamente at√© √† √ļltima gota de sangue. √Č um instante banal, nada h√° nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele √© o √ļnico por ser irrepet√≠vel e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele ser√° o mesmo nem tu que o est√°s vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele n√£o seja pois em v√£o no dar-se-te todo a ti. Olha o sol dif√≠cil entre as nuvens, respira √† profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes long√≠nquas de crian√ßas, o ru√≠do de um motor que passa na estrada, o sil√™ncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, s√™ vivo a√≠, pensa-te vivo a√≠, sente-te a√≠. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que √©s. Assim o dom est√ļpido e miraculoso da vida n√£o ser√° a estupidez maior de o n√£o teres cumprido integralmente, de o teres desperdi√ßado numa vida que ter√° fim.

O Verdadeiro e o Falso

A primeira dilig√™ncia do esp√≠rito √© a de distinguir o que √© verdadeiro do que √© falso. No entanto, logo que o pensamento reflecte sobre si pr√≥prio, o que primeiro descobre √© uma contradi√ß√£o. Seria ocioso procurar, neste ponto, ser-se convincente. Ningu√©m, h√° s√©culos, deu uma demonstra√ß√£o mais clara e mais elegante do caso do que Arist√≥teles: “A consequ√™ncia, muitas vezes ridicularizada, dessas opini√Ķes √© que elas se destroem a si pr√≥prias”.

Porque, se afirmarmos que tudo √© verdadeiro afirmamos a verdade da afirma√ß√£o oposta, e, em consequ√™ncia, a falsidade da nossa pr√≥pria tese (porque a afirma√ß√£o oposta n√£o admite que ela possa ser verdadeira). E, se dissermos que tudo √© falso, essa afirma√ß√£o tamb√©m √© falsa. Se declararmos que s√≥ √© falsa a afirma√ß√£o oposta √† nossa, ou ent√£o que s√≥ a nossa e que n√£o √© falsa, somos, todavia, obrigados a admitir um n√ļmero infinito de ju√≠zos verdadeiros ou falsos.

Porque aquele que anuncia uma afirmação verdadeira, pronuncia ao mesmo tempo o juízo de que ela é verdadeira, e assim sucessivamente, até ao infinito.

O Significado do Amor

Eu pensava que conhecia o significado do amor. O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda.

O amor √© o sentido de todas as palavras imposs√≠veis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor √© a paz fresca e a combust√£o de um inc√™ndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manh√£, o c√©u a deslizar como um rio. A tarde, o sol como uma certeza. O amor √© feito de claridade e da seiva das rochas. O amor √© feito de mar, de ondas na dist√Ęncia do oceano e de areia eterna. O amor √© feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins et√©reos, a salva√ß√£o √© uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.

Eu acreditava mesmo que o amor é o sangue do sol dentro do sol.

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O Único Meio de Ser Livre é Estar Disposto a Morrer

Di√≥genes disse nalgum lugar: ¬ęO √ļnico meio de ser livre √© estar disposto a morrer¬Ľ; e escreveu ao rei da P√©rsia: ¬ęN√£o podes reduzir √† escravid√£o a cidade de Atenas, n√£o mais do que os peixes do mar¬Ľ. ¬ęComo? N√£o a tomarei?¬Ľ ¬ęSe a tomares, os atenienses far√£o como os peixes, abandonar-te-√£o e ir√£o embora. E, de facto, o peixe que pegas morre; e, se morrem assim que pegas neles, de que te servem todos os teus preparativos?¬Ľ Estas s√£o as palavras de um homem livre que examinou a quest√£o com cuidado e que provavelmente encontrou a resposta.

Ser ou n√£o Ser

Hamlet: Ser ou n√£o ser, essa √© a quest√£o: ser√° mais nobre suportar na mente as flechadas da tr√°gica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obst√°culos e, enfrentando-os, vencer? Morrer ‚ÄĒ dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, como os mil abalos inerentes √† carne ‚ÄĒ √© a conclus√£o que devemos buscar. Morrer ‚ÄĒ dormir; dormir, talvez sonhar ‚ÄĒ eis o problema: pois os sonhos que vierem nesse sono de morte, uma vez livres deste inv√≥lucro mortal, fazem cismar. Esse √© o motivo que prolonga a desdita desta vida.

Sem Privação Não Há Felicidade

O animal humano, como os outros animais, está adaptado para uma certa luta pela vida e quando, graças à sua riqueza, o homo sapiens pode satisfazer todos os desejos sem esforço, a simples ausência do esforço na sua vida afasta dele um elemento essencial de felicidade. O homem que adquire facilmente as coisas pelas quais sente apenas um desejo moderado, conclui que a realização do desejo não dá felicidade. Se tem disposição para a filosofia, conclui que a vida humana é essencialmente desprezível, pois o homem que tem tudo o que precisa ainda assim é infeliz. Esquece-se de que privar-se dalgumas coisas que precisa é parte indispensável da felicidade.

A Eterna Criação da Literatura

A literatura √© um acontecimento completamente √† parte. √Č um acontecimento que, de cada vez, recome√ßa de alto a baixo. √Č um acontecimento sem h√°bitos. No caso de um bom marceneiro, ou mesmo de um bom buscador de ouro, trata-se de refazer o que se fazia antes dele e – se for poss√≠vel – contribuir com o seu pequeno aperfei√ßoamento para a forma da mesa ou para o oco da bateia. Mas um jovem escritor n√£o deve absolutamente ameliorar Proust, ou aperfei√ßoar Claudel, completar Gide ou fazer um pequeno retoque a Val√©ry. N√£o, de modo algum. Cabe-lhe escrever como se nem Gide, nem Proust tivessem existido nunca.

A Alma é o Bem Supremo

Devemos circunscrever o bem supremo √† alma: degrad√°-lo-emos se em vez da melhor parte de n√≥s o associarmos antes √† pior, se o pusermos na depend√™ncia dos sentidos que nos animais sem fala s√£o bem mais apurados do que no homem. N√£o devemos atribuir ao corpo o ponto mais alto da nossa felicidade; os bens verdadeiros s√£o aqueles que devemos √† raz√£o – bens firmes e duradouros, insuscept√≠veis de decad√™ncia, incapazes de padecerem qualquer decr√©scimo ou limita√ß√£o! Os restantes bens s√£o-no somente na opini√£o do vulgo; na realidade apenas t√™m de comum o nome com os bens verdadeiros, mas carecem das propriedades que distinguem um ¬ębem¬Ľ real. Chamemos-lhes antes ¬ęutilidades¬Ľ ou, para usar o termo t√©cnico, ¬ęrecursos desej√°veis¬Ľ, mas sem perder de vista que se trata de ¬ęutens√≠lios¬Ľ, n√£o de partes de n√≥s mesmos; tenhamo-los √† m√£o, mas sem esquecer que s√£o exteriores a n√≥s; e mesmo tendo-os √† m√£o atribuamos-lhes um lugar subalterno e secund√°rio, como coisas de que ningu√©m se deve orgulhar. H√° coisa mais est√ļpida do que nos vangloriarmos de algo que n√£o fizemos? Deixemos que todos esses falsos bens nos caibam em sorte mas sem se colarem a n√≥s de modo a que, se ficarmos sem eles,

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N√£o h√° t√≥xico no mundo que mate t√£o eficientemente como as gan√Ęncias que destroem a

N√£o h√° t√≥xico no mundo que mate t√£o eficientemente como as gan√Ęncias que destroem a perfei√ß√£o.