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Em Portugal, Ter Amor às Nossas Coisas Implica Dizer Mal Delas

Em Portugal, ter amor às nossas coisas implica dizer mal delas, já que a maior parte delas não anda bem. Nem uma coisa nem outra constitui novidade. Nem dizer mal delas, nem o facto de elas não andarem bem. Será que se diz mal na esperança de que elas se ponham boas? Também não. As nossas causas são quase sempre perdidas. Porquê então?

Porque o nosso maior bem, como António Vieira contradizia, é nunca estarmos satisfeitos. Nas nossas cabeças perversas e almas amarguradas, onde se acham todas as coisas portuguesas tal e qual achamos que deviam ser, Portugal é o país mais perfeito do mundo. Já isso é uma espécie de país, melhor do que os países reais onde as pessoas estão realmente convencidas que as coisas correm muito bem. Aprendemos a viver com esse país. E alguns conseguiram mesmo viver nele.

Desdenhar o que se tem e elogiar o que têm os outros, mas sem querer trocar, é a principal característica do aristocrático feitio do povo português. Às vezes penso que dizemos tanto mal de Portugal e dos portugueses para que não sejam os estrangeiros a fazê-lo. Monopolizamos a maledicência para nos defendermos; para evitar a concorrência.

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A Raz√£o

A raz√£o √© a suprema uni√£o da consci√™ncia e da consci√™ncia de si, ou seja, do conhecimento de um objecto e do conhecimento de si. √Č a certeza de que as suas determina√ß√Ķes n√£o s√£o menos objectais, n√£o s√£o menos determina√ß√Ķes da ess√™ncia das coisas do que s√£o os nossos pr√≥prios pensamentos. √Č, num √ļnico e mesmo pensamento, ao mesmo tempo e ao mesmo t√≠tulo, certeza de si, isto √©, subjectividade, e ser, isto √©, objectividade.
(…) A raz√£o √© t√£o poderosa quanto ardilosa. O seu ardil consiste em geral nessa actividade mediadora que, deixando os objectos agirem uns sobre os outros conforme √† sua pr√≥pria natureza, sem se imiscuir directamente na sua ac√ß√£o rec√≠proca, consegue, contudo, atingir unicamente o objectivo a que se prop√Ķe.
(…) A Raz√£o governa o mundo e, consequentemente, governa e governou a hist√≥ria universal. Em rela√ß√£o a essa raz√£o universal e substancial, todo o resto √© subordinado e serve-lhe de instrumento e de meio. Ademais, essa Raz√£o √© imanente na realidade hist√≥rica, realiza-se nela e por ela. √Č a uni√£o do Universal existente em si e por si e do individual e do subjecitvo que constitui a √ļnica verdade.

A Alegria Pura só Existe sem a Vaidade

A mais pura alegria é aquela que gozamos no tempo da inocência; estado venturoso, em que nada distinguimos pela razão, mas pelo instinto; e em que nada considera a razão, mas sim a natureza. Então circula veloz o nosso sangue, e os humores que num mundo novo, e resumido, apenas têm tomado os seus primeiros movimentos. Os humores são os que produzem as nossas alegrias; e com efeito não há alegria sem grande movimento; por isso vemos, que a tristeza nos abate, e a alegria nos move; o sossego ainda que indique contentamento, contudo mais é representação da morte que da vida; e a tranquilidade pode dar descanso, porém alegria não a dá sempre.

Mas como pode deixar de ser pura a alegria dos primeiros anos, se ainda então a vaidade não domina em nós? Então só sentimos o bem, e o mal, que resulta da dor, ou do prazer; depois também sentimos o mal, e o bem da opinião, isto é, da vaidade; por isso muitas cousas nos alegram, que tomadas em si mesmas, não têm mais bem, que aquele com que a vaidade as considera; e outras também nos entristecem, que tomadas só por si, não têm outro mal,

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Os Acontecimentos Simult√Ęneos

Considera quantas coisas, no mesmo instante infinitesimal, se produzem simultaneamente em cada um de n√≥s, tanto no dom√≠nio do corpo como no da alma. Por isso te n√£o surpreender√° que muitos mais acontecimentos se produzam, ou antes, que eles se produzam todos a um tempo, no ser simultaneamente √ļnico e universal a que chamamos mundo.

Quem se mostra aflito quando devia estar calmo, ou se mostra calmo quando devia estar aflito, destrói a delicada teia da sua própria felicidade.

O √ďdio liga mais os Indiv√≠duos que a Amizade

O √≥dio, a inveja e o desejo de vingan√ßa ligam muitas vezes mais dois indiv√≠duos um ao outro do que o podem fazer o amor e a amizade. Pois est√° em causa a comunidade de interesses interiores ou exteriores e a alegria que se sente nessa comunidade – onde √© muitas vezes determinada a ess√™ncia das rela√ß√Ķes positivas entre os indiv√≠duos: o amor e a amizade – √© sempre relativa e n√£o √© em nenhum caso um estado de alma permanente; mas as rela√ß√Ķes negativas, essas s√£o, a maior parte das vezes, absolutas e constantes. O √≥dio, a inveja e o desejo de vingan√ßa t√™m, poder-se-ia dizer, o sono mais ligeiro do que o amor. O menor sopro os desperta, enquanto que o amor e a amizade continuam tranquilamente a dormir, mesmo sob o trov√£o e os rel√Ęmpagos.

A Mentira é a Base da Civilização Moderna

√Č na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civiliza√ß√£o moderna. Ela firma-se, como t√£o claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira pol√≠tica, na mentira econ√≥mica, na mentira matrimonial, etc… A mentira formou este ser, √ļnico em todo o Universo: o homem antip√°tico.
Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita. A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto, respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.
A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens s√£o s√ļbditos desta omnipotente Majestade. Derrub√°-la do trono; arrancar-lhe das m√£os o ceptro ensaguentado, √© a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direc√ß√£o dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakounine, etc. etc. …
E os oper√°rios que t√™m trabalhado na obra da Justi√ßa e do Bem, foram os p√°rias da √ćndia, os escravos de Roma, os miser√°veis do bairro de Santo Ant√≥nio,

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A Idade da Derrota Aceite

Tenho sessenta anos. N√£o te iludas: n√£o estou ainda bastante fraco para ceder √†s imagina√ß√Ķes do medo, quase t√£o absurdas como as da esperan√ßa e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confian√ßa; n√£o perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim t√£o pr√≥ximo n√£o √© necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperan√ßa de chegar √† manh√£ seguinte. Adentro dos limites intranspon√≠veis de que te falei h√° pouco, posso defender a minha posi√ß√£o passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. N√£o deixo por isso de ter chegado √† idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias est√£o contados n√£o significa nada; sempre assim foi; √© assim para todos n√≥s. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avan√ßamos sem cessar, diminui para mim √† medida que a minha doen√ßa mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos j√° n√£o ser√° vivo.
A minha margem de hesitação já não se alonga em anos,

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O Uivo

Quando um cão uiva é como se o fizesse do interior dos nossos ossos e os pusesse à mostra, os confundisse com aquilo que nos cerca, de algum modo então o nosso esqueleto integra o pátio, a roupa branca pendurada, a pilha de tijolos, há entre tudo isso e os nossos ossos uma afinidade a que somente o cão, como se o mar todo lhe pesasse na garganta, empresta nitidez.

O Perigo nas Rela√ß√Ķes Humanas

Nas rela√ß√Ķes humanas o perigo √© coisa de todos os dias. Deves precaver-te bem contra este perigo, deves estar sempre de olhos bem abertos: n√£o h√° nenhum outro t√£o frequente, t√£o constante, t√£o enganador! A tempestade amea√ßa antes de rebentar, os edif√≠cios estalam antes de cair por terra, o fumo anuncia o inc√™ndio pr√≥ximo: o mal causado pelo homem √© s√ļbito e disfar√ßa-se com tanto mais cuidado quanto mais pr√≥ximo est√°. Fazes mal em confiar na apar√™ncia das pessoas que se te dirigem: t√™m rosto humano, mas instintos de feras. S√≥ que nestas apenas o ataque directo √© perigoso; se nos passam adiante n√£o voltam atr√°s √† nossa procura. Ali√°s, somente a necessidade as instiga a fazer mal; a fome ou o medo √© que as for√ßam a lutar. O homem, esse, destr√≥i o seu semelhante por prazer. Tu, contudo, pensando embora nos perigos que te podem vir do homem, pensa tamb√©m nos teus deveres enquanto homem. Evita, por um lado, que te fa√ßam mal, evita, por outro, que fa√ßas tu mal a algu√©m. Alegra-te com a satisfa√ß√£o dos outros, comove-te com os seus dissabores, nunca te esque√ßas dos servi√ßos que deves prestar, nem dos perigos a evitar. Que ganhar√°s tu vivendo segundo esta norma?

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O Engraxanço e o Culambismo Português

Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como ¬ęengraxan√ßo¬Ľ. Os chefes de reparti√ß√£o engraxavam os chefes de servi√ßo, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os m√©dicos da caixa, etc… Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se por√©m, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso.

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Nada Pode Haver de mais Belo

Amigo Bernardo, dos desertos do Ronc√£o d‚Äôel-Rei, na mais bela po√©tica noite de luar que ver se possa, te escreve este teu amigo. Nada pode haver de mais belo; os rouxin√≥is cantam √† desgarrada, o ar rescende dos milhares de loendros (laurier-rose) que cobrem as encostas alcantiladas do Guadiana. Que maravilha, que encanto, que tristeza (tu, com certeza, aqui choravas)! Neste momento, houve-se o sinistro roncar da coruja e o long√≠nquo uivar dos lobos, misturado com o forte ladrar dos rafeiros e os nossos cavalos relincham inquietos nas quadras… √Č √† luz dum prosaico casti√ßal (uma garrafa com uma vela) que te escrevo estas sentidas regras, que espraio sobre este branco papel as ondas da minha melancolia. E como n√£o estar melanc√≥lico se acabamos de fazer dezasseis l√©guas a cavalo em oito horas e n√£o descans√°mos e n√£o dormimos a noite passada sen√£o uma m√≠sera hora e vemos apenas diante de n√≥s umas velhas esteiras, as nossas mantas, e os aparelhos dos nossos cavalos como travesseiros, para passarmos umas noites.

A Perturbação do Último Acontecimento

A vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos no qual o √ļltimo poderia mesmo mudar o sentido de todo o conjunto, n√£o porque conte mais do que os precedentes mas porque, uma vez inclu√≠dos na vida, os acontecimentos disp√Ķem-se segundo uma ordem que n√£o √© cronol√≥gica mas que corresponde a uma arquitectura interna. Uma pessoa, por exemplo, l√™ na idade madura um livro importante para ela, que a faz dizer: “Como poderia viver sem o ter lido!” e ainda: “Que pena n√£o o ter lido quando era jovem!”. Pois bem, estas afirma√ß√Ķes n√£o fazem muito sentido, sobretudo a segunda, porque a partir do momento em que ela leu aquele livro, a sua vida torna-se a vida de uma pessoa que leu aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde, porque at√© a vida que precede a leitura assume agora uma forma marcada por aquela leitura.

Ninguém Gosta de Ser Considerado Vaidoso

No seu cora√ß√£o, os homens desejam ser estimados, mas eles cuida¬≠dosamente ocultam esse desejo porque querem passar por virtuo¬≠sos e porque o desejo de receber da virtude qualquer vantagem al√©m dela mesma n√£o seria ser virtuoso, mas amar a estima e o elogio ‚ÄĒ ou seja, ser vaidoso. Os homens s√£o muito vaidosos, mas n√£o h√° nada que eles mais detestem do que serem considerados vaidosos.

Para o Jornalista, Tudo o que é Provável é Verdade

¬ęPara o jornalista, tudo o que √© prov√°vel √© verdade¬Ľ. Trata-se dum axioma estupendo, como tudo o que Balzac inventa. Reflectindo nele, n√≥s percebemos quantas falsidades se explicam e quantas arranhadelas na sensibilidade se resumem a fanfarronices e n√£o a conhecimento dos factos. Em geral, o pequeno jornalista √© um profeta da Imprensa no que toca a banalidades, e um imprudente no que se refere a coisas s√©rias. Quando Balzac refere que a cr√≠tica s√≥ serve para fazer viver o cr√≠tico, isto estende-se a muitas outras tend√™ncias do jornalista: o folhetinista, que √© o que Camilo fazia nas gazetas do Porto (…). Eu pr√≥pria n√£o estou isenta duma soma de articulismos, de recursos √† blague, de gra√ßas adapt√°veis, de frequenta√ß√£o do lado mau da imagina√ß√£o, de rid√≠culos, de fastidiosos conselhos, de discursos convencionais, de condena√ß√Ķes f√°ceis, de birras imbecis, de poesia de barbeiro, de eleg√Ęncias chatas, de canibalismo vulgar, de panfletismo ¬ębom cidad√£o¬Ľ. Quando n√£o sou nada disso, sou assunto para jornais, mas n√£o sou jornalista.

O Valor dado pela Vaidade

A fortuna nos disp√Ķe para a alegria, mas n√£o √© s√≥ o que causa; a desgra√ßa conduz para a tristeza, por√©m n√£o √© s√≥, o que a motiva; antes parece que h√° uma certa por√ß√£o de alegria, e de tristeza, que h√°-de passar por n√≥s precisamente; a fortuna, e a desgra√ßa n√£o a produz, s√≥ a desperta. Tudo nos √© dado como por conta: a vida, a fortuna, a desgra√ßa, a alegria, e a tristeza; em tudo h√° um ponto certo, e fixo; a vaidade que governa todas as paix√Ķes, em umas aumenta a actividade, em outras diminui; e todas recebem o valor, que a vaidade lhes d√°.
Estamos no mundo para ser alvos do tempo; e deste todas as mudanças não se dirigem a nós, dirigem-se à nossa vaidade: os sucessos fazem efeito em nós, porque primeiro o fazem na nossa vaidade; de sorte que um homem sem vaidade seria o mesmo que um homem insensível; o prazer, e o desgosto, que não vêm das primeiras leis da natureza, são vãos em si mesmos, de instituição política, e unicamente criadoras de vaidade.

A Moral Pura

A moral pura √© √ļnica e universal: n√£o sofreu altera√ß√Ķes ao longo dos tempos, nem altera√ß√Ķes nem melhorias. N√£o depende de factores hist√≥ricos, econ√≥micos, sociol√≥gicos ou culturais, ou seja, n√£o depende do que quer que seja. N√£o √© determin√°vel mas determinante. N√£o √© condicionada, √© condicionante. Para ser mais claro, √© um absoluto. Uma moral observ√°vel √© sempre, na pr√°tica, o resultado da mistura, em propor√ß√Ķes vari√°veis, de elementos de moral pura e elementos de origem mais obscura, quase sempre religiosa. Quanto maior √© a propor√ß√£o de elementos de moral pura, tanto mais longa e feliz ser√° a exist√™ncia de uma sociedade que suporte essa moral. Se fosse poss√≠vel imaginar uma sociedade que se regesse pelos princ√≠pios puros da moral universal, ent√£o essa sociedade duraria o que dura o mundo.