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A Vontade de Escrever

Quando conscientemente, aos treze anos de idade, tomei posse da vontade de escrever Рeu escrevia quando era criança, mas não tomara posse de um destino Рquando tomei posse da vontade de escrever, vi-me de repente num vácuo. E nesse vácuo não havia quem pudesse me ajudar. Eu tinha que eu mesma me erguer de um nada, tinha eu mesma que me entender, eu mesma inventar por assim dizer a minha verdade. Comecei, e nem sequer era pelo começo. Os papéis se juntavam um ao outro Рo sentido se contradizia, o desespero de não poder era um obstáculo a mais para realmente não poder: a história interminável que então comecei a escrever (com muita influência de O Lobo das Estepes de Hermann Hesse), que pena eu não ter conservado: rasguei, desprezando todo um esforço quase sobre-humano de aprendizagem, de autoconhecimento. E tudo era feito em tal segredo. Eu não contava a ninguém, vivia aquela dor sozinha. Uma coisa eu já adivinhava: era preciso tentar escrever sempre, não esperar um momento melhor porque este simplesmente não vinha. Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento,

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A Vergonha é um Sentimento de Profanação

A vergonha é bem um sentimento da profanação. Amizade, amor e piedade deveriam ser tratados secretamente. Só deveríamos falar deles em raros momentos de intimidade, ficar de acordo silenciosamente Рhá muitas coisas que são demasiado delicadas para se pensar nelas, muito menos ainda para delas se falar.

Somos a Resposta que Damos ao que Nos Acontece

Somos frágeis. A vida é dura. Não somos o que nos acontece.

H√° pesos que n√£o podemos rejeitar. Toda a revolta seria t√£o ilus√≥ria quanto in√ļtil. Mas n√£o devemos ficar pela simples resigna√ß√£o, √© preciso que assumamos esses pesos e os queiramos levar de vencidos. Que escolhamos ser quem somos, apesar deles. Com eles. Neles.

Somos a resposta que damos ao que nos acontece.

Temos de aceitar a indiferen√ßa e a incompreens√£o dos outros. As d√ļvidas e as contradi√ß√Ķes do mundo s√£o um peso acrescido, que devemos carregar junto √†s nossas pr√≥prias dores, falhas e fraquezas.

Depois, h√° ainda os pesos que os outros n√£o podem, ou n√£o querem, levar…

Os males pesam, sempre. Sejam os meus, os do mundo ou os dos que amo… h√° que aceit√°-los primeiro, para lhes fazer frente depois.

√Č essencial aceitar a fraqueza das nossas for√ßas. A imperman√™ncia de tudo o que temos. A fragilidade do que somos.

Por vezes, a cruz é o caminho.

√Č na dor que o verdadeiro amor se manifesta.

Tenho de me negar a mim mesmo se quero amar o outro.

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O Amor Busca para que o Entendimento Encontre

N√£o basta a agudeza intelectual para descobrir uma coisa nova. Faz falta entusiasmo, amor pr√©vio por essa coisa. O entendimento √© uma lanterna que necessita de ir dirigida por uma m√£o, e a m√£o necessita de ir mobilizada por um anseio pr√©-existente para este ou outro tipo de poss√≠veis coisas. Em definitivo, somente se encontra o que se busca e o entendimento encontra porque o amor busca. Por isso todas as ci√™ncias come√ßaram por ser entusiasmos de amadores. A pedanteria contempor√Ęnea desprestigiou esta palavra; mas amador √© o mais que se pode ser com respeito a alguma coisa, pelo menos √© o germe todo. E o mesmo dir√≠amos do dilettante – que significa o amante. O amor busca para que o entendimento encontre. Grande tema para uma longa e f√©rtil conversa, este que consistiria em demonstrar como o ser que busca √© a pr√≥pria ess√™ncia do amor! Pensaram voc√™s na surpreendente contextura do buscar? O que busca n√£o tem, n√£o conhece ainda aquilo que busca e, por outra parte, buscar √© j√° ter de antem√£o e conjecturar o que se busca.
Buscar é antecipar uma realidade ainda inexistente, preparar o seu aparecimento, a sua apresentação. Não compreende o que é o amor quem,

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Deixa o que Seduz a Multid√£o

Se n√≥s nada fizermos sen√£o de acordo com os ditames da raz√£o, tamb√©m nada evitaremos sen√£o de acordo com os ditames da raz√£o. Se quiseres escutar a raz√£o, eis o que ela te dir√°: deixa de uma vez por todas tudo quanto seduz a multid√£o! Deixa a riqueza, deixa os perigos e os fardos de ser rico; deixa os prazeres, do corpo e do esp√≠rito, que s√≥ servem para amolecer as energias; deixa a ambi√ß√£o que n√£o passa de uma coisa artificialmente empolada, in√ļtil, inconsciente, incapaz de reconhecer limites, t√£o interessada em n√£o ter superiores como em evitar at√© os iguais, sempre torturada pela inveja, e uma inveja ainda por cima dupla. V√™ como de facto √© infeliz quem, objecto de inveja ele pr√≥prio, tem inveja por outros.
N√£o est√°s a ver essas casas dos grandes senhores, as suas portas cheias de clientes que se atropelam na entrada? Para l√° entrares, teria de sujeitar-te a in√ļmeras inj√ļrias, mas mais ainda terias de suportar se entrasses. Passa frente √†s escadarias dos ricos senhores, aos seus √°trios suspensos como terra√ßos: se l√° puseres os p√©s ser√° como estares √† beira de uma escarpa, e de uma escarpa prestes a ruir. Dirige ante os teus passos na via da sapi√™ncia,

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Espíritos Dirigentes e seus Instrumentos

Vemos grandes estadistas e, em geral, todos aqueles, que devem servir-se de muitas pessoas para a execu√ß√£o dos seus planos, comportarem-se ora de uma maneira, ora de outra: ou seleccionam muito apurada e cuidadosamente as pessoas que conv√™m aos seus projectos e lhes deixam, depois, uma liberdade relativamente grande, porque sabem que a natureza desses indiv√≠duos escolhidos os impele precisamente para onde eles pr√≥prios querem que eles v√£o; ou, ent√£o, escolhem mal, pegam mesmo no que t√™m √† m√£o, mas formam a partir desse barro algo que serve para os seus fins. Este √ļltimo g√©nero √© o mais violento, tamb√©m o que procura instrumentos mais submissos; o seu conhecimento dos homens √©, habitualmente, muito mais escasso, o seu desprezo pelos homens √© maior do que no caso dos esp√≠ritos mencionados em primeiro lugar, mas a m√°quina, que eles constroem, trabalha melhor, de maneira geral, que a m√°quina sa√≠da da oficina daqueles.

√Č Necess√°rio Estar Sempre Embriagado

√Č necess√°rio estar sempre embriagado. Tudo est√° a√≠: √© a √ļnica quest√£o. Para n√£o se sentir o horr√≠vel fardo do Tempo que quebranta os vossos ombros e vos curva em direc√ß√£o √† terra, deveis vos embriagar sem tr√©gua. Mas de qu√™? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiserdes. Mas embriagai-vos.

√Č mais glorioso e honrado fugir de uma inj√ļria, calando, que venc√™-la, retrucando

√Č mais glorioso e honrado fugir de uma inj√ļria, calando, que venc√™-la, retrucando.

A Nossa Verdade

A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruina-se. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida.

Somos Apenas Cerimónia

Somos apenas cerim√≥nia (formalidade, conven√ß√Ķes): a cerim√≥nia transporta-nos e deixamos de lado a subst√Ęncia das coisas; agarramo-nos aos galhos e abandonamos o tronco e o corpo. Ensinamos as mulheres a enrubescer por apenas ouvirem nomear o que elas n√£o t√™m o menor receio de fazer; n√£o ousamos mencionar directamente os nossos membros e n√£o tememos empreg√°-los em todo o tipo de devassid√£o. A cerim√≥nia pro√≠be-nos de expressar em palavras as coisas l√≠citas e naturais, e acreditamos nela; a raz√£o pro√≠be-nos de praticar as il√≠citas e m√°s, e ningu√©m acredita nela. Encontro-me aqui enredado nas leis da cerim√≥nia, pois ela n√£o permite nem que se fale bem de si nem que se fale mal.

N√£o se Ama uma Pedra

Amar √© reconhecer nos outros um ser misterioso, e n√£o um objecto – tu eras uma vibra√ß√£o √† tua volta, n√£o a estreita presen√ßa de um corpo. Aqueles que n√£o amamos nem odiamos s√£o n√≠tidos como uma pedra. Sentir neles uma pessoa √© come√ßar a amar ou a odi√°-los. S√≥ amamos ou odiamos quem √© vivo para n√≥s. (¬ęNunca amaste ningu√©m…¬Ľ).

O Absurdo do C√ļmulo da Felicidade

Agora pergunto-lhe: o que podemos esperar do homem enquanto criatura dotada de t√£o estranhas qualidades? Fa√ßa chover sobre ele todos os tipos de b√™n√ß√£os terrenas; submerja-o em felicidade at√© acima da cabe√ßa, de modo que s√≥ pequenas bolhas apare√ßam na superf√≠cie dessa felicidade, como se em √°gua; d√™ a ele uma prosperidade econ√≥mica tamanha que nada mais lhe reste para ser feito, excepto dormir, comer p√£o-de-l√≥ e preocupar-se com a continua√ß√£o da hist√≥ria mundial ‚ÄĒ mesmo assim, por pura ingratid√£o, por exclusiva perversidade, ele vai cometer algum acto repulsivo. Ele at√© mesmo arriscar√° perder o seu p√£o-de-l√≥ e desejar√° intencionalmente o mais depravado lodo, o mais antiecon√≥mico absurdo, simplesmente a fim de injectar o seu fant√°stico e pernicioso elemento no √Ęmago de toda essa racionalidade positiva.

As palavras sinceras podem às vezes não ser agradáveis

As palavras sinceras podem às vezes não ser agradáveis, e as palavras agradáveis podem não ser sinceras.

A Subjectividade do Amor-Próprio

Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
– O senhor n√£o tem vergonha de se dedicar a mister t√£o infame, quando podia trabalhar?
– Senhor, – respondeu o pedinte – estou-lhe a pedir dinheiro e n√£o conselhos. – E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.
Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo n√£o suportava reprimendas.
Viajando pela √ćndia, topou um mission√°rio com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patr√≠cios hindus, que lhe davam algumas moedas do pa√≠s.
– Que ren√ļncia de si pr√≥prio! – dizia um dos espectadores.
– Ren√ļncia de mim pr√≥prio? – retorquiu o faquir. – Ficai sabendo que n√£o me deixo a√ßoitar neste mundo sen√£o para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.
Tiveram pois plena raz√£o os que disseram ser o amor de n√≥s mesmos a base de todos as nossas ac√ß√Ķes – na √ćndia, na Espanha como em toda a terra habit√°vel. Sup√©rfluo √© provar aos homens que t√™m rosto.

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Ninguém Permanece Satisfeito Com o Que Tem

Ningu√©m permanece satisfeito com o que tem, olhando para o que √© dos outros; √© por isso que nos iramos at√© contra os deuses quando algu√©m nos ultrapassa, esquecidos dos homens que ficam para tr√°s; e, quando h√° poucos homens para invejar, aqueles que seguem atr√°s de n√≥s s√£o invejosos terr√≠veis. Mas o homem √© t√£o mesquinho que, mesmo tendo recebido muito, considera-se injuriado se pudesse ter recebido mais. (…) Sobretudo, agradece aquilo que recebeste; aguarda pelo restante e alegra-te por n√£o estares ainda satisfeito: √© um prazer haver algo por que esperar. Venceste todos os homens: alegra-te por seres o primeiro no cora√ß√£o do teu amigo; foste vencido por muitos: considera quantos homens est√£o atr√°s de ti, mais do que quantos est√£o √† tua frente. Queres saber qual √© o teu maior v√≠cio? Fazes mal as contas: valorizas demasiado o que te oferecem, mas desvalorizas o que tens.

Saber Resolver Problemas

Há pessoas que têm dificuldade em identificar os seus problemas. Usando de uma grande capacidade de adaptação, vão-se habituando a que as coisas lhes estejam a correr menos bem, sem conseguirem perceber exactamente qual o ou os problemas que os apoquentam.
Mas também existe quem tenha tendência para pensar que o problema não é seu. Percebem que ele existe, identificam-no, mas comportam-se com alguma indiferença, como se o problema fosse dos outros, não assumindo a sua responsabilidade.
H√° ainda quem fique √† espera que os problemas se resolvam por si, ou que algu√©m lhos resolva. Embora consigam identific√°-los e reconhec√™-los como seus, parecem considerar que compete a outros ‚ÄĒ familiares, amigos, colegas ‚ÄĒ ou √† sociedade em geral resolv√™-los.
Assim como existe quem, em vez de se dedicar a procurar solução para os seus problemas, concentrando neles a sua atenção e canalizando para a sua resolução a energia possível, prefira desenvolver práticas místicas, pretendendo que uma ou várias entidades mais ou menos divinas façam o que afinal lhes compete a eles próprios fazer.

Um problema √© uma coisa dif√≠cil de compreender, explicar ou resolver. √Č tudo aquilo que resiste √† penetra√ß√£o da intelig√™ncia, constituindo uma inc√≥gnita ou dificuldade a resolver.

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