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Textos de autores conhecidos para ler e compartilhar. Os melhores textos est√£o em Poetris.

A Raiz do Ser Nunca se Altera

Pode acontecer que em certos per√≠odos da vida uma pessoa seja asperamente flagelada por circunst√£ncias p√ļblicas ou privadas. Mas o destino, na sua cegueira, quando se abate sobre as paveias de trigo maduro, destr√≥i apenas a palha, enquanto os gr√£os nem d√£o por isso e saltam alegremente sobre a eira sem se preocuparem em saber se v√£o ser levados ao moinho ou lan√ßados √† terra na pr√≥xima sementeira.

A Serenidade

A serenidade n√£o √© feita nem de tro√ßa nem de narcisismo, √© conhecimento supremo e amor, afirma√ß√£o da realidade, aten√ß√£o desperta junto √† borda dos grandes fundos e de todos os abismos; √© uma virtude dos santos e dos cavaleiros, √© indestrut√≠vel e cresce com a idade e a aproxima√ß√£o da morte. √Č o segredo da beleza e a verdadeira subst√Ęncia de toda a arte.
O poeta que celebra, na dan√ßa dos seus versos, as magnific√™ncias e os terrores da vida, o m√ļsico que lhes d√° os tons de duma pura presen√ßa, trazem-nos a luz; aumentam a alegria e a clareza sobre a Terra, mesmo se primeiro nos fazem passar por l√°grimas e emo√ß√Ķes dolorosas. Talvez o poeta cujos versos nos encantam tenha sido um triste solit√°rio, e o m√ļsico um sonhador melanc√≥lico: isso n√£o impede que as suas obras participem da serenidade dos deuses e das estrelas. O que eles nos d√£o, n√£o s√£o mais as suas trevas, a sua dor ou o seu medo, √© uma gota de luz pura, de eterna serenidade. Mesmo quando povos inteiros, l√≠nguas inteiras, procuram explorar as profundezas c√≥smicas em mitos, cosmogonias, religi√Ķes, o √ļltimo e supremo termo que poder√£o atingir √© essa serenidade.

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A Primeira Palavra que em Toda a Minha Vida me Esgotou o Ser

Uma palavra. Disse-a. Amo-te – uma palavra breve. Quantos milh√Ķes de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Palavras sem inteira significa√ß√£o em si, o professor devia ter raz√£o. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas √†s outras para se aguentarem na sua rede a√©rea de sons. Mas houve uma palavra – meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das v√≠sceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articula√ß√£o rid√≠cula de sons e mobilizavam apenas a parte mec√Ęnica de mim, a parte fr√°gil e v√£. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora – onde est√°? Como se desfez? Ou n√£o desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a frac√ß√£o de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaix√£o. N√£o haver√° ent√£o uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E n√£o deixe de mim um recanto oculto que n√£o venha √† sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si?

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Luta de Classes

N√£o contem comigo para defender o elitismo cultural. Pelo contr√°rio, contem comigo para rebentar cada detalhe do seu preconceito.
A cultura √© usada como s√≠mbolo de status por alguns, alfinete de lapela, bot√£o de punho. A raridade √© condi√ß√£o indispens√°vel desse exibicionismo. S√≥ pertencendo a poucos se pode ostentar como diferenciadora. Essa colec√ß√£o de s√≠mbolos √© descrita com pron√ļncia mais ou menos afectada e tem o objectivo de definir socialmente quem a enumera.
Para esses indiv√≠duos raros, a cultura √© caracterizada por aqueles que a consomem. Assim, conv√©m n√£o haver misturas. Conhe√ßo melhor o mundo da leitura, por isso, tomo-o como exemplo: se, no in√≠cio da madrugada, uma dessas mulheres que acorda cedo e faz limpeza em escrit√≥rios for vista a ler um determinado livro nos transportes p√ļblicos, os snobs que assistam a essa imagem s√£o capazes de enjeit√°-lo na hora. Come√ßar√£o a definir essa obra como “leitura de empregadas de limpeza” (com muita probabilidade utilizar√£o um sin√≥nimo mais depreciativo para descrev√™-las).
Este exemplo aplica-se em qualquer outra √°rea cultural que possa chegar a muita gente: m√ļsica, cinema, televis√£o, etc. Aquilo que mais surpreende √© que estes “argumentos”, esta forma de falar e de pensar seja utilizada em meios supostamente culturais por indiv√≠duos supostamente cultos,

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As Oscila√ß√Ķes da Personalidade

Pretender que a nossa personalidade seja m√≥vel e suscept√≠vel de grandes mudan√ßas √©, por vezes, no√ß√£o um pouco contr√°ria √†s id√©ias tradicionais atinentes √† estabilidade do ‚Äúeu‚ÄĚ. A sua unidade foi durante muito tempo um dogma indiscut√≠vel. Factos numerosos vieram provar quanto esta ideia era fict√≠cia.
O nosso ‚Äúeu‚ÄĚ √© um total. Comp√Ķe-se da adi√ß√£o de inumer√°veis ‚Äúeu‚ÄĚ celulares. Cada c√©lula concorre para a unidade de um ex√©rcito. A homogeneidade dos milhares de indiv√≠duos que o comp√Ķem resulta somente de uma comunidade de ac√ß√£o que numerosas coisas podem destruir.
√Č in√ļtil objectar que a personalidade dos seres parece, em geral, bastante est√°vel. Se ela nunca varia, com efeito, √© porque o meio social permanece mais ou menos constante. Se subitamente esse meio se modifica, como em tempo de revolu√ß√£o, a personalidade de um mesmo indiv√≠duo poder√° transformar-se por completo. Foi assim que se viram, durante o Terror, bons burgueses reputados pela sua brandura tornarem-se fan√°ticos sanguin√°rios. Passada a tormenta e, por conseguinte, representando o antigo meio e o seu imp√©rio, eles readquiriram sua personalidade pacifica. Desenvolvi, h√° muito tempo, essa teoria e mostrei que a vida dos personagens da Revolu√ß√£o era incompreens√≠vel sem ela.
De que elementos se comp√Ķe o ‚Äúeu‚ÄĚ,

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A Vaidade de Obrar Bem

De todas as paix√Ķes, a que mais se esconde, √© a vaidade; e se esconde de tal sorte, que a si mesma se oculta, e ignora: ainda as ac√ß√Ķes mais pias nascem muitas vezes de uma vaidade m√≠stica, que quem a tem, n√£o a conhece, nem distingue: a satisfa√ß√£o pr√≥pria, que a alma recebe, √© como um espelho em que nos vemos superiores aos mais homens pelo bem que obramos, e nisso consiste a vaidade de obrar bem.

Conquistar a Honra

Conquistar a honra n√£o √© sen√£o revelar as virtudes e os valores do homem, sem desvantagens; porque alguns procuram e solicitam a honra e a reputa√ß√£o, mas nas suas ac√ß√Ķes deixam muito a desejar; tais homens s√£o daqueles a respeito dos quais se fala muito, mas que no fundo ningu√©m admira; outros, pelo contr√°rio, escurecem as suas virtudes na apar√™ncia, para que sejam sobrevalorizadas na opini√£o. Aquele que leva a cabo uma coisa que nunca tinha sido tentada antes, ou que tinha sido abandonada depois da tentativa, ou realizada em melhores circunst√Ęncias, ganhar√° com isso maior honra do que se tiver efectuado uma coisa de maior dificuldade, ou de maior m√©rito, em que tivesse j√° havido um precursor. Se um homem regula as suas ac√ß√Ķes de maneira a satisfazer em algumas todos os partidos ou agrupamentos, maior conceito de elogios haver√° de obter.
Mau gerente da sua honra ser√° aquele que empreenda uma ac√ß√£o cujo insucesso lhe possa causar desgra√ßa maior do que a gl√≥ria que lhe adviria do sucesso. A honra que √© recebida e que vai quebrar-se sobre outrem √© a que tem mais brilhantes reflex√Ķes; como os diamantes talhados com v√°rias faces. Por isso deve o homem esfor√ßar-se por ultrapassar os seus √©mulos em quest√£o de honra,

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Amar é Ser Desgraçado

Via-a de longe, evitava v√™-la de perto, como √© que lhe havia de falar? E era como se uma vergonha muito grande, um pecado ou coisa assim, ou uma inferioridade muito baixa e que vinha de uma superioridade muito alta em que eu via Sandra. Eu sentia-me esmagado de humilha√ß√£o, como √© que lhe havia de falar? Quem √© que disse que o amor aproxima n√£o sei qu√™? n√£o √© verdade. Sou um homem experimentado – n√£o √© verdade. Se eu amasse pouco Sandra, ou n√£o a amasse, era-me muito mais f√°cil falar com ela, lidar com ela e com a irm√£ e com quem quer que fosse dela, eu livre e independente. Amar √© p√īr ao alto e ao longe, treme-se como diante de um deus tresloucado. Amar muito √© ter pouco de n√≥s com que se possa ser gente. Amar √© ser desgra√ßado e eu era.

Os que conhecem a Deus mais de perto entendem mais distintamente o infinito que lhes fica por

Os que conhecem a Deus mais de perto entendem mais distintamente o infinito que lhes fica por conhecer.

Os Livros de Cita√ß√Ķes

√Č uma coisa boa para um homem com pouca instru√ß√£o ler livros de cita√ß√Ķes. Cita√ß√Ķes Familiares de Bartlett √© um livro admir√°vel, e eu estudei-o intensamente. As cita√ß√Ķes, quando gravadas na nossa mem√≥ria, d√£o-nos bons pensamentos. Elas d√£o-nos vontade de ler os autores e conhec√™-los melhor.

O Crédulo

A f√© pode ser definida em resumo como uma cren√ßa il√≥gica na ocorr√™ncia do improv√°vel. Ela cont√©m um saber patol√≥gico; extrapola o processo intelectual normal e atravessa o viscoso dom√≠nio da metaf√≠sica transcedental. O homem de f√© √© aquele que simplesmente perdeu (ou nunca teve) a capacidade para um pensamento claro e realista. N√£o que ele seja uma mula; √©, na realidade, um doente. Pior ainda, √© incur√°vel, porque o desapontamento, sendo essencialmente um fen√≥meno objetivo, n√£o consegue afectar a sua enfermidade subjectiva. A sua f√© apodera-se da virul√™ncia de uma infec√ß√£o cr√≥nica. O que ele diz, em suma, √©: ‚ÄúVamos confiar em Deus, Aquele que sempre nos enganou no passado‚ÄĚ.

Verosimilhança não é Verdade

Quase sempre as suspeitas nos inquietam; somos sempre o joguete desses boatos de opini√£o, que tantas vezes p√Ķe em fuga um ex√©rcito, quanto mais um simples indiv√≠duo. (…) n√≥s rendemo-nos prontamente √† opini√£o. N√£o fazemos a cr√≠tica das raz√Ķes que nos levam ao temor, n√£o as esquadrinhamos. Perdemos todo o sangue-frio, batemos em retirada, como os soldados expulsos do seu campo √† vista da nuvem de poeira que levanta uma tropa a galope, ou tomados de terror colectivo por causa de um boato semeado sem garante.
Não sei como, mas as falsidades perturbam-nos desde logo. A verdade traz consigo a sua própria medida; tudo quanto se funda sobre uma incerteza, porém, fica entregue à conjectura e às fantasias de um espírito perturbado.
Eis porque, entre as mais diversas formas do medo, n√£o h√° outra mais desastrosa, mais incoerc√≠vel que o medo p√Ęnico. Nos casos ordin√°rios, a reflex√£o √© falha; nestes, a intelig√™ncia est√° ausente.
Interroguemos, pois, cuidadosamente a realidade. √Č veros√≠mil que uma desgra√ßa venha a produzir-se? Verosimilhan√ßa n√£o √© verdade. Quantos acontecimentos ocorreram sem que os esper√°ssemos! Quantos acontecimentos esperados que jamais ocorreram! Mesmo que venham a produzir-se, que √© que lucraremos em nos anteciparmos √† nossa dor?

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O Fundamento da Cultura

O fundamento da cultura, assim como do car√°cter, √© por fim o sentimento moral. Essa √© a fonte do poder, que preserva a sua eterna jovialidade, e obt√©m a sua renda de cada novidade da ci√™ncia. A ci√™ncia corrige os velhos credos e p√Ķe de lado, com cada nova percep√ß√£o, os nossos catecismos infantis. Mas ela necessita de uma f√© comensur√°vel com as √≥rbitas mais largas e as leis universais que descobre. Mesmo assim, ela n√£o surpreende o sentimento moral, pois este √© mais antigo e aguardava expectante essas descobertas mais amplas.

As Impress√Ķes da Mem√≥ria

Da mesma forma que os ramos de uma √°rvore que permaneceram por algum tempo curvados de uma determinada forma conservam uma certa facilidade para serem curvados novamente da mesma maneira, as fibras do c√©rebro, uma vez tendo recebido certas impress√Ķes por interm√©dio dos esp√≠ritos animais e pela ac√ß√£o dos objectos, conservam por bastante tempo alguma facilidade para receber essas mesmas disposi√ß√Ķes. Ora, a mem√≥ria consiste apenas nessa facilidade, j√° que se pensa nas mesmas coisas quando o c√©rebro recebe as mesmas impress√Ķes.

O √ćntimo e o Vulgar

A vergonha que leva uma pessoa a n√£o querer falar a ningu√©m das suas rela√ß√Ķes mais √≠ntimas √© uma auto-advert√™ncia do esp√≠rito; em cada confiss√£o, em cada descri√ß√£o, facilmente a distor√ß√£o se insinua e o que √© mais delicado e indiz√≠vel transforma-se num instante em algo vulgar.

A Evidência da Morte

√Äs vezes ponho-me a pensar se a aceita√ß√£o calma da morte no homem da terra n√£o ser√° o resultado desta √≠ntima comunh√£o com o ritmo da natureza. No inverno, √°rvores despidas; na primavera, folhas e flores; no ver√£o, frutos. No inverno seguinte, √°rvores despidas; na primavera, folhas e flores; no ver√£o, frutos. No inverno a seguir… Eu bem sei que o homem da cidade tem por sua vez mil maneiras de notar este eterno retorno da vida e da morte. Parece-me √© que ali a coisa n√£o tem esta nitidez, esta evid√™ncia, esta fatalidade.

Um Escritor é Uma Contradição

Um escritor √© uma coisa curiosa. √Č uma contradi√ß√£o e, tamb√©m, um contra-senso. Escrever tamb√©m √© n√£o falar. √Č calar. √Č gritar sem ru√≠do. Um escritor √©, muitas vezes, repousante: ouve muito. N√£o fala muito porque √© imposs√≠vel falar a algu√©m de um livro que se escreveu e, sobretudo, de um livro que se est√° a escrever.
√Č imposs√≠vel. √Č o oposto do cinema, o oposto do teatro e de outros espect√°culos. √Č o oposto de todas as leituras. √Č o mais dif√≠cil de tudo. √Č o pior. Porque um livro √© o desconhecido, √© a noite, √© fechado, √© assim. √Č o livro que avan√ßa, que cresce, que avan√ßa em direc√ß√Ķes que julg√°vamos ter explorado, que avan√ßa em direc√ß√£o ao seu pr√≥prio destino e ao do seu autor, ent√£o aniquilado pela sua publica√ß√£o: a sua separa√ß√£o dele, do livro sonhado, como da crian√ßa rec√©m-nascida, sempre a mais amada.