Textos

4483 resultados
Textos de autores conhecidos para ler e compartilhar. Os melhores textos est√£o em Poetris.

Conhecidos de Vista

Conhecem-se há meses de vista, do bairro onde vivem, de se verem na rua, no supermercado, no café, de passearem os cães no jardim. Ela mora dois prédios ao lado do dele, não sabe o seu nome, nem o que faz, mas conhece-lhe algumas rotinas, já ouviu a sua voz, aprecia a forma de ele se vestir. Acha-o atraente e fica atenta quando o vê.
Ele gosta de levar um livro consigo quando vai com o c√£o ao jardim. Senta-se num banco a ler, mas, se ela chega, n√£o consegue concentrar-se. Finge que l√™, espreita-a por cima do livro, maravilhado com o seu jeito distra√≠do de caminhar num vaiv√©m constante enquanto fala ao telem√≥vel, rodando o vestido numa volta graciosa ao fim de alguns passos casuais. Adora o seu sorriso encantador, o modo como inclina a cabe√ßa para tr√°s e lan√ßa um risinho espont√Ęneo para o ar a meio da conversa.
√Č s√°bado, est√£o sentados numa esplanada do jardim, ambos sozinhos, em mesas pr√≥ximas, frente a frente. Ela pede um caf√©, deita o a√ß√ļcar, mexe-o demoradamente com a colher, distra√≠da a observ√°-lo a ler o jornal. Fantasia que ele vai erguer os olhos a qualquer instante e surpreend√™-la a olhar,

Continue lendo…

O Terror como Base da Religi√£o

√Č verdade que tanto o medo como a esperan√ßa entram na religi√£o, porque estas duas paix√Ķes, em alturas diferentes, agitam a mente humana e cada uma delas forma uma esp√©cie de divindade que lhe √© adequada. Mas, quando um homem se sente bem, ele est√° inclinado para os neg√≥cios, para o conv√≠vio ou para qualquer esp√©cie de divertimento, e dedica-se naturalmente a essas actividades e n√£o pensa em religi√£o. Quando est√° melanc√≥lico e abatido, tudo o que para fazer √© meditar sobre os terrores do mundo invis√≠vel, e mergulhar mais profundamente ainda na afli√ß√£o. Pode realmente acontecer que, ap√≥s ter assim gravado profundamente as opini√Ķes religiosas no seu pensamento e imagina√ß√£o, ocorra uma altera√ß√£o da sa√ļde ou das circunst√Ęncias que restaure o seu bom humor e, ocasionando boas perspectivas de futuro, o fa√ßa cair no extremo oposto da alegria e triunfo. Mas, ainda assim deve reconhecer-se que, como o terror √© o princ√≠pio primordial da religi√£o, √© essa a paix√£o que predomina nela e que s√≥ admite pequenos intervalos de prazer.

Bom não é aquele que não cai nunca, mas que se levanta sempre

Bom não é aquele que não cai nunca, mas que se levanta sempre.

A Solidão é Necessária ao Convívio

As pessoas est√£o prontas a viver em bom entendimento, mas n√£o querem ser viciadas em agradar. A condi√ß√£o humana assenta num pressuposto equilibrado: a vida agrada a uns e desagrada a outros. H√° uma parte da solid√£o que n√£o podemos compor, e √© melhor que assim seja, porque √© na solid√£o que assenta a diferen√ßa t√£o falada. √Č isso que se receia: que nos pro√≠bam a solid√£o, esse pequeno espinho que afinal nos faz solid√°rios na multid√£o. Observem um grupo de pessoas que ri da mesma anedota: est√£o abertas a esse prazer do momento, mas n√£o se distraem da faculdade de serem s√≥s na sua fundamental forma de orgulho que √© serem √ļnicas. A moral consta duma certa dose de cortesia para parecermos bons. ¬ęS√≥ Deus √© bom.¬Ľ Se percebermos esta conclus√£o, percebemos que imitar o bem √© tudo o que humanamente nos √© permitido.

A Felicidade é uma Interrupção de Futilidade

√Č nas decis√Ķes f√ļteis, das quais nem a vida nem o estado de esp√≠rito depende, que reside a felicidade.
São estes os dias felizes, que Beckett invoca e amaldiçoa, por terem passado, na peça que tem o mesmo nome. Somos sobressaltados por ninharias, que conseguem fazer-se passar por importantes, como escolher entre uma camisa do verde do mar ou do azul do céu.
As decis√Ķes f√ļteis, quando a cabe√ßa √© desocupada daquilo que a preocupa, para se ocupar de uma ninharia, como decidir entre o ruivo ou o rascasso ou entre a p√™ra -p√©rola e a carapinheira, s√£o o ind√≠cio seguro da felicidade. Se a escolha prim√°ria √© entre continuar a viver e deixar de viver e as escolhas secund√°rias s√£o afluentes da primeira, devemos dar gra√ßas.
São uma sorte temporária e alegre a oportunidade e a ocupação mental que nos permitem pensar mais naquilo que nos interessa, sem interessar, do que naquilo que nos deveria interessar, caso estivéssemos tão aflitos que não conseguíssemos pensar noutra coisa senão sobreviver.
Quanto mais tempo perdermos nas escolhas e nas quest√Ķes de que n√£o dependem as nossas vidas ou as nossas almas – naquelas que n√£o interessam, a bem ver,

Continue lendo…

Pensamentos n√£o Acabados

Tal como n√£o s√≥ a idade viril, mas tamb√©m a juventude e a inf√Ęncia t√™m um valor em si e n√£o devem de modo algum ser consideradas somentes como passagens e pontes, assim tamb√©m os pensamentos n√£o acabados t√™m o seu valor. N√£o se deve por isso, atormentar um poeta com uma subtil interpreta√ß√£o e divertir-se com a incerteza do seu horizonte, como se o caminho para v√°rios pensamentos ainda estivesse aberto. Est√°-se no limiar; espera-se como no desenterramento de um tesouro: √© como se devesse estar iminente um feliz achado de pensamento profundo. O poeta antecipa qualquer coisa do prazer que o pensador tem, ao encontrar uma ideia fundamental, e, com isso, torna-nos cobi√ßosos, de modo que n√≥s tentamos apanh√°-la; esta, por√©m, passa, esvoa√ßando, sobre a nossa cabe√ßa e mostra as mais belas asas de borboleta… e, contudo, escapa-nos.

Os Amigos dos Outros

Faz grandes elogios de alguém na presença de um terceiro. Se este se mantém calado, é porque não é amigo do primeiro. O mesmo poderás adivinhar se ele desviar a conversa para outro assunto, se mal responde, se se esforça por moderar os teus elogios, se se diz mal informado acerca da pessoa em causa ou ainda se se lança no elogio de pessoas que nada têm que ver.
Podes igualmente mencionar um acto admirável praticado por essa pessoa Рum acto acerca do qual sabes que o teu interlocutor está perfeitamente ao corrente Рpara veres se aproveita ou não para o valorizar. Reagirá, talvez, dizendo que, nesse caso, foi uma questão de sorte ou que a Divina Providência é, por vezes, muito pródiga. Ou então aproveitará para gabar proezas ainda mais notáveis de outros. Pode ainda afirmar que essa tua pessoa se limitou a seguir um bom conselho.

A Grandiosidade do Homem Depende da Mulher, mas S√≥ Enquanto n√£o a Possui…

O homem deve √† mulher tudo quanto fez de belo, de insigne, de espantoso, porque da mulher recebeu o entusiasmo; ela √© o ser que exalta. Quantos mo√ßos imberbes, tocadores de flauta, n√£o celebraram j√° o tema? E quantas pastoras ing√©nuas n√£o o ouviram tamb√©m? Confesso a verdade quando digo que a minha alma est√° isenta de inveja e cheia de gratid√£o para com Deus; antes quero ser homem pobre de qualidades, mas homem, do que mulher – grandeza imensur√°vel, que encontra a sua felicidade na ilus√£o. Vale mais ser uma realidade, que ao menos possui uma significa√ß√£o precisa, do que ser uma abstrac√ß√£o suscept√≠vel de todas as interpreta√ß√Ķes. √Č, pois, bem verdade: gra√ßas √† mulher √© que a idealidade aparece na vida; que seria do homem, sem ela? Muitos chegaram a ser g√©nios, her√≥is, e outros santos, gra√ßas √†s mulheres que amaram; mas nenhum homem chegou a ser g√©nio por gra√ßa da mulher com quem casou; por essa, quando muito, consegue o marido ser conselheiro de Estado; nenhum homem chegou a ser her√≥i pela mulher que conquistou, porque essa apenas conseguiu que ele chegasse a general; nenhum homem chegou a ser poeta inspirado pela companheira de seus dias, porque essa apenas conseguiu que ele fosse pai;

Continue lendo…

O Amargo Destino do Sonho

Aí residia a sua força e a sua virtude, aí era invergável e incorruptível, aí o seu carácter era firme e rectilíneo. No entanto, esta virtude trazia estreitamente ligados a si também o seu sofrimento e o seu destino.
Acontecia-lhe o que a todos acontece: aquilo que por impulso da sua mais √≠ntima natureza demandava e em que se empenhava com a maior pertin√°cia, era-lhe concedido, mas ultrapassando aquilo que ao homem √© ben√©fico. O que come√ßava por ser sonho e felicidade, redundava em amargo destino. O homem do poder dest√≥i-se pelo poder, o homem do dinheiro, pelo dinheiro, o subserviente pelo servir, o sequioso de prazer pela lux√ļria.

Riqueza Ilimitada mas Mortal

Eu n√£o posso, pensando bem, descobrir como √© poss√≠vel a n√≥s, que demos tanta import√Ęncia √† riqueza ilimitada e que, para falar a verdade, a divinizamos, n√£o admitir nas nossas almas os males que crescem com ela. Acompanha, com efeito, a riqueza sem medida e sem cora√ß√£o, ligada a ela, e como se diz marchando no mesmo passo, a prodigalidade, e √† medida que a riqueza abre o acesso √†s cidades e √†s casas ela entra junto e coabita. Depois, com o tempo, segundo os s√°bios, esses seres fazem os seus ninhos nas vidas humanas e rapidamente engendram outros seres, no momento da procria√ß√£o, como a cupidez, o orgulho e a lux√ļria, que n√£o s√£o seus bastardos mas filhos leg√≠timos.
Mas se permitir que esses filhos da riqueza avancem na idade, logo para as almas eles engendrar√£o tiranos inexor√°veis, a viol√™ncia, a ilegalidade e a imprud√™ncia. Pois √© assim necessariamente; os homens n√£o olham mais para o alto e n√£o d√£o import√Ęncia ao renome na posteridade, mas a destrui√ß√£o das vidas (dos homens) completa-se pouco a pouco num tal ciclo e a grandeza das almas fenece, enfraquece e n√£o √© mais assunto de emula√ß√£o, quando se reserva a sua admira√ß√£o √†s partes mortais de si mesmo,

Continue lendo…

Como é Difícil Ser Natural

√Č curioso como √© dif√≠cil ser natural. Como a gente est√° sempre pronta a vestir a casaca das ideias, sem a humildade de se mostrar em camisa, na intimidade simples e humana da estupidez ou mesmo da indiferen√ßa. Fiz agora um grande esfor√ßo para dizer coisas brilhantes da guerra futura, da harmonia dos povos, da pr√≥xima crise. E, afinal de contas, era em camisa que eu devia continuar quando a visita chegou. No fundo, n√£o disse nada de novo, n√£o fiquei mais do que sou, n√£o mudei o curso da vida. Fui apenas rid√≠culo. Se n√£o aos olhos do interlocutor, que disse no fim que gostou muito de me ouvir, pelo menos aos meus, o que ainda √© mais penoso e mais tr√°gico.

Histórias de Mulheres

As minhas hist√≥rias s√£o, naturalmente, sobre mulheres ‚Äď eu sou uma mulher. N√£o sei qual √© o termo que se usa para os homens que escrevem maioritariamente sobre homens. N√£o tenho sempre certeza do que se quer dizer com ¬ęfeminista¬Ľ. Ao princ√≠pio costumava dizer, bem, claro que sou uma feminista. Mas se tal significa que sigo uma esp√©cie de teoria feminista, ou que sei alguma coisa sobre isso, ent√£o eu n√£o sou. Penso que sou uma feminista tanto quanto penso que a experi√™ncia das mulheres √© importante. Essa √© realmente a base do feminismo.

Poupar a Vontade

Em compara√ß√£o com o comum dos homens, poucas coisas me atingem, ou, dizendo melhor, me prendem; pois √© razo√°vel que elas atinjam, contanto que n√£o nos possuam. Tenho grande zelo em aumentar pelo estudo e pela reflex√£o esse privil√©gio de insensibilidade, que em mim √© naturalmente muito saliente. Desposo – e consequentemente me apaixono por – poucas coisas. A minha vis√£o √© clara, mas detenho-a em poucos objectos; a sensibilidade, delicada e male√°vel. Mas a apreens√£o e aplica√ß√£o, tenho-a dura e surda: dificilmente me envolvo. Tanto quanto posso, emprego-me todo em mim; por√©m mesmo nesse objecto eu refrearia e suspenderia de bom grado a minha afei√ß√£o para que ela n√£o se entregasse por inteiro, pois √© um objecto que possuo por merc√™ de outr√©m e sobre o qual a fortuna tem mais direito do que eu. De maneira que at√© a sa√ļde, que tanto estimo, ser-me-ia preciso n√£o a desejar e n√£o me dedicar a ela t√£o desenfreadamente a ponto de achar insuport√°veis as doen√ßas. Devemos moderar-nos entre o √≥dio e o amor √† voluptuosidade; e Plat√£o receita um caminho mediano de vida entre ambos.
Mas √†s paix√Ķes que me distraem de mim e me prendem alhures, a essas certamente me oponho com todas as minhas for√ßas.

Continue lendo…

Assim como uma vida boa nos é necessária a nós

Assim como uma vida boa nos é necessária a nós, o nosso bom nome é necessário aos outros homens.

Um Amor Verdadeiro

Admitamos: o amor é um assunto que já foi falado e voltado a falar, trivializado e dramatizado ao ponto de as pessoas não saberem já o que é e o que não é. A maioria de nós não consegue vê-lo porque temos as nossas ideias preconcebidas sobre o que é (é suposto ser mais forte do que nós e arrebatar-nos) e como aparece (num embrulho alto, magro, bem-humorado e charmoso). Por isso, se o amor não aparecer envolvido na nossa fantasia, não o conseguimos reconhecer.

Mas tenho a certeza do seguinte: o amor est√° em todo o lado. √Č poss√≠vel amar e ser amado independentemente do s√≠tio onde estamos. O amor existe sob todas as formas. √Äs vezes vou at√© ao jardim da minha casa e sinto o amor a vibrar em todas as minhas √°rvores. Est√° sempre dispon√≠vel.

J√° vi tantas mulheres (incluindo eu) confundidas pela ideia de um romance, acreditando que s√≥ ser√£o pessoas completas se encontrarem algu√©m que complete as suas vidas. Se pensarmos bem, n√£o √© uma ideia maluca? Voc√™, sozinho, tem de preencher com amor esses espa√ßos vazios e destru√≠dos. Como diz Ralph Waldo Emerson: ¬ęNada lhe poder√° dar paz a n√£o ser voc√™ mesmo.¬Ľ

Nunca esquecerei o momento em que estava a limpar uma gaveta e me deparei com doze p√°ginas que me obrigaram a parar.

Continue lendo…

O Esforço pelo Conhecimento da Verdade

Devemos escolher como finalidade independente do nosso esforço o conhecimento da verdade ou, exprimindo-nos mais modestamente, a compreensão do mundo inteligível por meio do pensamento lógico? Ou devemos subordinar esse esforço pelo conhecimento racional de qualquer espécie a outros objectivos, por exemplo, a objectivos práticos? O simples pensamento não pode resolver esta questão. A decisão tem, pelo contrário, uma influência decisiva na nossa maneira de pensar e julgar, partindo-se do princípio de que tem o carácter de convicção inabalável. Permitam-me que confesse: para mim, o esforço pelo conhecimento é um daqueles objectivos independentes, sem os quais uma afirmação consciente da vida me parece impossível ao homem de pensamento.
Uma das características do esforço pelo conhecimento é que ele tende a abranger tanto a multiplicidade da experiência como a simplicidade e redução das hipóteses fundamentais. O acordo final desses objectivos é, devido ao estádio primitivo da investigação, uma questão de fé. Sem essa fé, a convicção do valor independente do conhecimento não seria para mim forte e inabalável.
Esta atitude, por assim dizer, religiosa do cientista perante a verdade não deixa de ter influência sobre a sua personalidade. Pois, além daquilo que resulta da experiência e além das leis do pensamento,

Continue lendo…