Passagens de Thomas Mann

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Frases, pensamentos e outras passagens de Thomas Mann para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

A Má Consciência

РLevanta-se sempre muito cedo, sr. Spinell Рdisse a mulher do sr. Kloterjahn. Por acaso, já o vi sair duas ou três vezes de casa às sete e meia da manhã.
РMuito cedo? Oh, é preciso distinguir! Se me levanto cedo é porque, no fundo, gosto de dormir até tarde.
РExplique-nos como é isso, sr. Spinell
A senhora conselheira Spatz também desejava ser elucidada.
– Ora… se algu√©m tem o costume de se levantar cedo, parece-me, em todo o caso, que n√£o precisa de ser t√£o matinal. A consic√™ncia, minha senhora, que coisa p√©ssima que √© a consci√™ncia! Eu e os meus semelhantes andamos toda a vida √†s turras com ela, e temos um trabalh√£o para a enganarmos de vez em quando e procurar-lhe umas satisfa√ß√Ķezinhas estultas. Somos criaturas in√ļteis, eu e os meus semelhantes; fora algumas breves horas satisfat√≥rias, arrastamo-nos na certeza da nossa inutilidade, at√© ficarmos a sangrar e doentes. Odiamos o que √© √ļtil, sabendo-o vulgar e feio, e defendemos esta verdade como se defendem as verdades absolutamente necess√°rias. E, contudo, estamos t√£o corro√≠dos pela nossa m√° consci√™ncia que n√£o achamos em n√≥s um ponto s√£o.
Além disso, a maneira como vivemos interiormente,

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A Arte é Indivíduo, não Colectividade

Arte √© esp√≠rito, e o esp√≠rito n√£o precisa, em absoluto, de se sentir obrigado a servir a sociedade, a colectividade. A meu ver, n√£o tem direito a faz√™-lo, devido √† sua liberdade e √† sua nobreza. Uma arte que ¬ęse mete com o povo¬Ľ, fazendo suas as necessidades das massas, do z√©-povinho, dos ignorant√Ķes, cai na mis√©ria. Prescrever-lhe isso como um dever, admitindo-se, talvez, por raz√Ķes pol√≠ticas, unicamente uma arte que a gentinha possa compreender, √© mesmo o c√ļmulo da grosseria e equivale a assassinar o esp√≠rito. Este – eis a minha firme convic√ß√£o – pode empreender os mais audaciosos, os mais incontidos avan√ßos, as tentativas e pesquisas menos acess√≠veis √†s multid√Ķes, e todavia ter a certeza de servir, de um modo elevado, indirectamente o homem, e √† la longue at√© os homens.

Ordem e simplificação são os primeiros passos para o domínio de qualquer coisa.

A palavra, por mais contraditória que seja, preserva o contacto: o silêncio isola-o.

A mudan√ßa de costumes √© o √ļnico meio de que dispomos para nos mantermos vivos e rejuvenescermos. √Č esse o objectivo da mudan√ßa de ares e do lugar da viagem de recreio.

As estrelas n√£o chegamos a cobi√ßar, a esperan√ßa… oh, a esperan√ßa tem sido a melhor coisa na vida.

A fala é a civilização em si. A palavra, mesmo a mais contraditória palavra, preserva o contacto Рé o silêncio que isola.

A Simpatia pela Obra de Arte

Qualquer produto intelectual de valor que se pretende surta um efeito imediato, vasto e profundo, tem de conter uma secreta harmonia, uma afinidade mesmo entre o destino pessoal do autor e o destino da generalidade dos seus contempor√Ęneos. As pessoas n√£o sabem por que raz√£o atribuem fama a uma obra de arte. Longe de serem connaisseurs, julgam descobrir nela uma centena de virtudes para justificar tal apre√ßo; mas o verdadeiro motivo do seu aplauso √© imponder√°vel – √© a simpatia.

Um professor √© a personificada consci√™ncia do aluno; confirma-o nas suas d√ļvidas; explica-lhes o motivo de sua insatisfa√ß√£o e lhe estimula a vontade de melhorar.

A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito.

O tempo tudo clarifica e não há estado de espírito que se mantenha inalterado com o passar das horas.

A União entre o Espírito e a Beleza

H√° uma beleza espiritual e h√° outra beleza que fala aos sentidos. Certas pessoas pretendem que o belo pertence exclusivamente ao campo dos sentidos, separando dele por completo o espiritual, de modo que o nosso mundo apresente uma cis√£o entre os dois. Nisso tamb√©m se baseia o ensinamento ver√≠dico: ¬ęApenas por dois modos a felicidade √© cognosc√≠vel em todo o Universo: a que nos vem das alegrias do corpo e a que nos vem da paz redentora do esp√≠rito¬Ľ. Desta doutrina, no entanto, segue-se que o espiritual n√£o se acha, para o belo, na mesma rela√ß√£o em que o belo se encontra para com o feio e que, s√≥ em certas condi√ß√Ķes, se confunde com este.
O espiritual não é sinónimo de beleza pelo conhecimento e pelo amor do belo, amor este que se exprime em beleza espiritual. Tal amor, em absoluto, não é absurdo ou sem esperança, pois, pela lei da atracção dos opostos, o belo por sua vez anseia pelo espiritual, admirando-o e recebendo-lhe com agrado a corte. Este mundo não está constituído de tal modo que o espírito esteja fadado a amar apenas o espiritual, nem a beleza unicamente votada a procurar o belo. Na verdade,

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Ninguém alcança o que não possui de nascença, e o que te é estranho não o podes cobiçar.

…√© prefer√≠vel inspirar confian√ßa ao mundo e n√£o instigar as paix√Ķes dele. Bem melhor √© que nos reputem bom e n√£o belo!