Textos sobre Pontos

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Textos de pontos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Gosto pela Simplicidade

Cansado às vezes do artificialismo que domina hoje em todos os géneros, enfadado com os chistes, os lances espirituosos, com as troças e com todo esse espírito que se quer colocar nas menores coisas, digo comigo mesmo: se eu pudesse encontrar um homem que não fosse espirituoso, com quem não fosse preciso sê-lo, um homem ingénuo e modesto, que falasse somente para se fazer entender e para exprimir os sentimentos do seu coração, um homem que só tivesse a razão e um pouco de naturalidade: com que ardor eu correria para descansar na sua conversa ao invés do jargão e dos epigramas do resto dos homens! Como é que acontece perder-se o gosto pela simplicidade a ponto de não mais se perceber que ele foi perdido? Não há virtudes nem prazeres que dela não retirem encantos e as suas graças mais tocantes.

Saberei Conquistá-la Através de Todos os Sacrifícios

Perdoe-me se me apaixonei a este ponto de si. Mas n√£o passarei daqui, nem ningu√©m me ver√°! Fechado num quarto da pousada, espero a sua resposta. Esperarei seis horas por umas linhas suas e depois volto para Paris. J√° nem sei viver, vagueio por a√≠, ferido de morte. Prefiro cansar-me em longos passeios a cavalo, a consumir-me na solid√£o, ou no meio de pessoas que deixaram de me entender… Ordene-me que parta e n√£o tornar√° a ser atormentada por um homem a quem um m√™s bastou para perder a raz√£o.
Muito gostaria de surpreender o seu primeiro pensamento ao acordar; n√£o posso descrever-lhe o reconhecimento que me enche o cora√ß√£o, este cora√ß√£o que reclama apenas a sua amizade, que saber√° conquist√°-la atrav√©s de todos os sacrif√≠cios, que √© completamente vosso at√© ao seu √ļltimo alento.
N√£o me conformo com a ideia de ser abandonado. O seu interesse √©-me mil vezes mais preciso do que a pr√≥pria vida, mas saberei moderar a express√£o dos meus sentimentos e n√£o terei outras aspira√ß√Ķes do que as que me forem permitidas; tamb√©m saberei esconder-lhe os meus temores; respeitarei o seu repouso – mas v√™-la-ei, e nunca mais haver√° felicidade na minha vida se n√£o puder consagrar-lha inteiramente.

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Vítimas e Vencidos

A ilusão constante da Revolução está em acreditar que as vítimas da força, estando inocentes das violências que se exercem, se lhes colocássemos na mão a força, a manuseariam com justiça. Mas à excepção das almas que estão bastante próximas da santidade, as vítimas são maculadas pela força como os carrascos. O mal que se encontra no punho da espada é transmitido para a ponta. E as vítimas, chegadas assim a este ponto e inebriadas pela mudança, fazem tanto mal ou mais ainda, e de imediato reincidem.
(…) O socialismo consiste em atribuir o bem aos vencidos, e o racismo aos vencedores. Mas a asa revolucion√°ria do socialismo serve-se daqueles que, ainda nascidos em baixo, s√£o por natureza e por voca√ß√£o vencedores, e assim conduz √† mesma √©tica.

A Arte Engrandece a Vida

Tamb√©m do ponto de vista pessoal a arte engrandece a vida. Propicia maior felicidade e mais r√°pido desgaste. Grava no semblante do seu servidor pistas de aventuras imagin√°rias e espirituais e provoca, com o tempo, mesmo mantendo uma vida exterior de calma enclausurada, em exacerbamento e um refinamento da sensibilidade, uma febre e exaust√£o de nervos como a vida plena de paix√Ķes e prazeres extravagantes dificilmente consegue apresentar.

Conselhos para o Ensino

Vou falar de quest√Ķes que, independentemente do espa√ßo e do tempo, sempre estiveram e sempre estar√£o relacionadas com a educa√ß√£o. Nesta tentativa n√£o posso dizer que sou uma autoridade, particularmente t√£o inteligente e bem-intencionado como os homens que ao longo do tempo trataram dos problemas da educa√ß√£o e que certamente exprimiram repetidas vezes os seus pontos de vista acerca destas mat√©rias. Com que base posso eu, um leigo no √Ęmbito da pedagogia, arranjar coragem para exprimir opini√Ķes sem qualquer fundamento, excepto a minha experi√™ncia pessoal e a minha convic√ß√£o pessoal? Quando se trata de uma mat√©ria cient√≠fica, √© f√°cil uma pessoa sentir-se tentada a ficar calada com base nestas considera√ß√Ķes.
Contudo, tratando-se de assuntos respeitantes ao ser humano, é diferente. Neste caso, o conhecimento apenas da verdade não é suficiente; pelo contrário, este conhecimento deve ser continuamente renovado à custa de um esforço contínuo, sob pena de se perder. Lembra uma estátua de mármore no deserto que está continuamente em perigo de ser enterrada pela areia em movimento. As mãos de serviço têm de estar continuamente a trabalhar para que o mármore continue indefinidamente a brilhar ao sol. A este grupo de mãos também pertencem as minhas.
A escola sempre foi o mais importante meio de transferência da riqueza da tradição de uma geração para a seguinte.

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Futuro Condicionado pelo Passado

O presente estaria cheio de todos os futuros, se j√° o passado n√£o projetasse sobre ele uma hist√≥ria. Mas, infelizmente, um √ļnico passado prop√Ķe um √ļnico futuro – projeta-o diante de n√≥s como um ponto infinito sobre o espa√ßo.

O Caminho da Verdade

Afirmo que a verdade é uma terra sem caminhos definidos, e que não a podemos abordar por qualquer caminho que seja, por nenhuma religião, por nenhum credo. Este é o meu ponto de vista, e adiro a este de forma absoluta e incondicional. A verdade, sendo ilimitada, incondicionada, inacessível por qualquer caminho que seja, não pode ser organizada; nem deve nenhuma organização ser formada para liderar ou coagir as pessoas para seguir um caminho em particular. Se entender isto, então compreenderá quanto impossível é organizar uma crença. Uma crença é uma questão puramente individual, e não é possível organizá-la. Se fizer isso, esta crença torna-se morta, cristaliza-se, tonar-se um credo, uma seita, uma religião, a ser imposta a outros.

Todos Pensam de Forma Diferente, e Muitas Vezes Efémera

Cada indiv√≠duo v√™ o mundo – e o que este tem de acabado, de regular, de complexo e de perfeito – como se se tratasse apenas de um elemento da Natureza a partir do qual tivesse que constituir um outro mundo, particular, adaptado √†s suas necessidades. Os homens mais capazes tomam-no sem hesita√ß√Ķes e procuram na medida do poss√≠vel comportar-se de acordo com ele. H√° outros que n√£o se conseguem decidir e que ficam parados a olhar para ele. E h√° ainda os que chegam ao ponto de duvidar da exist√™ncia do mundo.
Se algu√©m se sentisse tocado por esta verdade fundamental, nunca mais entraria em disputas e passaria a considerar, quer as representa√ß√Ķes que os outros possam fazer das coisas, quer a sua, como meros fen√≥menos. Porque de facto verificamos quase todos os dias que aquilo que um indiv√≠duo consegue pensar com toda a facilidade pode ser imposs√≠vel de pensar para um outro. E n√£o apenas em rela√ß√£o a quest√Ķes que tivessem uma qualquer influ√™ncia no bem estar ou no sofrimento das pessoas, mas tamb√©m a prop√≥sito de assuntos que nos s√£o totalmente indiferentes.

O Absoluto do Ser

РDeus não é bom?
– N√£o, para falar com propriedade, Deus n√£o √© bom: √©. Bom, mau, s√£o pobres palavras que se aplicam a um conjunto de regras respeitantes a alguns pormenores da nossa vida material. Porque √© que Deus seria limitado pelas nossas pobres palavras e valores? N√£o, Deus n√£o √© bom. √Č mais do que isso. √Č a forma mais rica, mais completa, mais poderosa do ser, de qualquer maneira. Torna concreta a abstrac√ß√£o mesmo da forma do ser. E penso que o ¬ęenvisagement¬Ľ do ser n√£o podia ser poss√≠vel se Deus n√£o lhe tivesse dado anteriormente o seu estado. Deus √© a cria√ß√£o. √Č pois um princ√≠pio inextingu√≠vel, n√£o orientado, a pr√≥pria vida. Lembrem-se das palavras: ¬ęEu sou Aquele que sou¬Ľ. Nenhuma outra palavra humana compreendeu e relatou melhor a forma divina. Intemporal, n√£o, nem sequer intemporal e infinita. O princ√≠pio. O facto de que h√° qualquer coisa no lugar onde n√£o havia nada.
– Mas ent√£o, Deus n√£o tem necessidade…
– E at√© mesmo para l√° de toda a express√£o. Se quiser, eu sou Deus. N√£o h√° d√ļvida a sustentar, pergunta a fazer. Voc√™ existe. Portanto √© Deus. Voc√™ n√£o pode existir de outro modo.

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Destino, Acaso ou Coincidência

Podemos muito bem, se for esse o nosso desejo, vaguear sem destino pelo vasto mundo do acaso. Que é como quem diz, sem raízes, exactamente da mesma maneira que a semente alada de certas plantas esvoaça ao sabor da brisa primaveril.
E, contudo, n√£o faltar√° ao mesmo tempo quem negue a exist√™ncia daquilo a que se convencionou chamar o destino. O que est√° feito, feito est√°, o que tem se ser tem muita for√ßa e por a√≠ fora. Por outras palavras, quer queiramos quer n√£o, a nossa exist√™ncia resume-se a uma sucess√£o de instantes passageiros aprisionados entre o ¬ętudo¬Ľ que ficou para tr√°s e o ¬ęnada¬Ľ que temos pela frente. Decididamente, neste mundo n√£o h√° lugar para as coincid√™ncias nem para as probabilidades.
Na verdade, por√©m, n√£o se pode dizer que entre esses dois pontos de vista exista uma grande diferen√ßa. O que se passa – como, de resto, em qualquer confronto de opini√Ķes – √© o mesmo que sucede com certos pratos culin√°rios: s√£o conhecidos por nomes diferentes mas, na pr√°tica, o resultado n√£o varia.

A Vida Real de um Pensamento

A vida real de um pensamento dura apenas at√© ele chegar ao limite das palavras: nesse ponto, ele lapidifica-se, morre, portanto, mas continua indestrut√≠vel, tal como os animais e as plantas f√≥sseis dos tempos pr√©-hist√≥ricos. Essa realidade moment√Ęnea da sua vida tamb√©m pode ser comparada ao cristal, no instante da cristaliza√ß√£o.
Pois, assim que o nosso pensamento encontra as palavras, ele j√° n√£o √© interno, nem est√° realmente no √Ęmago da sua ess√™ncia. Quando come√ßa a existir para os outros, ele deixa de viver em n√≥s, como o filho que se desliga da m√£e ao iniciar a pr√≥pria exist√™ncia. Mas diz tamb√©m o poeta:

N√£o me confundais com contradi√ß√Ķes!

Tão logo se fala, já se começa a errar.

A Má Consciência

РLevanta-se sempre muito cedo, sr. Spinell Рdisse a mulher do sr. Kloterjahn. Por acaso, já o vi sair duas ou três vezes de casa às sete e meia da manhã.
РMuito cedo? Oh, é preciso distinguir! Se me levanto cedo é porque, no fundo, gosto de dormir até tarde.
РExplique-nos como é isso, sr. Spinell
A senhora conselheira Spatz também desejava ser elucidada.
– Ora… se algu√©m tem o costume de se levantar cedo, parece-me, em todo o caso, que n√£o precisa de ser t√£o matinal. A consic√™ncia, minha senhora, que coisa p√©ssima que √© a consci√™ncia! Eu e os meus semelhantes andamos toda a vida √†s turras com ela, e temos um trabalh√£o para a enganarmos de vez em quando e procurar-lhe umas satisfa√ß√Ķezinhas estultas. Somos criaturas in√ļteis, eu e os meus semelhantes; fora algumas breves horas satisfat√≥rias, arrastamo-nos na certeza da nossa inutilidade, at√© ficarmos a sangrar e doentes. Odiamos o que √© √ļtil, sabendo-o vulgar e feio, e defendemos esta verdade como se defendem as verdades absolutamente necess√°rias. E, contudo, estamos t√£o corro√≠dos pela nossa m√° consci√™ncia que n√£o achamos em n√≥s um ponto s√£o.
Além disso, a maneira como vivemos interiormente,

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Quanto Mais Objectos de Interesse um Homem Tem, Mais Ocasi√Ķes Tem Tamb√©m de Ser Feliz

Toda a desilus√£o √© para mim uma doen√ßa que certas circunst√Ęncias podem tornar inevit√°vel, √© verdade, mas que, quando se produz, nem por isso deve deixar de ser tratada o mais r√°pidamente poss√≠vel, em vez de ser olhada como uma forma superior de sabedoria. Um homem, suponhamos, gosta de morangos e um outro n√£o gosta; em que √© que o √ļltimo √© superior ao primeiro? N√£o h√° nenhuma prova impessoal e abstracta de que os morangos sejam bons ou maus. Para quem gosta s√£o bons, para quem n√£o gosta s√£o maus. Mas o homem que gosta tem um prazer que o outro n√£o conhece; sobre este ponto, a sua vida √© mais agrad√°vel e est√° melhor adaptado ao mundo onde ambos t√™m de viver.

O que √© verdadeiro neste exemplo trivial √© igualmente verdade nas quest√Ķes mais importantes. O homem que gosta de assistir a desafios de futebol √© sob esse aspecto supeior ao homem que n√£o gosta. O que aprecia a leitura √© ainda mais superior do que aquele que n√£o a aprecia, pois as oportunidade de ler s√£o mais frequentes do que as de ver desafios de futebol. Quanto mais objectos de interesse um homem tem,

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A Grandiosidade do Homem Depende da Mulher, mas S√≥ Enquanto n√£o a Possui…

O homem deve √† mulher tudo quanto fez de belo, de insigne, de espantoso, porque da mulher recebeu o entusiasmo; ela √© o ser que exalta. Quantos mo√ßos imberbes, tocadores de flauta, n√£o celebraram j√° o tema? E quantas pastoras ing√©nuas n√£o o ouviram tamb√©m? Confesso a verdade quando digo que a minha alma est√° isenta de inveja e cheia de gratid√£o para com Deus; antes quero ser homem pobre de qualidades, mas homem, do que mulher – grandeza imensur√°vel, que encontra a sua felicidade na ilus√£o. Vale mais ser uma realidade, que ao menos possui uma significa√ß√£o precisa, do que ser uma abstrac√ß√£o suscept√≠vel de todas as interpreta√ß√Ķes. √Č, pois, bem verdade: gra√ßas √† mulher √© que a idealidade aparece na vida; que seria do homem, sem ela? Muitos chegaram a ser g√©nios, her√≥is, e outros santos, gra√ßas √†s mulheres que amaram; mas nenhum homem chegou a ser g√©nio por gra√ßa da mulher com quem casou; por essa, quando muito, consegue o marido ser conselheiro de Estado; nenhum homem chegou a ser her√≥i pela mulher que conquistou, porque essa apenas conseguiu que ele chegasse a general; nenhum homem chegou a ser poeta inspirado pela companheira de seus dias, porque essa apenas conseguiu que ele fosse pai;

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Poupar a Vontade

Em compara√ß√£o com o comum dos homens, poucas coisas me atingem, ou, dizendo melhor, me prendem; pois √© razo√°vel que elas atinjam, contanto que n√£o nos possuam. Tenho grande zelo em aumentar pelo estudo e pela reflex√£o esse privil√©gio de insensibilidade, que em mim √© naturalmente muito saliente. Desposo – e consequentemente me apaixono por – poucas coisas. A minha vis√£o √© clara, mas detenho-a em poucos objectos; a sensibilidade, delicada e male√°vel. Mas a apreens√£o e aplica√ß√£o, tenho-a dura e surda: dificilmente me envolvo. Tanto quanto posso, emprego-me todo em mim; por√©m mesmo nesse objecto eu refrearia e suspenderia de bom grado a minha afei√ß√£o para que ela n√£o se entregasse por inteiro, pois √© um objecto que possuo por merc√™ de outr√©m e sobre o qual a fortuna tem mais direito do que eu. De maneira que at√© a sa√ļde, que tanto estimo, ser-me-ia preciso n√£o a desejar e n√£o me dedicar a ela t√£o desenfreadamente a ponto de achar insuport√°veis as doen√ßas. Devemos moderar-nos entre o √≥dio e o amor √† voluptuosidade; e Plat√£o receita um caminho mediano de vida entre ambos.
Mas √†s paix√Ķes que me distraem de mim e me prendem alhures, a essas certamente me oponho com todas as minhas for√ßas.

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Um Amor Verdadeiro

Admitamos: o amor é um assunto que já foi falado e voltado a falar, trivializado e dramatizado ao ponto de as pessoas não saberem já o que é e o que não é. A maioria de nós não consegue vê-lo porque temos as nossas ideias preconcebidas sobre o que é (é suposto ser mais forte do que nós e arrebatar-nos) e como aparece (num embrulho alto, magro, bem-humorado e charmoso). Por isso, se o amor não aparecer envolvido na nossa fantasia, não o conseguimos reconhecer.

Mas tenho a certeza do seguinte: o amor est√° em todo o lado. √Č poss√≠vel amar e ser amado independentemente do s√≠tio onde estamos. O amor existe sob todas as formas. √Äs vezes vou at√© ao jardim da minha casa e sinto o amor a vibrar em todas as minhas √°rvores. Est√° sempre dispon√≠vel.

J√° vi tantas mulheres (incluindo eu) confundidas pela ideia de um romance, acreditando que s√≥ ser√£o pessoas completas se encontrarem algu√©m que complete as suas vidas. Se pensarmos bem, n√£o √© uma ideia maluca? Voc√™, sozinho, tem de preencher com amor esses espa√ßos vazios e destru√≠dos. Como diz Ralph Waldo Emerson: ¬ęNada lhe poder√° dar paz a n√£o ser voc√™ mesmo.¬Ľ

Nunca esquecerei o momento em que estava a limpar uma gaveta e me deparei com doze p√°ginas que me obrigaram a parar.

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A Quimera da Felicidade

(…) do alto de uma montanha, inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, atrav√©s de um nevoeiro, uma cousa √ļnica. Imagina tu, leitor, uma redu√ß√£o dos s√©culos, e um desfilar de todos eles, as ra√ßas todas, todas as paix√Ķes, o tumulto dos imp√©rios, a guerra dos apetites e dos √≥dios, a destrui√ß√£o rec√≠proca dos seres e das cousas. Tal era o espect√°culo, acerbo e curioso espect√°culo. A hist√≥ria do homem e da terra tinha assim uma intensidade que n√£o lhe podiam dar nem a imagina√ß√£o nem a ci√™ncia, porque a ci√™ncia √© mais lenta e a imagina√ß√£o mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensa√ß√£o viva de todos os tempos. Para descrev√™-la seria preciso fixar o rel√Ęmpago. Os s√©culos desfilavam num turbilh√£o, e, n√£o obstante, porque os olhos do del√≠rio s√£o outros, eu via tudo o que passava diante de mim, – flagelos e del√≠cias, – desde essa cousa que se chama gl√≥ria at√© essa outra que se chama mis√©ria, e via o amor multiplicando a mis√©ria, e via a mis√©ria agravando a debilidade. A√≠ vinham a cobi√ßa que devora, a c√≥lera que inflama, a inveja que baba,

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O Que é a Inspiração?

Eu n√£o sei o que √© a inspira√ß√£o. Mas tamb√©m a verdade √© que √†s vezes n√≥s usamos conceitos que nunca paramos a examinar. Vamos l√° a ver: imaginemos que eu estou a pensar determinado tema e vou andando, no desenvolvimento do racioc√≠nio sobre esse tema, at√© chegar a uma certa conclus√£o. Isto pode ser descrito, posso descrever os diversos passos desse trajecto, mas tamb√©m pode acontecer que a raz√£o, em certos momentos, avance por saltos; ela pode, sem deixar de ser raz√£o, avan√ßar t√£o rapidamente que eu n√£o me aperceba disso, ou s√≥ me aperceba quando ela tiver chegado ao ponto a que, em circunst√Ęncias diferentes, s√≥ chegaria depois de ter passado por todas essas fases.
Talvez, no fundo, isso seja inspiração, porque há algo que aparece subitamente; talvez isso possa chamar-se também intuição, qualquer coisa que não passa pelos pontos de apoio, que saltou de uma margem do rio para a outra, sem passar pelas pedrinhas que estão no meio e que ligam uma à outra. Que uma coisa a que nós chamamos razão funcione desta maneira ou daquela, que funcione com mais velocidade ou que funcione de forma mais lenta e que eu posso acompanhar o próprio processo,

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A Racionaliza√ß√£o das Emo√ß√Ķes

O ponto de vista feminino tem sido muito mais difícil de expressar que o masculino. Se assim me posso exprimir, o ponto de vista feminino não passa pela racionalização por que o intelecto do homem faz passar os seus sentimentos. A mulher pensa emocionalmente; a sua visão baseia-se na intuição. Por exemplo, ela pode ter um sentimento em relação a qualquer coisa que nem sequer é capaz de articular.
A princ√≠pio, achei extremamente dif√≠cil descrever como me sentia. Por√©m, se fazemos psican√°lise, a quest√£o √© sempre: ¬ęComo √© que se sentiu em rela√ß√£o a isso?¬Ľ e n√£o ¬ęO que √© que pensou?¬Ľ E como muito frequentemente a mulher n√£o deu o segundo passo, que √© explicar a sua intui√ß√£o – por que passos l√° chegou, o a-b-c daquilo – ela n√£o consegue ser t√£o articulada.
Ora eu tentei fazer isso (quer tenha conseguido quer n√£o), e, porque estava a escrever um di√°rio que pensava que ningu√©m leria, consegui anotar o que sentia acerca das pessoas ou o que sentia acerca do que via sem o segundo processo. O segundo processo veio atrav√©s da psican√°lise, que era igualmente um m√©todo de comunicar com o homem em termos de uma racionaliza√ß√£o das nossas emo√ß√Ķes de modo que pare√ßam fazer sentido ao intelecto masculino.

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Humanismo e Liberalismo

O termo humanismo √© infelizmente uma palavra que serve para designar as correntes filos√≥ficas, n√£o somente em dois sentidos, mas em tr√™s, quatro, cinco ou seis. Toda a gente √© humanista na hora que passa, at√© mesmo certos marxistas que se descobrem racionalistas cl√°ssicos, s√£o humanistas num enfadonho sentido, derivado das ideias liberais do √ļltimo s√©culo, o dum liberalismo refractado atrav√©s de toda a crise actual. Se os marxistas podem pretender ser humanistas, as diferentes religi√Ķes, os crist√£os, os hindus, e muitos outros afirmam-se tamb√©m antes de mais humanistas, como por sua vez o existencialista, e de um modo geral, todas as filosofias. Actualmente muitas correntes pol√≠ticas se reivindicam igualmente um humanismo. Tudo isso converge para uma esp√©cie de tentativa de restabelecimento duma filosofia que, apesar da sua pretens√£o, recusa no fundo comprometer-se, e recusa comprometer-se, n√£o somente no ponto de vista pol√≠tico e social, mas tamb√©m num sentido filos√≥fico profundo.

Se o cristianismo se pretende antes de tudo humanista, √© porque ele n√£o pode comprometer-se, quer dizer participar na luta das for√ßas progressivas, porque se mant√©m em posi√ß√Ķes reaccion√°rias frente a esta revolu√ß√£o. Quando os pseudomarxistas ou os liberais se reclamam da pessoa antes do mais, √© porque eles recuam diante das exig√™ncias da situa√ß√£o presente no mundo.

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