Textos sobre Próprio

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Textos de próprio escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Disputas Empobrecedoras

As disputas deviam ser regulamentadas e punidas como outros crimes verbais. Que defeitos n√£o suscitam e acumulam em n√≥s, reguladas e governadas como s√£o pela c√≥lera! Come√ßamos por ser inimigos das raz√Ķes e acabamos por o ser dos homens. S√≥ aprendemos a discutir para contraditar, e, √† for√ßa de se contraditar e ser-se contraditado, vem a acontecer que o fruto do discutir √© perder e aniquilar-se a verdade. Assim, Plat√£o, na Rep√ļblica, pro√≠be o seu exerc√≠cio aos esp√≠ritos ineptos e mal formados.
Porque nos havemos de p√īr a caminho, para descobrir a verdade, com quem n√£o tem passo nem andamento que sirvam? N√£o se prejudica o assunto quando o deixamos para procurar o meio de o tratarmos; n√£o falo dos meios escol√°sticos e artificiais, falo dos meios naturais, dum entendimento s√£o. Que suceder√° por fim? Cada um puxa para o seu lado; perdem de vista o essencial, p√Ķem-no de parte na confus√£o do acess√≥rio.
No fim de uma hora de tormenta j√° n√£o sabem o que procuram; um est√° em cima, outro em baixo, outro para o lado. Uns demoram-se com as palavras e com as compara√ß√Ķes; outros n√£o entendem o que se lhes objecta, tanto se entusiasmam: s√≥ pensam neles,

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A Escolha Inteligente

Uma vida bem sucedida depende das escolhas que fizermos. Temos de saber o que √© ou n√£o importante para n√≥s. A escolha inteligente implica um sentido realista dos valores e um sentido realista das propor√ß√Ķes. Este processo de escolha – de aceita√ß√£o por um lado e de rejei√ß√£o pelo outro – come√ßa na inf√Ęncia e continua pela vida fora. N√£o podemos ter tudo o que ambicionamos. O homem de neg√≥cios que procura o sucesso financeiro tem muitas vezes de abandonar os seus interesses de ordem desportiva ou cultural. Os que preferem servir os interesses espirituais, culturais ou pol√≠ticos da sociedade – sacerdotes, escritores, artistas, militares, homens de estado e funcion√°rios p√ļblicos em geral – t√™m quase sempre de relegar para segundo plano o bem-estar financeiro.
Com uma vida limitada não podemos ser ou fazer tudo. Estamos constantemente a ter de escolher com que e com quem passar o nosso tempo. Cultivar amizades toma tempo. Às vezes temos de recusar encontros e desapontar muitas pessoas para termos tempo de alcançar os nossos fins. Todos os dias temos de escolher entre as coisas que estão à venda. Não podemos ter o mundo inteiro, tal como uma criança não pode comprar todos os rebuçados da doçaria se tiver apenas um tostão.

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A Minha √ļnica Felicidade √©s Tu

At√© agora ainda nada te disse da nossa vida de fam√≠lia. Devo dizer-te algumas palavras para que saibas com que contar. Temos uma vida muito tranquila, vida que sempre desejei e a que estou realmente habituado. A m√ļsica ou o teatro v√™m por vezes interromper a monotonia desta vida quase mon√°stica. Quando vieres faremos mais ou menos a mesma vida interrompendo no entanto a monotonia pelo teatro, pequenos ser√Ķes musicais e mesmo dan√ßantes se isso te agradar. Sem isso passaremos os nossos ser√Ķes ao lado um do outro a conversar e a dar gra√ßas ao bom Deus pela nossa felicidade. Devo tamb√©m falar-te dos meus gostos e das minhas qualidades tanto quanto posso conhec√™-los. Sou um grande fumador, um ca√ßador bastante bom, apaixonado pela m√ļsica e dan√ßarino med√≠ocre. Quanto √†s qualidades e aos defeitos, j√° que todos os temos, tenho mais dificuldade em falar deles, j√° que ningu√©m √© bom juiz em causa pr√≥pria. Contudo todas as minhas qualidades se fundir√£o numa s√≥, a de te adorar e n√£o amar a mais ningu√©m no mundo, anjo da minha vida. Quando estivermos unidos, s√≥ viveremos juntos, onde um ir√°, o outro seguir√°, o que um quiser o outro tamb√©m h√°-de querer.

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As Pessoas Só Crescem ao Ritmo a que São Obrigadas

Os jovens de agora parece que t√™m dificuldade em crescer. N√£o sei porqu√™. Se calhar as pessoas s√≥ crescem ao ritmo a que s√£o obrigadas. Um primo meu, com dezoito anos, j√° tinha as insign√≠as de auxiliar do xerife. Era casado e tinha um filho. Tive um amigo de inf√Ęncia que, com a mesma idade, j√° tinha sido ordenado sacerdote baptista. Era pastor de uma igrejinha rural, muito antiga. Ao fim de uns tr√™s anos foi transferido para Lubbock e, quando disse √†s pessoas que se ia embora, elas desataram todas a chorar, ali sentadas no banco da igraja. Homens e mulheres, todos em l√°grimas. Tinha celebrado casamento, baptizados, funerais. Com vinte e um anos, talvez vinte e dois. Quando pregava os seus serm√Ķes, a assist√™ncia era tanta que havia gente de p√© no adro a ouvir. Fiquei espantado. Na escola ele era sempre t√£o calado.
(…) A Loretta contou-me que ouviu falar na r√°dio de uma certa percentagem de crian√ßas deste pa√≠s que est√° a ser criada pelos av√≥s. J√° n√£o me lembro do n√ļmero. Era bastante alto, pareceu-me. Os pais n√£o querem ter esse trabalho. Convers√°mos sobre isso. Demos connosco a pensar que quando a pr√≥xima gera√ß√£o crescer e tamb√©m j√° n√£o quiser criar os filhos,

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As Pessoas Riam-se de Mim

A minha susceptibilidade a certo tipo de sustos (medo) era grande. Na rua, um homem caminhando na minha direcção, isto é, na direcção contrária, tirou da algibeira um lenço à minha frente; comecei de imediato a pensar, inconscientemente, acho, que estava a tirar uma arma ou um revólver.
A minha vista curta ‚ÄĒ nem sempre, mas excessivamente no que respeita aos tra√ßos das pessoas, aos gestos ‚ÄĒ afectava o meu c√©rebro desequilibrado. A minha imagina√ß√£o interpretava mal o car√°cter dos seus olhares. Distorcia, n√£o sabia explicar porqu√™, a inten√ß√£o e o significado dos seus gestos. O meu pr√≥prio sentido de audi√ß√£o era d√©bil; aplicava a mim pr√≥prio, retorcendo-as, as palavras que captava. Via em cada palavra um termo destinado a ofender-me, em cada frase, mal apanhada, a sombra e o vislumbre de um insulto.
As pessoas na rua riam-se: riam-se de mim. A minha vista d√©bil n√£o me deixava destruir esta ilus√£o. N√£o me atrevia a p√īr os √≥culos que tinha no bolso, pois temia que as minhas desconfian√ßas se revelassem fundadas.
Ansiava por ter uma grande auto-estima, para que a minha pessoa me fizesse esquecer de mim pr√≥prio. Desejava, oh, como desejava! ‚ÄĒ o impulso de me dedicar aos outros para que eles me fizessem esquecer de mim.

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O Homem de Car√°cter

Os homens de car√°cter s√£o a consci√™ncia da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa for√ßa √© a resist√™ncia √†s circunst√Ęncias. Os homens impuros julgam a vida pela vers√£o reflectida nas opini√Ķes, nos acontecimentos e nas pessoas. N√£o s√£o capazes de prever a ac√ß√£o at√© que ela se concretize. Todavia, o elemento moral da ac√ß√£o preexistia no autor e a sua qualidade, boa ou m√°, era de f√°cil predi√ß√£o. Tudo na natureza √© bipolar, ou tem um p√≥lo positivo e um p√≥lo negativo. H√° um macho e uma f√™mea, um esp√≠rito e um facto, um norte e um sul. O esp√≠rito √© o positivo, o facto √© o negativo. A vontade √© o norte, a ac√ß√£o √© o p√≥lo sul. O car√°cter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magn√©ticas do sistema. Os esp√≠ritos fracos s√£o atra√≠dos para o p√≥lo sul, ou p√≥lo negativo. S√≥ v√™em na ac√ß√£o o lucro, ou o preju√≠zo que podem encerrar.

Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de carácter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas;

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Uma Mulher sem Areia Nenhuma

Tenho o santo horror da frieza calculada, da boa educa√ß√£o, do prudente ju√≠zo duma mulher. Aos homens pertence tudo isso, e a mulher deve ser muito feminina, muito espont√Ęnea, muito cheia de pequeninos nadas que encantem e que embalem. Meu amigo, se esperas ter uma mulher sem areia nenhuma, morres de aborrecimento e de frio ao p√© dela e n√£o ser√° com certeza ao p√© de mim… Comigo h√°s-de ter sempre que pensar e que fazer. H√°s-de rir das minhas tolices, h√°s-de ralhar quando elas passarem a disparates (h√£o-de ser pequeninos…) e h√°s-de gostar mais de mim assim, do que se eu fosse a pr√≥pria deusa Minerva com todo o ju√≠zo que todos os deuses lhe deram.

Nunca se Escreve para Si Mesmo

O escritor não prevê nem conjectura: projecta. Acontece por vezes que espera por si mesmo, que espera pela inspiração, como se diz. Mas não se espera por si mesmo como se espera pelos outros; se hesita, sabe que o futuro não está feito, que é ele próprio que o vai fazer, e, se não sabe ainda o que acontecerá ao herói, isto quer simplesmente dizer que não pensou nisso, que não decidiu nada; então, o futuro é uma página branca, ao passo que o futuro do leitor são as duzentas páginas sobrecarregadas de palavras que o separam do fim.

Assim, o escritor só encontra por toda a parte o seu saber, a sua vontade, os seus projectos, em resumo, ele mesmo; atinge apenas a sua própria subjectividade; o objecto que cria está fora de alcance; não o cria para ele. Se relê o que escreveu, já é demasiado tarde; a sua frase nunca será a seus olhos exactamente uma coisa. Vai até aos limites do subjectivo, mas sem o transpor; aprecia o efeito dum traço, duma máxima, dum adjectivo bem colocado; mas é o efeito que produzirão nos outros; pode avaliá-lo, mas não senti-lo.
Proust nunca descobriu a homossexualidade de Charlus,

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Parar de Pensar

O maior obstáculo à experimentação da realidade da ligação do leitor é a sua identificação com a mente, que faz com que o pensamento se torne compulsivo. Não ser capaz de parar de pensar é um padecimento terrível, porém não nos apercebemos deste facto porque quase toda a gente sofre dessa mesma maleita, sendo por isso considerado normal. Este ruído mental incessante impede o leitor de encontrar esse reino de calma interior que é inseparável do Ser. Gera ainda um eu falso engendrado pela mente que lança uma sombra de medo e sofrimento.

A identifica√ß√£o do leitor com a sua mente cria uma divis√≥ria opaca de conceitos, r√≥tulos, imagens, palavras, ju√≠zos e defini√ß√Ķes, que bloqueia todo o relacionamento verdadeiro. Interp√Ķe-se entre o pr√≥prio leitor, entre o leitor e o pr√≥ximo, entre o leitor e a sua natureza, entre o leitor e Deus. √Č esta divis√≥ria de pensamento que gera a ilus√£o de afastamento, a ilus√£o de que h√° o leitor e um ¬ęoutro¬Ľ completamente distinto. Nessa altura, o leitor esquece o facto essencial de que, sob o n√≠vel da apar√™ncia f√≠sica e das formas separadas, o leitor √© uno com tudo o que existe.

A mente é um instrumento maravilhoso se usado adequadamente.

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Os Conselhos Mais Absurdos

As pessoas trocavam os conselhos mais absurdos. Incapazes de se escutarem, passavam as conversas a falar de si pr√≥prias, em apaixonadas manifesta√ß√Ķes de egotismo que tornavam insuport√°veis at√© os encontros mais promissores. Para al√©m de tudo, bastava um homem em sarilhos rom√Ęnticos manifestar o seu desespero, que logo irrompia, de entre os amigos, os conhecidos e os conhecidos de conhecidos, uma s√©rie de vampiros com uma esp√©cie de amor√≥metro na m√£o, determinados a provar a inexist√™ncia da gra√ßa (¬ęN√£o. isso n√£o √© amor. N√£o a amas. N√£o amas tu, nem te ama ela a ti¬Ľ), na ignor√Ęncia absoluta da multiplicidade de formas que o amor assume e no desejo incontido de limitar o mundo √†s escassas emo√ß√Ķes suscept√≠veis de penetrarem a coura√ßa da sua apatia.

Instinto de Sociabilidade

O instinto de sociabilidade de cada um est√° na propor√ß√£o inversa da sua idade. A criancinha solta gritos de medo e de dor, lamentando ter sido deixada sozinha por alguns minutos. Para jovens rapazes, estar sozinho √© uma grande penit√™ncia. Os adolescentes reunem-se com facilidade: s√≥ os mais nobres e mais dotados de esp√≠rito j√° procuram, √†s vezes, a solid√£o. Contudo, passar um dia inteiro sozinhos ainda lhes √© penoso. Para o homem adulto, todavia, isso √© f√°cil: ele consegue passar bastante tempo sozinho, e tanto mais quanto mais avan√ßa nos anos. O anci√£o, √ļnico sobrevivente de gera√ß√Ķes desaparecidas, encontra na solid√£o o seu elemento pr√≥prio, em parte porque j√° ultrapassou a idade de sentir os prazeres da vida, em parte porque j√° est√° morto para eles. Entretanto, em cada indiv√≠duo, o aumento da inclina√ß√£o para o isolamento e a solid√£o ocorrer√° em conformidade com o seu valor intelectual.
Pois tal tend√™ncia, como dito, n√£o √© puramente natural, produzida directamente pela necessidade, mas, antes, s√≥ um efeito da experi√™ncia vivida e da reflex√£o sobre ela, sobretudo da intelec√ß√£o adquirida a respeito da miser√°vel √≠ndole moral e intelectual da maioria dos homens. O que h√° de pior nesse caso √© o facto de as imperfei√ß√Ķes morais e intelectuais do indiv√≠duo conspirarem entre si e trabalharem de m√£os dadas,

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Saber Sair na Hora Certa

N√£o esperar at√© ser sol poente. √Č m√°xima do cordo deixar as coisas antes que elas o deixem. Que se saiba converter em triunfo o pr√≥prio fenecer, pois √†s vezes mesmo o sol, ainda brilhante, costuma retirar-se numa nuvem para que n√£o o vejamos cair, e nos deixa suspensos, n√£o sabendo se ele se p√īs ou n√£o. Furte-se aos ocasos para n√£o rebentar de desdouros; n√£o espere que lhe voltem as costas, porque o sepultar√£o vivo para o sentimento e morto para a estima. O atilado dispensa a tempo o cavalo em que corre, e n√£o espera que, caindo, fa√ßa erguer-se o riso no meio da corrida; que a beleza quebre o espelho com tempo e com ast√ļcia, e n√£o com impaci√™ncia depois, ao ver o seu desengano.

O Significado dos Sonhos

Os meu sonhos eram de muitas esp√©cies mas representavam manifesta√ß√Ķes de um √ļnico estado de alma. Ora sonhava ser um Cristo, a sacrificar-me para redimir a humanidade, ora um Lutero, a quebrar com todas as conven√ß√Ķes estabelecidas, ora um Nero, mergulhado em sangue e na lux√ļria da carne. Ora me via numa alucina√ß√£o o amado das multid√Ķes, aplaudido, desfilando ao longo (…), ora o amado das mulheres, atraindo-as arrebatadoramente para fora das suas casas, dos seus lares, ora o desprezado por todos embora o eleito do bem, por todos a sacrificar-me. Tudo o que lia, tudo o que ouvia, tudo o que via ‚ÄĒ cada ideia vinda de fora, cada (…), cada acontecimento era o ponto de partida de um sonho. Vinha de um circo e ficava em casa ousando imaginar-me um palha√ßo, com luzes em arco √† minha volta. Via soldados passarem na minha mente a falarem com uma vis√£o de mim pr√≥prio, tratando-me por capit√£o, chefiando, ordenando, vitorioso. Quando lia algo acerca de aventureiros imediatamente me convertia neles, por completo. Quando lia algo acerca de criminosos, morria por cometer crimes at√© me apavorar com o meu desarranjo mental. Conforme as coisas que via, ou ouvia, ou lia, vivia em todas as classes sociais,

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Os Méritos Invisíveis

H√° certos m√©ritos em n√≥s que nunca, como resultado de uma obra produzida, a n√≥s pr√≥prios saltam √† vista, nem mesmo na reac√ß√£o do mundo se tornam percept√≠veis; e, no entanto, s√£o esses os mais valiosos e o tomar consci√™ncias deles levaria o nosso sangue a correr mais leve: captar e devolver essas radia√ß√Ķes constitui a mais delicada tarefa da amizade.

O Inventário da Nossa Civilização

Fazer o invent√°rio ou uma an√°lise da nossa civiliza√ß√£o, quer dizer o qu√™? Procurar esclarecer, de uma maneira rigorosa, a armadilha que fez do homem escravo das suas pr√≥prias cria√ß√Ķes. Por onde se infiltrou a inconsci√™ncia entre a ac√ß√£o e o pensamento met√≥dicos? Na vida selvagem, a evas√£o constitui uma solu√ß√£o pregui√ßosa. √Č preciso reencontrar, na pr√≥pria civiliza√ß√£o em que vivemos, o pacto original entre o esp√≠rito e o mundo. De resto, trata-se de uma tarefa imposs√≠vel de concretizar, por causa da brevidade da vida e da impossibilidade da colabora√ß√£o e da sucess√£o. O que n√£o √© raz√£o para n√£o a empreender. Estamos todos em situa√ß√£o an√°loga √† de S√≥crates, o qual, enquanto esperava a morte na pris√£o, aprendeu a tocar lira… pelo menos, teremos vivido…

O Livre Arbítrio

Um homem é dotado de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a queria outrora, excepto na medida em que completa a sua vontade de outrora, vivendo.
Em segundo lugar, é livre pelo facto de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, √© livre pelo facto de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar atrav√©s da vida e de chegar assim a ele pr√≥prio e isso por um caminho que pode sem d√ļvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto t√£o complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os tês aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo.

O Começo de Todas as Histórias

O come√ßo de todas as hist√≥rias √©, no princ√≠pio, rid√≠culo. Parece n√£o haver esperan√ßa de que esta coisa acabada de nascer, ainda incompleta e tenra em todas as suas articula√ß√Ķes, seja capaz de se manter viva na organiza√ß√£o completa do mundo, que, como todas as organiza√ß√Ķes completas, luta por se fechar. Contudo, n√£o podemos esquecer que a hist√≥ria, se tiver uma justifica√ß√£o para existir, tem dentro de si a sua pr√≥pria organiza√ß√£o completa at√© antes de estar completamente formada; por esta raz√£o n√£o h√° motivo para desesperar com o princ√≠pio de uma hist√≥ria; num caso semelhante, os pais teriam de desesperar com o beb√© porque n√£o tinham nenhuma inten√ß√£o de trazer para o mundo este ser rid√≠culo e pat√©tico.
√Č claro que nunca sabemos se h√° raz√£o ou n√£o para o desespero que sentimos. Mas reflectindo sobre isso podemos obter um certo apoio; sofri anteriormente da falta deste conhecimento.

Depender de Alguém

Depender de alguém, das ideias dos outros ou das filosofias das massas é negar a nossa própria existência, é abdicar totalmente do poder que nos foi concedido à nascença e a mais profunda ingratidão para com a oportunidade que nos foi dada de aqui estar. Como já o disse, cada um de nós é um ser especial e precioso, com responsabilidades pessoais e sociais diferentes de todos os outros. Cada um de nós pode fazer a diferença.
Quantas vezes já deixaste de arriscar porque não to permitiram? Quantas vezes já sonhaste com algo diferente daquilo que te foi imposto ou ensinado e por isso desististe? Quantas vezes foste feliz por depender de algo ou alguém?
Muitas pessoas optam, conscientemente, pela depend√™ncia por acharem que a vida se torna mais f√°cil nesse estado de submiss√£o. Na verdade n√£o lhes √© exigido que lutem por nada, por ningu√©m e, muito menos, por elas. Agora, pergunto eu, que interesse √© que isto tem? Esta gente, apesar de respirar e dar ares da sua gra√ßa, j√° morreu e s√≥ anda aqui a fazer figura de corpo presente, pois as suas vidas j√° n√£o s√£o desafiantes. Ser dependente √© ter medo de assumir o risco das suas paix√Ķes,

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