Textos sobre Segundos

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Textos de segundos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Felicidade é tão Cansativa como a Infelicidade

Toda a gente tem o seu m√©todo de interpretar a seu favor o balan√ßo das suas impress√Ķes, para que da√≠ resulte de algum modo aquele m√≠nimo de prazer necess√°rio √†s suas exist√™ncias quotidianas, o suficiente em tempos de normalidade. O prazer da vida de cada um pode ser tamb√©m constitu√≠do por desprazer, essas diferen√ßas de ordem material n√£o t√™m import√Ęncia; sabemos que existem tantos melanc√≥licos felizes como marchas f√ļnebres, que pairam t√£o suavemente no elemento que lhes √© pr√≥prio como uma dan√ßa no seu. Talvez tamb√©m se possa afirmar, ao contr√°rio, que muitas pessoas alegres de modo nenhum s√£o mais felizes do que as tristes, porque a felicidade √© t√£o cansativa como a infelicidade; mais ou menos como voar, segundo o princ√≠pio do mais leve ou mais pesado do que o ar. Mas haveria ainda uma outra objec√ß√£o: n√£o ter√° raz√£o aquela velha sabedoria dos ricos segundo a qual os pobres n√£o t√™m nada a invejar-lhes, j√° que √© pura fantasia a ideia de que o seu dinheiro os torna mais felizes? Isso s√≥ lhes imporia a obriga√ß√£o de encontrar um sistema de vida diferente do seu, cujo or√ßamento, em termos de prazer, fecharia apenas com um m√≠nimo excedente de felicidade,

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Qualquer Conhecimento Vem a Partir da Experiência

Qualquer conhecimento vem a partir da experi√™ncia. Compreendam que aquele que s√≥ quisesse consultar o seu esp√≠rito e fechar todos os seus sentidos n√£o poderia pensar absolutamente nada; encontraria ainda menos nessa medita√ß√£o somente interior alguma verdade relativa ao mundo… na massa dos nossos conhecimentos, que n√£o passam da massa das nossas experi√™ncias, deve-se contudo distinguir os que se baseiam na constata√ß√£o segundo as regras, isto √©, com avalia√ß√Ķes, repeti√ß√Ķes, testemunhos, provas e contraprovas, e os que s√£o poss√≠veis de provar ou demonstrar √† maneira do ge√≥metra.

O Estilo é um Reflexo da Vida

Qual a causa que provoca, em certas √©pocas, a decad√™ncia geral do estilo ? De que modo sucede que uma certa tend√™ncia se forma nos esp√≠ritos e os leva √† pr√°tica de determinados defeitos, umas vezes uma verborreia desmesurada, outras uma linguagem sincopada quase √† maneira de can√ß√£o? Porque √© que umas vezes est√° na moda uma literatura altamente fantasiosa para l√° de toda a verosimilhan√ßa, e outras a escrita em frases abruptas e com segundo sentido em que temos de subentender mais do que elas dizem? Porque √© que nesta ou naquela √©poca se abusa sem restri√ß√Ķes do direito √† met√°fora? Eis o rol dos problemas que me p√Ķes. A raz√£o de tudo isto √© t√£o bem conhecida que os Gregos at√© fizeram dela um prov√©rbio: o estilo √© um reflexo da vida! De facto, assim como o modo de agir de cada pessoa se reflecte no modo como fala, tamb√©m sucede que o estilo liter√°rio imita os costumes da sociedade sempre que a moral p√ļblica √© contestada e a sociedade se entrega a sofisticados prazeres. A corrup√ß√£o do estilo demonstra plenamente o estado de dissolu√ß√£o social, caso, evidentemente, tal estilo n√£o seja apenas a pr√°tica de um ou outro autor,

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O Mundo Transformado em Poder da Palavra

O poema √© um objecto carregado de poderes magn√≠ficos, terr√≠ficos: posto no s√≠tio certo, no instante certo, segundo a regra certa, promove uma desordem e uma ordem que situam o mundo num ponto extremo: o mundo acaba e come√ßa. Ali√°s n√£o √© exactamente um objecto, o poema, mas um utens√≠lio: de fora parece um objecto, tem as suas qualidades tang√≠veis, n√£o √© por√©m nada para ser visto mas para manejar. Manejamo-lo. Ac√ß√£o, temos aquela ferramenta. A ac√ß√£o √© a nossa pergunta √† realidade: e a resposta, encontramo-la a√≠: na repentina desordem luminosa em volta, na ordem da ac√ß√£o respondida por uma esp√©cie de motim, um deslocamento de tudo: o mundo torna-se um facto novo no poema, por virtude do poema ‚ÄĒ uma realidade nova. Quando apenas se diz que o poema √© um objecto, confunde-se, simplifica-se; parece realmente um objecto, sim, mas porque o mundo, pela ac√ß√£o dessa forma cheia de poderes, se encontra nela inscrito: √© registo e resultado dos poderes. E temos essa forma: a forma que vemos, ei-la: respira pulsa move-se ‚ÄĒ √© o mundo transformado em poder da palavra, em palavra objectiva inventada em irrealidade objectiva. Se dizemos simplesmente: √© um objecto ‚ÄĒ inserimos no elenco de emblemas que nos rodeia um equ√≠voco melindroso,

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Uma Alma Grande e Corajosa

Um esp√≠rito corajoso e grande √© reconhecido principalmente devido a duas caracter√≠sticas: uma consiste no desprezo pelas coisas exteriores, na convic√ß√£o de que o homem, independentemente do que √© belo e conveniente, n√£o deve admirar, decidir ou escolher coisa alguma nem deixar-se abater por homem algum, por qualquer quest√£o espiritual ou simplesmente pela m√° fortuna. A outra consiste no facto – especialmente quando o esp√≠rito √© disciplinado na maneira acima referida – de se dever realizar feitos, n√£o s√≥ grandes e seguramente, bastante √ļteis, mas ainda em grande n√ļmero, √°rduos e cheios de trabalhos e perigos, tanto para a vida como para as muitas coisas que √† vida interessam.
Todo o esplendor, toda a dimensão (devo acrescentar ainda a utilidade), pertencem à segunda destas duas características; porém, a causa e o princípio eficiente, que os tornam homens grandes, à primeira.
Naquela est√°, com efeito, aquilo que torna os esp√≠ritos excelentes e desdenhosos das coisas humanas. Na verdade, pode isto ser reconhecido por duas condi√ß√Ķes: em primeiro lugar, se estimares alguma coisa como sendo boa unicamente porque √© honesta, em segundo lugar, se te encontrares livre de toda a perturba√ß√£o de esp√≠rito. Consequentemente, o facto de se ter em pouca conta aquelas coisas humanas e de se desprezar,

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O Paradoxo da Representação da Realidade

Farei, por√©m, um esfor√ßo para vos dar aquela realidade que voc√™s julgam ter, ou seja, esfor√ßar-me-ei por vos querer em mim como voc√™s se querem. J√° sabemos que n√£o √© poss√≠vel, dado que, por mais esfor√ßos que eu fa√ßa para vos representar √† vossa maneira, ser√° sempre ¬ę√† vossa maneira¬Ľ apenas para mim, n√£o ¬ę√† vossa maneira¬Ľ para voc√™s e para os outros.
Mas desculpem: se para voc√™s eu n√£o tenho outra realidade fora daquela que voc√™s me d√£o, e estou pronto a reconhecer e a admitir que essa n√£o √© menos verdadeira que a que eu poderei dar a mim mesmo, que essa, para voc√™s, √© a √ļnica verdadeira (e sabe Deus a realidade que voc√™s me d√£o!), v√£o lamentar-se agora da realidade que eu lhes darei, esfor√ßando-me, com toda a boa vontade, por vos representar √† vossa maneira tanto quanto me seja poss√≠vel?
N√£o presumo que voc√™s sejam como eu vos represento. J√° disse que voc√™s tamb√©m n√£o s√£o aquele um tal como o representam para voc√™s pr√≥prios, mas muitos ao mesmo tempo, segundo todas as vossas possibilidades de ser e os acasos, as rela√ß√Ķes e as circunst√Ęncias. Ent√£o, que mal √© que eu vos fiz?

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O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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O Despotismo do Homem Vulgar

A hist√≥ria europ√©ia parece, pela primeira vez, entregue √† decis√£o do homem vulgar como tal. Ou dito em voz activa: o homem vulgar, antes dirigido, resolveu governar o mundo. Esta resolu√ß√£o de avan√ßar para o primeiro plano social produziu-se nele, automaticamente, mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. Se, atendendo aos defeitos da vida p√ļblica, estuda-se a estrutura psicol√≥gica deste novo tipo de homem-massa, encontra-se o seguinte: 1¬ļ, uma impress√£o nativa e radical de que a vida √© f√°cil, abastada, sem limita√ß√Ķes tr√°gicas; portanto, cada indiv√≠duo m√©dio encontra em si mesmo uma sensa√ß√£o de dom√≠nio e triunfo que, 2¬ļ, convida-o a afirmar-se a si mesmo tal qual √©, a considerar bom e completo o seu haver moral e intelectual. Este contentamento consigo mesmo leva-o a fechar-se em si mesmo para toda a inst√Ęncia exterior, a n√£o ouvir, a n√£o p√īr em tela de ju√≠zo as suas opini√Ķes e a n√£o contar com os demais. A sua sensa√ß√£o √≠ntima de dom√≠nio incita-o constantemente a exercer predom√≠nio. Actuar√°, pois, como se somente ele e os seus cong√©neres existissem no mundo; portanto, 3¬ļ, intervir√° em tudo impondo a sua vulgar opini√£o, sem considera√ß√Ķes, contempla√ß√Ķes, tr√Ęmites nem reservas; quer dizer,

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O Nosso Infinito

H√° ou n√£o um infinito fora de n√≥s? √Č ou n√£o √ļnico, imanente, permanente, esse infinito; necessariamente substancial pois que √© infinito, e que, se lhe faltasse a mat√©ria, limitar-se-ia √†quilo; necess√°riamente inteligente, pois que √© infinito, e que, se lhe faltasse a intelig√™ncia, acabaria ali? Desperta ou n√£o em n√≥s esse infinito a ideia de ess√™ncia, ao passo que n√≥s n√£o podemos atribuir a n√≥s mesmos sen√£o a ideia de exist√™ncia? Por outras palavras, n√£o √© ele o Absoluto, cujo relativo somos n√≥s?
Ao mesmo tempo que fora de n√≥s h√° um infinito n√£o h√° outro dentro de n√≥s? Esses dois infinitos (que horroroso plural!) n√£o se sobrep√Ķem um ao outro? N√£o √© o segundo, por assim dizer, subjacente ao primeiro? N√£o √© o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo conc√™ntrico a outro abismo? Este segundo infinito n√£o √© tamb√©m inteligente? N√£o pensa? N√£o ama? N√£o tem vontade? Se os dois infinitos s√£o inteligentes, cada um deles tem um princ√≠pio volante, h√° um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o h√° no infinito de baixo. O eu de baixo √© a alma; o eu de cima √© Deus.
P√īr o infinito de baixo em contacto com o infinito de cima,

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A Dificuldade de Estabelecer e Firmar Rela√ß√Ķes

A dificuldade de estabelecer e firmar rela√ß√Ķes. H√° uma t√©cnica para isso, conhe√ßo-a. Nunca pude meter-me nela. Ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ. √Č realmente f√°cil: prestabilidade, autodom√≠nio. Mas. Ser soci√°vel exige um esfor√ßo enorme ‚ÄĒ f√≠sico. Quem se habituou, j√° se n√£o cansa. Tudo se passa √† superf√≠cie do esfor√ßo. Ter ¬ępersonalidade¬Ľ: n√£o descer um mil√≠metro no trato, mesmo quando por delicadeza se finge. Assumirmos a import√Ęncia de n√≥s sem o mostrar. Darmo-nos valor sem o exibir. Irresistivelmente, agacho-me. E logo: a pata dos outros em cima. Bem feito. Pois se me pus a jeito. E ent√£o reponto. O fim. Ser prest√°vel, colaborar nas tarefas que os outros nos inventam. Col√≥quios, confer√™ncias, organiza√ß√Ķes de. Ah, ser-se um ¬ęin√ļtil¬Ľ (um ¬ęparasita¬Ľ…). Raz√Ķes profundas ‚ÄĒ um complexo duplo que vem da juventude: incompreens√£o do irm√£o corpo e da bolsa paterna. O segundo remediou-se. Tenho desprezo pelo dinheiro. Ligo t√£o pouco ao dinheiro que nem o gasto… Mas ¬ęgastar¬Ľ faz parte da ¬ępersonalidade¬Ľ. Sa√ļde ‚ÄĒ mais dif√≠cil. Este ar apeur√© que vem logo ao de cima. A √ļnica defesa, obviamente, √© o resguardo, o isolamento, a medida.
√Č f√°cil ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ, dif√≠cil √© perseverar, assumir o artif√≠cio da facilidade. Conservar os amigos. ¬ęN√£o √©s capaz de dar nada¬Ľ,

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Coragem Ilusória

H√° cinco esp√©cies de coragem, assim denominadas segundo a semelhan√ßa: suportam as mesmas coisas, mas n√£o pelos mesmos motivos. Uma √© a coragem pol√≠tica: prov√©m da vergonha; a segunda √© pr√≥pria dos soldados: nasce da experi√™ncia e do facto de conhecer, n√£o – como dizia S√≥crates – os perigos, mas os recursos contra eles; a terceira brota da falta de experi√™ncia e da ignor√Ęncia, e por ela s√£o induzidas as crian√ßas e os loucos, estes quando enfrentam a f√ļria dos elementos, aquelas quando pegam em serpentes. Outra esp√©cie √© a de quem tem esperan√ßa: gra√ßas a ela, arrostam os perigos aqueles que, muitas vezes, tiveram sorte (…) e os √©brios; o vinho, de facto, excita a confian√ßa.
Outra ainda dimana da paix√£o irracional, por exemplo, do amor e da ira.
Se algu√©m est√° enamorado, √© mais temer√°rio que cobarde e enfrenta muitos perigos, como aquele que no Metaponto matou o tirano, ou o cretense de que fala a lenda; o mesmo se passa com a c√≥lera e com a ira. Pois a ira √© capaz de nos p√īr fora de n√≥s. Por isso, se afiguram tamb√©m corajosos os javalis, embora n√£o sejam; quando fora de si, t√™m uma qualidade semelhante,

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As Fraquezas dos Sistemas Partid√°rios

Com os que se intitulam democracias parlamentares ou partid√°rias, quem quer, examinando o funcionamento efectivo das institui√ß√Ķes, podo constituir tr√™s grupos. O primeiro √© daqueles muito raros Estados em que os partidos pouco numerosos permitem a forma√ß√£o de maiorias homog√©neas, que se sucedem no poder, sem impedir de agir, quando na oposi√ß√£o, o governo quo governa. O segundo √© o daqueles em que a vida partid√°ria √© t√£o intensa e intolerante que as muta√ß√Ķes governamentais se fazem frequentemente por meio de revolu√ß√Ķes ou golpes de Estado, no fundo a nega√ß√£o do mesmo princ√≠pio em que pretendem apoiar-se. H√° um terceiro grupo em que a parcela√ß√£o partid√°ria e a exig√™ncia constitucional da maioria parlamentar se conjugam para ter em permanente risco os minist√©rios, precipitar as demiss√Ķes, alongar as crises, paralisar os governos, condenados √† inac√ß√£o e √†s f√≥rmulas de compromisso que nem sempre ser√£o as mais convenientes ao interesse nacional. Assim, uns esperam as elei√ß√Ķes; outros, a revolu√ß√£o; os √ļltimos, as crises, como possibilidades de governo.

O Tempo e o Espírito

O tempo, embora faça desabrochar e definhar animais e plantas com assombrosa pontualidade, não tem sobre a alma do homem efeitos tão simples. A alma do homem, aliás, age de forma igualmente estranha sobre o corpo do tempo. Uma hora, alojada no bizarro elemento do espírito humano, pode valer cinquenta ou cem vezes mais que a sua duração medida pelo relógio; em contrapartida, uma hora pode ser fielmente representada no mostrador do espírito por um segundo.

Como Manipular um P√ļblico

Segundo uma lei conhecida, os homens, considerados colectivamente, s√£o mais est√ļpidos do que tomados individualmente. Numa conversa a dois, conv√©m que respeitemos o parceiro, mas essa regra de conduta j√° n√£o √© t√£o indispens√°vel num debate p√ļblico em que se trata de dispor as massas a nosso favor.

H√° uns anos, um pol√≠tico pagou a figurantes para o aplaudirem numa concentra√ß√£o. Como bom profissional, compreendera que uma claque, embora n√£o melhore o discurso, predisp√Ķe melhor os espectadores a descobrirem os seus m√©ritos. O mimetismo √© a mola principal para mover as massas no sentido do entusiasmo, do respeito ou do √≥dio. Mesmo perante um pequeno p√ļblico de trinta pessoas, h√° sempre algo de religioso que prov√©m da coagula√ß√£o dos sentimentos individuais em express√£o colectiva. No meio de um grupo, √© necess√°ria uma certa energia para pensar contra a maioria e coragem para exprimir abertamente essa opini√£o.
Os manipuladores de opinião ou, para utilizar uma palavra mais delicada, os comunicadores, sabem que, para conduzir mentalmente uma assembleia numa determinada direcção, é necessário começar por agir sobre os seus líderes. A primeira tarefa consiste em determinar quem são, apesar de eles próprios não o saberem. Um manipulador não tarda a distinguir o punhado de indivíduos em que pode apoiar-se para influenciar os outros.

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A Espontaneidade

O homem produz tudo o que sai da sua natureza. Concorre com a sua actividade; fornece a for√ßa bruta que produz o resultado. Mas a direc√ß√£o dessa for√ßa n√£o lhe pertence. D√° a mat√©ria: a forma, por√©m, vem doutra parte. O verdadeiro autor das obras espont√Ęneas √© a natureza humana, ou, se se quiser, a causa superior da natureza. Neste ponto torna-se indiferente atribuir a causalidade a Deus ou ao Homem. O Espont√Ęneo √© √† uma humano e divino. Est√° nisto a concilia√ß√£o de opini√Ķes, antes incompletas do que contradit√≥rias, que, segundo dizem respeito a uma ou outra face do fen√≥meno, t√™m igualmente uma parte de verdade.

Civilização Racional

O nosso conhecimento do valor hist√≥rico de certas doutrinas religiosas aumenta o nosso respeito por elas, mas n√£o invalida a nossa posi√ß√£o, segundo a qual devem deixar de ser apresentadas como os motivos para os preceitos da civiliza√ß√£o. Pelo contr√°rio! Esses res√≠duos hist√≥ricos auxiliaram-nos a encarar os ensinamentos religiosos como rel√≠quias neur√≥ticas, por assim dizer, e agora podemos arguir que provavelmente chegou a hora, tal como acontece num tratamento anal√≠tico, de substituir os efeitos da repress√£o pelos resultados da opera√ß√£o racional do intelecto. Podemos prever, mas dificilmente lamentar, que tal processo de remodela√ß√£o n√£o se deter√° na ren√ļncia √† transfigura√ß√£o solene dos preceitos culturais, mas que a sua revis√£o geral resultar√° em que muitos deles sejam eliminados. Desse modo, a nossa tarefa de reconciliar os homens com a civiliza√ß√£o estar√°, at√© um grande ponto, realizada. N√£o precisamos de deplorar a ren√ļncia √† verdade hist√≥rica quando apresentamos fundamentos racionais para os preceitos da civiliza√ß√£o. As verdades contidas nas doutrinas religiosas s√£o, afinal de contas, t√£o deformadas e sistematicamente disfar√ßadas, que a massa da humanidade n√£o pode identific√°-las como verdade. O caso √© semelhante ao que acontece quando dizemos a uma crian√ßa que os rec√©m-nascidos s√£o trazidos pela cegonha. Aqui, tamb√©m estamos a contar a verdade sob uma roupagem simb√≥lica,

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O Domínio da Ira

Querer extinguir inteiramente a cólera é pretensão louca dos estóicos. A cólera deve ser limitada e confinada, tanto na extensão como no tempo. Diremos em primeiro lugar como a inclinação natural e o hábito adquirido para se encolerizar podem ser temperados e acalmados. Diremos, em segundo lugar, como os movimentos particulares da cólera podem ser reprimidos, ou pelo menos refreados, para que não façam mal. Diremos, em terceiro lugar, como suscitar ou apaziguar a cólera nas outras pessoas.
Quanto ao primeiro ponto. N√£o h√° outro caminho sen√£o o de meditar e ruminar muito bem os efeitos da c√≥lera, de ver quanto ela perturba a vida humana. E a melhor ocasi√£o de fazer isso, ser√° depois de o acesso ter passado, reflectindo sobre as desvantagens da c√≥lera. S√©neca disse muito bem que ¬ęa c√≥lera √© como uma ru√≠na que se quebra contra o que derruba¬Ľ. (…) Deve o homem cuidar de temperar a c√≥lera mais pelo desd√©m do que pelo temor, para que assim possa estar acima da inj√ļria e n√£o abaixo dela: o que ser√° coisa f√°cil, para quem quiser obedecer a esta lei.
Quanto ao segundo ponto. Há três causas e motivos principais da cólera. Primeiro, ser demasiado sensível ao toque,

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A Guerra como Revolta da Técnica

Todos os esfor√ßos para estetizar a pol√≠tica convergem para um ponto. Esse ponto √© a guerra. A guerra e somente a guerra permite dar um objectivo aos grandes movimentos de massa, preservando as rela√ß√Ķes de produ√ß√£o existentes. Eis como o fen√≥meno pode ser formulado do ponto de vista pol√≠tico. Do ponto de vista t√©cnico, a sua formula√ß√£o √© a seguinte: somente a guerra permite mobilizar na sua totalidade os meios t√©cnicos do presente, preservando as actuais rela√ß√Ķes de produ√ß√£o. √Č √≥bvio que a apoteose fascista da guerra n√£o recorre a esse argumento. Mas seria instrutivo lan√ßar os olhos sobre a maneira como ela √© formulada. No seu manifesto sobre a guerra colonial da Eti√≥pia, diz Marinetti: ¬ęH√° vinte e sete anos, n√≥s futuristas contestamos a afirma√ß√£o de que a guerra √© antiest√©tica (…) Por isso, dizemos: (…) a guerra √© bela, porque gra√ßas √†s m√°scaras de g√°s, aos megafones assustadores, aos lan√ßa-chamas e aos tanques, funda a supremacia do homem sobre a m√°quina subjugada. A guerra √© bela, porque inaugura a metaliza√ß√£o on√≠rica do corpo humano. A guerra √© bela, porque enriquece um prado florido com as orqu√≠deas de fogo das metralhadoras. A guerra √© bela, porque conjuga numa sinfonia os tiros de fuzil,

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O Inseguro

A eterna can√ß√£o: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveit√°-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para n√£o fazer absolutamente nada ‚ÄĒ quer dizer, para sentir que n√£o estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. A√≠, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse…
Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escava√ß√£o tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substitu√≠ a no√ß√£o de profundidade pela de altura. N√£o quis saber de minera√ß√Ķes. Cravei os olhos no espa√ßo,

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