Passagens de Albert Camus

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O Verdadeiro e o Falso

A primeira dilig√™ncia do esp√≠rito √© a de distinguir o que √© verdadeiro do que √© falso. No entanto, logo que o pensamento reflecte sobre si pr√≥prio, o que primeiro descobre √© uma contradi√ß√£o. Seria ocioso procurar, neste ponto, ser-se convincente. Ningu√©m, h√° s√©culos, deu uma demonstra√ß√£o mais clara e mais elegante do caso do que Arist√≥teles: “A consequ√™ncia, muitas vezes ridicularizada, dessas opini√Ķes √© que elas se destroem a si pr√≥prias”.

Porque, se afirmarmos que tudo √© verdadeiro afirmamos a verdade da afirma√ß√£o oposta, e, em consequ√™ncia, a falsidade da nossa pr√≥pria tese (porque a afirma√ß√£o oposta n√£o admite que ela possa ser verdadeira). E, se dissermos que tudo √© falso, essa afirma√ß√£o tamb√©m √© falsa. Se declararmos que s√≥ √© falsa a afirma√ß√£o oposta √† nossa, ou ent√£o que s√≥ a nossa e que n√£o √© falsa, somos, todavia, obrigados a admitir um n√ļmero infinito de ju√≠zos verdadeiros ou falsos.

Porque aquele que anuncia uma afirmação verdadeira, pronuncia ao mesmo tempo o juízo de que ela é verdadeira, e assim sucessivamente, até ao infinito.

Cen√°rios desabarem √© coisa que acontece. Acordar, bonde, quadro horas no escrit√≥rio ou na f√°brica, almo√ßo, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda ter√ßa quarta quinta sexta e s√°bado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o ‚Äúpor qu√™‚ÄĚ e tudo come√ßa a entrar numa lassid√£o tingida de assombro. ‚ÄúCome√ßa‚ÄĚ, isto √© o importante. A lassid√£o est√° ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consci√™ncia. Ela o desperta e provoca sua continua√ß√£o. A continua√ß√£o √© um retorno inconsciente aos grilh√Ķes, ou √© o despertar definitivo. Depois do despertar vem, com o tempo, a conseq√ľ√™ncia: suic√≠dio ou restabelecimento.

Para a maioria dos homens, a guerra é o fim da solidão. Para mim, é a solidão infinita.

Liberdade é uma possibilidade de ser melhor, enquanto que escravidão é a certeza de ser pior.

Quando nos vestimos na praia, Marie olhava-me com olhos brilhantes. Beijei-a. A partir desse momento, n√£o falamos mais. Apertei-a contra mim, e tivemos pressa de encontrar um √īnibus, de voltar, de ir para a minha casa e de nos atirarmos na minha cama. Tinha deixado a janela aberta, e era bom sentir a noite de ver√£o escorrer por nossos corpos bronzeados.

Oran, na aparência, é uma cidade que não pensa, isto é, uma cidade perfeitamente moderna.

A ideia mais natural para o homem, a que lhe surge ingenuamente, como no fundo de sua natureza, é a ideia de sua inocência.

O que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obriga√ß√Ķes do homem devo ao futebol…

Mentir n√£o √© s√≥ dizer aquilo que n√£o √©. √Č tamb√©m, e sobretudo, dizer mais do que aquilo que √© e, no que diz respeito ao cora√ß√£o humano, dizer mais do que se sente.

A Liberdade e a Justiça

A revolu√ß√£o do s√©culo XX separou arbitrariamente, para fins desmesurados de conquista, duas no√ß√Ķes insepar√°veis. A liberdade absoluta mete a justi√ßa a rid√≠culo. A justi√ßa absoluta nega a liberdade. Para serem fecundas, as duas no√ß√Ķes devem descobrir os seus limites uma dentro da outra. Nenhum homem considera livre a sua condi√ß√£o se ela n√£o for ao mesmo tempo justa, nem justa se n√£o for livre. Precisamente, n√£o pode conceber-se a liberdade sem o poder de clarificar o justo e o injusto, de reivindicar todo o ser em nome de uma parcela de ser que se recusa a extinguir-se. Finalmente, tem de haver uma justi√ßa, embora bem diferente, para se restaurar a liberdade, √ļnico valor imperec√≠vel da hist√≥ria. Os homens s√≥ morrem bem quando o fizeram pela liberdade: pois, nessa altura, n√£o acreditavam que morressem por completo.

Para todos aqueles, pelo contr√°rio, que se tinham dirigido por cima do homem a qualquer coisa que nem sequer imaginavam, n√£o houvera resposta.

Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias.

Só se Cria na Diversidade

Todos os pensamentos que renunciam √† unidade exaltam a diversidade. E a diversidade √© o local da arte. O √ļnico pensamento que liberta o esp√≠rito √© aquele que o deixa s√≥, certo dos seus limites e do seu fim pr√≥ximo. Nenhuma doutrina o solicita. Ele espera o amadurecimento da obra e da vida. Separada dele, a primeira far√° ouvir, uma vez mais, a voz levemente ensurdecida de uma alma para todo o sempre liberta da esperan√ßa. Ou nada far√° ouvir, se o criador, cansado do seu jogo, pretende afastar-se. Tudo isso se equivale.