Textos sobre Singular

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Textos de singular escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Memória

Quanto mais algo é inteligível, mais facilmente se retém, e, ao contrário, quanto menos, mais facilmente o esquecemos. Por exemplo, se eu transmitir a alguém uma porção de palavras soltas, muito mais dificilmente as reterá do que se apresentar as mesmas palavras em forma de narração. Reforçada também sem auxílio do intelecto, a saber, pela força mediante a qual a imaginação ou o sentido a que chamam comum é afectado por alguma coisa singular corpórea. Digo singular, pois a imaginação só é afectada por coisas singulares. Com efeito, se alguém ler, por exemplo, só uma novela de amor, retê-la-á muito bem enquanto não ler muitas outras desse género, porque então vigora sozinha na imaginação; mas, se são mais do género, imaginam-se todas juntas e facilmente são confundidas.
Digo também corpórea, pois a imaginação só é afectada por corpos. Como, portanto, a memória é fortalecida pelo intelecto e também sem ele, conclui-se que é algo diverso do intelecto e que não há nenhuma memória nem esquecimento a respeito do intelecto visto em si.
O que ser√°, pois, a mem√≥ria? Nada mais do que a sensa√ß√£o das impress√Ķes do c√©rebro junto com o pensamento de uma determinada dura√ß√£o da sensa√ß√£o;

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Olhar para as Coisas com alguma Dist√Ęncia

Percorrendo as ruas fui descobrindo coisas espantosas que l√° ocorriam desde sempre, disfar√ßadas sob uma m√°scara t√©nue de normalidade: um vi√ļvo que, depois de se reformar, passava as tardes sentado no carro, a porta aberta, a perna esquerda fora, a direita dentro; um sujeito t√£o magro que se podia tomar por uma figura de cart√£o, ideia refor√ßada por andar de bicicleta e, sobretudo, por nela carregar o papel√£o que recolhia nos contentores do lixo; a mulher que, com uma regularidade cronom√©trica, vinha √† janela, olhava para um lado e para o outro, como se aguardasse h√° muito a chegada de algu√©m. Eram tr√™s exemplos de situa√ß√Ķes que – creio ser esta a melhor formula√ß√£o – aconteciam desde sempre e pela primeira vez. Se olharmos para as coisas com alguma dist√Ęncia, retirando-as do contexto, deixando-nos contaminar pela estranheza, tudo, tudo mesmo, adquire uma aura macabra e repetitiva, singular, reconhec√≠vel, que se mistura com a subst√Ęncia dos sonhos, a mat√©ria das mentes perturbadas. Penso sempre, n√£o sei porque, que talvez a resposta esteja naquela revista antiga que n√£o resistiu √†s tra√ßas: nos sobreviventes de Hiroxima, no clar√£o absoluto que os cegou, no mundo irreal em que foram condenados a viver a partir desse momento,

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Preciso de Ti

O amor é bem capaz de ser a melhor maneira de nos encontrarmos connosco.
Preciso de ti para saber de mim.
Sei-o sempre que por minutos parece que vou perder-te, numa discussão das que vamos tendo. Discutir é abrir a válvula do amor, deixá-lo respirar, sangrá-lo para poder regressar à estrada. Nenhum amor aguenta sem sangrar.
Preciso de ti para pensar em mim.
Sei-o porque quando parece que vais eu vou também, deixo de saber quem sou, como sou. Para onde vou.
Preciso de ti para precisar de mim.
E os que não me entendem que vão para o raio que os parta. Os que dizem que isto não é nada recomendável, que isto não devia ser assim, que eu devia ser capaz de ser o que sou sem precisar de ti. Infelizes.
Preciso de ti para cuidar de mim.
O amor é bem capaz de ser precisar do outro para cuidarmos de nós.
E eu cuido-me. Quero estar viva para te poder amar. Conheces melhor motivo do que esse? √Č claro que amo os meus pais, a minha fam√≠lia toda, os meus gatos, aquilo que a vida me tem dado.

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O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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Estimar para Ser Estimado

Não se deve provocar aversão, pois, mesmo que não se queira, ela adianta-se. Muitos há que odeiam à toa, sem saber como nem porquê. A malevolência antecede o respeito. A irascível é mais eficaz e pronta para o dano que a concupiscível para o proveito. A alguns apetece estar de mal com todos, por génio molesto ou molestado. E, uma vez apossado o ódio, assim como o mau conceito, é difícil de extinguir-se. Costuma-se temer os judiciosos, abominar os maldizentes, sentir asco dos presumidos, ter horror aos intrometidos, abandonar os singulares. Mostre, pois, estimar para ser estimado; e quem quer fazer casa faz caso.

Viver em Estado de Amor

Respirar, viver n√£o √© apenas agarrar e libertar o ar, mecanicamente: √© existir com, √© viver em estado de amor. E, do mesmo modo, aderir ao mist√©rio √© entrar no singular, no afetivo. Deus √© c√ļmplice da afetividade: omnipotente e fr√°gil; impass√≠vel e pass√≠vel; transcendente e amoroso; sobrenatural e sens√≠vel. A mais louca pretens√£o crist√£ n√£o est√° do lado das afirma√ß√Ķes metaf√≠sicas: ela √© simplesmente a f√© na ressurrei√ß√£o do corpo.

O amor √© o verdadeiro despertador dos sentidos. As diversas patologias dos sentidos que anteriormente revisit√°mos mostram como, quando o amor est√° ausente, a nossa vitalidade hiberna. Uma das crises mais graves da nossa √©poca √© a separa√ß√£o entre conhecimento e amor. A m√≠stica dos sentidos, por√©m, busca aquela ci√™ncia que s√≥ se obt√©m amando. Amar significa abrir-se, romper o c√≠rculo do isolamento, habitar esse milagre que √© conseguirmos estar plenamente connosco e com o outro. O amor √© o degelo. Constr√≥i-se como forma de hospitalidade (o poeta brasileiro M√°rio Quintana escreve que ¬ęo amor √© quando a gente mora um no outro¬Ľ), mas pede aos que o seguem uma desarmada exposi√ß√£o. Os que amam s√£o, de certa maneira, mais vulner√°veis. N√£o podem fazer de conta. Se apetece cantar na rua,

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Nos Extremos é que Está a Sabedoria

Pode-se dizer que, muito plausivelmente, h√° uma ignor√Ęncia abeced√°ria que precede o saber e uma outra, doutoral, que se lhe segue, ignor√Ęncia esta que o saber produz e engendra da mesma maneira que desfaz e destr√≥i aqueloutra. Dos esp√≠ritos simples, menos curiosos e menos instru√≠dos, fazem-se bons crist√£os, que, por rever√™ncia e obedi√™ncia, com simplicidade, cr√™em e mant√™m-se submissos √†s leis. √Č nos esp√≠ritos de vigor e capacidade m√©dios que se engendram as opini√Ķes err√≥neas, pois eles seguem a apar√™ncia das suas primeiras impress√Ķes e t√™m pretextos para interpretar como simpleza e estult√≠cia o nosso apego aos antigos usos, considerando que n√≥s a√≠ n√£o cheg√°mos por via do estudo dessas mat√©rias.
Os grandes esp√≠ritos, mais avisados e clarividentes, constituem um outro g√©nero de bons crentes: por meio de uma aturada e escrupulosa investiga√ß√£o, penetram nas Escrituras at√© atingir uma luz mais profunda e abstrusa, e entendem o misterioso e divino segredo da nossa pol√≠tica eclesi√°stica. Vemos, por√©m, alguns, com maravilhoso proveito e com consolida√ß√£o da sua f√©, chegarem, atrav√©s do segundo, a este √ļltimo n√≠vel, como o extremo limite da intelig√™ncia crist√£, e rejubilar na sua vit√≥ria com refrig√©rio, ac√ß√Ķes de gra√ßas, reformas dos costumes e grande mod√©stia. N√£o entendo nesta categoria situar aqueloutros que,

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Escutar o Nosso Corpo

O equil√≠brio √© a base da sa√ļde. Embora seja indiscut√≠vel que uma dieta rica em vitaminas, o exerc√≠cio f√≠sico e a medita√ß√£o s√£o essenciais para uma vida saud√°vel, n√£o existe uma f√≥rmula universal que se aplique a todos os casos. Precisamos de prestar aten√ß√£o ao corpo, √† mente e ao cora√ß√£o singulares que existem em cada um de n√≥s para descobrirmos as nossas necessidades espec√≠ficas. A verdadeira sa√ļde cresce connosco e transforma-se ao longo do tempo. Manter o estado natural de equil√≠brio f√≠sico e emocional √© fundamental para atingirmos um n√≠vel de consci√™ncia superior.
Escutar o nosso corpo √© o primeiro passo para alcan√ßarmos a sa√ļde integral e identificar o nosso bi√≥tipo e tend√™ncias emocionais – os doshas – √© um excelente come√ßo. A partir do momento em que nos consciencializamos das nossas necessidades f√≠sicas podemos adequar dietas e programas de exerc√≠cio √† nossa medida. A verdadeira sa√ļde n√£o se exprime atrav√©s de uma defini√ß√£o gen√©iica mas sim de um equil√≠brio distinto de predisposi√ß√Ķes gen√©ticas, comportamentos adquiridos, idade e perce√ß√Ķes.

Subestimamos com alguma frequ√™ncia a import√Ęncia de uma boa noite de sono. As distra√ß√Ķes induzidas pelo ego -listas de tarefas pendentes, problemas financeiros, crises familiares e medos –

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Vencer o Medo

Parecemos estar hoje animados quase exclusivamente pelo medo. Receamos at√© aquilo que √© bom, aquilo que √© saud√°vel, aquilo que √© alegre. E o que √© o her√≥i? Antes de mais, algu√©m que venceu os seus medos. √Č poss√≠vel ser-se her√≥i em qualquer campo; nunca deixamos de reconhecer um her√≥i quando este aparece. A sua virtude singular √© o facto de ele ser um s√≥ com a vida, um s√≥ consigo pr√≥prio. Tendo deixado de duvidar e de interrogar, acelera o curso e o ritmo da vida. O cobarde, par contre, procura deter o fluxo da vida. E claro que n√£o det√©m nada, a menos que se detenha a si pr√≥prio. A vida continua sempre a avan√ßar, quer nos portemos como cobardes, quer nos portemos como her√≥is. A vida n√£o imp√Ķe outra disciplina – se ao menos o soub√©ssemos compreender! – para al√©m de a aceitarmos tal como √©. Tudo aquilo a que fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos, acaba por contribuir para nos derrotar. O que nos parece s√≥rdido, doloroso, mau, poder√° tornar-se numa fonte de beleza, alegria e for√ßa, se o enfrentarmos com largueza de esp√≠rito. Todos os momentos s√£o momentos de ouro para os que t√™m a capacidade de os ver como tais.

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Cada Homem Só se Pode Salvar ou Perder Sozinho

Também eu acredito que a existência precede a essência. Que tudo começa quando o coração pulsa pela primeira vez, e tudo acaba quando ele desiste de lutar. Que todas as paisagens são cenários do nosso drama pessoal, comentários decorativos da nossa aventura íntima e profunda. E que, por isso, cada homem só se pode salvar ou perder sozinho, e que só ele é o responsável pelos seus passos, que só as suas próprias raízes são raízes, e que está nas suas mãos a grandeza ou a pequenez do seu destino. Companheiro doutros homens, será belo tudo quanto de acordo com o semelhante fizer, todas as suas fraternidades necessárias e louváveis. Mas que será do tamanho e da qualidade da sua realização singular, da força da sua unidade, da posição que escolheu e da obra que realizou, que a consciência lhe perguntará dia a dia, minuto a minuto.

Nada nos Satisfaz

Se ocasionalmente nos ocupássemos em nos exa­minar, e o tempo que gastamos para controlar os outros e para saber das coisas que estão fora de nós o empregás­semos em nos sondar a nós mesmos, facilmente sentiríamos o quanto todo esse nosso composto é feito de peças frágeis e falhas. Acaso não é uma prova singular de imperfeição não conseguirmos assentar o nosso contentamento em coi­sa alguma, e que, mesmo por desejo e imaginação, esteja fora do nosso poder escolher o que nos é necessário? Dis­so dá bom testemunho a grande discussão que sempre houve entre os filósofos para descobrir qual é o soberano bem do homem, a qual ainda perdura e perdurará eterna­mente, sem solução e sem acordo: Enquanto nos escapa, o objecto do nosso desejo sempre nos parece preferível a qualquer outra coisa; vindo a desfrutá-lo, um outro desejo nasce em nós, e a nossa sede é sempre a mesma. (Lucrécio).
Não importa o que venhamos a conhecer e des­frutar, sentimos que não nos satisfaz, e perseguimos cobi­çosos as coisas por vir e desconhecidas, pois as presentes não nos saciam; em minha opinião, não que elas não te­nham o bastante com que nos saciar, mas é que nos apo­deramos delas com mão doentia e desregrada: Pois ele viu que os mortais têm à sua disposição praticamente tudo o que é necessário para a vida;

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Mente Est√°vel e Mente Inst√°vel

O homem capaz de sacrificar de √Ęnimo leve um h√°bito mental h√° muito tempo formado constitui uma excep√ß√£o. A grande maioria dos seres humanos n√£o gosta e, na realidade, at√© detesta todas as no√ß√Ķes com as quais n√£o est√£o familiarizados. .
A tend√™ncia do homem de mente est√°vel, quer seja introvertido ou extrovertido, vision√°rio ou n√£o vision√°rio, ser√° sempre para verificar que ¬ęaquilo que est√°, est√° certo¬Ľ. Menos sujeito aos h√°bitos de racioc√≠nio formados na mocidade, os de mente inst√°vel naturalmente que sentem prazer em tudo o que √© novo e revolucion√°rio. √Č aos de mente inst√°vel que devemos o progresso em todas as suas formas, assim como todas as formas de revolu√ß√£o destrutiva. Os de mente est√°vel, devido √† sua relut√Ęncia em aceitar modifica√ß√Ķes, d√£o √† estrutura social a sua s√≥lida durabilidade. H√° no mundo muito mais gente de mente est√°vel que inst√°vel (se as propor√ß√Ķes fossem trocadas viver√≠amos num caos); mas em todos menos em alguns momentos muito excepcionais, eles possuem o poder e a riqueza mais do que proporcional ao seu n√ļmero. Da√≠ resulta que, ao aparecerem pela primeira vez, os inovadores foram geralmente perseguidos e sempre escarnecidos como lun√°ticos e loucos.
Um herético, de acordo com a admirável definição de Bossuet,

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Vivência Limitada

A. impossibilidade de participar de todas as combina√ß√Ķes em desenvolvimento a qualquer instante numa grande cidade tem sido uma das dores de minha vida. Sofro como se sentisse em mim, como se houvesse em mim uma capacidade desmesurada de agir. Entretanto, na parte de a√ß√£o que a vida me reserva, muitas vezes me abstenho e outras me confundo. […] A ideia de que diariamente, a cada hora, a cada minuto e em cada lugar se realizam milhares de a√ß√Ķes que me teriam profundamente interessado, de que eu certamente deveria tomar conhecimento e que entretanto jamais me ser√£o comunicadas ‚ÄĒ basta para tirar o sabor a todas as perspectivas de a√ß√£o que encontro √† minha frente. O pouco que eu pudesse obter n√£o compensaria jamais esse infinito perdido. Nem me consola o pensamento de que, entrando na confronta√ß√£o simult√Ęnea de tantos acontecimentos, eu n√£o pudesse sequer registr√°-los, quanto mais dirigi-los √† minha maneira ou mesmo tomar de cada um o aspecto singular, o tom e o desenho pr√≥prios, uma por√ß√£o, m√≠nima que fosse, de sua peculiar subst√Ęncia.

Indivíduo e Colectividade

Uma antiquada concep√ß√£o, cuja carreira n√£o terminou de todo em Portugal, faz constituir a hist√≥ria na evoca√ß√£o dos homens e dos eventos singulares, faustosa galeria de retratos e pain√©is de batalhas, a que se acrescenta quando muito o quadro das institui√ß√Ķes. Dir-se-ia desta sorte que os factos de ocupa√ß√£o do solo e agrupamento da popula√ß√£o, as varia√ß√Ķes do regime econ√≥mico, a elabora√ß√£o de um esp√≠rito colectivo, os movimentos e transforma√ß√Ķes da massa, isto √©, os factos pr√≥priamente sociais n√£o t√™m import√Ęncia na vida da sociedade. Longe de n√≥s negar a parte da cria√ß√£o individual na hist√≥ria. Mas todas as na√ß√Ķes, antes de atingirem a sua defini√ß√£o pol√≠tica suprema, atravessam um demorado per√≠odo de forma√ß√£o, onde ocultam quase exclusivamente esses factos gerais.
A consci√™ncia de uma solidariedade e de um ideal colectivo, o sentimento e a ideia de uma p√°tria elaboram-se lentamente atrav√©s desses movimentos de grupos e das lutas entre eles suscitadas. E por via de regra os grandes homens s√£o tanto mais representativos quanto melhor encarnam e orientam as aspira√ß√Ķes colectivas.

O Ciclo da Vida

O homem domina a natureza e √© por ela dominado. S√≥ ele lhe resiste e ao mesmo tempo ultrapassa as suas leis, amplia o seu poderio gra√ßas √† sua vontade e actividade. Afirmar no entanto que o mundo foi criado para o homem √© algo que est√° longe de ser evidente. Tudo o que o homem constr√≥i √©, como ele, ef√©mero: o tempo derruba os edif√≠cios, atulha os canais, apaga o saber – e at√© o nome das na√ß√Ķes. (…) Dir-me-√£o que as novas gera√ß√Ķes recebem a heran√ßa das gera√ß√Ķes que as precederam e que, por consequ√™ncia, a perfei√ß√£o ou o aperfei√ßoamento n√£o t√™m limites. Mas o homem est√° longe de receber intacta a s√ļmula dos conhecimentos acumulados pelos s√©culos que o precederam e se aperfei√ßoa algumas dessas inven√ß√Ķes no que diz respeito a outras fica bastante atr√°s dos seus pr√≥prios inventores; um grande n√ļmero dessas inven√ß√Ķes chega mesmo a perder-se.
Não preciso sequer de sublinhar como certos pretensos melhoramentos foram nocivos à moral e ao bem-estar. Determinada invenção, suprimindo ou diminuindo o trabalho e o esforço, enfraqueceu a dose de paciência necessária para suportar as contrariedades Рou a energia que temos de dar provas para as vencer.

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A Necessidade da Metafísica

A raz√£o humana tem este destino singular, numa parte dos seus conhecimentos, de sucumbir ao peso de certas quest√Ķes que n√£o pode evitar. Com efeito, tais quest√Ķes imp√Ķem-se √† raz√£o devido √† sua mesma natureza, mas ela n√£o pode responder-lhes porque de todo ultrapassam a sua capacidade.
N√£o devemos contar que o esp√≠rito humano renuncie um dia por completo √†s indaga√ß√Ķes metaf√≠sicas: seria o mesmo que aguardar que, em vez de respirar sempre um ar viciado, suspend√™ssemos um belo dia a respira√ß√£o. Por conseguinte, haver√° sempre no mundo, ou, melhor, em todo homem, sobretudo se ele reflecte, uma metaf√≠sica, que, na aus√™ncia de uma norma comum, cada qual talhar√° a seu grado; ora o que at√© aqui se tem denominado metaf√≠sica n√£o pode satisfazer nenhum esp√≠rito reflectido, mas renunciar a ela por completo √© tamb√©m imposs√≠vel; √© necess√°rio, pois, empreender enfim uma cr√≠tica da raz√£o pura em si, ou, se alguma existe, perscrut√°-la e examin√°-la em conjunto; na verdade, n√£o h√° outro meio de satisfazer esta exig√™ncia imperiosa, que √© coisa muito diferente de um simples desejo de saber.

√Č Poss√≠vel Estarmos Todos Errados?

√Č poss√≠vel (…) que n√£o se tenha visto, conhecido e dito nada de real e importante? √Č poss√≠vel que se tenha tido mil√©nios para olhar, reflectir e anotar e que se tenha deixado passar os mil√©nios como uma pausa escolar, durante a qual se come fatias de p√£o com manteiga e uma ma√ß√£?
Sim, é possível.
√Č poss√≠vel que, apesar das investiga√ß√Ķes e dos progressos, apesar da cultura, da religi√£o e da filosofia, se tenha ficado na superf√≠cie da vida? √Č poss√≠vel que at√© se tenha coberto essa superf√≠cie – que, apesar de tudo, seria qualquer coisa – com um pano incrivelmente aborrecido, de tal modo que se assemelhe aos m√≥veis da sala durante as f√©rias de Ver√£o?
Sim, é possível.
√Č poss√≠vel que toda a Hist√≥ria Universal tenha sido mal-entendida? √Č poss√≠vel que o passado seja falso, precisamente porque sempre se falou das suas multid√Ķes, como se dissertasse sobre uma aglomera√ß√£o de pessoas, em vez de falar de uma √ļnica, em torno da qual elas estavam, porque se tratava de um desconhecido que morreu?
Sim, é possível.
√Č poss√≠vel que se tenha julgado ser preciso recuperar o que aconteceu antes de se ter nascido?

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A Fama N√£o Conhece Virtudes

As pessoas fazem exigências aos nomes que se tornam conhecidos de forma singular, não há diferença entre uma criança prodígio, um compositor, um poeta, um assassino. Há um que quer ter o seu retrato, o outro o seu autógrafo, um terceiro pede dinheiro, todos os colegas mais novos mandam os seus trabalhos com muitas lisonjas e pedem uma apreciação, e tanto faz não dar resposta como expressar a sua opinião, de repente aquele que venerava fica furioso, torna-se cruel e quer vingança. As revistas querem publicar o retrato do homem, os jornais contam a sua vida, as suas origens, falam do seu aspecto. Colegas de escola fazem-se conhecidos, e parentes distantes queriam já há anos dizer que o primo havia de ser famoso.

A Asfixia do Artista pela Sociedade

Eu tenho medo das ¬ęteses¬Ľ quando se apoderam de um artista jovem, sobretudo nos come√ßos da sua carreira. E sabem o que eu temo? Muito simplesmente que n√£o consiga os objectos da tese. Pensar√° um simp√°tico cr√≠tico, a quem li h√° pouco e cujo nome agora n√£o vou citar, que toda a obra art√≠stica isenta de tese pr√©via, realizada exclusivamente com um objectivo art√≠stico, e at√© de assunto inteiramente secund√°rio e n√£o correspondendo a nada de ¬ętendencioso¬Ľ possa resultar nuns proveitos para o seu objectivo ainda que √† primeira vista d√™ a impress√£o de satisfazer apenas ¬ęuma ociosa curiosidade¬Ľ? Porventura as nossas pessoas cultas ainda n√£o se deram conta do que pode passar-se no cora√ß√£o e na intelig√™ncia dos nossos escritores e artistas jovens? Que confus√£o de ideias e de sentimentos preconcebidos!

Sob a press√£o da sociedade, o jovem poeta sufoca na alma o seu natural anelo de espraiar-se em formas singulares; receia que condenem a sua ¬ęociosa curiosidade¬Ľ; reprime essas formas que lhe brotam do fundo da alma; nega-lhes vida e aten√ß√£o e arranca de dentro, entre espamos, o tema que √† sociedade agrada, que √© grato √† opini√£o liberal e social. Mas que erro t√£o horrivelmente c√Ęndido e ing√©nuo,

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