Textos sobre Indiferentes

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Textos de indiferentes escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Desejo e a Posse

Um homem n√£o se sente totalmente privado dos bens aos quais nunca sonhou aspirar, mas fica muito satisfeito mesmo sem eles, enquanto outro que possua cem vezes mais do que o primeiro sente-se infeliz quando lhe falta uma √ļnica coisa que tenha desejado. A esse respeito, cada um tem tamb√©m um horizonte pr√≥prio daquilo que lhe √© poss√≠vel atingir, e as suas pretens√Ķes t√™m uma extens√£o semelhante a esse horizonte. Quando determinado objecto, situado dentro desses limites, se lhe apresenta de modo que o fa√ßa acreditar na possibilidade de alcan√ß√°-lo, o homem sente-se feliz; em contrapartida, sentir-se-√† infleliz quando eventuais dificuldades lhe tirarem tal possibilidade. Tudo o que estiver situado externamente a esse campo visual n√£o agir√° de forma alguma sobre ele. Por esse motivo, as grandes propriedades dos ricos n√£o perturbam o pobre, e, por outro lado, para o rico cujos prop√≥sitos tenham fracassado, serve de consolo as muitas coisas que j√° possui. (A riqueza assemelha-se √† √°gua do mar; quanto mais dela se bebe, mais sede se tem. O mesmo vale para a gl√≥ria).

O facto de que o nosso humor habitual não resulte muito diferente do anterior após a perda de uma riqueza ou do bem-estar,

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A Insustent√°vel Leveza do Ser

Eis que ao despedir-vos, esse teu amigo te diz que ele n√£o √© esse teu amigo mas sim um seu irm√£o g√©meo. Imediatamente uma altera√ß√£o profunda se instalou nas vossas rela√ß√Ķes. Mas se te perguntares em qu√™, n√£o √© f√°cil responderes. Naturalmente dirias que esse teu amigo n√£o era ele, que era outra pessoa. Mas outra em qu√™? O corpo √© igual nos m√≠nimos pormenores, igual a face e os gestos e a voz e os olhos. Iguais as ideias, os sentimentos, as recorda√ß√Ķes, o todo integral da sua vida e do que ele √©. Se percorreres todos os pormenores, encontr√°-los-√°s em hip√≥tese absolutamente iguais. Come√ßa onde quiseres, examina cada min√ļcia que constitui o teu amigo, progride at√© ao mais extremo limite e verificar√°s que nada escapa a uma integral igualdade. Mas se isto √© assim, deveria ser-te indiferente seres amigo deste como eras amigo do outro. Pois se uma pessoa √© aquilo que ela nos √©, se uma pessoa √© aquilo que a manifesta, se aquilo que nos define √© aquilo que somos e se esse algu√©m que encontr√°mos em nada difere, em hip√≥tese, do algu√©m que esper√°vamos encontrar, nenhuma raz√£o havia para que as rela√ß√Ķes com ele se perurbassem.

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O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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Estamos Todos Ligados

Estamos todos ligados. Seja em que dimens√£o for, somos todos respons√°veis uns pelos outros e essa √© a primeira premissa para se descobrir a divindade que h√° em n√≥s. Temos todos o mesmo dever, ser felizes e inspirar atrav√©s dessa felicidade. Temos todos a mesma capacidade, mudar. Temos todos o mesmo poder, amar. E todas as nossas a√ß√Ķes, independentemente da energia com que s√£o feitas, v√£o gerar tomadas de consci√™ncia, v√£o semear a mudan√ßa e v√£o seguramente brotar de muitos cora√ß√Ķes aut√™nticas centelhas de compaix√£o e amor. Nada do que possamos fazer √© indiferente e tudo o que temos feito at√© hoje, queiramos ou n√£o, tem tido um enorme impacto em n√≥s, naqueles que nos rodeiam e no todo onde todos habitamos. Sejamos respons√°veis. Sejamos divinos.

A Espontaneidade

O homem produz tudo o que sai da sua natureza. Concorre com a sua actividade; fornece a for√ßa bruta que produz o resultado. Mas a direc√ß√£o dessa for√ßa n√£o lhe pertence. D√° a mat√©ria: a forma, por√©m, vem doutra parte. O verdadeiro autor das obras espont√Ęneas √© a natureza humana, ou, se se quiser, a causa superior da natureza. Neste ponto torna-se indiferente atribuir a causalidade a Deus ou ao Homem. O Espont√Ęneo √© √† uma humano e divino. Est√° nisto a concilia√ß√£o de opini√Ķes, antes incompletas do que contradit√≥rias, que, segundo dizem respeito a uma ou outra face do fen√≥meno, t√™m igualmente uma parte de verdade.

A Caridade como Dever

Ser caritativo quando se pode s√™-lo √© um dever, e h√° al√©m disso muitas almas de disposi√ß√£o t√£o compassiva que, mesmo sem nenhum outro motivo de vaidade ou interesse, acham √≠ntimo prazer em espalhar alegria √† sua volta e se podem alegrar com o contentamento dos outros, enquanto este √© obra sua. Eu afirmo por√©m que neste caso uma tal ac√ß√£o, por conforme ao dever, por am√°vel que ela seja, n√£o tem contudo nenhum verdadeiro valor moral, mas vai emparelhar com outras inclina√ß√Ķes, por exemplo o amor das honras que, quando por feliz acaso topa aquilo que efectivamente √© de interesse geral e conforme ao dever, √© consequentemente honroso e merece louvor e est√≠mulo, mas n√£o estima; pois √† sua m√°xima falta o conte√ļdo moral que manda que tais ac√ß√Ķes se pratiquem, n√£o por inclina√ß√£o, mas por dever.
Admitindo pois que o √Ęnimo desse filantropo estivesse velado pelo desgosto pessoal que apaga toda a compaix√£o pela sorte alheia, e que ele continuasse a ter a possibilidade de fazer bem aos desgra√ßados, mas que a desgra√ßa alheia o n√£o tocava porque estava bastante ocupado com a sua pr√≥pria; se agora, que nenhuma inclina√ß√£o o estimula j√°, ele se arrancasse a esta mortal insensibilidade e praticasse a ac√ß√£o sem qualquer inclina√ß√£o,

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A Hist√≥ria do Romance n√£o √© ¬ęapenas¬Ľ a hist√≥ria do romance

A discuss√£o sobre um romance √© arriscada e limitada quando parte de um can√īne puramente est√©tico. Porque n√£o √© um can√īne est√©tico a ter em conta: √© um can√īne de vida. Uma obra de arte julga-se em fun√ß√£o do que o autor oretende – n√£o do que pretendemos n√≥s. Se queremos p√ī-la em causa, discutamos a pretens√£o antes do que ela realizou. Assim √© pouco eficaz a discuss√£o do ¬ęnovo romance¬Ľ franc√™s antes de nos perguntarmos porque √© que tomou tal caminho. Porque tal caminho implica uma nega√ß√£o radical (em alguns escritores, pelo menos) dos valores da inteligibilidade, da coer√™ncia, do pr√≥prio homem enfim. A hist√≥ria da ¬ępersonagem¬Ľ, como certos cr√≠ticos, ali√°s, j√° frisaram, tem agora o seu tr√°gico remate na destrui√ß√£o dessa mesma personagem. Mas que a nega√ß√£o de um significado para a presen√ßa do homem no mundo que o rodeia √© uma nega√ß√£o paradoxal, prova-o n√£o apenas o facto de o romancista ordenar a vis√£o do mundo ¬ęnessa¬Ľ perspectiva (e essa √© uma contradi√ß√£o, como o √© o cepticismo absoluto) como o prova ainda a obra de certos romancistas (digamos a de um Butor, na anota√ß√£o de um Merleau-Ponty) para quem o ¬ęobjecto¬Ľ se impregna da presen√ßa do homem.

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A Fidelidade a Nós Próprios

De certo modo, o homem √© um ser que nos est√° intimamente ligado, na medida em que lhe devemos fazer bem e suport√°-lo. Mas desde que alguns deles me impe√ßam de praticar os actos que est√£o em rela√ß√£o √≠ntima comigo mesmo, o homem passa √† categoria dos seres que me s√£o indiferentes, exactamente como o sol, o vento, o animal feroz. √Č certo que podem entravar alguma coisa da minha actividade; mas o meu querer espont√Ęneo, as minhas disposi√ß√Ķes interiores n√£o conhecem entraves, gra√ßas ao poder de agir sob condi√ß√£o e de derrubar os obst√°culos. Com efeito, a intelig√™ncia derruba e p√Ķe de banda, para atingir o fim que a orienta, todo o obst√°culo √† sua actividade. O que lhe embara√ßava a ac√ß√£o favorece-a; o que lhe barrava o caminho ajuda-a a progredir.

N√£o Consigo Viver em Literatura

Por mais que o deseje, n√£o consigo viver em literatura. Felizes os que o conseguem. Viver em literatura √© suprimir toda a interfer√™ncia do que lhe √© exterior – desde o peso das pedradas ao das flores da ova√ß√£o. Suprimir mesmo ou sobretudo a conversa sobre ela, desde a dos jornais √† dos amigos. Fazer da literatura um meio enclausurado em que a respiremos at√© √† intoxica√ß√£o e nada dele transpire para a exterioridade. Viver a arte como uma m√≠stica, um transporte de inebriamento, uma ilumina√ß√£o da gra√ßa, uma inteira absor√ß√£o como de um v√≠cio inconfess√°vel. Viv√™-la na intimidade de uma absoluta solid√£o em que toda a amea√ßa de p√ļblico esteja ausente como numa ilha que a impossibilidade de comunica√ß√£o tornasse de facto deserta. Os rec√©m-casados isolam-se para defenderem dos outros a m√≠nima parcela da paix√£o. A vida em arte devia ser uma viagem de n√ļpcias sem retorno. S√≥ ent√£o se conheceria tudo o que a arte √© para n√≥s e a inteira verdade com que n√≥s somos para ela. Mas n√£o. H√° que viver uma vida d√ļplice entre o estar a s√≥s com ela e o permanente conv√≠vio, nem que sejam uns breves instantes √† porta com os indiferentes e os maledicentes e os curiosos e mesmo os admiradores de que se necessita na nossa inferioridade moral para nos confirmarem no bom resultado da aposta.

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O Preço da Pressa

O castigo de ser feliz é o tempo passar depressa. O castigo de ser triste é o tempo não passar. A recompensa de não conseguir ser nem triste nem feliz, permanecendo indiferente, é o tempo passar devagar. Se todos os dias nascemos Рos que temos a sorte de amar, mais a suspeita de sermos, talvez, amados Рtodos os dias morremos cedo de mais.

Se me perguntassem quanto tempo passei com a Maria Jo√£o, nos √ļltimos 15 anos, eu teria muitas dificuldades em n√£o responder 15 dias ou at√© 15 minutos, por n√£o saber mostrar e justificar at√© esse pouco tempo que pass√°mos.

Ainda ontem acordámos às oito da manhã. Mas, às sete da tarde, apesar de termos passado o dia juntos, pareceu-nos que nos tinham roubado o dia inteiro; que tínhamos acabado de nos conhecermos.

Passo do amor à política, por amor ao meu país. A despedida do conhecido e comprovado José Sócrates deveria ter sido tão generosamente saudada como foi recebida a vitória do simpático mas inexperiente Passos Coelho.

O tempo, a ocasi√£o e a sorte parecem ser coisas parecidas – mas s√£o coisas muito diferentes. O ponto de vista,

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A Parte Que Nos Dirige

A parte que nos dirige e manda na tua alma seja indiferente ao movimento, doce ou violento, que a tua carne sente; n√£o se imiscua nele mas se limite a si mesma e mantenha essas paix√Ķes nas lindes do corpo. Quando se propagam √† intelig√™ncia por efeito da simpatia que religa umas √†s outras as partes da pessoa, pois a pessoa √© indivisa, ent√£o n√£o devemos tentar opor-nos √† sensa√ß√£o, fen√≥meno natural. Mas quanto a saber se √© um bem ou um mal, n√£o se meta nisso a parte que nos dirige.

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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Só Sente Ansiedade pelo Futuro aquele cujo Presente é Vazio

O principal defeito da vida √© ela estar sempre por completar, haver sempre algo a prolongar. Quem, todavia, quotidianamente der √† pr√≥pria vida “os √ļltimos retoques” nunca se queixar√° de falta de tempo; em contrapartida, √© da falta de tempo que prov√©m o temor e o desejo do futuro, o que s√≥ serve para corroer a alma. N√£o h√° mais miser√°vel situa√ß√£o do que vir a esta vida sem se saber qual o rumo a seguir nela; o esp√≠rito inquieto debate-se com o inelut√°vel receio de saber quanto e como ainda nos resta para viver. Qual o modo de escapar a uma tal ansiedade? H√° um apenas: que a nossa vida n√£o se projecte para o futuro, mas se concentre em si mesma. S√≥ sente ansiedade pelo futuro aquele cujo presente √© vazio. Quando eu tiver pago tudo quanto devo a mim mesmo, quando o meu esp√≠rito, em perfeito equil√≠brio, souber que me √© indiferente viver um dia ou viver um s√©culo, ent√£o poderei olhar sobranceiramente todos os dias, todos os acontecimentos que me sobrevierem e pensar sorridentemente na longa passagem do tempo! Que esp√©cie de perturba√ß√£o nos poder√° causar a variedade e instabilidade da vida humana se n√≥s estivermos firmes perante a instabilidade?

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Quem Confia Supera-se

Quanto mais confiante fores, maior ameaça és.

Quem confia supera-se, é maior e mais alto. Conquista mais, é mais forte e vê mais longe. Sabe por onde caminhar, sabe melhor o que não quer e sabe antecipar-se. Vive, portanto, melhor preparado para resistir a tudo e persistir perante qualquer adversidade.

Quem confia sempre alcança.

Somos uma sombra na vida dos encolhidos. Um despertador que n√£o para de lhes gritar aos ouvidos express√Ķes como: ¬ęmexe-te¬Ľ, ¬ęv√™s como eles conseguem¬Ľ, ¬ęn√£o vales nada¬Ľ ou ¬ęquem te dera ser como eles¬Ľ. E isto, naturalmente, incomoda-os. D√°-lhes a volta ao est√īmago. Mas em vez de tal chamariz de verdade os acicatar e os empurrar para a a√ß√£o, acabam por escolher transformar isso em inveja, raiva e √≥dios de estima√ß√£o ao ponto de olharem para ti, n√£o como uma for√ßa inspiradora capaz de lutar por tudo o que quer, mas como um alvo a abater. √Č como se o objetivo das suas vidas passasse a ser a destrui√ß√£o do chato despertador que n√£o para de lhes zumbir a realidade, em lugar de ser a realiza√ß√£o das suas pr√≥prias e eventuais vontades.

Dito isto, prepara-te para teres de lidar com eles todos os dias.

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Felicidade e Alegria

N√£o creio que se possa definir o homem como um animal cuja caracter√≠stica ou cujo √ļltimo fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que √© pr√≥prio do homem na sua forma mais alta √© superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou n√£o ser feliz e ver at√© o que pode vir do obst√°culo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combina√ß√Ķes seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si pr√≥prio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que se n√£o quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens apesar do que possa combater, e √© mais dif√≠cil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obedi√™ncia ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida.
Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade,

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Somos os Comandantes das Nossas Vidas

Se alguém te disser que aquilo que queres não interessa para nada, desinteressa-te dessa pessoa.

Somos os comandantes das nossas vidas.

Somos n√≥s, portanto, que escolhemos com quem queremos caminhar, e ai de algu√©m que acredite que pode entrar √† for√ßa na nossa vida sem a devida autoriza√ß√£o. Na minha n√£o entram, disso podes ter a certeza. E se todos pens√°ssemos assim, se todos ag√≠ssemos em conformidade com esta breve alus√£o ao nosso poder pessoal, viver√≠amos todos num aut√™ntico mar de rosas. Mas n√£o. Este princ√≠pio b√°sico √© o terror de muita gente. A maioria talvez. Malta que acredita que tem de aguentar o supl√≠cio de viver ou conviver com quem lhe quer mal ou lhe √© indiferente. √Č uma desgra√ßa. √Č o reinado do medo. Do medo de ficar sozinho, de nunca mais sentir nada por ningu√©m, de tudo o que possam dizer ou pensar se agirem como desejam, da rea√ß√£o do outro, de mago√°-lo, enfim, o medo de tudo. Ora bem, esta onda de passividade e permissividade gera a extin√ß√£o da confian√ßa, fomenta o canibalismo do amor-pr√≥prio e inverte todo e qualquer tipo de educa√ß√£o apropriada. Como √© que algum filho, por exemplo, pode desenvolver-se em amor se tudo o que v√™ em casa s√£o duas pessoas que mal se olham ou que se atacam,

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As Influências no Estado de Espírito

Agora estou disposto a fazer tudo, agora a nada fazer; o que me √© um prazer neste momento em alguma outra vez me ser√° um esfor√ßo. Acontecem em mim mil agita√ß√Ķes desarrazoadas e acidentais. Ou o humor melanc√≥lico me domina, ou o col√©rico; e, com a sua autoridade pessoal, neste momento a tristeza predomina em mim, neste momento a alegria. Quando pego em livros, terei captado em determinada passagem qualidades excelentes e que ter√£o tocado a minha alma; quando uma outra vez volto a deparar com ela, por mais que a vire e revire, por mais que a dobre e apalpe, √© para mim uma massa desconhecida e informe.
Mesmo nos meus escritos nem sempre reencontro o sentido do meu pensamento anterior: n√£o sei o que quis dizer, e ami√ļde me esfalfo corrigindo e dando-lhe um novo sentido, por haver perdido o primeiro, que valia mais. N√£o fa√ßo mais que ir e vir: o meu julgamento nem sempre caminha para a frente; ele flutua, vagueia, Como um barquinho fr√°gil surpreendido no vasto mar por uma tempestade violenta (Catulo).
Muitas vezes (como habitualmente me advém fazer), tendo tomado para defender, por exercício e por diversão, uma opinião contrária à minha,

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Uma Apreciação Correcta do Nosso Valor

Uma aprecia√ß√£o correcta do valor daquilo que se √© em si e para si mesmo, comparado √†quilo que se √© apenas aos olhos de outr√©m, contribuir√° em muito para a nossa felicidade. √Ä primeira rubrica pertence tudo o que preenche o tempo da nossa pr√≥pria exist√™ncia, o conte√ļdo √≠ntimo desta. (…) Pelo contr√°rio, o lugar daquilo que somos para outr√©m √© a consci√™ncia alheia, √© a representa√ß√£o sob a qual nela aparecemos, junto com os conceitos que lhe s√£o aplicados. Ora, isso √© algo que n√£o existe imediatamente para n√≥s, mas apenas de modo mediato, vale dizer, na medida em que determina a conduta dos outros para connosco. E mesmo isso s√≥ √© levado em conta caso tenha influ√™ncia sobre alguma coisa que possa modificar aquilo que somos em n√≥s e para n√≥s mesmos. Ademais, aquilo que se passa, como tal, na consci√™ncia alheia, √©-nos indiferente.
E tamb√©m nos tornaremos cada vez mais indiferentes quando alcan√ßarmos um conhecimento suficiente da superficialidade e da futilidade dos pensamentos, da limita√ß√£o dos conceitos, da pequenez dos sentimentos, da absurdez das opini√Ķes e do n√ļmero de erros na maioria das cabe√ßas. E, ainda, √† medida que aprendermos pela pr√≥pria experi√™ncia o desd√©m com que,

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A Arte da Conversação

O que faz com que poucas pessoas sejam agradáveis na conversação é que cada uma pensa mais no que tem a intenção de dizer do que naquilo que as outras dizem, e que não se escuta às demais quando se tem vontade de falar.
Para agradar aos outros √© preciso falar daquilo de que eles gostam e que os interessa, evitar as discuss√Ķes sobre coisas indiferentes, formular-lhes raramente perguntas e n√£o os deixar crer que se pretende ter mais raz√£o que eles.
Evitemos sobretudo falar frequentemente de nós mesmos e de nos darmos como exemplo. Nada é mais desagradável do que uma pessoa que se cita a si mesma a cada passo.