Citação de

A Alegria Pura só Existe sem a Vaidade

A mais pura alegria é aquela que gozamos no tempo da inocência; estado venturoso, em que nada distinguimos pela razão, mas pelo instinto; e em que nada considera a razão, mas sim a natureza. Então circula veloz o nosso sangue, e os humores que num mundo novo, e resumido, apenas têm tomado os seus primeiros movimentos. Os humores são os que produzem as nossas alegrias; e com efeito não há alegria sem grande movimento; por isso vemos, que a tristeza nos abate, e a alegria nos move; o sossego ainda que indique contentamento, contudo mais é representação da morte que da vida; e a tranquilidade pode dar descanso, porém alegria não a dá sempre.

Mas como pode deixar de ser pura a alegria dos primeiros anos, se ainda ent√£o a vaidade n√£o domina em n√≥s? Ent√£o s√≥ sentimos o bem, e o mal, que resulta da dor, ou do prazer; depois tamb√©m sentimos o mal, e o bem da opini√£o, isto √©, da vaidade; por isso muitas cousas nos alegram, que tomadas em si mesmas, n√£o t√™m mais bem, que aquele com que a vaidade as considera; e outras tamb√©m nos entristecem, que tomadas s√≥ por si, n√£o t√™m outro mal, que aquele que a mesma vaidade lhes sup√Ķe. A vaidade naturaliza em n√≥s as opini√Ķes do mundo; e de tal sorte, que o conceito, que formamos das cousas, por mais que nos seja indiferente, ou incerto, sempre faz em n√≥s uma verdadeira impress√£o de alegria, ou de tristeza.
Tudo o que sabemos, √© como por tradi√ß√£o; porque sucessivamente imos deixando uns aos outros as intelig√™ncias, em que se fundam as nossas vaidades, e as imos passando como de m√£o em m√£o; as que recebemos dos que j√° vieram, essas mesmas havemos de deixar aos que h√£o-de vir; √© uma heran√ßa, que se distribui igualmente a todos, e que todos largam, e entregam na mesma forma que recebem; por isso as ideias novas reputam-se como partos ileg√≠timos, e supostos, porque lhes falta a autoridade do tempo, que as devia autenticar. Tudo envelhece no mundo, e a velhice em tudo imprime um car√°cter vener√°vel; a antiguidade enobrece as vaidades, e opini√Ķes, e destas as modernas s√£o menos singulares, porque t√™m a desgra√ßa de come√ßar: daqui vem que n√£o temos alegria, sen√£o enquanto n√£o temos vaidade, e n√£o temos vaidade, sen√£o enquanto n√£o temos ci√™ncia dela.

A entrada na vida é inocente, por isso então é pura a alegria; a continuação da mesma vida é vaidosa, por isso a alegria então é imperfeita. Nos primeiros anos vemos as cousas como elas são, depois vemo-las, como os homens querem, que elas sejam; em um tempo a alegria só depende de nós: depois também depende dos outros; naquela a alegria vem de uma natureza ainda ignorante, e sem vaidade; depois procede de uma natureza já instruída, e por consequência vaidosa. Que cousa é a ciência humana, senão uma humana vaidade? Quem nos dera, que assim como há arte para saber, a houvesse também para ignorar; e que assim como há estudo, que nos ensina a lembrar, o houvesse também, que nos ensinasse a esquecer.