Passagens sobre M√£os

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Frases sobre m√£os, poemas sobre m√£os e outras passagens sobre m√£os para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Veio Ter Comigo Hoje a Poesia

Veio ter comigo hoje a poesia.
H√° quantos anos? Desde a juventude.
Veio num raio de sol, num murm√ļrio de vento.
E a ilus√£o que me trouxe de uma antiga alegria
reinventou-me a antiga plenitude
que j√° n√£o invento.

Fazia-lhe outrora poemas verdadeiros
em fornica√ß√Ķes r√°pidas de galo.
Hoje n√£o sou eu nunca por inteiro
e há sempre no que faço um intervalo.

Estamos ambos t√£o velhos ‚ÄĒ que vens fazer?
‚ÄĒ a cama entre n√≥s da nossa antiga fun√ß√£o.
Nublado o olhar só de a ver.
E tomo-lhe em silêncio a mão.

Lassid√£o

Ah, por favor, doçura, doçura, doçura!
Acalma esses arroubos febris, minha bela.
Mesmo em grandes folguedos, a amante só deve
Mostrar o abandono calmo da irm√£ pura.

S√™ l√Ęnguida, adormece-me com os teus afagos,
Iguais aos teus suspiros e ao olhar que embala.
O abra√ßo do ci√ļme, o espasmo impaciente
Não valem um só beijo, mesmo quando mente!

Mas dizes-me, criança, em teu coração de ouro
A paix√£o mais selvagem toca o seu clarim!…
Deixa-a trombetear à vontade, a impostora!

Chega essa testa à minha, a mão também, assim,
E faz-me juramentos pra amanh√£ quebrares,
Chorando até ser dia, impetuosa amada!

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Caminho da Manh√£

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes.

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Magro, de Olhos azuis, Car√£o Moreno

Magro, de olhos azuis, car√£o moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e n√£o pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Todos os dias as mãos cortam os pequenos nós que se lhes formam entre os dedos, ao enovelarem a difícil meada da vida, com aquela pequena espada, que elas têm sempre na algibeira, à mesa, na cama, em toda a parte, e que se chama mentira.

Os sonhos dos filósofos têm, em todos os tempos, animado homens de acção que puseram mãos à obra para realizá-los.

O Anjo Da Redenção

Soberbo, branco, etereamente puro,
Na m√£o de neve um grande facho aceso,
Nas nevroses astrais dos sóis surpreso,
Das trevas deslumbrando o caos escuro.

Portas de bronze e pedra, o horrendo muro
Da masmorra mortal onde est√°s preso
Desce, penetra o Arcanjo branco, ileso
Do ódio bifronte, torso, torvo e duro.

Maravilhas nos olhos e prodígios
Nos olhos, chega dos azuis litígios
Desce à tua caverna de bandido.

E sereno, agitando o estranho facho,
P√Ķe-te aos p√©s e a cabe√ßa, de alto a baixo,
Auréolas imortais de Redimido!

Crep√ļsculo

Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois l√≠rios roxos e dolentes…

E os l√≠rios fecham… Meu Amor, n√£o sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres m√£os s√£o maceradas
Como vagas saudades de doentes…

O Sil√™ncio abre as m√£os… entorna rosas…
Andam no ar carícias vaporosas
Como p√°lidas sedas, arrastando…

E a tua boca rubra ao pé da minha
√Č na suavidade da tardinha
Um cora√ß√£o ardente palpitando…

Pensar Portugal

Pensar Portugal √© pens√°-lo no que ele √© e n√£o iludirmo-nos sobre o que ele √©. Ora o que ele √© √© a inconsci√™ncia, um infantilismo org√Ęnico, o repentismo, o desequil√≠brio emotivo que vai da abjec√ß√£o e l√°grima f√°cil aos actos grandiosos e her√≥icos, a credulidade, o embasbacamento, a dif√≠cil assump√ß√£o da pr√≥pria liberdade e a paralela e c√≥moda entrega do pr√≥prio destino √†s m√£os dos outros, o mesquinho esp√≠rito de intriga, o entendimento e valoriza√ß√£o de tudo numa dimens√£o curta, a zanga f√°cil e a reconcilia√ß√£o f√°cil como se tudo fossem rixas de fam√≠lia, a tend√™ncia para fazermos sempre da nossa vida um teatro, o berro, o espalhafato, a desinibi√ß√£o tumultuosa, o despudor com que exibimos facilmente o que devia ficar de portas adentro, a grosseria de um novo-rico sem riqueza, o ego√≠smo feroz e indiscreto balanceado com o altru√≠smo, se houver gente a ver ou a saber, a inautenticidade vis√≠vel se queremos subir al√©m de n√≥s, a superficialidade vistosa, a improvisa√ß√£o de expediente, o arrivismo, a trafulhice e o gozo e a vaidade de intrujar com a nossa ¬ęesperteza saloia¬Ľ, o fatalismo, a crendice milagreira, a parolice. Decerto, temos tamb√©m as nossas virtudes. Mas, na sua maioria, elas t√™m a sua raiz nestas mis√©rias.

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Obrigada!

A Nininha Andrade

… E tu rezas por mim! Como agrade√ßo
Essa esmola gentil de teu carinho…
Como as torturas de minh’alma esque√ßo
Nessa tua oração, floco de arminho!

Eu te bendigo, ó santa que estremeço,
Alma t√£o pura como a flor do linho.
√Č tua prece √† m√°goa que pade√ßo
Asa de pomba defendendo um ninho!

Reza, criança! Junta as mãos nevadas
E cerra as níveas pálpebras amadas
Sobre os teus olhos como um lindo v√©u…

Depois, nas asas de uma prece ardente,
Deixa cantar minh’alma docemente,
Deixa subir meu coração ao céu!

A primeira ventura que o amor d√° existe no primeiro aperto de m√£o da mulher que amamos.

O Tempo Gastador de Mil Idades

O Tempo gastador de mil idades,
Que na décima esfera vive e mora,
N√£o descansa co’a F√ļria tragadora,
De exercitar, feroz, suas crueldades.

Ele destrói as ínclitas cidades,
As eg√≠pcias pir√Ęmides devora:
Sua dentada fouce assoladora,
Rompe forças viris, destrói beldades.

O bronze, o ouro, o rígido diamante,
A sua m√£o pesada amolga e gasta
Levando tudo ao nada, em giro errante.

Como trov√£o feroz rugindo arrasta,
Quanto cobre na Terra o sol radiante,
Só da Virtude com temor se afasta.

Confiss√£o

Meus l√°bios, meus olhos (a flor e o veludo…)
Minha ideia turva, minha voz sonora,
Meu corpo vestido, meu sonho desnudo…
Senhor confessor! Sabeis tudo ‚ÄĒ tudo!
Quanto o vulgo, ingénuo, ao saudar-me, ignora!

Sabeis que em meus beijos a fome dormira
Antes que da orgia a f√© despertasse…
Sabeis que sem oiro o mundo é mentira
E, como do fruto que Deus proibira,
Um luar tombou, manchando-me a face.

P√°ssaro, cativo da noite infinita!
√Āguia de asa in√ļtil, pela noite presa!
√ď cruz dos poetas! √≥ noite infinita!
√ď palavra eterna! minha √ļnica escrita!
Beleza! Beleza! Beleza! Beleza!

Eis as minhas mãos! Quem pode prendê-las?
S√£o fr√°geis, mas nelas h√° dedos inteiros.
Senhor confessor! Quem n√£o conta estrelas?
Meus dedos, um dia, contaram estrelas…
Quem conta as estrelas n√£o conta dinheiros!

Soneto

Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a ang√ļstia que nos √© devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De inten√ß√Ķes e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a m√£o que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que invent√°mos e nos fita.

Espírito Imortal

Espírito imortal que me fecundas
Com a chama dos viris entusiasmos,
Que transformas em gl√°dios os sarcasmos
Para punir as multid√Ķes profundas!

√ď alma que transbordas, que me inundas
De brilhos, de ecos, de emo√ß√Ķes, de pasmos
E fazes acordar de atros marasmos
Minh’alma, em t√©dios por charnecas fundas.

Força genial e sacrossanta e augusta,
Divino Alerta para o Esquecimento,
Voz companheira, carinhosa e justa.

Tens minha M√£o, num doce movimento,
Sobre essa Mão angélica e robusta,
Espírito imortal do Sentimento!

São Plácidas Todas as Horas que Nós Perdemos

Mestre, s√£o pl√°cidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

N√£o h√° tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
S√°bios incautos,
N√£o a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, pl√°cidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
N√£o nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

N√£o vale a pena
Fazer um gesto.
N√£o se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas m√£os
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranq√ľilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

Soneto XXI

As Relíquias de S. Cruz de Coimbra

Aquela √Āguia gentil de vista estranha
A Cristo viu, co’ a m√£o de estrelas chea,
Solícito, qual anda o que semea
C’os olhos longos no que ao longe apanha.

Lavrador foi no mundo, e com tamanha
Sede que inda de l√° fruito granjea.
Mas ai Senhor, em terra e triste area,
Mal estrelas se d√£o, pouco se ganha.

Bem sabe Cristo o que semea, e onde:
As vivas mortes s√£o de mortas vidas
(Que hoje neste sagrado templo esconde)

Estrelas, que de carne est√£o vistidas.
A quem semea seu valor responde,
E bem, donde as semea merecidas.

O Casulo

No casulo:
uma mesa quatro cinco estantes
livros por centenas ou milhares
tijolos de papel onde as traças
acasalam e o caruncho espreita
sólidas muralhas de elvezires onde
a rua n√£o penetra
uma m√°quina de escrever olivetti
com a tinta acumulada nas letras mais redondas
cachimbos barros estanhos medalhas fotos
bonecos marafonas lembranças
retratos alguns gente ida ou vinda
gorros usbeques gorros bailundos leques
japoneses arp√Ķes a√ßorianos sinos de n√£o sei donde
ou sei esperem sinos da tróica em natais nocturnos
marfins africanos óleos desenhos calendários
feitiços da Baía a mão a fazer figas
tudo do melhor contra raios coriscos mau olhado
retratos dizia Jorge o de Salvador J√ļlio o da Morgadinha
Berglin o cientista Kostas o dramaturgo
e outros e outros
Afonso Duarte o das ossadas pórtico
destas lam√ļrias o sorriso sibilino e rugoso
que matou no Nemésio o bicho harmonioso
mais de agora o Umberto Eco barbudo
a filtrar-me com medievismo os gestos tontos
e outros e outros
suecos brasileiros romenos gregos
e ainda aqueles em que a Zita foi escrevendo
a minha sina de andarilho
Tolstoi patrono obcecante um pastor a tocar
pífaro algures nos Balcãs sinais da Bulgária da Polónia
da Finl√Ęndia sinais de tantas partes onde
fui um outro de biografia aberrante
sinais da minha terra também
a minha de verdade e n√£o as outras
a que chamam minhas por distraído palpite
o Lima de Freitas num candeeiro alumiando
a mulher verde-azul em casas assombrada
mestre Marques d’Oliveira num esquisso
de alto coturno a carta de Abel Salazar
que o sol foi comendo n√£o se lendo j√°
o que a censura omitiu
aqui a China também representada
um ícone de Sófia as plácidas cabras
do Calasans o tinteiro de quando
se usavam plumas roubaram-se o missal do Cicogna
um almofariz para esferogr√°ficas furta-cores
a caixa de madeira floreada veio da R√ļssia
deu-ma a Tatiana sob promessa (cumprida)
de a p√īr bem em frente das minhas divaga√ß√Ķes
anémonas nórdicas da Anne
mios√≥tis b√ļlgaros da Rumiana
o poster é alemão Friede den Kindern
nunca pedi a ninguém a decifração
dois horóscopos face a face
cangaceiros nordestinos
o menino ajoelhado do Tó Zé
num gesso já sem braços nem rosto
objectos objectos o pote tem as armas de n√£o lembro
[quem
embora o nome que venha por de cima
seja o meu e eu também no óleo carrancudo
do Zé Lima há um ror de anos
melhor n√£o saber quantos
o molde para o bronze é um perfil onde
desenganadamente me reconheço
tanta bugiganga tanto bazar tanto papel
branco ou impresso uma faca para
apunhalar alguém a cassete de poesias na voz
da Maria Vitorino as esculturas astecas
do Miguel medalhas medalhas outra vez lembranças
agendas sem préstimo canetas gastas mais papéis
letras mi√ļdas ou letras farfalhudas
depende da ocasi√£o
um livro de filigrana
as paredes mal se vêem estantes copiosas já disse
quadros em demasia e ainda
as rendas de minha m√£e em molduras destoadas
ela no retrato de cenho descontente
fitando-me até ao miolo dos desvairos
o bordão de régulo justiceiro
obliquando no trono de cactos
amuletos africanos o mata-borr√£o que foi
de um pide deu-mo o fuzileiro no pós-Abril
uma bela cabeça de mulher do João Fragoso
jarras de sacristia candeias de cobre
sem pavio um samovar de madeira um samurai de
[veludo
os painéis de São Vicente em miniatura
a áurea trombeta do troféu lusíada
de parceria com o Manuel Cargaleiro
áureos pesados troféus o marasmo branco
de Pavia na tela sem idade
livros livros os correios n√£o p√°ram
de mos trazer para maior sufocação
cartas a granel por responder relógio não há mas ouço-o
sem falhar um segundo h√° cordas cord√Ķes medalhas
[medalh√Ķes
armas laur√©is proibi√ß√Ķes
perfumes em minaretes levantinos.

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