Passagens de Eugénio de Andrade

99 resultados
Frases, pensamentos e outras passagens de Eugénio de Andrade para ler e compartilhar. Os melhores escritores estão em Poetris.

Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria ‚ÄĒ
por mais amarga.

Sobre a Palavra

Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama

Assim se morre dizias tu
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura

Na porosa fronteira do silêncio
a m√£o ilumina a terra inacabada

Interminavelmente

O mundo √© conduzido por loucos e ambiciosos, que s√≥ t√™m em mira o √™xito e o lucro, est√£o-se nas tintas para as preocupa√ß√Ķes dos poetas, que s√£o, como toda a gente sabe, seres da utopia, essa utopia sem a qual n√£o h√° progresso.

Nem sempre os livros de que as crianças gostam foram escritos para elas, e os livros que em sua intenção se escrevem raramente interessam às crianças ou aos adultos. As crianças merecem mais que poesia requentada.

Urgentemente

√Č urgente o amor
√Č urgente um barco no mar

√Č urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

√Č urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manh√£s claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
√Č urgente o amor, √© urgente
permanecer.

Caridade é uma palavra de flancos frios e águas estanques. Conduz sem grandes desvios ao mundo pantanoso e pervertido da repressão, onde a consciência que se diz virtuosa mais não faz que servi-lo, desinteressada como está em que a potencialidade humana se afirme em todo o seu esplendor.

Todas as casas onde h√° livros e quadros e discos s√£o bonitas. E s√£o feias todas as casas, por mais luxuosas, onde faltem essas coisas.

Nocturno a Duas Vozes

‚ÄĒ Que posso eu fazer
sen√£o beber-te os olhos
enquanto a noite
n√£o cessa de crescer?

‚ÄĒ Repara como sou jovem,
como nada em mim
encontrou o seu cume,
como nenhuma ave
poisou ainda nos meus ramos,
e amo-te,
bosque, mar, constelação.

‚ÄĒ N√£o tenhas medo:
nenhum rumor,
mesmo o do teu coração,
anunciar√° a morte;
a morte
vem sempre doutra maneira,
alheia
aos longos, brancos
corredores da madrugada.

‚ÄĒ N√£o √© de medo
que tremem os meus l√°bios,
tremo por um fruto de lume
e solid√£o
que é todo o oiro dos teus olhos,
toda a luz
que meus dedos têm
para colher na noite.

‚ÄĒ V√™ como brilha
a estrela da manh√£,
como a terra
é só um cheiro de eucaliptos,
e um rumor de √°gua
vem no vento.

‚ÄĒ Tu √©s a √°gua, a terra, o vento,
a estrela da manhã és tu ainda.

‚ÄĒ Cala-te, as palavras doem.
Como dói um barco,
como dói um pássaro
ferido
no limiar do dia.

Continue lendo…

As Nuvens

Hei-de aprender um of√≠cio de que goste, h√° t√£o poucos, talvez carpinteiro, ou pedreiro. Construiria uma casa neste ch√£o de areia com pedras h√ļmidas, lisas ou cheias de limos, frias, s√£o t√£o bonitas, com seus veios cruzando-se, ou afastando-se de costas uns para os outros. Havia de meter-me por esses mi√ļdos caminhos de chibas para ver, ao fim da tarde, chegar os saltimbancos em toda a sua gl√≥ria, que me apontam as nuvens lentas, muito brancas, afastando-se.

No Fim do Ver√£o

No fim do verão as crianças voltam,
correm no molhe, correm no vento.
Tive medo que n√£o voltassem.
Porque as crianças às vezes não
regressam. Não se sabe porquê
mas também elas
morrem.
Elas, frutos solares:
laranjas rom√£s
dióspiros. Sumarentas
no outono. A que vive dentro de mim
também voltou; continua a correr
nos meus dias. Sinto os seus olhos
rirem; seus olhos
pequenos brilhar como pregos
cromados. Sinto os seus dedos
cantar com a chuva.
A criança voltou. Corre no vento.

Primeiramente

Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.
Meu amor, amor de uma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, at√© que outra boca ‚ÄĒ e sempre a tua boca ‚ÄĒ comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.

Labirinto ou Alguns Lugares de Amor

O outono
por assim dizer
pois era ver√£o
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras m√£os que lentas barcas
vai-se aproximando a √°gua

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
t√£o fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco

Havia uma palavra no escuro. Min√ļscula. Ignorada. Martelava no escuro. Martelava no ch√£o da √°gua. Do fundo do tempo, martelava. contra o muro. Uma palavra. No escuro. Que me chamava.

F√°bula

Estavam ali diante dos meus olhos: era terrível e ao mesmo tempo fascinante.
Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado aos seus gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.
Os seio de Maria ca√≠am nus da blusa. Uma das m√£os do carpinteiro perdia-se nos seus cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo d√® homem: r√≠gido e fremente, ao mesmo tempo, √† for√ßa de concentrar todo o √≠mpeto nas n√°degas, arco de onde a flecha partia, para se cravar exasperada nas entranhas da rapariga. Parecia um cavalo ofegante ‚ÄĒ os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espa-lhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o c√©u branco de agosto. Mas a terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim a paz desceu ao mundo.
Maria olhava o carpinteiro com olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante.

Continue lendo…

Desde a Aurora

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as m√£os:
procuram-te desde o ch√£o,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu ‚ÄĒ a terra ‚ÄĒ que te procuro.

O Acto Poético

O acto po√©tico √© o empenho total do ser para a sua revela√ß√£o. Este fogo do conhecimento, que √© tamb√©m fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, √© a sua moral. E n√£o h√° outra. Nesse mergulho do homem nas suas √°guas mais silenciadas, o que vem √† tona √© tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o esp√≠rito humano atenta mais facilmente nas diferen√ßas do que nas semelhan√ßas, esquecendo-se, e √© Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, t√£o fiel ao homem, acaba por ser palavra de esc√Ęndalo no seio do pr√≥prio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer s√£o capazes de imaginar. Palavra de afli√ß√£o mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa at√© quando nos diz o sil√™ncio, pois esse ser sedento de ser, que √© o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura √© uma reconcilia√ß√£o, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presen√ßa e aus√™ncia, plenitude e car√™ncia.