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Aquilo que considero verdadeiramente valioso na engrenagem da Humanidade não é o Estado, mas sim o indivíduo criador e emotivo, a personalidade: só ela é capaz de criar aquilo que é nobre e sublime, enquanto o povo em si permanece embotado no pensar e frígido no sentir.

Todas as artes divinatórias foram feitas para aconselhar o homem, jamais para prever o futuro. São excelentes conselheiras e péssimas profetizas.

Você faria um navio ir contra ventos e correntes acendendo uma fogueira debaixo do deque? Não tenho tempo para tamanho absurdo.

Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der

O passado serve para evidenciar as nossas falhas e dar-nos indica√ß√Ķes para o progresso do futuro.

Dominar ou Morrer

Uma esp√©cie nasce, um tipo fixa-se e torna-se forte sob a longa luta com condi√ß√Ķes desfavor√°veis essencialmente constantes. Inversamente, sabe-se pelas experi√™ncias dos criadores de gado que as esp√©cies que foram superalimentadas e, de um modo geral, tiveram demasiada protec√ß√£o e cuidados, logo tendem marcadamente para a varia√ß√£o de tipos e abundam em prod√≠gios e monstruosidades (tamb√©m em v√≠cios monstruosos). Considere-se agora uma comunidade aristocr√°tica, por exemplo uma antiga polis grega ou Veneza como institui√ß√£o volunt√°ria ou involunt√°ria, destinada √† selec√ß√£o: h√° ali homens convivendo dependentes uns dos outros e que querem impor a sua esp√©cie, em geral porque se t√™m que impor ou de contr√°rio correm o terr√≠vel risco de serem exterminados.

Cada Leitura é Única

Muitos autores s√£o ao mesmo tempo os seus pr√≥prios leitores – √† medida que escrevem -, e √© por isso que tantos vest√≠gios do leitor aparecem nos seus escritos – tantas observa√ß√Ķes cr√≠ticas – tanto que pertence √† prov√≠ncia do leitor e n√£o √† do autor. Travess√Ķes – palavras em mai√ļsculas – passagens grifadas – tudo isso pertence √† esfera do leitor. O leitor p√Ķe a √™nfase como tem vontade – ele de facto faz de um livro o que deseja. N√£o √© todo o leitor um fil√≥logo? N√£o existe uma √ļnica leitura v√°lida somente, no sentido usual. A leitura √© uma opera√ß√£o livre. Ningu√©m me pode prescrever como e o que lerei.

O Sr. Abbade

Quando vem Junho e deixo esta cidade,
Batina, Caes, tuberculozos céus,
Vou para o Seixo, para a minha herdade:
Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!

Tomo o regimen do Sr. Abbade,
E faço as pazes, elle o quer, com Deus.
No seu direito olhar vejo a bondade,
E √°s capellinhas vou ver os judeus.

Que homem sem par! Ignora o que s√£o dores!
Para elle uma ramada é o pallio verde,
Os cachos d’uvas s√£o as suas flores!

Ao seu passal chama elle o mundo todo…
Sr. Abbade! olhe que nada perde:
Viva na paz, ahi, longe do lodo.

A Perfeição

O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

Nada é muito terrível. Só viver, não é? A barra mesmo é ter que estar vivo e ter que desdobrar, batalhar um jeito qualquer de ficar numa boa.