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No Mundo Poucos Anos, E Cansados

No mundo poucos anos, e cansados,
vivi, cheios de vil miséria dura;
foi-me tĂŁo cedo a luz do dia escura,
que nĂŁo vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados
buscando à vida algum remédio ou cura;
mas aquilo que, enfim, nĂŁo quer ventura,
não o alcançam trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
pĂĄtria minha Alenquer; mas ar corruto
que neste meu terreno vaso tinha,

me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na AbĂĄssia fera e avara,
tĂŁo longe da ditosa pĂĄtria minha!

Certo dia, atrasei-me ao voltar da escola e meus pais pensaram que eu havia sido seqĂŒestrado. E aĂ­ entraram imediatamente em ação: alugaram meu quarto.

Atenção! NĂŁo hĂĄ nada que tanto gostemos de mostrar aos outros como o selo do segredo… sem esquecer o que hĂĄ debaixo.

Lembre-vos quão sem Mudança

Lembre-vos quão sem mudança,
Senhora, Ă© meu querer,
perdida toda esperança;
e de mim vossa lembrança
nunca se pode perder.
Lembre-vos quĂŁo sem por quĂȘ
desconhecido me vejo;
e, com tudo, minha fé
sempre com vossa mercĂȘ,
com mais crecido desejo.

Lembre-vos que se passaram
muitos tempos, muitos dias,
todos meus bens se acabaram,
com tudo, nunca mudaram;
querer-vos, minhas porfias.
Lembre-vos quanta rezĂŁo
tive pera esquecer-vos,
e sempre meu coração,
quanto menos galardĂŁo,
tanto mais firme em querer-vos.

Lembre-vos que, sem mudar
o querer desta vontade,
me haveis sempre de lembrar,
té de todo me acabar,
vĂłs e vossa saudade.
Lembre-vos como pagais
o tempo que me deveis,
olhai quĂŁo mal me tratais:
Sam o que vos quero mais,
o que menos vĂłs quereis.

Lembre-vos tempo passado,
nĂŁo porque de lembrar seja,
mas vereis quĂŁo magoado
devo de ser c’o cuidado
do que minha alma deseja.
Lembre-vos minha firmeza,
de vĂłs tĂŁo desconhecida,
lembre-vos vossa crueza,
junta com minha tristeza,

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O primeiro passo da humanidade foi ter esperança num mundo melhor e a maior virtude foi a de ser capaz de confiar que ele seria melhor; foi ter fé !

O escritor Ă© um neurĂłtico, e escrever Ă© provavelmente a Ășnica forma que tem de exprimir os seus afectos, e de neles ser retribuĂ­do. É complexo, porque Ă© misturado com uma grande dose de narcisismo.

A certeza de serem Ășteis prolonga a vida das mulheres velhas. Muitas morrem da certeza de nĂŁo mais servirem para nada.

O corpo Ă© projeção da mente; nĂŁo sĂł o corpo carnal, mas tambĂ©m o corpo astral e o espiritual. Nenhum corpo Ă© existĂȘncia verdadeira. O corpo pode ser objeto de experimentos, mas o EspĂ­rito nĂŁo.

A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.

Noturno Do Morro Do Encanto

Este fundo de hotel Ă© um fim de mundo!
Aqui Ă© o silĂȘncio que te voz. O encanto
Que deu nome a este morro, pÔe no fundo
De cada coisa o seu cativo canto.

Ouço o tempo, segundo por segundo.
Urdir a lenta eternidade. Enquanto
FĂĄtima ao pĂł de estrelas sitibundo
Lança a misericórdia do seu manto.

Teu nome é uma lembrança tão antiga,
Que nĂŁo tem so nem cor, e eu, miserando,
NĂŁo sei mais como ouvir, nem como o diga.

Falta a morte chegar… Ela me espia
Neste instante talvez, mal suspeitando
Que jĂĄ morri quando o que eu fui morria.