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A democracia tem necessidade de justiça, enquanto a aristocracia e a monarquia podem passar bem sem ela.

No √Ęmago de nosso ser, existe a perfei√ß√£o inata. Essa perfei√ß√£o latente √© a for√ßa motriz que nos impulsiona a agir de modo a nos aperfei√ßoarmos cada vez mais.

As palavras s√£o como os patifes desde o momento em que as promessas os desonraram. Elas tornaram-se de tal maneira impostoras que me repugna servir-me delas para provar que tenho raz√£o.

Gosto de Amar

gosto de amar com os dedos,
encontrar o centímetro em que nasce o orgasmo
em ti, perceber a extens√£o da forma como te sobressaltas,
e encostar-te o meu ouvido à boca para ouvir a voz de
deus.

gosto de amar com os olhos,
gastar a hipótese do sono e ver-te adormecer,
a noite escura e o silêncio de um abraço,
e se queres que te diga
só te escolhi por engano, queria o amor dos livros
e virei escritor, os dias inteiros à espera do teu corpo
para que as metáforas aconteçam.

gosto de amar com as l√°grimas,
praticar o abismo, a largura estreita dos teus l√°bios,
a sensação de mar excessivo da tua língua,
até a maneira como me percorres o sexo
com a extremidade da tua respiração parada,
e sobretudo submeter-me ao castigo da emoção
de te amar ainda depois do final do prazer,
a pequena morte acabada
e a vida toda outra vez a começar.

gosto de amar com o que me resta,
e tudo o que sei é que me resta amar-te.

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O diabo é um otimista, se acha que pode tornar as pessoas piores do que já são.

√Č-me dif√≠cil deixar Paris porque vou-me separar dos meus amigos; e tamb√©m me √© dif√≠cil deixar o campo porque assim vou-me separar de mim mesmo.

Ouvi-los a Todos, no Silêncio

Detesto a ac√ß√£o. A ac√ß√£o mete-me medo. De dia podo as minhas √°rvores, √† noite sonho. Sinto Deus – toco-o. Deus √© muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me – n√£o o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta m√£o que me prende e sustenta e que tanta for√ßa tem…
Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda, conto ouvi-los a todos.

Dona Abastança

¬ęA caridade √© amor¬Ľ
Proclama dona Abastança
Esposa do comendador
Senhor da alta finança.

Família necessitada
A boa senhora acode
Pouco a uns a outros nada
¬ęDar a todos n√£o se pode.¬Ľ

J√° se deixa ver
Que n√£o pode ser
Quem
O que tem
D√° a pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai
E sai caro fazer o bem
Ela d√° ele subtrai
Fazem como lhes convém
Ela aos pobres d√° uns cobres
Ele incans√°vel l√° vai
Com o que tira a quem n√£o tem
Fazendo mais e mais pobres.

J√° se deixa ver
Que n√£o pode ser
Dar
Sem ter
E ter sem tirar.

Todo o que milh√Ķes furtou
Sempre ao bem-fazer foi dado
Pouco custa a quem roubou
Dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo
De t√£o estranha caridade
Feita com dinheiro do povo
Ao povo desta cidade.

Ontem, matou-se um doente, enforcando-se. Escrevi nas minhas notas: suicidou-se no pavilh√£o um doente. O dia est√° lindo. Se voltar a terceira vez aqui, farei o mesmo. Queira Deus que seja o dia t√£o belo como o de hoje.

A Vaidade no Sofrimento

H√° ocasi√Ķes, em que contra√≠mos a obriga√ß√£o connosco, de n√£o admitirmos al√≠vio nas nossas m√°goas, e nos armamos de rigor, e de aspereza contra tudo o que pode consolar-nos, como querendo, que a const√Ęncia na pena nos justifique, e sirva de mostrar a injusti√ßa da fortuna: parece-nos, que o ser firme a nossa dor, √© prova de ser justa; esta ideia nos inspira a vaidade, menos cuidadosa no sossego do nosso √Ęnimo, do que atenta em procurar a estima√ß√£o dos homens. Uma grande pena admira-se, e respeita-se; √© o que basta para que a vaidade nos fa√ßa persistir no sentimento.

Porqu√™? Porqu√™ sentir esse fogo que percorre meu cora√ß√£o, esse vazio que habita minha mente? Porqu√™ pensar sendo que n√£o penso, ainda pensar em ti que n√£o tenho…