Passagens de Machado de Assis

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Nós Queimaremos o Mundo, Querida

Diz a Madame de Stael que os primeiros amores n√£o s√£o os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim √© comigo; mas, al√©m dessa, h√° uma raz√£o capital, e √© que tu n√£o te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Esp√≠rito e cora√ß√£o como o teu s√£o prendas raras; alma t√£o boa e t√£o elevada, sensibilidade t√£o melindrosa, raz√£o t√£o recta n√£o s√£o bens que a natureza espalhasse √†s m√£os cheias (…). Tu pertences ao pequeno n√ļmero de mulheres que ainda sabem amar, sentir, e pensar. Como te n√£o amaria eu? Al√©m disso tens para mim um dote que real√ßa os mais: sofreste. √Č minha ambi√ß√£o dizer √† tua grande alma desanimada: ¬ęlevanta-te, cr√™ e ama: aqui est√° uma alma que te compreende e te ama tamb√©m¬Ľ.
A responsabilidade de fazer-te feliz é decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, e estou certo que saberei desempenhar este agradável encargo. Olha, querida; também eu tenho pressentimento acerca da minha felicidade; mas que é isto senão o justo receio de quem não foi ainda completamente feliz?
Obrigado pela flor que mandaste; dei-lhe dois beijos como se fosse a ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume,

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Espinosa

Gosto de ver-te, grave e solit√°rio,
Sob o fumo de esqu√°lida candeia,
Nas m√£os a ferramenta de oper√°rio,
E na cabeça a coruscante idéia.

E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o p√£o di√°rio
A tua m√£o a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.

Soem c√° fora agita√ß√Ķes e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas

S√≥brio, tranq√ľilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.

Capitu falou novamente da nossa separa√ß√£o, como de um fato certo e definitivo, por mais que eu. receoso disso mesmo, buscasse agora raz√Ķes para anim√°-la.

Por que sinto falta de voc√™? Por que esta saudade? Eu n√£o te vejo mas imagino suas express√Ķes, sua voz teu cheiro…

Porque não há raciocínio nem documento que nos explique melhor a intenção de um acto do que o próprio autor do acto.

O Amor de Si Próprio

[Ferido por uma cr√≠tica adversa, um poeta busca consolo para a m√°goa relendo seus pr√≥prios versos.] Desgosto (…), mas desgosto curto. Ele ir√° dali remirar-se nos pr√≥prios livros. A justi√ßa que um atrevido lhe negou, n√£o lhe negar√£o as p√°ginas dele. Oh! a m√£e que gerou o filho, que o amamenta e acalenta, que p√Ķe nessa fr√°gil criaturinha o mais puro de todos os amores, essa m√£e √© Medeia, se a compararmos √†quele engenho, que se consola da inj√ļria, relendo-se; porque se o amor de m√£e √© a mais elevada forma de altru√≠smo, o dele √© a mais profunda forma de ego√≠smo, e s√≥ h√° uma coisa mais forte que o amor materno, √© o amor de si pr√≥prio.

Noivado

Vês, querida, o horizonte ardendo em chamas?
Além desses outeiros
Vai descambando o sol, e à terra envia
Os raios derradeiros;
A tarde, como noiva que enrubesce,
Traz no rosto um véu mole e transparente;
No fundo azul a estrela do poente
Já tímida aparece.

Como um bafo suavíssimo da noite,
Vem sussurrando o vento
As árvores agita e imprime às folhas
O beijo sonolento.
A flor ajeita o c√°lix: cedo espera
O orvalho, e entanto exala o doce aroma;
Do leito do oriente a noite assoma
Como uma sombra austera.

Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,
Vem, minha flor querida;
Vem contemplar o céu, página santa
Que amor a ler convida;
Da tua solid√£o rompe as cadeias;
Desce do teu sombrio e mudo asilo;
Encontrar√°s aqui o amor tranq√ľilo…
Que esperas? que receias?

Olha o templo de Deus, pomposo e grande;
L√° do horizonte oposto
A lua, como l√Ęmpada, j√° surge
A alumiar teu rosto;
Os círios vão arder no altar sagrado,
Estrelinhas do céu que um anjo acende;

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A Felício Dos Santos

Felício amigo, se eu disser que os anos
Passam correndo ou passam vagarosos,
Segundo s√£o alegres ou penosos,
Tecidos de afei√ß√Ķes ou desenganos,

“Filosofia √© esta de ran√ßosos!”
Dir√°s. Mas n√£o h√° outra entre os humanos.
N√£o se contam sorrisos pelos danos,
Nem das tristezas desabrocham gozos.

Banal, confesso. O precioso e o raro
√Č, seja o c√©u nublado ou seja claro,
Tragam os tempos amargura ou gosto,

N√£o desdizer do mesmo velho amigo,
Ser com os teus o que eles s√£o contigo,
Ter um só coração, ter um só rosto.

Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto.

Será mesmo digna em todas as manhãs esta estranha sensação de estar-se perdendo a cada noite de sono?

Que √© demasiada metaf√≠sica para um s√≥ tenor, n√£o h√° d√ļvida; mas a perda da voz explica tudo, e h√° fil√≥sofos que s√£o, em resumo, tenores desempregados.

Erro

Erro é teu. Amei-te um dia
Com esse amor passageiro
Que nasce na fantasia
E não chega ao coração;
Nem foi amor, foi apenas
Uma ligeira impress√£o;
Um querer indiferente,
Em tua presença vivo,
Nulo se estavas ausente.
E se ora me vês esquivo,
Se, como outrora, não vês
Meus incensos de poeta
Ir eu queimar a teus pés,
√Č que, ‚ÄĒ como obra de um dia,
Passou-me essa fantasia.

Para eu amar-te devias
Outra ser e n√£o como eras.
Tuas frívolas quimeras,
Teu v√£o amor de ti mesma,
Essa pêndula gelada
Que chamavas coração,
Eram bem fracos liames
Para que a alma enamorada
Me conseguissem prender;
Foram baldados tentames,
Saiu contra ti o azar,
E embora pouca, perdeste
A glória de me arrastar
Ao teu carro…V√£s quimeras!
Para eu amar-te devias
Outra ser e n√£o como eras…

Os Arlequins – S√°tira

Musa, dep√Ķe a lira!
Cantos de amor, cantos de glória esquece!
Novo assunto aparece
Que o gênio move e a indignação inspira.
Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga!
Musa, toma a vergasta,
E os arlequins fustiga!

Como aos olhos de Roma,
‚ÄĒ Cad√°ver do que foi, p√°vido imp√©rio
De Caio e de Tib√©rio, ‚ÄĒ
O filho de Agripina ousado assoma;
E a lira sobraçando,
Ante o povo idiota e amedrontado,
Pedia, ameaçando,
O aplauso acostumado;

E o povo que beijava
Outrora ao deus Calígula o vestido,
De novo submetido
Ao régio saltimbanco o aplauso dava.
E tu, tu n√£o te abrias,
√ď c√©u de Roma, √† cena degradante!
E tu, tu não caías,
√ď raio chamejante!

Tal na história que passa
Neste de luzes século famoso,
O engenho portentoso
Sabe iludir a néscia populaça;
N√£o busca o mal tecido
Canto de outrora; a moderna insolência
N√£o encanta o ouvido,
Fascina a consciência!

Vede; o aspecto vistoso,
O olhar seguro,

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