Poemas sobre Deus

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Poemas de deus escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Insónia

N√£o durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo in√ļtil do comprimento do mundo.

N√£o durmo; n√£o posso ler quando acordo de noite,
N√£o posso escrever quando acordo de noite,
N√£o posso pensar quando acordo de noite ‚ÄĒ
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

N√£o durmo, jazo, cad√°ver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
‚ÄĒ Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me n√£o sucederam
‚ÄĒ Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que n√£o s√£o nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasi√£o qualquer em que eu pudesse sentir.

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Bicarbonato de Soda

S√ļbita, uma ang√ļstia…
Ah, que ang√ļstia, que n√°usea do est√īmago √† alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma ang√ļstia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os bra√ßos ao sol-p√īr do esfor√ßo…
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que √© que me falta, que o sinto faltar-me no est√īmago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
N√£o: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir…
E–xis–tir …

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas est√£o todas abertas!
Que ver√£o agrad√°vel dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

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Beleza

Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
√Č lei da natureza:
Queres ser bela? – ama.

Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E est√°tua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura…
Mas Beleza é isso? РNão; só formosura.

Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
– Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que est√£o por nascer ‚Äď
A mãe é a mais bela das obras de Deus.
Se ela ama! РO mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama de luz cristalina:

√Č a luz divina
Que nunca mudou,
√Č luz… √© a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.

Vida Toda Linguagem

Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjectivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.

Vida toda linguagem,
h√° entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjectivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que crian√ßa espalhar√° ‚ÄĒ oh met√°fora activa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sémen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajectórias.
Vida toda linguagem ‚ÄĒ
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os voc√°bulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra
[a chuva,
tenta faz√™-la eterna ‚ÄĒ como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.

L√ļcia

(Alfred de Musset)

Nós estávamos sós; era de noite;
Ela curvara a fronte, e a m√£o formosa,
Na embriaguez da cisma,
Tênue deixava errar sobre o teclado;
Era um murm√ļrio; parecia a nota
De aura longínqua a resvalar nas balsas
E temendo acordar a ave no bosque;
Em torno respiravam as boninas
Das noites belas as vol√ļpias mornas;
Do parque os castanheiros e os carvalhos
Brando embalavam orvalhados ramos;
Ouvíamos a noite, entre-fechada,
A rasgada janela
Deixava entrar da primavera os b√°lsamos;
A v√°rzea estava erma e o vento mudo;
Na embriaguez da cisma a sós estávamos
E tínhamos quinze anos!

L√ļcia era loura e p√°lida;
Nunca o mais puro azul de um céu profundo
Em olhos mais suaves refletiu-se.
Eu me perdia na beleza dela,
E aquele amor com que eu a amava ‚Äď e tanto ! ‚Äď
Era assim de um irm√£o o afeto casto,
Tanto pudor nessa criatura havia!

Nem um som despertava em nossos l√°bios;
Ela deixou as suas m√£os nas minhas;
Tíbia sombra dormia-lhe na fronte,

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Ode ao Amor

T√£o lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo √° flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e s√ļbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as m√£os,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor…
ah tu, senhor da sombra e da ilus√£o sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuport√°vel triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.

Distantemente uma alegria foi,
imensa, j√° tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,

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N√£o te Arrependas

N√£o te arrependas, Amada, porque a mim t√£o depressa
te deste!
Podes crer, nem por isso de ti penso coisas insolentes
e vis!
Vária é a acção das setas do Amor: algumas arranham,
E do rastejante veneno languesce pra anos o peito.
Mas, com penas potentes e gume afiado de fresco,
Outras penetram até ao tutano e rápido inflamam
o sangue.
Nos tempos heróicos, quando Deuses e Deusas amavam,
Ao olhar seguia o desejo, ao desejo o prazer.
Crês tu que a Deusa do Amor pensou muito tempo
Quando no bosque de Ida um dia Anquises lhe
agradou?
Se Luna tardasse a beijar o belo dormente,
Auiora, invejosa, em breve o teria acordado.
Hero descobriu Leandro no festim ruidoso, e ligeiro,
Ardente saltou o amante pra a corrente nocturna.
Rhea Sílvia, a virgem princesa, vai descuidosa
Buscar √°gua ao Tibre, e o Deus dela se apossa.
Assim Marte gerou os seus filhos! ‚ÄĒ Uma loba
amamenta
Os Gémeos, e Roma nomeia-se princesa do mundo.

Tradução de Paulo Quintela

Bendito Seja o mesmo Sol de outras Terras

Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irm√£os todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham
como eu,
E, nesse puro momento
Todo limpo e sensível
Regressam lacrimosamente
E com um suspiro que mal sentem
Ao homem verdadeiro e primitivo
Que via o Sol nascer e ainda o n√£o adorava.
Porque isso √© natural ‚ÄĒ mais natural
Que adorar o ouro e Deus
E a arte e a moral …

Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
Рah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em v√£o tentei n√£o conhecer-te, n√£o notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava                               [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magn√Ęnimo,
√ļnico mist√©rio de um mundo cujo mist√©rio eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada,

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Assovio

Ninguém abra a sua porta
para ver que aconteceu:
saímos de braço dado,
a noite escura mais eu.

Ela n√£o sabe o meu rumo,
eu n√£o lhe pergunto o seu:
n√£o posso perder mais nada,
se o que houve j√° se perdeu.

Vou pelo braço da noite,
levando tudo que é meu:
‚ÄĒ a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.

Confiss√£o

Meus l√°bios, meus olhos (a flor e o veludo…)
Minha ideia turva, minha voz sonora,
Meu corpo vestido, meu sonho desnudo…
Senhor confessor! Sabeis tudo ‚ÄĒ tudo!
Quanto o vulgo, ingénuo, ao saudar-me, ignora!

Sabeis que em meus beijos a fome dormira
Antes que da orgia a f√© despertasse…
Sabeis que sem oiro o mundo é mentira
E, como do fruto que Deus proibira,
Um luar tombou, manchando-me a face.

P√°ssaro, cativo da noite infinita!
√Āguia de asa in√ļtil, pela noite presa!
√ď cruz dos poetas! √≥ noite infinita!
√ď palavra eterna! minha √ļnica escrita!
Beleza! Beleza! Beleza! Beleza!

Eis as minhas mãos! Quem pode prendê-las?
S√£o fr√°geis, mas nelas h√° dedos inteiros.
Senhor confessor! Quem n√£o conta estrelas?
Meus dedos, um dia, contaram estrelas…
Quem conta as estrelas n√£o conta dinheiros!

São Plácidas Todas as Horas que Nós Perdemos

Mestre, s√£o pl√°cidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

N√£o h√° tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
S√°bios incautos,
N√£o a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, pl√°cidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
N√£o nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

N√£o vale a pena
Fazer um gesto.
N√£o se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas m√£os
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranq√ľilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

Ode Triunfal

√Ä dolorosa luz das grandes l√Ęmpadas el√©ctricas da f√°brica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

√ď rodas, √≥ engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em f√ļria!
Em f√ļria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De express√£o de todas as minhas sensa√ß√Ķes,
Com um excesso contempor√Ęneo de v√≥s, √≥ m√°quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes tr√≥picos humanos de ferro e fogo e for√ßa –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

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Ora Até que Enfim

Ora at√© que enfim…, perfeitamente…
C√° est√° ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabe√ßa teve o sobressalto pela espinha acima…

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solu√ß√£o, e foi preciso o est√īmago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organiza√ß√£o de poemas relativos √† vastid√£o de cada assunto resolvido em v√°rios ‚ÄĒ
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim…
Tenho uma n√°usea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia,

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Pensando-vos Estou, Filha

Pensando-vos estou, filha;
vossa m√£e me est√° lembrando;
enchem-se-me os olhos d’√°gua,
nela vos estou lavando.
Nascestes, filha, entre m√°goa,
para bem inda vos seja,
que no vosso nascimento
vos houve a fortuna inveja.
Morto era o contentamento,
nenhuma alegria ouvistes;
vossa m√£e era finida,
nós outros éramos tristes.
Nada em dor, em dor crescida,
n√£o sei onde isto h√° de ir ter;
vejo-vos, filha, formosa,
com olhos verdes crescer.
Não era esta graça vossa
para nascer em desterro;
mal haja a desaventura
que p√īs mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
vossa mãe, e a mágoa a nós;
não éreis vós, filha, não,
para morrerem por vós.
N√£o houve em fados raz√£o,
nem se consentem rogar;
de vosso pai hei mor dó,
que de si se h√° de queixar.
Eu vos ouvi a vós só,
primeiro que outrem ninguém;
n√£o f√īreis v√≥s se eu n√£o fora;
n√£o sei se fiz mal, se bem.
Mas n√£o pode ser, senhora,
para mal nenhum nascentes,
com este riso gracioso
que tendes sobr’olhos verdes.

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Nós Homens nos Façamos Unidos pelos Deuses

N√£o a Ti, Cristo, odeio ou menosprezo
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Pante√£o faltavas. Pois que vieste
No Pante√£o o teu lugar ocupa,
Mas cuida n√£o procures
Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre
A ‘steril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo Pante√£o incerto.

Mas que os teus crentes te n√£o ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas.

E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses n√£o s√£o
Mais que as estrelas s√ļbditas do Fado.

Tu não és mais que um deus a mais no eterno
N√£o a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Pante√£o que preside
À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao n√ļmero dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,

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A Piedosa Beppa

Enquanto o meu corpo for belo
√Č pecado ser piedosa,
√Č sabido que Deus gosta das mulheres,
E das bonitas sobretudo.
Ele perdoar√°, tenho a certeza,
Facilmente ao pobre fradezinho
Que tanto procura a minha companhia
Como muitos outros fradezinhos.

Não é um velhorro padre da Igreja,             .
Não, é jovem, muitas vezes vermelho,
Muitas vezes, apesar da mais cinzenta tristeza,
Pleno de desejo e de ci√ļme.
N√£o gosto dos velhos.
Ele n√£o gosta das velhas:
Que admir√°veis e s√°bios
S√£o os caminhos do Senhor!

A Igreja sabe viver,
Sonda os cora√ß√Ķes e os rostos,
Insiste em perdoar-me…
Quem n√£o me perdoar√°, ent√£o?
Três palavras na ponta da língua,
Uma reverência e ide embora:
O pecado deste minuto
Apagar√° o antigo.

Bendito seja Deus na Terra,
Gosta das raparigas bonitas
E perdoa de bom grado
Os tormentos do amor.
Enquanto o meu corpo for belo
√Č pena ser piedosa;
Case o diabo comigo
Quando eu j√° n√£o tiver dentes.

Adormecer

Vai vida na madrugada fria.

O teu amante fica,
na posse deste momento que foi teu,
amorfo e sem limites como um anjo;
a cabe√ßa cheia de estrelas…
Fica abraçado a esta poeira que teu pé levantou.
Fica in√ļtil e hirto como um deus,
desfalecendo na raiva de n√£o poder seguir-te!

Fado Português

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu ch√£o , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do fr√°gil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do l√°bio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

M√£e, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

A Sensibilidade Humanizada

Que lindos olhos de az√ļl inocente os do pequenito do agiota!
Santo Deus, que entroncamento esta vida!
Tive sempre, feliz ou infelizmente, a sensibilidade humanizada.
E toda a morte me doeu sempre pessoalmente,
Sim, n√£o s√≥ pelo mist√©rio de ficar inexpressivo o org√Ęnico,
Mas de maneira directa, cá do coração.

Como o sól doura as casas dos réprobros!
Poderei odi√°-los sem desfazer no sol?

Afinal que coisa a pensar com o sentimento distraído
Por causa dos olhos de crian√ßa de uma crian√ßa …