Cita√ß√Ķes de Olavo Bilac

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Olavo Bilac para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

I

Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.

E eu olhava-a de baixo, olhava-a… Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,
Ressoante de s√ļplicas, feria…

Tu, mãe sagrada! vós também, formosas
Ilus√Ķes! sonhos meus! √≠eis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando
Vi que no alto surgias, calma e bela,
O olhar celeste para o meu baixando…

Quantas vezes, em sonho, as asas da saudade Solto para onde estás, e fico de ti perto! Como, depois do sonho, é triste a realidade! Como tudo, sem ti, fica depois deserto! Trecho- O Sonho

Vita Nuova

Se ao mesmo gozo antigo me convidas,
Com esses mesmos olhos abrasados,
Mata a recordação das horas idas,
Das horas que vivemos apartados!

N√£o me fales das l√°grimas perdidas,
N√£o me fales dos beijos dissipados!
H√° numa vida humana cem mil vidas,
Cabem num coração cem mil pecados!

Amo-te! A febre, que supunhas morta,
Revive. Esquece o meu passado, louca!
Que importa a vida que passou? que importa,

Se inda te amo, depois de amores tantos,
E inda tenho, nos olhos e na boca,
Novas fontes de beijos e de prantos?!

A Voz do Amor

Nessa pupila r√ļtila e molhada,
Ref√ļgio arcano e sacro da Ternura,
A ampla noite do gozo e da loucura
Se desenrola, quente e embalsamada.

E quando a ansiosa vista desvairada
Embebo às vezes nessa noite escura,
Dela rompe uma voz, que, entrecortada
De solu√ßos e c√Ęnticos, murmura…

√Č a voz do Amor, que, em teu olhar falando,
Num concerto de s√ļplicas e gritos
Conta a história de todos os amores;

E vêm por ela, rindo e blasfemando,
Almas serenas, cora√ß√Ķes aflitos,
Tempestades de l√°grimas e flores…

Inania Verba

Ah! quem h√° de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca n√£o diz, o que a m√£o n√£o escreve?
– Ardes, sangras, pregada a’ tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, √© um sepulcro de neve…
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e dano, refulgia e voava.

Quem o molde achar√° para a express√£o de tudo?
Ai! quem h√° de dizer as √Ęnsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confiss√Ķes de amor que morrem na garganta?!

XII

Sonhei que me esperavas. E, sonhando,
Sa√≠, ansioso por te ver: corria…
E tudo, ao ver-me t√£o depressa andando,
Soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando
Meus passos, através da ramaria,
Dos despertados p√°ssaros o bando:
“Vai mais depressa! Parab√©ns!” dizia.

Disse o luar: “Espera! que eu te sigo:
Quero tamb√©m beijar as faces dela!”
E disse o aroma: “Vai, que eu vou contigo!”

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
“Como √©s feliz! como √©s feliz, amigo,
Que de t√£o perto vais ouvi-la e v√™-la!”

No Meio Do Caminho

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de s√ļbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua m√£o, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solit√°rio, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Flerte é um namoro inofensivo, sem consequências, que não acaba nem na pretoria nem na Casa de Detenção.

Requiescat

Por que me vens, com o mesmo riso,
Por que me vens, com a mesma voz,
Lembrar aquele Paraíso,
Extinto para nós?

Por que levantas esta lousa?
Por que, entre as sombras funerais,
Vens acordar o que repousa,
O que n√£o vive mais?

Ah! esqueçamos, esqueçamos
Que foste minha e que fui teu:
N√£o lembres mais que nos amamos,
Que o nosso amor morreu!

O amor é uma árvore ampla, e rica
De frutos de ouro, e de embriaguez:
Infelizmente, frutifica
Apenas uma vez…

Sob essas ramas perfumadas,
Teus beijos todos eram meus:
E as nossas almas abraçadas
Fugiam para Deus.

Mas os teus beijos esfriaram.
Lembra-te bem! lembra-te bem!
E as folhas p√°lidas murcharam,
E o nosso amor também.

Ah! frutos de ouro, que colhemos,
Frutos da cálida estação,
Com que delícia vos mordemos,
Com que sofreguid√£o!

Lembras-te? os frutos eram doces…
Se ainda os pudéssemos provar!
Se eu fosse teu… se minha fosses,
E eu te pudesse amar…

Em v√£o,

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XV

Inda hoje, o livro do passado abrindo,
Lembro-as e punge-me a lembrança delas;
Lembro-as, e vejo-as, como as vi partindo,
Estas cantando, soluçando aquelas.

Umas, de meigo olhar piedoso e lindo,
Sob as rosas de neve das capelas;
Outras, de l√°bios de coral, sorrindo,
Desnudo o seio, l√ļbricas e belas…

Todas, formosas como tu, chegaram,
Partiram… e, ao partir, dentro em meu seio
Todo o veneno da paix√£o deixaram.

Mas, ah! nenhuma teve o teu encanto,
Nem teve olhar como esse olhar, t√£o cheio
De luz t√£o viva, que abrasasse tanto.

XXXII

Como quisesse livre ser, deixando
As paragens natais, espaço em fora,
A ave, ao bafejo tépido da aurora,
Abriu as asas e partiu cantando.

Estranhos climas, longes céus, cortando
Nuvens e nuvens, percorreu: e, agora
Que morre o sol, suspende o v√īo, e chora,
E chora, a vida antiga recordando …

E logo, o olhar volvendo compungido
Atr√°s, volta saudosa do carinho,
Do calor da primeira habita√ß√£o…

Assim por largo tempo andei perdido:
– Ali! que alegria ver de novo o ninho,
Ver-te, e beijar-te a pequenina m√£o!

As Ondas

Entre as trêmulas mornas ardentias,
A noite no alto-mar anima as ondas.
Sobem das fundas √ļmidas Golcondas,
Pérolas vivas, as nereidas frias:

Entrelaçam-se, correm fugidias,
Voltam, cruzando-se; e, em lascivas rondas,
Vestem as formas alvas e redondas
De algas roxas e glaucas pedrarias.

Coxas de vago √īnix, ventres polidos
De alabastro, quadris de argêntea espuma,
Seios de d√ļbia opala ardem na treva;

E bocas verdes, cheias de gemidos,
Que o f√≥sforo incendeia e o √Ęmbar perfuma,
Solu√ßam beijos v√£os que o vento leva…

Baladas Rom√Ęnticas – Azul…

Lembra-te bem! Azul-celeste
Era essa alcova em que te amei.
O √ļltimo beijo que me deste
Foi nessa alcova que o tomei!
√Č o firmamento que a reveste
Toda de um c√°lido fulgor:
– Um firmamento, em que puseste
Como uma estrela, o teu amor.

Lembras-te? Um dia me disseste:
“Tudo acabou!” E eu exclamei:
“Se vais partir, por que vieste?”
E √†s tuas plantas me arrastei…
Beijei a fimbria à tua veste,
Gritei de espanto, uivei de dor:
“Quem h√° que te ame e te requeste
Com febre igual ao meu amor?”

Por todo o mal que me fizeste,
Por todo o pranto que chorei,
– Como uma casa em que entra a peste,
Fecha essa casa em que fui rei!
Que nada mais perdure e reste
Desse passado embriagador:
E cubra a sombra de um cipreste
A sepultura deste amor!

Desbote-a o inverno! o est√£o a creste!
Abale-a o vento com fragor!
– Desabe a igreja azul-celeste
Em que oficiava o meu amor!

Eu vos direi
Amei para entendê-las
Pois só quem ama pode ter ouvidos
Capaz de ouvir e entender as estrelas.

Desterro

J√° me n√£o amas? Basta! Irei, triste, e exilado
Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho.
Adeus, carne cheirosa! Adeus, primeiro ninho
Do meu delírio! Adeus, belo corpo adorado!

Em ti, como num vale, adormeci deitado,
No meu sonho de amor, em me√£o do caminho…
Beijo-te inda uma vez, num √ļltimo carinho,
Como quem vai sair da p√°tria desterrado…

Adeus, corpo gentil, p√°tria do meu desejo!
Berço em que se emplumou o meu primeiro idílio,
Terra em que floresceu o meu primeiro beijo!

Adeus! Esse outro amor h√° de amargar-me tanto
Como o pão que se come entre estranhos, no exílio,
Amassado com fel e embebido de pranto…

A Alvorada do Amor

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Ad√£o, vendo fechar-se a porta do √Čden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:

“Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Aben√ß√īo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as l√°grimas do rosto!

Vê! tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indigna√ß√£o…
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tuf√£o de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulc√Ķes, encrespa a √°gua dos rios;
As estrelas est√£o cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o c√©u…

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o ch√£o; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;

Continue lendo…

Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
N√£o me roubes a minha liberdade…
Quero voar! voar!…

XXIX

Por tanto tempo, desvairado e aflito,
Fitei naquela noite o firmamento,
Que inda hoje mesmo, quando acaso o fito,
Tudo aquilo me vem ao pensamento.

Sal, no peito o derradeiro grito
Calcando a custo, sem chorar, violento…
E o céu fulgia plácido e infinito,
E havia um choro no rumor do vento…

Piedoso céu, que a minha dor sentiste!
A √°urea esfera da lua o ocaso entrava.
Rompendo as leves nuvens transparentes;

E sobre mim, silenciosa e triste,
A via-l√°ctea se desenrolava
Como um jorro de l√°grimas ardentes.

√öltima flor do L√°cio, inculta e bela, (…) Ouro nativo, que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela…