Sonetos de Olavo Bilac

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Sonetos de Olavo Bilac. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

A Voz do Amor

Nessa pupila r√ļtila e molhada,
Ref√ļgio arcano e sacro da Ternura,
A ampla noite do gozo e da loucura
Se desenrola, quente e embalsamada.

E quando a ansiosa vista desvairada
Embebo às vezes nessa noite escura,
Dela rompe uma voz, que, entrecortada
De solu√ßos e c√Ęnticos, murmura…

√Č a voz do Amor, que, em teu olhar falando,
Num concerto de s√ļplicas e gritos
Conta a história de todos os amores;

E vêm por ela, rindo e blasfemando,
Almas serenas, cora√ß√Ķes aflitos,
Tempestades de l√°grimas e flores…

Inania Verba

Ah! quem h√° de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca n√£o diz, o que a m√£o n√£o escreve?
– Ardes, sangras, pregada a’ tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, √© um sepulcro de neve…
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e dano, refulgia e voava.

Quem o molde achar√° para a express√£o de tudo?
Ai! quem h√° de dizer as √Ęnsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confiss√Ķes de amor que morrem na garganta?!

XII

Sonhei que me esperavas. E, sonhando,
Sa√≠, ansioso por te ver: corria…
E tudo, ao ver-me t√£o depressa andando,
Soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando
Meus passos, através da ramaria,
Dos despertados p√°ssaros o bando:
“Vai mais depressa! Parab√©ns!” dizia.

Disse o luar: “Espera! que eu te sigo:
Quero tamb√©m beijar as faces dela!”
E disse o aroma: “Vai, que eu vou contigo!”

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
“Como √©s feliz! como √©s feliz, amigo,
Que de t√£o perto vais ouvi-la e v√™-la!”

No Meio Do Caminho

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha…

E paramos de s√ļbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua m√£o, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solit√°rio, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

XV

Inda hoje, o livro do passado abrindo,
Lembro-as e punge-me a lembrança delas;
Lembro-as, e vejo-as, como as vi partindo,
Estas cantando, soluçando aquelas.

Umas, de meigo olhar piedoso e lindo,
Sob as rosas de neve das capelas;
Outras, de l√°bios de coral, sorrindo,
Desnudo o seio, l√ļbricas e belas…

Todas, formosas como tu, chegaram,
Partiram… e, ao partir, dentro em meu seio
Todo o veneno da paix√£o deixaram.

Mas, ah! nenhuma teve o teu encanto,
Nem teve olhar como esse olhar, t√£o cheio
De luz t√£o viva, que abrasasse tanto.

XXXII

Como quisesse livre ser, deixando
As paragens natais, espaço em fora,
A ave, ao bafejo tépido da aurora,
Abriu as asas e partiu cantando.

Estranhos climas, longes céus, cortando
Nuvens e nuvens, percorreu: e, agora
Que morre o sol, suspende o v√īo, e chora,
E chora, a vida antiga recordando …

E logo, o olhar volvendo compungido
Atr√°s, volta saudosa do carinho,
Do calor da primeira habita√ß√£o…

Assim por largo tempo andei perdido:
– Ali! que alegria ver de novo o ninho,
Ver-te, e beijar-te a pequenina m√£o!

As Ondas

Entre as trêmulas mornas ardentias,
A noite no alto-mar anima as ondas.
Sobem das fundas √ļmidas Golcondas,
Pérolas vivas, as nereidas frias:

Entrelaçam-se, correm fugidias,
Voltam, cruzando-se; e, em lascivas rondas,
Vestem as formas alvas e redondas
De algas roxas e glaucas pedrarias.

Coxas de vago √īnix, ventres polidos
De alabastro, quadris de argêntea espuma,
Seios de d√ļbia opala ardem na treva;

E bocas verdes, cheias de gemidos,
Que o f√≥sforo incendeia e o √Ęmbar perfuma,
Solu√ßam beijos v√£os que o vento leva…

Desterro

J√° me n√£o amas? Basta! Irei, triste, e exilado
Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho.
Adeus, carne cheirosa! Adeus, primeiro ninho
Do meu delírio! Adeus, belo corpo adorado!

Em ti, como num vale, adormeci deitado,
No meu sonho de amor, em me√£o do caminho…
Beijo-te inda uma vez, num √ļltimo carinho,
Como quem vai sair da p√°tria desterrado…

Adeus, corpo gentil, p√°tria do meu desejo!
Berço em que se emplumou o meu primeiro idílio,
Terra em que floresceu o meu primeiro beijo!

Adeus! Esse outro amor h√° de amargar-me tanto
Como o pão que se come entre estranhos, no exílio,
Amassado com fel e embebido de pranto…

XXIX

Por tanto tempo, desvairado e aflito,
Fitei naquela noite o firmamento,
Que inda hoje mesmo, quando acaso o fito,
Tudo aquilo me vem ao pensamento.

Sal, no peito o derradeiro grito
Calcando a custo, sem chorar, violento…
E o céu fulgia plácido e infinito,
E havia um choro no rumor do vento…

Piedoso céu, que a minha dor sentiste!
A √°urea esfera da lua o ocaso entrava.
Rompendo as leves nuvens transparentes;

E sobre mim, silenciosa e triste,
A via-l√°ctea se desenrolava
Como um jorro de l√°grimas ardentes.

XXVIII

Pinta-me a curva destes c√©us … Agora,
Erecta, ao fundo, a cordilheira apruma:
Pinta as nuvens de fogo de uma em uma,
E alto, entre as nuvens, o raiar da aurora.

Solta, ondulando, os véus de espessa bruma,
E o vale pinta, e, pelo vale em fora,
A correnteza t√ļrbida e sonora
Do Paraíba, em torvelins de espuma.

Pinta; mas v√™ de que maneira pintas …
Antes busques as cores da tristeza,
Poupando o escrínio das alegres tintas:

– Tristeza sir-gular, estranha m√°goa
De que vejo coberta a natureza,
Porque a vejo com os olhos rasos d’√°gua …

XXII

A Goethe.

Quando te leio, as cenas animadas
Por teu gênio, as paisagens que imaginas,
Cheias de vida, avultam repentinas,
Claramente aos meus olhos desdobradas.

Vejo o céu, vejo as serras coroadas
De gelo, e o sol que o manto das neblinas
Rompe, aquecendo as frígidas campinas
E iluminando os vales e as estradas.

Ou√ßo o rumor soturno da charr√ļa,
E os rouxinóis que, no carvalho erguido,
A voz modulam de ternuras cheia.

E vejo, à luz tristíssima da lua,
Hermann que cisma, p√°lido, embebido
No meigo olhar da loura Doroth√©a…

A Gonçalves Dias

Celebraste o domínio soberano
Das grandes tribos, o tropel fremente
Da guerra bruta, o entrechocar insano
Dos tacapes vibrados rijamente,

O marac√° e as flechas, o estridente
Troar da in√ļbia, e o canitar indiano…
E, eternizando o povo americano,
Vives eterno em teu poema ingente.

Estes revoltos, largos rios, estas
Zonas fecundas, estas seculares
Verdejantes e amplíssimas florestas

Guardam teu nome: e a lira que pulsaste
Inda se escuta, a derramar nos ares
O estridor das batalhas que contaste.

XIX

Sai a passeio, mal o dia nasce,
Bela, nas simples roupas vaporosas;
E mostra às rosas do jardim as rosas
Frescas e puras que possui na face.

Passa. E todo o jardim, por que ela passe,
Atavia-se. H√° falas misteriosas
Pelas moitas, saudando-a respeitosas…
√Č como se uma s√≠lfide passasse!

E a luz cerca-a, beijando-a. O vento é um choro
Curvam-se as flores tr√™mulas … O bando
Das aves todas vem saud√°-la em coro …

E ela vai, dando ao sol o rosto brendo.
Às aves dando o olhar, ao vento o louro
Cabelo, e √†s flores os sorrisos dando…

Maldição

Se por vinte anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
– Hoje, velha e cansada da amargura,
Minh’alma se abrir√° como um vulc√£o.

E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Vinte anos de silêncio e de tortura,
Vinte anos de agonia e solid√£o…

Maldita sejas pelo Ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!…

M√ļsica Brasileira

Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa vol√ļpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.

√Čs samba e jongo, xiba e fado, cujos
Acordes s√£o desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paix√Ķes consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.

Benedicite

Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto
E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que do ch√£o abjeto,
Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano,
E o que inventou o canto e o que criou a lira,
E o que domou o raio e o que al√ßou o aeroplano…

Mas bendito entre os mais o que no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

Vila Rica

O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:
E cada cicatriz brilha como um bras√£o.

O √Ęngelus plange ao longe em doloroso dobre,
O √ļltimo ouro de sol morre na cerra√ß√£o.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crep√ļsculo cai como uma extrema-un√ß√£o.

Agora, para além do cerro, o céu parece
Feito de um ouro anci√£o, que o tempo enegreceu…
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,

Como uma prociss√£o espectral que se move…
Dobra o sino… Solu√ßa um verso de Dirceu…
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.

Palavras

As palavras do amor expiram como os versos,
Com que adoço a amargura e embalo o pensamento:
Vagos clar√Ķes, vapor de perfumes dispersos,
Vidas que não têm vida, existências que invento;

Esplendor cedo morto, √Ęnsia breve, universos
De pó, que o sopro espalha ao torvelim do vento,
Raios de sol, no oceano entre as √°guas imersos
-As palavras da f√© vivem num s√≥ momento…

Mas as palavras más, as do ódio e do despeito,
O “n√£o!” que desengana, o “nunca!” que alucina,
E as do aleive, em bald√Ķes, e as da mofa, em risadas,

Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito:
Ficam no coração, numa inércia assassina,
Imóveis e imortais, como pedras geladas.

Só

Este, que um deus cruel arremessou à vida,
Marcando-o com o sinal da sua maldição,
– Este desabrochou como a erva m√°, nascida
Apenas para aos pés ser calcada no chão.

De motejo em motejo arrasta a alma ferida…
Sem const√Ęncia no amor, dentro do cora√ß√£o
Sente, crespa, crescer a selva retorcida
Dos pensamentos maus, filhos da solid√£o.

Longos dias sem sol! noites de eterno luto!
Alma cega, perdida à toa no caminho!
Roto casco de nau, desprezado no mar!

E, √°rvore, acabar√° sem nunca dar um fruto;
E, homem, h√° de morrer como viveu: sozinho!
Sem ar! sem luz! sem Deus! sem fé! sem pão! sem lar!

Criação

H√° no amor um momento de grandeza,
que é de inconsciência e de êxtase bendito:
os dois corpos s√£o toda a Natureza,
as duas almas s√£o todo o Infinito.

√Č um mist√©rio de for√ßa e de surpresa!
Estala o coração da terra aflito;
rasga-se em luz fecunda a esfera acesa,
e de todos os astros rompe um grito.

Deus transmite o seu h√°lito aos amantes:
cada beijo é a sanção dos Sete Dias,
e a Gênese fulgura em cada abraço;

Porque, entre as duas bocas soluçantes,
rola todo o Universo, em harmonias
e em florifica√ß√Ķes, enchendo o espa√ßo!