Sonetos sobre Coração

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Sonetos de coração escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Nervos D’Oiro

Meus nervos, guizos de oiro a tilintar
Cantam-me n’alma a estranha sinfonia
Da vol√ļpia, da m√°goa e da alegria,
Que me faz rir e que me faz chorar!

Em meu corpo fremente, sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilh√£o sinto-As passar!

O coração, numa imperial oferta.
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha m√£o,
√Č uma rosa de p√ļrpura, entreaberta!

E em mim, dentro de mim, vibram dispersos,
Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são
Toda a Arte suprema dos meus versos!

Toda Palavra

Toda palavra voa nebulosa
até chegar latente ao nosso chão.
Pousa sem pressa ou prece em mansa prosa
caída chuva breve de verão.

Toda palavra se abre generosa
para abrigar segredos num por√£o
l√° onde sobram sombras sinuosas
levantando a poeira no perd√£o.

Toda palavra veste-se vistosa
para fazer afagos na paix√£o
uma pantera em paz, porém tinhosa.

Toda palavra enfim é explosão
que o mundo só é mundo por osmose
pois há um outro ser no coração

L√°grimas

A meu irm√£o Jo√£o C√Ęncio

Eu n√£o sei o que tenho… Essa tristeza
Que um sorriso de amor nem mesmo aclara,
Parece vir de alguma fonte amara
Ou de um rio de dor na correnteza.
Minh’alma triste na agonia presa,
N√£o compreende esta ventura clara,
Essa harmonia maviosa e rara
Que ouve cantar além, pela devesa.

Eu n√£o sei o que tenho… Esse mart√≠rio,
Essa saudade roxa como um lírio,
Pranto sem fim que dos meus olhos corre,

Ai, deve ser o tr√°gico tormento,
O estertor prolongado, lento, lento,
Do √ļltimo adeus de um cora√ß√£o que morre…

Arrependimento

Deste amor torturado e sem ventura
Resta-me o alívio do arrependimento.
O pouco que me deste de ternura
N√£o vale o que te dei de encantamento.

Abri para o teu sonho o firmamento,
Semeei de estrelas tua noite escura.
Dei-te alma, exaltação e sentimento.
Fiz de um bloco de pedra uma criatura.

Hoje, ambos à mercê de sorte avessa,
Se para te esquecer luto e me esforço,
Manda-me o coração que não te esqueça.

Padecemos idêntico suplício:
Tu Рcorroída de pena e de remorso,
Eu Рcom vergonha do meu sacrifício.

Meu Coração

Eu tenho um coração Рum mísero coitado
ainda vive a sonhar… ainda sabe viver…
Рacredita que o mudo é um castelo encantado
e crian√ßa vive a rir batendo de prazer…

Eu tenho um coração, Рum mísero coitado
que um dia h√° de por fim, o mundo compreender…
Рé um poeta, um sonhador, um pobre esperançado
que habita no meu peito e enche de sons meu ser…

Quando tudo √© mat√©ria e √© sombra – ele √© uma luz…
Ainda cr√™ na ilus√£o… no amor… na fantasia…
– sabe todos de cor os versos que compus…

Deus p√īs-me um cora√ß√£o com certeza enganado:
Рe é por isso, talvez, que ainda faço poesia
lembrando um sonhador do s√©culo passado!…

Meus Olhos, Atentai no Meu Jazigo

Meus olhos, atentai no meu jazigo,
Que o momento da morte est√° chegado;
Lá soa o corvo, intérprete do fado;
Bem o entendo, bem sei, fala comigo:

Triunfa, Amor, gloria-te, inimigo;
E tu, que vês com dor meu duro estado,
Volve à terra o cadáver macerado,
O despojo mortal do triste amigo:

Na campa, que o cobrir, piedoso Albano,
Ministra aos cora√ß√Ķes, que Amor flagela,
Terror, piedade, aviso, e desengano:

Abre em meu nome este epit√°fio nela:
“Eu fui, ternos mortais, o terno Elmano;
Morri de ingratid√Ķes, matou-me Isabela.‚ÄĚ

Ouvi, Senhora, O C√Ęntico Sentido

Ouvi, senhora, o c√Ęntico sentido
Do cora√ß√£o que geme e s’estertora
N’√Ęnsia letal que o mata e que o devora,
E que tornou-o assim, triste e descrido.

Ouvi, senhora, amei; de amor ferido,
As minhas crenças que alentei outrora
Rolam dispersas, p√°lidas agora,
Desfeitas todas num guaiar dorido.

E como a luz do sol vai-se apagando!
E eu triste, triste pela vida afora,
Eterno pegureiro caminhando,

Revolvo as cinzas de passadas eras,
Sombrio e mudo e glacial, senhora,
Como um coveiro a sepultar quimeras!

Tulipa Real

Carne opulenta, majestosa, fina,
Do sol gerada nos febris carinhos,
H√° m√ļsicas, h√° c√Ęnticos, h√° vinhos
Na tua estranha boca sulferina.

A forma delicada e alabastrina
Do teu corpo de límpidos arminhos
Tem a frescura virginal dos linhos
E da neve polar e cristalina.

Deslumbramento de lux√ļria e gozo,
Vem dessa carne o travo aciduloso
De um fruto aberto aos tropicais mormaços.

Teu cora√ß√£o lembra a orgia dos tricl√≠nios…
E os reis dormem bizarros e sang√ľ√≠neos
Na seda branca e pulcra dos teus braços.

Neste Horrível Sepulcro Da Existência

Neste horrível sepulcro da existência
O triste coração de dor se parte;
A mesquinha razão se vê sem arte,
Com que dome a frenética impaciência:

Aqui pela opressão, pela violência
Que em todos os sentidos se reparte,
Transitório poder que imitar-te,
Eterna, vingadora omnipotência!

Aqui onde o peito abrange, e sente,
Na mais ampla express√£o acha estreiteza,
Negra idéia do abismo assombra a mente.

Difere acaso da infernal tristeza
Não ver terra, nem céu, nem mar, nem gente,
Ser vivo, e n√£o gozar da Natureza ?

Amaritudo

Só por ti, astro ainda e sempre oculto,
Sombra do Amor e sonho da Verdade,
Divago eu pelo mundo e em ansiedade
Meu próprio coração em mim sepulto.

De templo em templo, em v√£o, levo o meu culto,
Levo as flores d’uma √≠ntima piedade.
Vejo os votos da minha mocidade
Receberem somente esc√°rnio e insulto.

√Ä beira do caminho me assentei…
Escutarei passar o agreste vento,
Exclamando: assim passe quando amei! ‚ÄĒ

Oh minh’alma, que creste na virtude!
O que ser√° velhice e desalento,
Se isto se chama aurora e juventude?

M√£es de Portugal

√ď M√£es de Portugal comovedoras,
Com Meninos Jesus de encontro ao peito,
Iguais na devoção e amor perfeito
Aos painéis onde estão Nossas Senhoras!

√ď Virgem M√£e, qual se tu pr√≥pria foras,
Surgem de cada lado, quase a eito,
As Mães e os Filhos em abraço estreito,
Dolorosas, felizes, povoadoras…

São presépios as casas onde moram:
E o riso casto, as l√°grimas que choram,
O anseio que lhes enche o coração,

Gesto, candura, olhar ‚ÄĒ tudo √© divino,
Tudo ensinado pelo Deus Menino,
Tudo é da Mãe Celeste inspiração!

Clamor Supremo

Vem comigo por estas cordilheiras!
P√Ķe teu manto e bord√£o e vem comigo,
Atravessa as montanhas sobranceiras
E nada temas do mortal Perigo!

Sigamos para as guerras condoreiras!
Vem, resoluto, que eu irei contigo
Dentre as √Āguias e as chamas feiticeiras,
Só tendo a Natureza por abrigo.

Rasga florestas, bebe o sangue todo
Da Terra e transfigura em astros lodo,
O próprio lodo torna mais fecundo.

Basta trazer um coração perfeito,
Alma de eleito, Sentimento eleito
Para abalar de lado a lado o mundo!

Um P√°ssaro a Morrer

Não é vida nem morte, é uma passagem,
nem antes nem depois: somente agora,
um minuto nos tantos duma hora.
Uma pausa. Um intervalo. Uma viragem.

Prisioneira de mim, onde a coragem
de quebrar as algemas, ir-me embora,
se tudo o que em mim ria agora chora,
se j√° n√£o me seduz outra viagem?

E nada disto é céu nem é inferno.
Tristeza, só tristeza. Sol de Inverno,
sem uma flor a abrir na minha m√£o,

sem um b√ļzio a cantar ao meu ouvido.
Só tristeza, um silêncio desmedido
e um pássaro a morrer: meu coração.

XXX

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
N√£o basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

N√£o me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambi√ß√Ķes que me consomem
N√£o me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

Mais Triste

√Č triste, diz a gente, a vastid√£o
Do mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!

√Č triste e dilacera o cora√ß√£o
Um poente do nosso Portugal!
E n√£o v√™em que eu sou…eu…afinal,
A coisa mais magoada das que o s√£o?!…

Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
√Č um triste poente de amargura!

E a vastid√£o do Mar, toda essa √°gua
Trago-a dentro de mim num mar de M√°goa!
E a noite sou eu própria! A Noite escura!!

Voz Que Se Cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as √°guas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De cora√ß√Ķes que sentem e n√£o falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e m√≠sero Destino!…

Finalmente outra Vez Vejo Perdida

Finalmente outra vez vejo perdida
Às mãos do amor, a doce liberdade
Que j√° livrei da sua crueldade
Como quem de um naufr√°gio salva a vida.

Já no meu coração nova ferida
Abrem os duros golpes da saudade;
E j√° vive outra vez minha vontade
De esperanças aéreas revestida.

Nunca cuidei que visse, amor tirano,
T√£o depressa quebrado o juramento
Que fiz no puro altar do desengano.

Mas quem pode viver de amor isento,
Vendo naquele rosto soberano
De tais olhos o doce movimento?

Elogio da Morte

I

Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acordo em susto.
Como se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.

N√£o que de larvas me pov√īe a mente
Esse v√°cuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a raz√£o por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo…

Nem fantasmas nocturnos vision√°rios,
Nem desfilar de espectros mortu√°rios,
Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte…

Nada! o fundo dum po√ßo, h√ļmido e morno,
Um muro de silêncio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcrais da Morte.

II

Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento.
Nas regi√Ķes do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a fantasia.

Atravesso, no escuro, a névoa fria
D’um mundo estranho, que pov√īa o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
S√≥ das vis√Ķes da noite se confia.

Que místicos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abismos aparecem,
A meus olhos, na muda imensidade!

N’esta viagem pelo ermo espa√ßo,

Continue lendo…

Parto-me desses Olhos Graciosos

Bem pode, Sílvia minha, qualquer serra
tirar a estes meus olhos sua glória,
qualquer monte terá de mim vitória,
qualquer pequeno espaço, enfim, de terra.

Mas contra um pensamento fazem guerra,
que traz em si pintada vossa história,
e quanto mais contrastes, mais memória
conserva um coração que vos encerra.

Parto-me desses olhos graciosos,
mas por eles vos juro, que mudança
se n√£o veja nos meus eternamente,

Que a m√°goa de os ver ficar chorosos
estímulo será para a lembrança
de quem se vê de vós viver ausente.

Pecador

Este é o altivo pecador sereno,
Que os soluços afoga na garganta,
E, calmamente, o copo de veneno
Aos l√°bios frios sem tremer levanta.

Tonto, no escuro pantanal terreno
Rolou. E, ao cabo de torpeza tanta,
Nem assim, miser√°vel e pequeno,
Com t√£o grandes remorsos se quebranta.

Fecha a vergonha e as l√°grimas consigo…
E, o coração mordendo impenitente,
E, o coração rasgando castigado,

Aceita a enormidade do castigo,
Com a mesma face com que antigamente
Aceitava a delícia do pecado.