Sonetos sobre Pena

104 resultados
Sonetos de pena escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Se tanta pena tenho merecida

Se tanta pena tenho merecida
Em pago de sofrer tantas durezas,
Provai, Senhora, em mim vossas cruezas,
Que aqui tendes u~a alma oferecida.

Nela experimentai, se sois servida,
Desprezos, desfavores e asperezas,
Que mores sofrimentos e firmezas
Sustentarei na guerra desta vida.

Mas contra vosso olhos quais ser√£o?
Forçado é que tudo se lhe renda,
Mas porei por escudo o coração.

Porque, em t√£o dura e √°spera contenda,
√Č bem que, pois n√£o acho defens√£o,
Com me meter nas lanças me defenda.

A Fé que me Obriga a Tanto Amar-vos

Dai-me Ň©a lei, Senhora, de querer-vos,
Porque a guarde sob pena de enojar-vos;
Pois a fé que me obriga a tanto amar-vos
Far√° que fique em lei de obedecer-vos.

Tudo me defendei, senão só ver-vos
E dentro na minha alma contemplar-vos;
Que se assim n√£o chegar a contentar-vos,
Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos.

E se essa condição cruel e esquiva
Que me deis lei de vida n√£o consente,
Dai-ma, Senhora, j√°, seja de morte.

Se nem essa me dais, é bem que viva,
Sem saber como vivo, tristemente;
Mas contente estarei com minha sorte.

A Minha Piedade

A Bourbon e Meneses

Tenho pena de tudo quanto lida
Neste mundo, de tudo quanto sente,
Daquele a quem mentiram, de quem mente,
Dos que andam pés descalços pela vida,

Da rocha altiva, sobre o monte erguida,
Olhando os céus ignotos frente a frente,
Dos que não são iguais à outra gente,
E dos que se ensang√ľentam na subida!

Tenho pena de mim… pena de ti…
De n√£o beijar o riso duma estrela…
Pena dessa m√° hora em que nasci…

De n√£o ter asas para ir ver o c√©u…
De n√£o ser Esta… a Outra… e mais Aquela…
De ter vivido e n√£o ter sido Eu…

Se pena por amar-vos se merece

Se pena por amar-vos se merece,
Quem dela livre est√°? ou quem isento?
Que alma, que raz√£o, que entendimento
Em ver-vos se n√£o rende e obedece?

Que mor glória na vida se oferece
Que ocupar-se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
Em ver-vos se n√£o sente, mas esquece.

Mas se merece pena quem amando
Contínuo vos está, se vos ofende,
O mundo matareis, que todo é vosso.

Em mim, Senhora, podeis ir começando,
Que claro se conhece e bem se entende
Amar-vos quanto devo e quanto posso.

Pressentimento

O fim do nosso amor pressenti – na agonia
das tuas pr√≥prias cartas, r√°pidas, pequenas…
– se nem tantas, com carinho imenso te escrevia
t√£o poucas me chegavam por reposta apenas…

Nas cartas que a sofrer, te escrevia, às dezenas
adiava a realidade sempre, dia a dia,
procurando iludir em v√£o as minhas penas
muito embora eu soubesse o quanto me iludia!

Hoje… j√° n√£o foi mais surpresa para mim,
dizes (como quem tem piedade), que é melhor
n√£o continuarmos mais… e tens raz√£o: √© o fim…

H√° muito eu o esperava e o pressentia no ar…
Chegou… que hei de fazer?… Foi bom… Seria Pior
se ele n√£o viesse nunca… e eu ficasse a esperar…

Se as Penas com que Amor T√£o Mal me Trata

Se as penas com que Amor t√£o mal me trata
Permitirem que eu tanto viva delas,
Que veja escuro o lume das estrelas,
Em cuja vista o meu se acende e mata;

E se o tempo, que tudo desbarata,
Secar as frescas rosas, sem colhê-las,
Deixando a linda cor das tranças belas
Mudada de ouro fino em fina prata;

Também, Senhora, então vereis mudado
O pensamento e a aspereza vossa,
Quando não sirva já sua mudança.

Ver-vos-eis suspirar por o passado,
Em tempo quando executar-se possa
No vosso arrepender minha vingança.

Solilóquio

J√° que o sol pouco a pouco se desmaia
E meu mal cada vez mais se desvela,
Enquanto a pena, a √Ęnsia, a m√°goa vela,
Quero aqui estar sozinho nesta praia.

Que bravo o mar se vê! Como se ensaia
Na f√ļria e contra os ares se rebela!
Como se enrola! Como se encapela!
Parece quer sair da sua raia.

Mas também que inflexível, que constante
Aquela penha está à força dura
De tanto assalto e horror perseverante!

√ď empolado mar, penha segura,
Sois a imagem mais própria e semelhante
De meu fado e da minha desventura.

Soneto

(Oferecido e dedicado ao llmo. Sr. M. Bernardino A. Varela pelo autor.)
Vir bonus dicendi peritus laudandum est.

Senhor de nobre alma, t√£o
D’entre os s√°bios conhecido,
De pais excelsos nascido,
Aceitai a minha canção.

Probo pai, bom cidad√£o,
Sois dos seres melhor ser
Por saber t√£o profundo ter,
Sois ilustre qual Cat√£o.

Recebei esta prova mesquinha
De penhor e de oração,
Produto da pena minha.

Perdoai, mui digno var√£o,
Se na mente eu pobre tinha
Cometer-vos indiscrição.

Feliz Habitação da Minha Amada

Feliz habitação da minha Amada,
Ninho de Amor, albergue da Ternura,
Onde, outro tempo, a próspera Ventura
Dormia nos meus braços, descuidada.

Ent√£o, minha Alma terna, embriagada,
Gostava do prazer toda a doçura:
Hoje, contr√°ria minha, a Sorte dura
Do teu √Čden Amor, m’impede a entrada.

Com que m√°goa, de longe te diviso!…
Com que pena cruel!…
Com que saudade!
Ah! que n√£o sei como n√£o perco o sizo!…

B√°rbara Sorte! Ao menos por piedade,
Se me privas da entrada do Paraíso,
Deixa ver me, de Arm√Ęnia, a divindade!

XVI

Toda a mortal fadiga adormecia
No silêncio, que a noite convidava;
Nada o sono suavíssimo alterava
Na muda confus√£o da sombra fria:

Só Fido, que de amor por Lise ardia,
No sossego maior n√£o repousava;
Sentindo o mal, com l√°grimas culpava
A sorte; porque dela se partia.

Vê Fido, que o seu bem lhe nega a sorte;
Querer enternec√™-na √© in√ļtil arte;
Fazer o que ela quer, é rigor forte:

Mas de modo entre as penas se reparte;
Que à Lise rende a alma, a vida à morte:
Por que uma parte alente a outra parte.

Noli Me Tangere

A exaltação emocional do Gozo,
O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a Beleza
Servem de combustíveis à ira acesa
Das tempestades do meu ser nervoso!

Eu sou, por conseq√ľ√™ncia um ser monstruoso!
Em minha arca encef√°lica indefesa
Choram as forças más da Natureza
Sem possibilidades de repouso!

Agregados an√īmalos malditos
Despedaçam-se, mordem-se, dão gritos
Nas minhas camas cerebrais fun√©reas…

Ai! N√£o toqueis em minhas faces verdes,
Sob pena, homens felizes, de sofrerdes
A sensação de todas as misérias!

S√°tira aos Penteados Altos

Chaves na m√£o, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colch√£o, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
– ¬ęSumiu-se-lhe um colch√£o? √Č forte pena;
Olhe n√£o fique a casa arruinada…¬Ľ

– ¬ęTu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
J√° a m√£e n√£o tem m√£os?¬Ľ E, dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis sen√£o quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colch√£o de dentro do toucado!…

Que Pode J√° Fazer Minha Ventura

Que pode j√° fazer minha ventura
que seja para meu contentamento.,
Ou como fazer devo fundamento
de cousa que o não tem, nem é segura?

Que pena pode ser t√£o certa e dura
que possa ser maior que meu tormento?
Ou como recear√° meu pensamento
os males, se com eles mais se apura?

Como quem se costuma de pequeno
com peçonha criar por mão ciente,
da qual o uso j√° o tem seguro;

assi de acostumado co veneno,
o uso de sofrer meu mal presente
me faz n√£o sentir j√° nada o futuro.

Est√° O Lascivo E Doce Passarinho

Est√° o lascivo e doce passarinho
com o biquinho as penas ordenando;
o verso sem medida, alegre e brando,
espedindo no r√ļstico raminho;

o cruel caçador (que do caminho
se vem calado e manso desviando)
na pronta vista a seta endireitando,
lhe dá no Estígio lago eterno ninho.

Dest’ arte o cora√ß√£o, que livre andava,
(posto que j√° de longe destinado)
onde menos temia, foi ferido.

Porque o Frecheiro cego me esperava,
para que me tomasse descuidado,
em vossos claros olhos escondido.

Versos √ćntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua √ļltima quimera.
S√≥mente a Ingratid√£o – esta pantera –
Foi tua companheira insepar√°vel!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miser√°vel,
Mora, entre feras, sente inevit√°vel
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa m√£o vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Lembranças Apagadas

Outros, mais do que o meu, finos olfatos,
Sintam aquele aroma estranho e belo
Que tu, √≥ L√≠rio l√Ęnguido, singelo,
Guardaste nos teus íntimos recatos.

Que outros se lembrem dos sutis e exatos
Traços, que hoje não lembro e não revelo
E se recordem, com profundo anelo,
Da tua voz de siderais contatos…

Mas eu, para lembrar mortos encantos,
Rosas murchas de graças e quebrantos,
Linhas, perfil e tanta dor saudosa,

Tanto martírio, tanta mágoa e pena,
Precisaria de uma luz serene,
De uma luz imortal maravilhosa!…

Languidez

Tardes da minha terra, doce encanto,
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes de Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!
Horas benditas, leves como penas,
Horas de fumo e cinza, horas serenas,
Minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as p√°lpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar …

E a minha boca tem uns beijos mudos …
E as minhas m√£os, uns p√°lidos veludos,
Tra√ßam gestos de sonho pelo ar …

Picadeiro

Estava sossegado l√° no fundo
Do meu eu e de mim sem muita pressa
Nesses momentos calmos que circundo
Roteiro e enredo em ato que começa

Minha descida ao palco do meu mundo
Que venho e represento a farsa dessa
Comédia que é de arte em que aprofundo
A pena desgarrada em v√£ promessa

De bem cantar somente o mais fecundo
Sonho sonhado sem a dor expressa
Que a vida vai me dando num segundo

O desempenho em títere da peça
Neste papel de doce vagabundo
Que me faz rir da dor doída à beça.

De Martins Pena Foi Bem Triste A Sorte

De Martins Pena foi bem triste a sorte:
Moço, bem moço, quando o seu talento
Desabrochava n’um deslumbramento,
Caiu, ferido pela m√£o da morte!

Era, entretanto, um lutador, um forte,
E, como n√£o merece o esquecimento,
Que a nossa festa, ao menos um momento,
O seu risonho espírito conforte.

Quem o amou e o leu em v√£o procura
O seu nome na placa de uma esquina
Ou sobre a pedra de uma sepultura!

Porém, voltando à brasileira cena,
H√° de brilhar a estrela peregrina
Que se chamou Luiz Carlos Martins Pena!

Velho Tema I

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
√Č uma hora feliz, sempre adiada
E que n√£o chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
√Ārvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque est√° sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.