Sonetos sobre Soneto

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Sonetos de soneto escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Rua Dos Cataventos – VI

Na minha rua h√° um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .

Mas nesta rua h√° um oper√°rio triste:
N√£o canta nada na manh√£ sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente. . .
E est√° compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente. . .

Asa De Corvo

Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa pr√≥pria casa…

Perseguido por todos os reveses,
√Č meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irm√£os siameses!

√Č com essa asa que eu fa√ßo este soneto
E a ind√ļstria humana faz o pano preto
Que as fam√≠lias de luto martiriza…

√Č ainda com essa asa extraordin√°ria
Que a Morte – a costureira funer√°ria –
Cose para o homem a √ļltima camisa!

Marília De Dirceu

Soneto 7

O nume tutelar da Monarquia,
Que fez do grande Henrique a invicta espada,
Procurou dos Destinos a morada,
Por consultar a idade que viria.

A mil e mil heróis descrito via,
Que exaltam de furtado a estirpe honrada,
E na série, que adora, dilatada,
O nome de Francisco descobria.

Contempla uma por uma as letras d’ouro;
Este penhor, que o tempo n√£o consome,
Promete ao reino seu maior tesouro.

Prostra-se o gênio; e sem que a empresa tome
De lhe buscar sequer mais outro agouro,
O sítio beija, e lhe mostra o nome.

Soneto 573 Barbarizado

Já se disse: sete é conta de mentira e lenda.
Também dizem que de azar o treze é cifra certa.
Isso explica a redondilha como porta aberta
no cantar dos repentistas, na feroz contenda,

à bazófia descarada, onde é melhor a emenda
que o soneto decassílabo, no qual se enxerta
entre termos eruditos a fal√°cia esperta,
lei de todo bom poeta que seu peixe venda.

Outrossim, também se explica por que nunca é visto
um soneto alexandrino, mas de pé quebrado:
este, a cuja tentação do treze não resisto.

Vou cham√°-lo “aleijadinho”, pois, em vez de errado,
tem car√°ter de obra-prima, pelo menos nisto:
completar catorze versos sem ficar quadrado!

Soneto 251 Quantitativo

Centenas de sonetos s√£o legado
de nomes tidos como monumentos.
Apenas de Cam√Ķes, mais de duzentos,
registro que é por poucos superado.

Não fossem os Lusíadas o dado
que faz dele o primeiro entre os portentos,
ainda assim Cam√Ķes marca outros tentos,
e, entre outros tantos, este é consagrado:

“Sete anos de pastor”, o vinte e nove,
que, se não for mais belo, é o mais perfeito,
a menos que em contrário alguém me prove.

Mas, como dois é dom, três é defeito,
tamb√©m um “Alma minha”, o dezenove,
ocupa igual lugar no meu conceito.

Marília De Dirceu

Soneto 13

Quando o torcido buço derramava
Terror no aspecto ao português sisudo,
Quando, sem pó nem óleo, o pente agudo,
Duro, intonso, o cabelo em laço atava.

Quando contra os irmãos o braço armava
O forte Nuno, apondo escudo a escudo:
Quando a palavra, que prefere a tudo,
Com a barba arrancada Jo√£o firmava.

Quando a mulher à sombra do marido
Tremer se via; quando a lei prudente
Zela o sexo do civil ruído;

Feliz então, então só inocente
Era de Luso o reino. Oh! bem perdido!
Ditosa condição, ditosa gente!

Sorte

Depois que se casara aquela criatura,
Que a negra traição das pérfidas requinta,
Eu nunca mais a vi, pois, de ouropéis faminta,
De um bem fingido amor quebrara a ardente jura.

Alta noite, porém, vi-a pela ventura,
Numa avenida estreita e lobrega da quinta…
Painel é que se cuida e sem color se pinta,
De alvo femíneo vulto ou madrugada escura.

Maldito quem sentindo o pungitivo açoite
Do desprezo e na sombra a sombra de um afeto
A pular uma grade, um muro n√£o se afoite.

– Prometes ser discreto? – √ď meu amor! prometo…
Se não fosses tão curta, ó bem ditosa noite!
Se fosses mais comprido, ó pálido soneto!

Marília De Dirceu

Soneto 6

Quantas vezes Lidora me dizia,
Ao terno peito minha m√£o levando:
– Conjurem-se em meu mal os astros, quando
Achares no meu peito aleivosia!

Ent√£o que n√£o chorasse lhe pedia,
Por firme seu amor acreditando.
Ah! que em movendo os olhos, suspirando,
Ao mais acautelado enganaria!

Um ano assim viveu. Oh! céus, agora
Mostrou que era mulher: a natureza,
Só por não se mudar, a fez traidora.

Não, não darei mais cultos à beleza,
Que depois de faltar à fé Lidora,
Nem creio que nas deusas h√° firmeza.

Marília De Dirceu

Soneto 3

Enganei-me, enganei-me Рpaciência!
Acreditei às vezes, cri, Ormia,
Que a tua singeleza igualaria
A tua mais que angélica aparência.

Enganei-me, enganei-me Рpaciência!
Ao menos conheci que n√£o devia
P√īr nas m√£os de uma externa galhardia
O prazer, o sossego e a inocência.

Enganei-me, cruel, com teu semblante,
E nada me admiro de faltares,
Que esse teu sexo nunca foi constante.

Mas tu perdeste mais em me enganares:
Que tu n√£o achar√°s um firme amante,
E eu posso de traidoras ter milhares.

Autobiografia

De cer√ļleo gab√£o n√£o bem coberto,
passeia em Santarém chuchado moço,
mantido, às vezes, de sucinto almoço,
de ceia casual, jantar incerto;

dos esbrugados peitos quase aberto,
versos impinge por mi√ļde e grosso;
e do que em frase vil chamam caroço,
se o que, é vox clamantis in deserto;

pede às moças ternura, e dão-lhe motes;
que, tendo um coração como estalage,
v√£o nele acomodando a mil peixotes.

Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
cercado de um tropel de franchinotes?
‚Äď √Č o autor do soneto: ‚Äď √© o Bocage.

Ideal Comum

(Soneto escrito em colaboração com Oscar Rosas).

Dos cheirosos, silvestres ananases
De casca rubra e polpa acidulosa,
Tens na carne fremente, volutuosa,
Os aromas rec√īnditos, vivazes.

Lembras lírios, papoulas e lilazes;
A tua boca exala a trevo e a rosa,
Resplande essa cabeça primorosa
E o dia e a noite nos teus olhos trazes.

Astros, jardins, rel√Ęmpagos e luares
Inundam-te os fant√°sticos cismares,
Cheios de amor e estranhos calafrios;

E teus seios, olímpicos, morenos,
Propinando-me tr√°gicos venenos,
S√£o como em brumas, solit√°rios rios.

Marília De Dirceu

Soneto 9

Mudou-se enfim Lidora, essa Lidora
Por quem mil vezes fé me foi jurada.
Que vos detém, ó céus, que castigada
Ainda n√£o deixais t√£o vil traidora?

N√£o haja piedade; sinta agora
A dita sem remédio em mal trocada:
Pois, se assim n√£o sucede, fica ousada
Para ser outra vez enganadora.

Vingai, √≥ justos c√©us…, mas ah! que digo?
Que maltrateis Lidora? – O sentimento
Privou-me do discurso; eu me desdigo.

N√£o, n√£o vibreis o raio violento;
Pois se que a compaix√£o do seu castigo
H√° de aumentar depois o meu tormento.

Contra Os Plebeus E Néscios Do Brasil.

Que me quer o Brasil, que me persegue?
Que me querem pasguates, que me invejam?
Não vêem que os entendidos me cortejam?
E que os nobres é gente que me segue?

Com seu ódio a canalha que consegue?
Com sua inveja os néscios que motejam?
Se quando os néscios por meu mal mourejam,
fazem os s√°bios que a meu mal me entregue?

Isto posto, ignorantes e canalha,
se ficam por canalha, e ignorantes
no rol das bestas a roerem palha.

E se os senhores nobres e elegantes
n√£o querem que o soneto v√° de valhas,
não vá, que tem terríveis consoantes.

A Voz da Tília

Diz-me a t√≠lia a cantar: “Eu sou sincera,
Eu sou isto que vês: o sonho, a graça,
Deu ao meu corpo, o vento, quando passa,
Este ar escultural de bayadera…

E de manhã o sol é uma cratera,
Uma serpente de oiro que me enla√ßa…
Trago nas m√£os as m√£os da Primavera…
E é para mim que em noites de desgraça

Toca o vento Mozart, triste e solene,
E à minha alma vibrante, posta a nu,
Diz a chuva sonetos de Verlaine…”

E, ao ver-me triste, a tília murmurou:
“J√° fui um dia poeta como tu…
Ainda h√°s de ser t√≠lia como eu sou…”

Soneto 255 Recordista

Duzentas e cinq√ľenta e cinco pe√ßas
é produção em série, mas apenas
um “quase”, comparado a tr√™s centenas,
contanto que em soneto, só, me meças.

Refiro-me ao autor do molde dessas
trezentas dedicadas, n√£o a Helenas,
Marílias, Beatrizes ou morenas
an√īnimas, amadas meio √†s pressas;

Por√©m √† tal de Laura! Que fei√ß√Ķes
seriam t√£o divinas, se ela abarca
tamanho patrim√īnio de paix√Ķes?

Persigo, s√≥ no n√ļmero, essa marca.
Depois de superar a de Cam√Ķes,
vou ter que superar a de Petrarca!

Soneto 549 Tematizado

De duas coisas todo bom poeta
dever tem de falar para ser posto
no círculo dos grandes e no gosto
do povo ser mais um que se projeta:

de estrelas e de rosas. Nada veta
que seja seu soneto só composto
de pétalas que espelhem-lhe o desgosto
do amor que feneceu e nos afeta.

Também ninguém proíbe que as estrelas
figurem esperan√ßas ou paix√Ķes
e todos os sonetos tentem lê-las.

N√£o morre um de Bilac ou de Cam√Ķes,
mas falta o que um poeta mede pelas
(dum cego) fantasias e vis√Ķes…

Mancebo Sem Dinheiro, Bom Barrete

Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.

Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.

A putinha alde√£ achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, s√°tira elegante.

Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.

O Soneto

Nas formas voluptuosas o soneto
Tem fascinante, c√°lida fragr√Ęncia
E as leves, langues curvas de eleg√Ęncia
De extravagante e mórbido esqueleto.

A graça nobre e grave do quarteto
Recebe a original intoler√Ęncia,
Toda a sutil, secreta extravag√Ęncia
Que transborda terceto por terceto.

E como um singular polichinelo
Ondula, ondeia, curioso e belo,
O Soneto , nas formas caprichosas.

As rimas d√£o-lhe a p√ļrpura vetusta
E nas mais rara prociss√£o augusta
Surge o Sonho das almas dolorosas…

Oficina Irritada

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, n√£o ser.

Esse meu verbo antip√°tico e impuro
h√° de pungir, h√° de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
c√£o mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.

Soneto 399 Pós-Moderno

Cinema Novo, Bossa Nova, tudo
é novo nesta terra! A velharia
nos vem só do estrangeiro. O que seria
do Chaplin sem o velho cine mudo?

Temos tempos modernos! Também mudo
meu modo de pensar a poesia.
Concreto e verso livre contagia,
mas algo mais à frente aguarda estudo:

√Č o raio do soneto, que ora volta
liberto das amarras do conceito
e sem as igrejinhas como escolta.

Depois do modernismo, vem refeito.
Até o vocabulário já se solta:
ao puro é duro, e ao sujo está sujeito.