Sonetos sobre Morte

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Sonetos de morte escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Noturno Do Morro Do Encanto

Este fundo de hotel é um fim de mundo!
Aqui é o silêncio que te voz. O encanto
Que deu nome a este morro, p√Ķe no fundo
De cada coisa o seu cativo canto.

Ouço o tempo, segundo por segundo.
Urdir a lenta eternidade. Enquanto
Fátima ao pó de estrelas sitibundo
Lança a misericórdia do seu manto.

Teu nome é uma lembrança tão antiga,
Que n√£o tem so nem cor, e eu, miserando,
N√£o sei mais como ouvir, nem como o diga.

Falta a morte chegar… Ela me espia
Neste instante talvez, mal suspeitando
Que j√° morri quando o que eu fui morria.

√öltimo Credo

Como ama o homem ad√ļltero o adult√©rio
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro este ladr√£o comum
Que arrasta a gente para o cemitério!

√Č o transcendental√≠ssimo mist√©rio!
√Č o nous, √© o pneuma, √© o ego sum qui sum,
√Č a morte, √© esse danado n√ļmero Um,
Que matou Cristo e que matou Tibério.

Creio como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a subst√Ęncia c√≥smica evolue…

Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!

6

(À morte da esposa)

√ď alma pura enquanto c√° vivias,
Alma, l√° onde vives, j√° mais pura,
Porque me desprezaste? Quem t√£o dura
Te tornou ao amor que me devias?

Isto era o que mil vezes prometias,
Em que minha alma estava t√£o segura?
Que ambos juntos Da hora desta escura
Noute nos subiria aos claros dias?

Como em t√£o triste c√°rcer’ me deixaste?
Como pude eu sem mi deixar partir-te?
Como vive este corpo sem sua alma?

Ah! que o caminho tu bem mo mostraste,
Porque correste à gloriosa palma!
Triste de quem n√£o mereceu seguir-te!

Assim Seja!

Fecha os olhos e morre calmamente!
Morre sereno do Sever cumprido!
Nem o mais leve, nem um só gemido
Traia, sequer, o teu Sentir latente.

Morre com alma leal, clarividente,
Da crença errando no Vergel florido
E o Pensamento pelos céus, brandido
Como um gl√°dio soberbo e refulgente.

Vai abrindo sacr√°rio por sacr√°rio
Do teu sonho no Templo imagin√°rio,
Na hora glacial da negra Morte imensa…

Morre com o teu Dever! Na alta confiança
De quem triunfou e sabe que descansa
Desdenhando de toda a Recompensa!

Amor um Mal que Falta quando Cresce

Aquela fera humana que enriquece
A sua presunçosa tirania
Destas minhas entranhas, onde cria
Amor um mal que falta quando cresce;

Se nela o Céu mostrou (como parece)
Quanto mostrar ao mundo pretendia,
Porque de minha vida se injuria?
Porque de minha morte se enobrece?

Ora, enfim, sublimai vossa vitória,
Senhora, com vencer-me e cativar-me;
Fazei dela no mundo larga história.

Pois, por mais que vos veja atormentar-me,
Já me fico logrando desta glória
De ver que tendes tanta de matar-me.

Eu Não Lastimo O Próximo Perigo

Eu não lastimo o próximo perigo,
Uma escura pris√£o, estreita e forte;
Lastimo os caros filhos, a consorte,
A perda irrepar√°vel de um amigo.

A pris√£o n√£o lastimo, outra vez digo,
nem o ver iminente o duro corte,
que é ventura também achar a morte
quando a vida só serve de castigo.

Ah, qu√£o depressa ent√£o acabar vira
este enredo, este sonho, esta quimera,
que passa por verdade e é mentira!

Se filhos, se consorte n√£o tivera
e do amigo as virtudes possuíra,
um momento de vida eu n√£o quisera.

O Lutador

Buscou no amor o b√°lsamo da vida,
N√£o encontrou sen√£o veneno e morte.
Levantou no deserto a roca-forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!

Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o monstro de desmedido porte
– A ululante Quimera espavorida!

Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado.

E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!

Soneto XXI

As Relíquias de S. Cruz de Coimbra

Aquela √Āguia gentil de vista estranha
A Cristo viu, co’ a m√£o de estrelas chea,
Solícito, qual anda o que semea
C’os olhos longos no que ao longe apanha.

Lavrador foi no mundo, e com tamanha
Sede que inda de l√° fruito granjea.
Mas ai Senhor, em terra e triste area,
Mal estrelas se d√£o, pouco se ganha.

Bem sabe Cristo o que semea, e onde:
As vivas mortes s√£o de mortas vidas
(Que hoje neste sagrado templo esconde)

Estrelas, que de carne est√£o vistidas.
A quem semea seu valor responde,
E bem, donde as semea merecidas.

Amar quem Está tão Próximo da Morte

Esta estação do ano podes vê-la
em mim: folhas caindo ou já caídas;
ramos que o frémito do frio gela;
árvore em ruína, aves despedidas.

E podes ver em mim, crepuscular,
o dia que se extingue sobre o poente,
com a noite sem astros a anunciar
o repouso da morte, gradualmente.

Ou podes ver o lume extraordin√°rio,
morrendo do que vive: a claridade,
deitado sobre o leito mortu√°rio
que é a cinza da sua mocidade.

Eis o que torna o teu amor mais forte:
amar quem está tão próximo da morte.

Tradução de Carlos de Oliveira

M√°goas

Quando nasci, num mês de tantas flores,
Todas murcharam, tristes, langorosas,
Tristes fanaram redolentes rosas,
Morreram todas, todas sem olores.

Mais tarde da existência nos verdores
Da inf√Ęncia nunca tive as venturosas
Alegrias que passam bonançosas,
Oh! Minha inf√Ęncia nunca teve flores!

Volvendo à quadra azul da mocidade,
Minh’alma levo aflita √† Eternidade,
Quando a morte matar meus dissabores.

Cansado de chorar pelas estradas,
Exausto de pisar m√°goas pisadas,
Hoje eu carrego a cruz das minhas dores!

Anima Mea

Estava a Morte ali, em pé, diante,
Sim, diante de mim, como serpente
Que dormisse na estrada e de repente
Se erguesse sob os pés do caminhante.

Era de ver a f√ļnebre bachante!
Que torvo olhar! que gesto de demente!
E eu disse-lhe: ¬ęQue buscas, impudente,
Loba faminta, pelo mundo errante?¬Ľ

‚ÄĒ N√£o temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a boca fria).

Eu n√£o busco o teu corpo… Era um trof√©u
Glorioso de mais… Busco a tua alma ‚ÄĒ
Respondi-lhe: ¬ęA minha alma j√° morreu!¬Ľ

Soneto De Anivers√°rio

Setembro me agasalha nos seus galhos
e de amor canto no seu verde ventre:
Eis a ventura vaga em danação,
bronze canonizado nas cigarras.

O canto é breve, fino, e já anuncia
o inconfund√≠vel som do √ļltimo acorde:
aquele dó de peito em nó estrídulo.
Como Bash√ī sonhara, √© despedida

que mal se sabe, é morte anunciada,
canora liturgia sazonal.
Em setembro me mato e me renasço

em canto livre, rouco, sem ter palco,
representando de cor e salteado
o meu 13, que é fado e sortilégio.

À Morte

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
L√Ęnguido e doce como um doce la√ßo
E, como uma raiz, sereno e forte.

N√£o h√° mal que n√£o sare ou n√£o conforte
Tua m√£o que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
N√£o h√° triste destino nem m√° sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que j√° viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
M√° fada me encantou e aqui fiquei
√Ä tua espera…quebra-me o encanto!

Eu Deliro, Gertr√ļria, eu Desespero

Eu deliro, Gertr√ļria, eu desespero
No inferno de suspeitas e temores.
Eu da morte as ang√ļstias e os horrores
Por mil vezes sem morrer tolero.

Pelo Céu, por teus olhos te assevero
Que ferve esta alma em c√Ęndidos amores;
Longe o prazer de ilícitos favores!
Quero o teu coração, mais nada quero.

Ah! não sejas também qual é comigo
A cega divindade, a Sorte dura.
A v√°ria Deusa, que me nega abrigo!

Tudo perdi: mas valha-me a ternura
Amor me valha, e pague-me contigo
Os roubos que me faz a m√° ventura.

Lembranças, que lembrais meu bem passado

Lembranças, que lembrais meu bem passado,
Pera que sinta mais o mal presente,
Deixai-me, se quereis, viver contente,
N√£o me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
Viver, como se vê, tão descontente,
Venha, se vier, o bem por acidente,
E dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito melhor é perder a vida,
Perdendo-se as lembranças da memória,
Pois fazem tanto dano ao pensamento.

Assim que nada perde quem perdida
A esperança traz de sua glória,
Se esta vida h√°-de ser sempre em tormento.

Acusação à Cruz

Ha muito, ó lenho triste e consagrado!
Desfeita podrid√£o, velho madeiro!
Que tens avassalado o mundo inteiro,
Como um pend√£o de luto levantado.

Se o que foi nos teus braços cravejado
Foi realmente a Hostia, o Verdadeiro,
Elle est√° mais ferido que um guerreiro
Para livrar das flexas do Peccado.

Ha muito j√° que espalhas a tristeza,
Que lutas contra a alegre Natureza,
E vences ó Cruz triste! Cruz escura!

Chega-te o inverno, symbolo tremendo!
Queremos Vida e Acção- Fica-te sendo
Um emblema de morte e sepultura!

Repouso na Alegria Comedido

Leda serenidade deleitosa,
Que representa em terra um paraíso;
Entre rubis e perlas, doce riso,
Debaixo de ouro e neve, cor-de-rosa;

Presença moderada e graciosa,
Onde ensinando est√£o despejo e siso
Que se pode por arte e por aviso,
Como por natureza, ser formosa;

Fala de que ou j√° vida, ou morte pende,
Rara e suave, enfim, Senhora, vossa,
Repouso na alegria comedido:

Estas as armas s√£o com que me rende
E me cativa Amor; mas n√£o que possa
Despojar-me da glória de rendido.

Soneto J√° Antigo

Olha, Daisy: quando eu morrer tu h√°s de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora n√£o o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Ir√°s de

Londres p’ra Iorque, onde nasceste (dizes…
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas t√£o felizes,

Embora n√£o o saibas, que morri…
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importar√°… Depois vai dar

a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande…
Raios partam a vida e quem l√° ande!

Vozes Da Morte

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podrid√£o, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!

Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte inda teremos filhos!

Morte

Num imenso sal√£o, alto e rotundo,
De caveiras iguais, ossos sem dono,
Perpétua habitação de eterno sono
Que tem por tecto o Céu, por base o mundo:

Bem no meio, em silêncio o mais profundo,
Se levanta da Morte o fatal trono:
Ceptros sem rei, arados sem colono,
São os degraus do sólio furibundo.

Lanças, arneses pelo chão, quebrados,
Murchas grinaldas, b√°culos partidos,
Liras de vates, pastoris cajados,

Algemas, ferros e bras√Ķes luzidos,
No terrível salão são misturados,
No pal√°cio da Morte confundidos.