Sonetos sobre Escuro

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Sonetos de escuro escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Magro, de Olhos azuis, Car√£o Moreno

Magro, de olhos azuis, car√£o moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e n√£o pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

O Anjo Da Redenção

Soberbo, branco, etereamente puro,
Na m√£o de neve um grande facho aceso,
Nas nevroses astrais dos sóis surpreso,
Das trevas deslumbrando o caos escuro.

Portas de bronze e pedra, o horrendo muro
Da masmorra mortal onde est√°s preso
Desce, penetra o Arcanjo branco, ileso
Do ódio bifronte, torso, torvo e duro.

Maravilhas nos olhos e prodígios
Nos olhos, chega dos azuis litígios
Desce à tua caverna de bandido.

E sereno, agitando o estranho facho,
P√Ķe-te aos p√©s e a cabe√ßa, de alto a baixo,
Auréolas imortais de Redimido!

Eu Não Lastimo O Próximo Perigo

Eu não lastimo o próximo perigo,
Uma escura pris√£o, estreita e forte;
Lastimo os caros filhos, a consorte,
A perda irrepar√°vel de um amigo.

A pris√£o n√£o lastimo, outra vez digo,
nem o ver iminente o duro corte,
que é ventura também achar a morte
quando a vida só serve de castigo.

Ah, qu√£o depressa ent√£o acabar vira
este enredo, este sonho, esta quimera,
que passa por verdade e é mentira!

Se filhos, se consorte n√£o tivera
e do amigo as virtudes possuíra,
um momento de vida eu n√£o quisera.

Vós, Ninfas Da Gangética Espessura

Vós, Ninfas da gangética espessura,
cantai suavemente, em vez sonora,
um grande Capit√£o, que a roxa Aurora
dos filhos defendeu da noite escura.

Ajuntou-se a caterva negra e dura,
que na √Āurea Quersoneso afouta mora,
para lançar do caro ninho fora
aqueles que mais podem que a ventura.

Mas um forte Le√£o, com pouca gente,
a multidão tão fera como nécia
destruindo castiga e torna fraca.

Pois, ó Ninfas, cantai! que claramente
mais do que Leonidas fez em Grécia,
o nobre Leonis fez em Malaca.

A Noite n√£o me Deu nenhum Sossego

Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite n√£o me deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.

Eles dois, inimigos de m√£os dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de d√ļbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.

Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel

na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.

Tradução de Carlos de Oliveira

XXII

Neste √°lamo sombrio, aonde a escura
Noite produz a imagem do segredo;
Em que apenas distingue o próprio medo
Do feio assombro a hórrida figura;

Aqui, onde n√£o geme, nem murmura
Z√©firo brando em f√ļnebre arvoredo,
Sentado sabre o tosco de um penedo
Chorava Fido a sua desventura.

As l√°grimas a penha enternecida
Um rio fecundou, donde manava
D’√Ęnsia mortal a c√≥pia derretida:

A natureza em ambos se mudava;
Abalava-se a penha comovida;
Fido, est√°tua da dor, se congelava.

Silêncio!

No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te √† porta…

Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu j√° n√£o vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti e n√£o me v√™s…
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!

Trago-te como um filho, nos meus braços!
E na tua casa…Escuta!…Uns leves passos…
Sil√™ncio, meu Amor!…Abre! Sou eu!…

Solilóquio De Um Visionário

Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério,
Comi meus olhos crus no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!

A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue transformou-me o instinto
De humanas impress√Ķes visuais que eu sinto,
Nas divinas vis√Ķes do √≠ncola et√©reo!

Vestido de hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais…

Subi talvez às máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
√Č necess√°rio que inda eu suba mais!

Acusação à Cruz

Ha muito, ó lenho triste e consagrado!
Desfeita podrid√£o, velho madeiro!
Que tens avassalado o mundo inteiro,
Como um pend√£o de luto levantado.

Se o que foi nos teus braços cravejado
Foi realmente a Hostia, o Verdadeiro,
Elle est√° mais ferido que um guerreiro
Para livrar das flexas do Peccado.

Ha muito j√° que espalhas a tristeza,
Que lutas contra a alegre Natureza,
E vences ó Cruz triste! Cruz escura!

Chega-te o inverno, symbolo tremendo!
Queremos Vida e Acção- Fica-te sendo
Um emblema de morte e sepultura!

Como Te Amo

Como te amo? N√£o sei de quantos modos v√°rios
Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos;
Amo-te com o fervor dos meus sentidos gastos;
Amo-te com o fervor dos meus preitos di√°rios.

√Č puro o meu amor, como os puros sacr√°rios;
√Č nobre o meu amor, como os mais nobres fastos;
√Č grande como os mares altisonos e vastos;
√Č suave como o odor de l√≠rios solit√°rios.

Amor que rompe enfim os laços crus do Ser;
Um t√£o singelo amor, que aumenta na ventura;
Um amor t√£o leal que aumenta no sofrer;

Amor de tal feição que se na vida escura
√Č t√£o grande e nas mais vis √Ęnsias do viver,
Muito maior ser√° na paz da sepultura!

Sepultura d’um Poeta Maldito

Se, em noite horrorosa, escura,
Um crist√£o, por piedade,
te conceder sepultura
Nas ru√≠nas d’alguma herdade,

As aranhas h√£o-de armar
No teu coval suas teias,
E nele ir√£o procriar
Víboras e centopeias.

E sobre a tua cabeça,
A impedi-la que adormeça.
– Em constantes como√ß√Ķes,

H√°s-de ouvir lobos uivar,
Das bruxas o praguejar,
E os conluios dos ladr√Ķes.

Tradução de Delfim Guimarães

Soneto de um Céptico

Febo h√° muito desceu no Ocidente
Por tr√°s dos montes de rosa tingidos;
Eu, sofrendo, cerro os olhos doridos
Olhando o mundo que ante mim se estende.

Pois pela noite o rio silente desce,
Oculto no escuro j√° voa o morcego;
Mas, nocturna, a alma n√£o tem sossego,
√Č na escurid√£o que meu horror cresce.

Odeio a noite que a mim se assemelha,
Só que em mim, nem astro ou centelha
Dispersa as nuvens da alma e da mente.

Mas como a noite em seu manto sombrio,
Calado e escondido me quedo no frio,
Envolto em d√ļvidas e delas temente.

Onde acharei lugar t√£o apartado

Onde acharei lugar t√£o apartado
E t√£o isento em tudo da ventura,
Que, n√£o digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solit√°ria, triste e escura,
Sem fonte clara ou pl√°cida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me far√£o contente.

P√°ra-me de Repente o Pensamento

P√°ra-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento…

P√°ra surpreso, escrutador, atento,
Como p√°ra m cavalo alucinado
Ante um abismo s√ļbito rasgado…
P√°ra e fica e demora-se um momento.

P√°ra e fica na doida correria…
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de a√ßo que essa noite explora…
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

XL

Quem chora ausente aquela formosura,
Em que seu maior gosto deposita,
Que bem pode gozar, que sorte, ou dita,
Que n√£o seja funesta, triste, e escura!

A apagar os incêndios da loucura
Nos braços da esperança Amor me incita:
Mas se era a que perdi, glória infinita,
Outra igual que esperança me assegura!

Já de tanto delírio me despeço;
Porque o meu precipício encaminhado
Pela mão deste engano reconheço.

Triste! A quanto chegou meu duro fado!
Se de um fingido bem não faço apreço,
Que alívio posso dar a meu cuidado!

Noites em Claro

Passas em claro as noites a chorar;
Dia a dia, teu rosto empalidece…
Faze tu, pobre M√£e, por serenar,
Santa Resignação sobre ela desce!

Rochedo que a penumbra desvanece,
Tu, por acaso, n√£o lhe podes dar
Um pouco d’esse frio que entorpece
O cora√ß√£o e o deixa descan√ßar?…

Jamais! N√£o ha remedio! Nem as horas
Que passam! Toda a fria noite choras;
Tua sombra, no chão, é mais escura.

Soffres! E sinto bem que a tua d√īr,
Como se f√īra um beijo, ac√™so am√īr,
Vae-lhe aquecer, ao longe, a sepultura.

À Instabilidade Das Cousas No Mundo.

Nasce o Sol, e n√£o dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol e na luz, falta a firmeza,
Na formosura n√£o se cr√™ const√Ęncia,
E na alegria sinta-se tristeza.

Come√ßa o mundo enfim pela ignor√Ęncia,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconst√Ęncia.

O Mar

O mar é triste como um cemitério,
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela im√°cula brancura
De ondas chorando num albor etéreo.

Ah! dessas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do amor; só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!

Quando a c√Ęndida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solid√£o das fragas,
Onde a quebrar-se t√£o fugaz se esfuma.

Reflete a luz do sol que j√° n√£o arde,
Treme na treva a p√ļrpura da tarde,
Chora a saudade envolta nesta espuma!

Nua E Crua

Doire a Poesia a escura realidade
E a mim a encubra! Um vision√°rio ardente
Quis vê-la nua um dia; e, ousadamente,
Do √°ureo manto despoja a divindade;

O estema da perpétua mocidade
Tira-lhe e as galas; e ei-la, de repente,
Inteiramente nua e inteiramente
Crua, como a Verdade! E era a Verdade!

Fita-a em seguida, e at√īnito recua…
– √ď Musa! exclama ent√£o, magoado e triste,
Traja de novo a louçainha tua!

Veste outra vez as roupas que despiste!
Que olhar se apraz em ver-te assim t√£o nua?…
À nudez da Verdade quem resiste?!

Flor De Caverna

Fica às vezes em nós um verso a que a ventura
Não é dada jamais de ver a luz do dia;
Fragmento de expressão de idéia fugidia,
Do pélago interior bóia na vaga escura.

Sós o ouvimos conosco; à meia voz murmura,
Vindo-nos da consciência a flux, lá da sombria
Profundeza da mente, onde erra e se enfastia,
Cantando, a distrair os ócios da clausura.

Da alma, qual por janela aberta par e par,
Outros livre se v√£o, voejando cento e cento
Ao sol, à vida, à glória e aplausos. Este não.

Este aí jaz entaipado, este aí jaz a esperar
Morra, volvendo ao nada, – embri√£o de pensamento
Abafado em si mesmo e em sua escurid√£o.