Passagens de Euclides da Cunha

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Canudos tinha muito apropriadamente, em roda, uma cercadura de montanhas. Era um parêntesis; era um hiato. Era um vácuo. Não existia. Transposto aquele cordão de serras, ninguém mais pecava.

Um Soneto

A vez primeira que eu te vi, em meio
Das harmonias de uma valsa, elado
O lábio trêmulo, esplêndido, rosado,
Num riso, um riso de alvoradas cheio.

Cheio de febres, em febril anseio
O meu olhar fervente, desvairado
Como um condor de flamas emplumado
Vingou-se a esp√°dua e devorou-te o seio.

Depois, delírio atroz, loucura imensa!
A alma, o bem, a consciência, a crença
Lancei no inc√™ndio dos olhares teus…

Hoje estou pronto à lívida jornada
Da descren√ßa sem luz, da dor do nada…
Já disse ontem à noite, adeus, a Deus!

Ent√£o… eu n√£o creio em Deus?! Quem te disse isto? Puseste-me na mesma roda dos singulares infelizes, que usam o ate√≠smo como usam de gravatas ‚ÄĒ por chic, e para se darem ares de s√°bios… N√£o.

A Civilização e o Horror ao Vácuo

A expans√£o imperialista das grandes pot√™ncias √© um facto de crescimento, o transbordar natural√≠ssimo de um excesso de vidas e de uma sobra de riquezas em que a conquista dos povos se torna simples variante da conquista de mercados. As lutas armadas que da√≠ resultam, perdido o encanto antigo, transformam-se, paradoxalmente, na fei√ß√£o ruidosa e acidental da energia pac√≠fica e formid√°vel das ind√ļstrias. Nada dos velhos atributos rom√Ęnticos do passado ou da preocupa√ß√£o retr√≥grada do hero√≠smo. As pr√≥prias vit√≥rias perderam o significado antigo. S√£o at√© dispens√°veis. (…) Est√£o fora dos lances de g√©nio dos generais felizes e do fortuito dos combates. Vagas humanas desencadeadas pelas for√ßas acumuladas de longas culturas e do pr√≥prio g√©nio de ra√ßa, podem golpe√°-las √† vontade os advers√°rios que as combatem e batem debatendo-se, e que se afogam. N√£o param. N√£o podem parar. Impele-as o fatalismo da pr√≥pria for√ßa. Diante da fragilidade dos pa√≠ses fracos, ou das ra√ßas incompetentes, elas recordam, na hist√≥ria, aquele horror ao v√°cuo, com que os velhos naturalistas explicavam os movimentos irresist√≠veis da mat√©ria. Revelam quase um fen√īmeno f√≠sico. Por isso mesmo nesta expans√£o irreprim√≠vel, n√£o √© do direito, nem da Moral com as mais imponentes mai√ļsculas, nem de alguma das maravilhas metaf√≠sicas de outrora que lhes despontam obst√°culos.

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Quem definirá um dia essa Maldade obscura e misteriosa das coisas, que inspirou aos gregos a concepção indecisa da Fatalidade?

A nossa nacionalidade atravessa de há muito uma quadra em que o mais difícil problema consiste em harmonizar a vida ao dever.

P√°gina Vazia

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo, inda na mente,
Muitas cenas do drama comovente
De guerra despiedada e aterradora.

Certo n√£o pode ter uma sonora
Estrofe ou canto ou ditirambo ardente
Que possa figurar dignamente
Em vosso √°lbum gentil, minha senhora.

E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta p√°gina, a nobreza
De nossa alma iludiu-vos, n√£o previstes

Que quem mais tarde, nesta folha lesse
Perguntaria: “Que autor √© esse
De uns versos t√£o mal feitos e t√£o tristes?”

Amor Algébrico

Acabo de estudar Рda ciência fria e vã,
O gelo, o gelo atroz me gela ainda a mente,
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.

Bem triste e bem cruel decerto foi o ente
Que este Saara atroz – sem aura, sem manh√£,
A √Ālgebra criou – a mente, a alma mais s√£
Nela vacila e cai, sem um sonho virente.

Acabo de estudar e p√°lido, cansado,
Dumas dez equa√ß√Ķes os v√©us hei arancado,
Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz.

√Č tempo, √© tempo pois de, tr√™mulo e amoroso,
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar do seu olhar o luminoso X.

Marat

Foia a alma¬†cruel das barricadas!…
Misto de luz e lama!… se ele ria,
As p√ļrpuras gelavam-se e rangia
Mais de um trono, se dava gargalhadas!…

Fan√°tico da luz… por√©m seguia
Do crime as torvas, lívidas pisadas.
Armava, √† noite, aos cora√ß√Ķes ciladas,
Batia o despotismo à luz do dia.

No seu cérebro tremente negrejavam
Os planos mais cruéis e cintilavam
As idéias mais bravas e brilhantes.

H√° muito que um punhal gelou-lhe o seio.
Passou… deixou na hist√≥ria um rastro cheio
De l√°grimas e luzes ofuscantes.

Não desejo Europa, o boulevard, os brilhos de uma posição, desejo o sertão, a picada malgradada, e a vida afanosa e triste de pioneiro. Nestes tempos de fragilidade já não é pouco.

A Flor Do C√°rcere

Nascera ali – no limo viridente
Dos muros da pris√£o – como uma esmola
Da natureza a um cora√ß√£o que estiola –
Aquela flor imaculada e olente…

E ele que f√īra um bruto, e vil descrente,
Quanta vez, numa prece, ungido, cola
O l√°bio seco, na √ļmida corola
Daquela flor alv√≠ssima e silente!…

E – ele – que sofre e para a dor existe –
Quantas vezes no peito o pranto estanca!..
Quantas vezes na veia a febre acalma,

Fitando aquela flor t√£o pura e triste!…
– Aquela estrela perfumada e branca,
Que cintila na noite de sua alma…

Sem este objetivo firme e permanente [de conhecer o interior in√≥spito], a Amaz√īnia, mais cedo ou mais tarde, se destacar√° do Brasil, naturalmente e irresistivelmente, como se despega um mundo de uma nebulosa ‚ÄĒ pela expans√£o centr√≠fuga do seu pr√≥prio movimento.

O nosso povo, meu caro Porchat, por abdicação completa de todas as energias, não tem forças para agitar-se além das arruaças desprezíveis.

H√° mais de um m√™s que me agito e trabalho ‚ÄĒ de gra√ßa ‚ÄĒ num pa√≠s em que se inventam os empregos para a vadiagem remunerada.