Passagens de Euclides da Cunha

41 resultados
Frases, pensamentos e outras passagens de Euclides da Cunha para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Gonçalves Dias

(AO P√Č DO MAR)

SE EU PUDESSE cantar a grande história,
Que envolve ardente o teu viver brilhante…
Filho dos tr√≥picos que – audaz gigante –
Desceste ao t√ļmulo subindo √† Gl√≥ria!

Teu t√ļmulo colossal – nest’hora eu fito –
Altivo, rugidor, sonoro, extenso –
O mar!… e ……. O sim, teu cr√Ęnio imenso
S√≥ podia conter-se no infinito…

E eu – sou louco talvez – mas quando, forte,
Em seu dorso resvala – ardente – norte,
E ele espumante estruge, brada, grita,

E em cada vaga uma can√ß√£o estoura…
Eu – creio ser tu’alma que, sonora,
Em seu seio sem fim – brava – palpita!

Pareceu-me e parece-me que o mais tosco verso de um livre √† mem√≥ria de um her√≥i [Tiradentes] esmaga o mais brilhante poema que se atira aos p√©s de um rei…

Reminiscência

Um dia a vi, nas lamas da miséria,
Como entre p√Ęntanos um branco l√≠rio,
Velada a fronte em palidez funérea,
O frio véu das noivas do martírio!

Pedia esmola ‚ÄĒ pequena e s√©ria ‚ÄĒ
Os seios, pastos de eternal delírio,
Cobertos eram de uma cor cin√©rea ‚ÄĒ
Seus olhos tinham o brilhar do círio.

Tempos depois n‚Äôum carro ‚ÄĒ audaz, brilhante,
Uma mulher eu vi ‚ÄĒ febril, galante…
Lancei-lhe o olhar e… maldi√ß√£o! tremi…

Ria-se ‚ÄĒ c√≠nica, servil… faceira?
O carro n’uma nuvem de poeira
Se arremessou… e eu nunca mais a vi!

Dedicatória

Se acaso uma alma se fotografasse
de sorte que, nos mesmos negativos,
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos… Se a emo√ß√£o que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse
Mesmo em ligeiros traços fugitivos;

Amigo! tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando – deste grupo bem no meio –

Que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
Destes sujeitos é precisamente
O mais triste, o mais p√°lido, o mais feio.

√Č, desgra√ßadamente, comum nesta terra vender-se a consci√™ncia; mas, eu terei asco de mim mesmo se um dia (estou plenamente seguro que nunca me achanar√°) calcar as mais sagradas ilus√Ķes de meu c√©rebro para satisfazer as exig√™ncias do est√īmago.

Somos o √ļnico caso hist√≥rico de uma nacionalidade feita por uma teoria pol√≠tica. Vimos, de um salto, da homogeneidade da col√īnia para o reg√≠men constitucional: do alvar√° para as leis.

Saint-Just

Quando à tribuna ele se ergueu, rugindo,
– Ao forte impulso das paix√Ķes audazes
Ardente o lábio de terríveis frases
E a luz do gênio em seu olhar fulgindo,

A tirania estremeceu nas bases,
De um rei na fronte ressumou, pungindo,
Um suor de morte e um terror infindo
Gelou o seio aos cortes√£os sequazes –

Uma alma nova ergueu-se em cada peito,
Brotou em cada peito uma esperança,
De um sono acordou, firme, o Direito –

E a Europa – o mundo – mais que o mundo, a Fran√ßa –
Sentiu numa hora sob o verbo seu
As como√ß√Ķes que em s√©culos n√£o sofreu!

Dant√£o

Parece-me que o vejo iluminado.
Erguendo delirante a grande fronte
– De um povo inteiro o f√ļlgido horizonte
Cheio de luz, de idéias constelado!

De seu cr√Ęnio vulc√£o – a rubra lava
Foi que gerou essa sublime aurora
РNoventa e três Рe a levantou sonora
Na fronte audaz da populaça brava!

Olhando para a história Рum século e a lente
Que mostra-me o seu cr√Ęnio resplandente
Do passado atrav√©s o v√©u profundo…

H√° muito que tombou, mas inquebr√°vel
De sua voz o eco formid√°vel
Estruge ainda na raz√£o do mundo!

Canudos tinha muito apropriadamente, em roda, uma cercadura de montanhas. Era um parêntesis; era um hiato. Era um vácuo. Não existia. Transposto aquele cordão de serras, ninguém mais pecava.

Um Soneto

A vez primeira que eu te vi, em meio
Das harmonias de uma valsa, elado
O lábio trêmulo, esplêndido, rosado,
Num riso, um riso de alvoradas cheio.

Cheio de febres, em febril anseio
O meu olhar fervente, desvairado
Como um condor de flamas emplumado
Vingou-se a esp√°dua e devorou-te o seio.

Depois, delírio atroz, loucura imensa!
A alma, o bem, a consciência, a crença
Lancei no inc√™ndio dos olhares teus…

Hoje estou pronto à lívida jornada
Da descren√ßa sem luz, da dor do nada…
Já disse ontem à noite, adeus, a Deus!

Ent√£o… eu n√£o creio em Deus?! Quem te disse isto? Puseste-me na mesma roda dos singulares infelizes, que usam o ate√≠smo como usam de gravatas ‚ÄĒ por chic, e para se darem ares de s√°bios… N√£o.

A Civilização e o Horror ao Vácuo

A expans√£o imperialista das grandes pot√™ncias √© um facto de crescimento, o transbordar natural√≠ssimo de um excesso de vidas e de uma sobra de riquezas em que a conquista dos povos se torna simples variante da conquista de mercados. As lutas armadas que da√≠ resultam, perdido o encanto antigo, transformam-se, paradoxalmente, na fei√ß√£o ruidosa e acidental da energia pac√≠fica e formid√°vel das ind√ļstrias. Nada dos velhos atributos rom√Ęnticos do passado ou da preocupa√ß√£o retr√≥grada do hero√≠smo. As pr√≥prias vit√≥rias perderam o significado antigo. S√£o at√© dispens√°veis. (…) Est√£o fora dos lances de g√©nio dos generais felizes e do fortuito dos combates. Vagas humanas desencadeadas pelas for√ßas acumuladas de longas culturas e do pr√≥prio g√©nio de ra√ßa, podem golpe√°-las √† vontade os advers√°rios que as combatem e batem debatendo-se, e que se afogam. N√£o param. N√£o podem parar. Impele-as o fatalismo da pr√≥pria for√ßa. Diante da fragilidade dos pa√≠ses fracos, ou das ra√ßas incompetentes, elas recordam, na hist√≥ria, aquele horror ao v√°cuo, com que os velhos naturalistas explicavam os movimentos irresist√≠veis da mat√©ria. Revelam quase um fen√īmeno f√≠sico. Por isso mesmo nesta expans√£o irreprim√≠vel, n√£o √© do direito, nem da Moral com as mais imponentes mai√ļsculas, nem de alguma das maravilhas metaf√≠sicas de outrora que lhes despontam obst√°culos.

Continue lendo…

Quem definirá um dia essa Maldade obscura e misteriosa das coisas, que inspirou aos gregos a concepção indecisa da Fatalidade?

A nossa nacionalidade atravessa de há muito uma quadra em que o mais difícil problema consiste em harmonizar a vida ao dever.

P√°gina Vazia

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo, inda na mente,
Muitas cenas do drama comovente
De guerra despiedada e aterradora.

Certo n√£o pode ter uma sonora
Estrofe ou canto ou ditirambo ardente
Que possa figurar dignamente
Em vosso √°lbum gentil, minha senhora.

E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta p√°gina, a nobreza
De nossa alma iludiu-vos, n√£o previstes

Que quem mais tarde, nesta folha lesse
Perguntaria: “Que autor √© esse
De uns versos t√£o mal feitos e t√£o tristes?”

Amor Algébrico

Acabo de estudar Рda ciência fria e vã,
O gelo, o gelo atroz me gela ainda a mente,
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.

Bem triste e bem cruel decerto foi o ente
Que este Saara atroz – sem aura, sem manh√£,
A √Ālgebra criou – a mente, a alma mais s√£
Nela vacila e cai, sem um sonho virente.

Acabo de estudar e p√°lido, cansado,
Dumas dez equa√ß√Ķes os v√©us hei arancado,
Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz.

√Č tempo, √© tempo pois de, tr√™mulo e amoroso,
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar do seu olhar o luminoso X.