Passagens sobre Escuro

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Frases sobre escuro, poemas sobre escuro e outras passagens sobre escuro para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Segredo do Mar

A ‚ÄúFlor do Mar‚ÄĚ avan√ßando
Navegava, navegava,
L√° para onde se via
O vulto que ela buscava.

Era t√£o grande, t√£o grande
Que a vista toda tapava.

E Bartolomeu erguido
Aos marinheiros bradava
Que ninguém tivesse medo
Do gigante que ali estava.

E mais perto agora est√£o
Do que procurando v√£o!

Bartolomeu que viu?
Que descobriu o valente?
– Que o gigante era um penedo
que tinha forma de gente?

Que era dantes o mar? Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir.
Agora o mar é livre e é seguro
E foi um português que o foi abrir.

A Paisagem Faz a Raça

A paisagem faz a ra√ßa. A Holanda √© uma terra pac√≠fica e serena, porque a sua paisagem √© larga, plana e abundante. A paisagem que fez o grego, era o mar, reluzente e infinito, o c√©u, sereno, transparente, doce, e destacando-se sob aquela imobilidade azul, um templo branco, puro, augusto, r√≠tmico, entre a sombra que faz um grupo de oliveiras. A paisagem do romano √© toda jur√≠dica: as terras √°speras, a perder de vista, separadas por marcos de tijolo; uma grande charrua puxada por b√ļfalos, vai passando entre os trigos; uma larga estrada lajeada, eterna, sobre a qual rolam as duas altas rodas maci√ßas dum carro sabino; uma casa coberta de vinha branqueja ao longe, na plan√≠cie. N√£o importa a cor do c√©u: o romano n√£o olha para o c√©u. A ra√ßa anglo-sax√≥nica tira a sua tenebrosa mitologia, o seu esp√≠rito inquieto, da sua paisagem escura, acidentada, desolada e rom√Ęntica. √Č o estreito e √°rido aspecto do vale de Jerusal√©m que fez o judeu.

Na vida de qualquer cristão há sempre a experiência do deserto, da purificação interior, da noite escura da alma.

A Despedida da Morte

Falo de mim porque bem sei que a vida
lava o meu rosto com o suor dos outros,
que também sou, pois sou tudo o que posto

ao meu redor se cala, e é pedra, ou, água,
cicia apenas ‚ÄĒ O teu tempo √© a trava
que te impede de ter a calma clara

do ch√£o de lajes que o sol recobre,
este esperar por tudo que n√£o corre,
nem pára e nem se apressa, e é só estado,

e nem sequer murmura: ‚ÄĒ O que te trazem
é o riso e o lamento, o ser amado
e o roçar cada dia a tua morte,

que n√£o rep√Ķe em ti o, sem passado,
ficar no teu escuro, pois herdaste
e legas um sussurro, um som de passos,

uma sombra, um olhar sobre a paisagem,
mem√≥ria, c√°lcio, h√ļmus, eis que o mundo
nada rejeita, sendo pobre e triste
no esplendor que nos d√°. A madrugada.

Assim como as crianças, que no escuro tremem de medo e temem tudo,
nós, na claridade, às vezes temos receio de certas coisas
que não são mais terríveis do que aquelas que as crianças temem
no escuro e pensam que acontecer√£o a elas.

Soneto Da Rosa

Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como astro matinal, que a adora
Molhar de puras l√°grimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.

E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como √°vida ferida
Guardar o plasma m√ļltiplo da vida
Que a faz materna e pl√°cida, e agora

Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude.

Para que o sonho viva de certeza
Para que o tempo da paix√£o n√£o mude
Para que se una o verbo à natureza.

Deus vinde a mim e não tenho alegria e minha vida é escura como a noite sem estrelas e Deus, por que não existes dentro de mim? Por que me fizeste separada de ti?

Rumor dos Fogos

hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o drag√£o em celul√≥ide da inf√Ęncia
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a ins√≥nia dos meus trinta e cinco anos…

dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi h√° muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde
e as m√£os eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais

n√£o quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir… o receio
de abrir os olhos e as rosas n√£o estarem onde as sonhei
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar

ficou-me esta m√£o com sua sombra de terra
sobre o papel branco… como √© louca esta m√£o
tentando aparar a tristeza antiga das l√°grimas

Luz entre Sombras

√Č noite medonha e escura,
Muda como o passamento*
Uma só no firmamento
Trêmula estrela fulgura.

Fala aos ecos da espessura
A chorosa harpa do vento,
E num canto sonolento
Entre as √°rvores murmura.

Noite que assombra a memória,
Noite que os medos convida,
Erma, triste, merencória.

No entanto…minha alma olvida
Dor que se transforma em glória,
Morte que se rompe em vida.

Sonhei, Confuso, E O Sono Foi Disperso

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando despertei da confus√£o,
Vi que esta vida aqui e este universo
N√£o s√£o mais claros do que os sonhos s√£o

Obscura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilus√£o
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que h√° na escurid√£o.

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
√Č a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.

Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.

Contra este fundo escuro de bem-estar da civiliza√ß√£o contempor√Ęnea, at√© a arte tende a misturar-se, perdendo a sua identidade.

LXXII

J√° rompe, Nise, a matutina aurora
O negro manto, com que a noite escura,
Sufocando do Sol a face pura,
Tinha escondido a chama brilhadora.

Que alegre, que suave, que sonora,
Aquela fontezinha aqui murmura!
E nestes campos cheios de verdura
Que avultado o prazer tanto melhora!

Só minha alma em fatal melancolia,
Por te n√£o poder ver, Nise adorada,
Não sabe inda, que coisa é alegria;

E a suavidade do prazer trocada,
Tanto mais aborrece a luz do dia,
Quanto a sombra da noite lhe agrada.

N√°ufragos que Navegam Tempestades

As tempestades são sempre períodos longos. Poucas pessoas gostam de falar destes momentos em que a vida se faz fria e anoitece, preferem histórias de praias divertidas às das profundas tragédias de tantos naufrágios que são, afinal, os verdadeiros pilares da nossa existência.

Gente vazia tende a pensar em quem sofre como fraco… quando fracos s√£o os que evitam a qualquer custo mares revoltos, tempestades em que qualquer um se sente min√ļsculo, mas s√≥ os que n√£o prestam o s√£o verdadeiramente. Para a gente de cora√ß√£o pequeno, qualquer dor √© grande. Os homens e mulheres que assumem o seu destino sabem que, mais cedo ou mais tarde, morrer√£o, mas h√° ainda uma decis√£o que lhes cabe: desviver a fugir ou morrer sofrendo para diante.
Da morte saímos, para a morte caminhamos. O que por aqui sofremos pode bem ser a forma que temos de nos aproximarmos do coração da verdade.

Haverá sempre quem seja mestre de conversas e valente piloto de naus alheias, os que sabem sempre tudo, principalmente o que é (d)a vida do outro, e mais especificamente se estiver a passar um mau bocado. Logo se apressam a dizer que depois da tempestade vem a bonança,

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A Rua Dos Cataventos – II

Dorme, ruazinha… E tudo escuro…
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme o teu sono sossegado e puro,
Com teus lampi√Ķes, com teus jardins tranq√ľilos

Dorme… N√£o h√° ladr√Ķes, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso persegui-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um c√£o…
Dorme, ruazinha… N√£o h√° nada…

S√≥ os meus passos… Mas t√£o leves s√£o
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombra√ß√£o…

Plena Nudez

Eu amo os gregos tipos de escultura:
Pag√£s nuas no m√°rmore entalhadas;
N√£o essas produ√ß√Ķes que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero um pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: de carne exuberante e pura
Todas as sali√™ncias destacadas…

Não quero, a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
De transparente t√ļnica atrav√©s:

Quero vê-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios
Nus… toda nua, da cabe√ßa aos p√©s!

M√£e Dolorosa

Vi-o doente, ouvi os seus gemidos;
Sinto a memoria negra, ao record√°-lo!
A M√£e baixava os olhos doloridos
Sobre o Filho. E era a D√īr a contempl√°-lo!

Depois, nesses instantes esquecidos,
Ou lhe falava ou punha-se a beij√°-lo…
Mas, retomando, subito, os sentidos,
Estremecia toda em grande abalo!

Fugia de ao pé dele suffocada,
A sua escura trança desgrenhada,
Os seus olhos abertos de terror!

E então, num desespêro, a Mãe chorava,
E, por entre gemidos, só gritava:
Am√īr! am√īr! am√īr! am√īr! am√īr!

Mater Dolorosa

Quando se fez ao largo a nave escura,
na praia essa mulher ficou chorando,
no doloroso aspecto figurando
a lacrimosa est√°tua da amargura.

Dos céus a curva era tranquila e pura;
Das gementes alcíones o bando
Via-se ao longe, em círculos, voando
Dos mares sobre a cérula planura.

Nas ondas se atufara o Sol radioso,
E Lua sucedera, astro mavioso,
De alvor banhando os alcantis das fragas…

E aquela pobre m√£e, n√£o dando conta
Que o sol morrera, e que o luar desponta,
A vista embebe na amplid√£o das vagas…

A Morte

Oh! que doce tristeza e que ternura
No olhar ansioso, aflito dos que morrem…
De que √Ęncoras profundas se socorrem
Os que penetram nessa noite escura!

Da vida aos frios véus da sepultura
Vagos momentos tr√™mulos decorrem…
E dos olhos as l√°grimas escorrem
Como faróis da humana Desventura.

Descem ent√£o aos golfos congelados
Os que na terra vagam suspirando,
Com os velhos cora√ß√Ķes tantalizados.

Tudo negro e sinistro vai rolando
Báratro abaixo, aos ecos soluçados
Do vendaval da Morte ondeando, uivando…

-Que √© que eu fa√ßo? √Č de noite e estou viva. Estar viva est√° me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro.