Quanto a mim também me distancio de mim.
Passagens de Clarice Lispector
1250 resultadosEu sou mansa mas minha função de viver é feroz.
Tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente.
O que o ser humano mais aspira é tornar-se um ser humano.
Julgar de acordo com o bem e o mal é o único método de viver. Mas não esquecer que se trata apenas de uma receita e de um processo. De um modo de não se perder na verdade, que esta não tem bem nem mal.
Parece que às vezes sou espontânea demais e isso me torna engraçada.
Eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor.
Ela era muito satisfatona: tinha tudo o que seu pouco anseio lhe dava. E havia nela um desafio que se resumia em: ”ninguém manda em mim.’
Eu disse a uma amiga: “A vida sempre superexigiu de mim”. Ela disse: “Mas lembre-se de que você também superexige da vida.” Sim.
Melhor assim. Não quero mais depender de ninguém. Quero é o Danúbio Azul. E não Valsa Triste de Sibellius, se é que é assim que se escreve o seu nome.
Liberdade é pouco. O que eu quero ainda não tem nome
Esquenta-me com a tua adivinhação de mim, compreende-me porque eu não estou me compreendendo. Estou somente amando a barata. E é um amor infernal. GH. 115
Eu sou sim. Eu sou não. Aguardo com paciência a harmonia dos contrários. Serei um eu, o que significa também vós.
Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade.
O que é a vida real? Os factos? Não, a vida real só é atingida pelo que há de sonho na vida real.
Saber que se Vive é Coragem
Às vezes, olhando um instantâneo tirado numa praia ou numa festa, percebia com leve apreensão irónica o que aquele rosto sorridente e escurecido me revelava: um silêncio. Um silêncio e um destinho que me escapavam, eu, fragmento hieroglífico de um império morto ou vivo. Ao olhar o retrato eu via o mistério. Não. Não vou perder o resto do medo do mau gosto, vou começar meu exercício de coragem, viver não é coragem, saber que se vive é coragem – e vou dizer que na minha fotografia eu via O Mistério.
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Em cada palavra pulsa um coração. Escrever é a tal procura de íntima veracidade de vida. Vida que me perturba e deixa o meu próprio coração trémulo sofrendo a incalculável dor que parece ser necessária ao meu amadurecimento – amadurecimento? Até agora vivi sem ele!
Porque, quanto a mim, sinto de vez em quando que sou o personagem de alguém. É incômodo ser dois: eu para mim e eu para os outros.
Hoje compreendo-o. Tudo lhe perdoo, tudo perdoo aos que não sabem se prender, aos que se fazem perguntas. Aos que procuram motivos para viver, como se a vida por si mesma não se justificasse.
Se o sol e a lua sabem a hora de sair de nossas vistas, porque algumas pessoas ?agradáveis? não seguem a ciclo da natureza?