Passagens de Clarice Lispector

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Julgar de acordo com o bem e o mal é o único método de viver. Mas não esquecer que se trata apenas de uma receita e de um processo. De um modo de não se perder na verdade, que esta não tem bem nem mal.

Ela era muito satisfatona: tinha tudo o que seu pouco anseio lhe dava. E havia nela um desafio que se resumia em: ”ninguém manda em mim.’

Eu disse a uma amiga: “A vida sempre superexigiu de mim”. Ela disse: “Mas lembre-se de que você também superexige da vida.” Sim.

Melhor assim. Não quero mais depender de ninguém. Quero é o Danúbio Azul. E não Valsa Triste de Sibellius, se é que é assim que se escreve o seu nome.

Esquenta-me com a tua adivinhação de mim, compreende-me porque eu não estou me compreendendo. Estou somente amando a barata. E é um amor infernal. GH. 115

Eu sou sim. Eu sou não. Aguardo com paciência a harmonia dos contrários. Serei um eu, o que significa também vós.

Quem não tiver medo de ficar alegre e experimentar uma só vez sequer a alegria doida e profunda terá o melhor de nossa verdade.

Saber que se Vive é Coragem

Às vezes, olhando um instantâneo tirado numa praia ou numa festa, percebia com leve apreensão irónica o que aquele rosto sorridente e escurecido me revelava: um silêncio. Um silêncio e um destinho que me escapavam, eu, fragmento hieroglífico de um império morto ou vivo. Ao olhar o retrato eu via o mistério. Não. Não vou perder o resto do medo do mau gosto, vou começar meu exercício de coragem, viver não é coragem, saber que se vive é coragem – e vou dizer que na minha fotografia eu via O Mistério.

.H’

Em cada palavra pulsa um coração. Escrever é a tal procura de íntima veracidade de vida. Vida que me perturba e deixa o meu próprio coração trémulo sofrendo a incalculável dor que parece ser necessária ao meu amadurecimento – amadurecimento? Até agora vivi sem ele!

Porque, quanto a mim, sinto de vez em quando que sou o personagem de alguém. É incômodo ser dois: eu para mim e eu para os outros.

Hoje compreendo-o. Tudo lhe perdoo, tudo perdoo aos que não sabem se prender, aos que se fazem perguntas. Aos que procuram motivos para viver, como se a vida por si mesma não se justificasse.

Se o sol e a lua sabem a hora de sair de nossas vistas, porque algumas pessoas ?agradáveis? não seguem a ciclo da natureza?