Passagens de Clarice Lispector

1250 resultados
Frases, pensamentos e outras passagens de Clarice Lispector para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Daqui a Vinte e Cinco Anos

Perguntaram-me uma vez se eu saberia calcular o Brasil daqui a vinte e cinco anos. Nem daqui a vinte e cinco minutos, quanto mais vinte e cinco anos. Mas a impressão-desejo é a de que num futuro não muito remoto talvez compreendamos que os movimentos caóticos atuais já eram os primeiros passos afinando-se e orquestrando-se para uma situação económica mais digna de um homem, de uma mulher, de uma criança. E isso porque o povo já tem dado mostras de ter maior maturidade política do que a grande maioria dos políticos, e é quem um dia terminará liderando os líderes. Daqui a vinte e cinco anos o povo terá falado muito mais.
Mas se n√£o sei prever, posso pelo menos desejar. Posso intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva: o da fome. Muit√≠ssimo mais depressa, por√©m, do que em vinte e cinco anos, porque n√£o h√° mais tempo de esperar: milhares de homens, mulheres e crian√ßas s√£o verdadeiros moribundos ambulantes que tecnicamente deviam estar internados em hospitais para subnutridos. Tal √© a mis√©ria, que se justificaria ser decretado estado de prontid√£o, como diante de calamidade p√ļblica. S√≥ que √© pior: a fome √© a nossa endemia, j√° est√° fazendo parte org√Ęnica do corpo e da alma.

Continue lendo…

Desculpe, mas n√£o posso ficar sozinha contigo sen√£o nasce uma estrela no ar. Quem ama a solid√£o n√£o ama a liberdade.

Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como você me vê passar.

H√° um mau-gosto na desordem de viver. E mesmo eu nem saberia, se tivesse desejado, transformar esse passo latente em passo real.

Quando uma pessoa √© o pr√≥prio n√ļcleo, ela n√£o tem mais diverg√™ncias. Ent√£o ela √© a solenidade de si pr√≥pria, e n√£o tem mais medo de consumir-se ao ritual consumidor.

Quem se recusa o prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, √© porque tem uma capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa ‚Äď da√≠ um temor maior ainda. S√≥ quem guarda as armas √† chave √© quem receia atirar sobre todos.

Que minha solid√£o me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar. Que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo.

A Humildade na Escrita

N√≥s, os que escrevemos, temos na palavra humana, escrita ou falada, grande mist√©rio que n√£o quero desvendar com o meu racioc√≠nio que √© frio. Tenho que n√£o indagar do mist√©rio para n√£o trair o milagre. Quem escreve ou pinta ou ensina ou dan√ßa ou faz c√°lculos em termos de matem√°tica, faz milagre todos os dias. √Č uma grande aventura e exige muita coragem e devo√ß√£o e muita humildade. Meu forte n√£o √© a humildade em viver. Mas ao escrever sou fatalmente humilde. Embora com limites. Pois do dia em que eu perder dentro de mim a minha pr√≥pria import√Ęncia – tudo estar√° perdido.

Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.

Eu Queria uma Liberdade Olímpica

Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim. Eu queria uma liberdade olímpica. Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais. Enquanto eu tiver corpo ele me submeterá às suas exigências. Vejo a liberdade como uma forma de beleza e essa beleza me falta.

O segredo destas flores fechadas é que exatamente no primeiro dia de primavera elas se abrem se dão ao mundo.

Ser é ser além do humano. Ser homem não dá certo, ser homem tem sido um constrangimento. O desconhecido nos aguarda, mas sinto que esse desconhecido é uma totalização e será a verdadeira humanização pela qual ansiamos.

Eu te odeio, disse ela para um homem cujo crime √ļnico era o de n√£o am√°-la. Eu te odeio, disse muito apressada. Mas n√£o sabia sequer como se fazia.

Oh, Deus, eu que fa√ßo concorr√™ncia a mim mesma. Me detesto. Felizmente os outros gostam de mim. √Č uma tranquilidade. Um sopro de vida.

Porque eu fazia do amor um c√°lculo matem√°tico errado: pensava que, somando as compreens√Ķes, eu amava. N√£o sabia que, somando as incompreens√Ķes √© que se ama verdadeiramente

O Casal Comum

Depois da √©poca de palavras de amor, de palavras de raiva, de palavras, as rela√ß√Ķes entre os dois tornaram-se aos poucos imposs√≠veis de resultar numa frase ou numa realidade clara. √Ä medida que estavam casados h√° tanto tempo, as diverg√™ncias, as desconfian√ßas, certa rivalidade jamais chegavam √† tona, embora elas existissem entre eles como o plano dentro do qual se entendiam. Esse estado quase impedia uma ofensa e uma defesa, e jamais uma explica√ß√£o. Formavam o que se chama um casal comum.