Passagens de Clarice Lispector

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Comecei a escrever pequenos contos logo que me alfabetizaram, e escrevi-os em portugu√™s, √© claro. Criei-me em Recife. […] E nasci para escrever. A palavra √© meu dom√≠nio sobre o mundo.

Os regulamentos e as leis, era preciso não esquecê-los, é preciso não esquecer que sem os regulamentos e as leis não haverá ordem, era preciso não esquecê-los e defendê-los para me defender.

O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe imutável e nele nos transladamos.

O Valor do Silêncio

Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.

O Prazer é Abrir as Mãos

O prazer √© abrir as m√£os e deixar escorrer sem avareza o vazio-pleno que se estava encarni√ßadamente prendendo. E de s√ļbito o sobressalto: ah, abri as m√£os e o cora√ß√£o, e n√£o estou perdendo nada! E o susto: acorde, pois h√° o perigo do cora√ß√£o estar livre!
Até que se percebe que nesse espraiar-se está o prazer muito perigoso de ser. Mas vem uma segurança estranha: sempre ter-se-á o que gastar. Não ter pois avareza com esse vazio-pleno: gastá-lo.

N√£o tenha medo de meu sil√™ncio… Sou um louco mas guiado dentro de mim por uma esp√©cie de grande s√°bio.

Como é bom o instante de precisar que antecede o instante de se ter. Mas ter facilmente, não. Porque essa aparente facilidade cansa.

No ultimo mês sinto ter vivido uma década e, na próxima semana, quero viver pelo menos meio século! Quero que tudo seja intenso, exagerado, louco, porque só assim fico satisfeita

Oh, havia muitos motivos de alegria, alegria sem riso, séria, profunda, fresca. Quando descobria coisas a respeito de si mesma exactamente no momento em que falava o pensamento correndo paralelo à palavra.

Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta tarde triste que uma palavra humana salvaria.

Ser Feliz é uma Responsabilidade Muito Grande

Ser feliz √© uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem. Tenho coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz √© quem aceitou a morte. Quando estou feliz demais, sinto uma ang√ļstia amorda√ßante: assusto-me. Sou t√£o medrosa. Tenho medo de estar viva porque quem tem vida um dia morre. E o mundo me violenta. Os instintos exigentes, a alma cruel, a crueza dos que n√£o t√™m pudor, as leis a obedecer, o assassinato ‚ÄĒ tudo isso me d√° vertigem como h√° pessoas que desmaiam ao ver sangue: o estudante de medicina com o rosto p√°lido e os l√°bios brancos diante do primeiro cad√°ver a dissecar. Assusta-me quando num relance vejo as entranhas do esp√≠rito dos outros. Ou quando caio sem querer bem fundo dentro de mim e vejo o abismo intermin√°vel da eternidade, abismo atrav√©s do qual me comunico fantasmag√≥rica com Deus.

A Perfeição

O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

Cadê Eu?

Cadê eu? perguntava-me. E quem respondia era uma estranha que me dizia fria e categoricamente: tu és tu mesma. Aos poucos, à medida que deixei de me procurar fiquei distraída e sem intenção alguma. Eu sou hábil em formar teoria. Eu, que empiricamente vivo. Eu dialogo comigo mesma: exponho e me pergunto sobre o que foi exposto, eu exponho e contesto, faço perguntas a uma audiência invisível e esta me anima com as respostas a prosseguir. Quando eu me olho de fora para dentro eu sou uma casca de árvore e não a árvore. Eu não sentia prazer. Depois que eu recuperei meu contato comigo é que me fecundei e o resultado foi o nascimento alvoroçado de um prazer todo diferente do que chamam prazer.

Não é o grau que separa a inteligência do génio, mas a qualidade. O génio não é tanto uma questão de poder intelectivo, mas da forma por que se apresenta essa poder. Pode-se assim ser facilmente mais inteligente que um génio. Mas o génio é ele.

Nem sempre consigo perdoar. N√£o espere me perder para sentir minha falta. N√£o me deixe ir, posso n√£o mais voltar.

Quem se atinge pela despersonalização reconhecerá o outro sob qualquer disfarce: o primeiro passo em relação ao outro é achar em si mesmo o homem de todos os homens.