Textos sobre Medida

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Textos de medida escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Liberdade e Constrangimento S√£o Dois Aspectos da Mesma Necessidade

Liberdade e constrangimento s√£o dois aspectos da mesma necessidade, que √© ser aquele e n√£o um outro. Livre de ser aquele, n√£o livre de ser um outro. (…) N√£o h√° quem o n√£o saiba. Os que reclamam a liberdade reclamam a moral interior, para que nem assim o homem deixe de ser governado. O gendarme – dizem eles de si para si – est√° no interior. E os que solicitam a coac√ß√£o afirmam-te que ela √© liberdade de esp√≠rito. Tu, na tua casa, tens a liberdade de atravessar as antec√Ęmaras, de medir a passos largos as salas, uma por uma, de empurrar as portas, de subir ou descer as escadas. E a tua liberdade cresce √† medida que aumentam as paredes e as peias e os ferrolhos. E disp√Ķes de um n√ļmero tanto maior de actos poss√≠veis onde escolher aquele que h√°s-de praticar, quantas mais obriga√ß√Ķes te imp√īs a dura√ß√£o das tuas pedras. E, na sala comum, onde assentas arraiais no meio da desordem, deixas de dispor de liberdade, passa a haver dissolu√ß√£o.
E, afinal de contas, todos sonham com uma e a mesma cidade. Mas um reclama para o homem, tal como ele é, o direito de agir.

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O Livre Arbítrio

Um homem é dotado de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a queria outrora, excepto na medida em que completa a sua vontade de outrora, vivendo.
Em segundo lugar, é livre pelo facto de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, √© livre pelo facto de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar atrav√©s da vida e de chegar assim a ele pr√≥prio e isso por um caminho que pode sem d√ļvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto t√£o complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os tês aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo.

Psican√°lise e Arte

As cria√ß√Ķes, obras de arte, s√£o imagin√°rias satisfa√ß√Ķes de desejos inconscientes, do mesmo modo que os sonhos, e, tanto como eles, s√£o, no fundo, compromissos, dado que se v√™em for√ßadas a evitar um conflito aberto com as for√ßas de repress√£o. Todavia, diferem dos conte√ļdos narcisistas, associais, dos sonhos, na medida em que s√£o destinadas a despertar o inteesse noutras pessoas e s√£o capazes de evocar e satisfazer os mesmos desejos que nelas se encontram inconscientes. √Ä parte isto, fazem uso do prazer perceptivo da beleza formal, aquilo a que chamei um pr√©mio-est√≠mulo. Aquilo que a psican√°lise foi capaz de fazer consistiu em captar as rela√ß√Ķes entre as impress√Ķes da vida do artista, as suas experi√™ncias causais e as suas obras e, a partir delas, reconstruir a sua constitui√ß√£o e os impulsos que se movem dentro dele. N√£o se deve julgar que o salaz que procura uma obra de arte se anule pelo conhecimento obtido pela an√°lise. A este respeito √© poss√≠vel que o profano espere acaso demasiado da an√°lise, mas deve advertir-se que ela n√£o esclarece os dois problemas que s√£o, provavelmente, os mais interessantes para ele: n√£o esclarece quanto √† natureza dos dotes do artista, nem pode explicar os meios de que o artista se serve para trabalhar a t√©cnica art√≠stica.

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O Eterno é a Própria Vida

Segundo a express√£o de Lavelle, a morte d√° ¬ęa todos os acontecimentos que a precederam esta marca do absoluto que nunca possuiriam se n√£o viessem a interromper-se¬Ľ. O absoluto habita em cada uma das nossas empresas, na medida em que cada uma se realiza de uma vez para sempre e n√£o ser√° nunca recome√ßada. Entra na nossa vida atrav√©s da sua pr√≥pria temporalidade. Assim o eterno torna-se fluido e reflui do fim ao cora√ß√£o da vida. A morte j√° n√£o √© a verdade da vida, a vida j√° n√£o √© a espera do momento em que a nossa ess√™ncia ser√° alterada. O que h√° sempre de incoactivo, de incompleto e de constrangedor no presente n√£o √© j√° um sinal de menor realidade.
Mas ent√£o a verdade de um ser j√° n√£o √© aquilo em que se tornou no fim ou a sua ess√™ncia, mas o seu devir activo ou a sua exist√™ncia. E se, como Lavelle dizia em tempos, nos julgamos mais perto dos mortos que am√°mos do que dos vivos, √© porque j√° nos n√£o p√Ķem em d√ļvida e daqui para o futuro podemos sonh√°-los a nosso gosto. Esta piedade √© quase √≠mpia. A √ļnica recorda√ß√£o que lhes diz respeito √© a que se refere ao uso que faziam de si pr√≥prios e do seu mundo,

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A Profundidade do Ser

E de vez em quando descer √† gravidade de mim, √† profundidade do meu ser. E verificar ent√£o que tudo se transfigura. Que √© que significa este garatujar quase gratuito, este riso superficial, todo este modo de ser menor? A melancolia profunda, t√£o de dentro que ela se iguala √† alegria sem medida. Espa√ßo rarefeito de n√≥s, √© o lugar da grandeza do homem, do que √© nele fundamental, o lugar do aparecimento de Deus. Mas Deus n√£o me aparece – aparece apenas a inunda√ß√£o que me vem da infinita beatitude, da grandeza e do assombro. N√≥s vivemos habitualmente √† superf√≠cie de n√≥s, ligados ao que √© da vida imediata, enredados nas mil futilidades com que se nos enchem os dias. Mas de vez em quando, o abismo da natureza, um livro ou uma m√ļsica que dos abismos vem, abre-nos aos p√©s um precip√≠cio hiante e tudo se dilui num sentir que est√° antes e abaixo e mais longe que esse tudo. H√° uma harmonia que em n√≥s espera por um som, um acorde, uma palavra, para imediatamente se organizar e envolver-nos. E a√≠ somos verdade para a infinidade dos s√©culos.

A Inquietação Moderna

Em direc√ß√£o a oeste, a movimenta√ß√£o moderna torna-se cada vez maior, de modo que, para os Americanos, os habitantes da Europa na sua totalidade se apresentam como seres que gostam do sossego e dele usufruem, quando estes mesmos, no entanto, voam em confus√£o como abelhas e vespas. Esta movimenta√ß√£o torna-se t√£o grande que a cultura superior j√° n√£o pode madurar os seus frutos; √© como se as esta√ß√Ķes do ano se seguissem umas √†s outras demasiado depressa. Por falta de sossego, a nossa civiliza√ß√£o vai dar a uma nova barb√°rie. Em nenhuma √©poca, os activos, ou seja, os irrequietos, foram t√£o considerados. Refor√ßar em grande medida o elemento contemplativo faz parte, por conseguinte, das necess√°rias correc√ß√Ķes que se tem de efectuar no car√°cter da humanidade. No entanto, desde j√°, cada indiv√≠duo, que seja calmo e constante de cora√ß√£o e de cabe√ßa, tem o direito de crer que possui n√£o s√≥ um bom temperamento, mas tamb√©m uma virtude de utilidade geral e que, ao conservar essa atitude, at√© cumpre uma miss√£o superior.

A Má Consciência como Inibição dos Instintos

A m√° consci√™ncia √© para mim o estado m√≥rbido em que devia ter ca√≠do o homem quando sofreu a transforma√ß√£o mais radical que alguma vez houve, a que nele se produziu quando se viu acorrentado √† argola da sociedade e da paz. √Ä maneira dos peixes obrigados a adaptarem-se a viver em terra, estes semianimais, acostumados √† vida selvagem, √† guerra, √†s correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos. For√ßavam-nos a irem pelo seu p√©, a ¬ęlevarem-se a si mesmos¬Ľ, quando at√© ent√£o os havia levado a √°gua: esmagava-os um peso enorme. Sentiam-se inaptos para as fun√ß√Ķes mais simples; neste mundo novo e desconhecido n√£o tinham os seus antigos guias estes instintos reguladores, inconscientemente fal√≠veis; viam-se reduzidos a pensar, a deduzir, a calcular, a combinar causas e efeitos. Infelizes! Viam-se reduzidos √† sua ¬ęconsci√™ncia¬Ľ, ao seu √≥rg√£o mais fraco e mais coxo! Creio que nunca houve na terra desgra√ßa t√£o grande, mal-estar t√£o horr√≠vel!
Acrescente-se a isto que os antigos instintos n√£o haviam renunciado de vez √†s suas exig√™ncias. Mas era dif√≠cil e ami√ļde imposs√≠vel satisfaz√™-las; era preciso procurar satisfa√ß√Ķes novas e subterr√Ęneas. Os instintos sob a enorme for√ßa repressiva, volvem para dentro,

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O Princípio da Simpatia e Antipatia

O princípio da simpatia e antipatia tende ao máximo a pecar por severidade excessiva. Tende ele a aplicar castigo em muitos casos em que é injusto fazê-lo, e, em casos em que se justifica uma punição, a aplicar severidade maior do que a merecida. Não existe acto algum imaginável, por mais trivial e por menos censurável que seja, que o princípio da simpatia e antipatia não encontre algum motivo para punir. Quer se trate de diferenças de gosto, quer se trate de diferenças de opinião, sempre se encontra motivo para punir. Não existe nenhum desacordo, por mais trivial que seja, que a perseverança não consiga transformar num incidente sério. Cada qual se torna, aos olhos do seu semelhante, um inimigo e, se a lei o permitir, um criminoso. Este é um dos aspectos sob os quais a espécie humana se distingue Рpara seu desabono Рdos animais.
Por princ√≠pio de simpatia e antipatia entendo o princ√≠pio que aprova ou desaprova certas ac√ß√Ķes, n√£o na medida em que estas tendem a aumentar ou a diminuir a felicidade da parte interessada, mas simplesmente pelo facto de que algu√©m se sente disposto a aprov√°-las ou reprov√°-las.Os partid√°rios deste princ√≠pio mant√™m que a aprova√ß√£o ou a reprova√ß√£o constituem uma raz√£o suficiente em si mesma,

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Vontade de Mudança

Se achas que a situa√ß√£o da tua vida √© insatisfat√≥ria ou at√© mesmo intoler√°vel, s√≥ te rendendo primeiro conseguir√°s quebrar o padr√£o de resist√™ncia inconsciente que perpetua essa situa√ß√£o. Render-se √© perfeitamente compat√≠vel com tomar provid√™ncias, com iniciar uma mudan√ßa ou alcan√ßar metas. Mas no estado de rendi√ß√£o h√° uma energia totalmente diferente, uma qualidade diferente que corre no que fizeres. Ao renderes-te, ligas-te novamente com a energia da fonte do Ser e, se o que fizeres estiver infuso do Ser, tornar-se-√° numa celebra√ß√£o rejubilante da energia da vida, que te levar√° mais profundamente para dentro do Agora. Atrav√©s da n√£o-resist√™ncia, a qualidade da tua consci√™ncia e, por conseguinte, a qualidade de tudo o que fizeres ou criares, ser√° incomensuravelmente real√ßada. Os resultados tomar√£o ent√£o conta de si pr√≥prios e reflectir√£o essa qualidade. Poder√≠amos chamar-lhe “ac√ß√£o rendida”. N√£o √© o trabalho tal como o conhecemos desde h√° milhares de anos. √Ä medida que mais seres humanos forem despertando, a palavra trabalho desaparecer√° do nosso vocabul√°rio, e talvez se crie uma palavra nova em sua substitui√ß√£o.

√Č a qualidade da tua consci√™ncia desse momento que √© o factor determinante do tipo de futuro que vivenciar√°s, pelo que render-te √© a coisa mais importante que podes fazer para provocar uma mudan√ßa positiva.

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A Recetividade Genuína

A recetividade genuína é uma espécie de inocência preciosa mas não tem de existir à custa de sermos frágeis e vulneráveis. Da mesma maneira, não tem de traçar limites pessoais muito firmes e definidos à custa da sensibilidade e da compaixão.

√Ä medida que cresce a nossa consci√™ncia espiritual acerca da nossa verdadeira natureza, tornamo-nos mais compassivos e gentis porque reconhecemos e estabelecemos uma liga√ß√£o com a pureza e a bondade dos outros a partir da nossa ess√™ncia. Por isso permanecemos recetivos a todas as influ√™ncias positivas e que exprimem a vida. Com o que n√£o √© √ļtil nem ben√©fico para n√≥s, simplesmente escolhemos n√£o nos envolvermos nem prestar aten√ß√£o. √Č assim que conseguimos manter-nos recetivos ao mesmo tempo que preservamos os nossos limites pessoais. A sua consci√™ncia de si opera como um filtro que deixa entrar o que √© √ļtil para a sua evolu√ß√£o e impede a entrada daquilo que n√£o √©. √Č como se fosse uma porta de rede. Deixa passar a brisa refrescante mas n√£o deixa entrar as folhas.

O Supremo Palhaço da Criação

A velha no√ß√£o antropom√≥rfica de que todo o universo se centraliza no homem ‚Äď de que a exist√™ncia humana √© a suprema express√£o do processo c√≥smico ‚Äď parece galopar alegremente para o ba√ļ das ilus√Ķes perdidas. O facto √© que a vida do homem, quanto mais estudada √† luz da biologia geral, parece cada vez mais vazia de significado. O que no passado deu a impress√£o de ser a principal preocupa√ß√£o e obra-prima dos deuses, a esp√©cie humana come√ßa agora a apresentar o aspecto de um sub-produto acidental das maquina√ß√Ķes vastas, inescrut√°veis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses.
(…) O que n√£o quer dizer, naturalmente, que um dia a tal teoria seja abandonada pela grande maioria dos homens. Pelo contr√°rio, estes a abra√ßar√£o √† medida que ela se tornar cada vez mais duvidosa. De fato, hoje, a teoria antropom√≥rfica ainda √© mais adoptada do que nas eras de obscurantismo, quando a doutrina de que um homem era um quase Deus foi no m√≠nimo aperfei√ßoada pela doutrina de que as mulheres inferiores. O que mais est√° por tr√°s da caridade, da filantropia, do pacifismo, da ‚Äúinspira√ß√£o‚ÄĚ e do resto dos atuais sentimentalismos? Uma por uma, todas estas tolices s√£o baseadas na no√ß√£o de que o homem √© um animal glorioso e indescrit√≠vel,

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A Cólera dos Bondosos e a Cólera das Almas Fracas

Podemos distinguir duas esp√©cies de c√≥lera: uma que √© muito s√ļbita e se manifesta muito no exterior, mas mesmo assim tem pouco efeito e pode facilmente ser apaziguada; e outra que inicialmente n√£o aparece tanto, por√©m corr√≥i mais o cora√ß√£o e tem efeitos mais perigosos. Os que t√™m muita bondade e muito amor s√£o mais sujeitos √† primeira. Pois ela n√£o prov√©m de um √≥dio profundo, e sim de uma s√ļbita avers√£o que os surpreende, porque, sendo levados a imaginar que as coisas devem desenrolar-se da forma como julgam ser a melhor, t√£o logo acontece de forma diferente; eles ficam admirados e frequentemente se ofendem com isso, mesmo que a coisa n√£o os atinja pessoalmente, porque, tendo muita afei√ß√£o, interessam-se por aqueles a quem amam, da mesma forma que por si mesmos. Assim, o que para outra pessoa seria apenas motivo de indigna√ß√£o √© para eles um motivo de c√≥lera. E como a inclina√ß√£o que t√™m para amar faz que tenham muito calor e muito sangue no cora√ß√£o, a avers√£o que os surpreende n√£o pode impelir para este t√£o pouca bile que isso n√£o cause inicialmente uma grande emo√ß√£o no sangue. Mas tal emo√ß√£o pouco dura, porque a for√ßa da surpresa n√£o se prolonga e porque,

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O Desejo de Criar

Diotima: Qual √©, S√≥crates, na sua opini√£o, a causa deste amor, deste desejo? Voc√™ j√° observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando s√£o tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possu√≠dos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necess√°rio alimentar os filhos? (… ) Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do poss√≠vel, perpetuar-se e imortalizar-se. Apenas desse modo, por meio da procria√ß√£o, a natureza mortal √© capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. [… ] Pois saiba, S√≥crates, que o mesmo vale para a ambi√ß√£o dos homens. Voc√™ ficar√° assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a n√£o ser que compreenda o que eu disse, e reflicta sobre o que se passa com eles quando s√£o tomados pela ambi√ß√£o e pelo desejo de gl√≥ria eterna. √Č pela fama, mais ainda que pelos seus filhos, que eles se disp√Ķem a encarar todos os riscos, suportar fadigas, esbanjar fortunas e at√© mesmo sacrificar as suas vidas. [… ] Aqueles cujo instinto criador √© f√≠sico recorrem de prefer√™ncia √†s mulheres e revelam o seu amor dessa maneira,

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Somos aquilo que Pensamos

Os nossos pensamentos determinam aquilo que somos. A nossa atitude mental √© o factor X que determina o nosso destino. Emerson disse: ¬ęUm homem √© aquilo em que pensa o dia inteiro¬Ľ. Como poderia ser outra coisa qualquer? Estou convencido, sem qualquer sombra de d√ļvida, que o maior problema que temos de enfrentar – na realidade, trata-se praticamente do √ļnico problema que temos de enfrentar – √© a escolha dos pensamentos certos. Se conseguirmos, estaremos no caminho certo para resolver todos os nossos problemas. Marco Aur√©lio, o grande fil√≥sofo que governou o Imp√©rio Romano, resumiu esta quest√£o em onze palavras ‚ÄĒ onze palavras que podem determinar o seu destino: ¬ęA nossa vida √© aquilo que os nossos pensamentos fazem dela¬Ľ.

√Č verdade, se pensarmos em coisas felizes, seremos felizes. Se pensarmos em desgra√ßas, seremos uns desgra√ßados. Se pensarmos em coisas assustadoras, viveremos com medo. Se pensarmos em doen√ßas, ficaremos provavelmente doentes. Se pensarmos em falhar, √© certo que falhamos. Se ficarmos mergulhados em autocomisera√ß√£o, v√£o todos afastar-se de n√≥s e evitar-nos. Norman Vincent Peale afirmou: ¬ęTu n√£o √©s o que pensas que √©s; tu √©s o que tu pensas¬Ľ.

Estarei eu a defender uma típica atitude de Pollyanna (clássico de Eleane H.

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A Idade da Derrota Aceite

Tenho sessenta anos. N√£o te iludas: n√£o estou ainda bastante fraco para ceder √†s imagina√ß√Ķes do medo, quase t√£o absurdas como as da esperan√ßa e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confian√ßa; n√£o perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim t√£o pr√≥ximo n√£o √© necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperan√ßa de chegar √† manh√£ seguinte. Adentro dos limites intranspon√≠veis de que te falei h√° pouco, posso defender a minha posi√ß√£o passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. N√£o deixo por isso de ter chegado √† idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias est√£o contados n√£o significa nada; sempre assim foi; √© assim para todos n√≥s. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avan√ßamos sem cessar, diminui para mim √† medida que a minha doen√ßa mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos j√° n√£o ser√° vivo.
A minha margem de hesitação já não se alonga em anos,

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O Engraxanço e o Culambismo Português

Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como ¬ęengraxan√ßo¬Ľ. Os chefes de reparti√ß√£o engraxavam os chefes de servi√ßo, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os m√©dicos da caixa, etc… Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se por√©m, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso.

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N√£o te Queixes

N√£o te queixes. Recolhe em ti a amargura, n√£o a disperses, n√£o a esbanjes com os outros. Ela √© tua, nasceu de ti, da tua mis√©ria, pertence-te como os ossos e as v√≠sceras. Concentra-te nela, absorve-a, faz dela a tua grandeza. Porque s√≥ se √© grande pelo sofrimento, n√£o pela futilidade do prazer. As pedras n√£o sofrem, Cristo esteve ¬ętriste at√© √† morte¬Ľ. Tem desprezo pelos homens felizes, porque dos homens felizes ¬ęn√£o reza a hist√≥ria¬Ľ. S√≥ a dor pode medir o teu tamanho de excep√ß√£o, s√≥ ela pode medir o que tu vales. O sofrimento med√≠ocre n√£o d√° mais do que a com√©dia, mas a grandeza da trag√©dia s√≥ pode atribuir-se aos grandes. N√£o te aconselho a que v√°s ao encontro da amargura, mas se ela vier ter contigo, acolhe-a com serenidade. N√£o sucumbas aos seus golpes, aguenta-os at√© onde puderes. E se √©s homem de verdade, tu a aguentar√°s.
Também as grandes alegrias são do destino dos grandes, porque elas são irmãs dos grandes sofrimentos. Só os pequenos e mesquinhos se alegram e sofrem com o que é mesquinho e pequeno. Aquilo que é pequeno é imperceptível a quem o não é. Que juízo fazem de ti,

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Escravizados ao Além

Acabar com a morte como agonia di√°ria da humanidade √© talvez o maior bem que se pode fazer hoje ao homem. O cristianismo transformou a vida numa cruz, porque lhe p√īs a consci√™ncia da morte √† cabeceira. E crentes e ateus vivem no mesmo terror. Ora a ideia terr√≠fica do fim n√£o √© uma condi√ß√£o fisiol√≥gica, nem mesmo intelectual do homem. Nem os Gregos, nem os Romanos, por exemplo, sentiam a morte com a irrepar√°vel ang√ļstia que nos r√≥i. √Č for√ßoso, pois, que se arranquem as ra√≠zes desta dor, custe o que custar. Escravizados ao al√©m, os nossos dias aqui n√£o podem ter liberdade nem alegria. Qualquer doutrina que nega ao homem o direito de ser pleno na sua f√≠sica dura√ß√£o, √© uma doutrina de castra√ß√£o e de aniquilamento. Ir buscar ao post-mortem as leis que devem limitar a expans√£o abusiva da personalidade, √© o artif√≠cio mais desgra√ßado que se podia inventar. Pregue-se e exija-se do indiv√≠duo medida e disciplina, mas que nas√ßam da sua pr√≥pria harmonia. Institua-se uma √©tica com ra√≠zes no mesmo ch√£o onde o homem caminha.

A Mudança só se Dá na Continuidade

Dirigirmo-nos a algu√©m com a miss√£o de que se transforme noutro, √© irmos com a embaixada de que ele deixe de ser ele. Cada qual defende a sua personalidade, e s√≥ aceita uma mudan√ßa na sua maneira de pensar ou de sentir, na medida em que esta altera√ß√£o possa entrar na unidade do seu esp√≠rito e enredar-se na sua continuidade; na medida em que essa mudan√ßa se puder harmonizar e se conseguir integrar com tudo o resto da sua maneira de ser, pensar e sentir, e possa, por outro lado, enla√ßar-se nas suas recorda√ß√Ķes. Nem a um homem, nem a um povo – que, em certo sentido, tamb√©m √© um homem – se pode exigir uma mudan√ßa, que desfa√ßa a unidade e a continuidade da sua pessoa. Pode-se mud√°-lo muito, quase at√© por completo; mas sempre, dentro da continuidade.
√Č certo que, em certos indiv√≠duos, acontece aquilo a que se chama mudan√ßa de personalidade; mas isso √© um caso patol√≥gico, e √© como tal que os psiquiatras o estudam. Nessas altera√ß√Ķes de personalidade, a mem√≥ria, base da consci√™ncia, arruina-se por completo e, ao pobre paciente, s√≥ resta, como substracto de continuidade individual – j√° que n√£o pessoal -, o organismo f√≠sico.

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Medida e Moderação

A mocidade √© rom√Ęntica, sempre dominada pelo sentimento; a velhice √© cl√°ssica nos seus gostos, mais amiga da ordem e da restri√ß√£o que da paix√£o e da liberdade; a idade madura paira entre os dois extremos, e com a vontade disciplinada, o esp√≠rito claro e os desejos coordenados, pacientemente constr√≥i. A regra do conhecimento, disse Descartes, √© pensar com clareza; s√≥ o que √© claramente compreendido √© verdade; s√≥ assim os desejos se fundem no car√°cter e na vontade.
A grande qualidade dos anos maduros está na moderação; e o grande defeito, na mediocridade. Nada mais fácil do que fugir ao esforço para cair na rotina, passando da vida vertical para a horizontal. Este perigo ameaça a maior parte dos homens; a sesta durante a tarde é um símbolo e um começo. Mas moderação de nenhum modo implica mediocridade; pode significar força e profundidade de espírito. A acção resoluta combina-se com a moderação no desejar e no falar. O próprio Nietzsche, tão imoderado, dizia que poucos conhecem a força e a significação de duas coisas muito altas Рmedida e moderação.