Cita√ß√Ķes de Patrick Modiano

34 resultados
Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Patrick Modiano para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Em vez de estarmos constantemente a submeter os outros a um interrogatório, seria melhor as tomarmos no silêncio tal como elas são.

Se habitarmos perto de uma estação de comboios, isso muda completamente a nossa vida. Ficamos com a impressão de que estamos de passagem. Nada é definitivo. Num ou noutro dia, acabamos por embarcar num comboio.

Eu sempre acreditei que alguns lugares são ímans e que somos atraídos para eles se andarmos nas suas proximidades.

Um Sentimento de Inquietação

Deu-se ent√£o em mim uma esp√©cie de estalido. O panorama que se avistava daquele quarto provocava-me um sentimento de inquieta√ß√£o, uma apreens√£o que eu j√° conhecera. Aquelas fachadas, aquela rua deserta, aquelas silhuetas de sentinela no crep√ļsculo perturbavam-me √† maneira insidiosa de um perfume ou de uma can√ß√£o outrora familiares. E tive a certeza de que muitas vezes, √†quela mesma hora, ficava ali, im√≥vel, √† espreita, sem fazer o m√≠nimo gesto, sem ousar sequer acender a luz. Quando tornei a entrar na sala, julguei que j√° n√£o havia l√° ningu√©m, mas afinal estava a dona da casa estendida no banco de veludo. Dormia. Aproximei-me silenciosamente e sentei-me na outra ponta do banco. Uma bandeja com um bule e duas ch√°venas, no meio do tapete de l√£ branca. Tossi um pouco. Ela n√£o acordou. Ent√£o, deitei ch√° nas duas ch√°venas. Estava frio.

Como seria estranho se as crianças conhecessem como eram os seus pais antes de terem nascido, quando ainda não eram pais, mas simplesmente eles próprios.

A memória em si própria está cheia de ácido, e acabará por não restar mais do que todos os gritos de dor, e de todos os rostos horrorizados do passado, com apelos cada vez mais surdos, dos quais vislumbramos contornos vagos.

Eu acredito que ainda ouvimos nas entradas dos edifícios os passos daqueles que os atravessaram e que, desde então, desapareceram.

O que nos torna a perda de um ser ainda mais sens√≠vel, s√£o os c√≥digos de linguagem entre ele e n√≥s, e que de repente se tornam in√ļteis e vazios.

Os acontecimentos não têm interesse por si próprios, mas sim pela forma como se repercutem na nossa imaginação e nos nossos sonhos.

Quando amamos alguém, temos que aceitar a sua parte de mistério. E é precisamente por isso que amamos.

Por mais que façamos, nunca conheceremos o descanso, a suave quietude das coisas. Caminharemos sempre sobre areia movediça.

Ele escutou-me, sorrindo, mas com aquela solicitude paterna e condescendente por me ter ao seu serviço.

Eu não escrevo propriamente romances, mas sim coisas mais vacilantes, sortidos de sonhos, que vêm do imaginário.

A Cozinha do Escritor

Aquilo que eu mais amo na escrita √© o devaneio que a precede. A escrita em si, n√£o, n√£o √© muito agrad√°vel. Deve-se materializar o sonho na p√°gina, assim que se saia do devaneio. √Äs vezes penso, como √© que os outros fazem? Como esses outros autores que, como Flaubert o fazia no s√©culo XIX, escrevem e reescrevem, reformulam, reconstruem, e v√£o condensando a partir da primeira vers√£o at√© que n√£o reste finalmente quase nada na vers√£o final do livro? Isso soa-me muito assustador. Pessoalmente, contento-me em fazer as correc√ß√Ķes num primeiro esbo√ßo que se assemelha a um desenho que foi feito de uma vez s√≥. Estas correc√ß√Ķes s√£o numerosas e ligeiras, como uma acumula√ß√£o de actos de microcirurgia. Sim, √© preciso medidas dr√°sticas como faz um cirurgi√£o, ser frio o suficiente com o seu pr√≥prio texto de uma ponta √† outra, corrigindo, suprimindo, enfatizando. √Äs vezes basta riscar algumas palavras numa p√°gina para que tudo mude. Mas √© essa a cozinha do escritor, que √© suficientemente chato para os outros.