Citações de Patrick Modiano

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Se habitarmos perto de uma estação de comboios, isso muda completamente a nossa vida. Ficamos com a impressão de que estamos de passagem. Nada é definitivo. Num ou noutro dia, acabamos por embarcar num comboio.

Eu sempre acreditei que alguns lugares são ímans e que somos atraídos para eles se andarmos nas suas proximidades.

Um Sentimento de Inquietação

Deu-se então em mim uma espécie de estalido. O panorama que se avistava daquele quarto provocava-me um sentimento de inquietação, uma apreensão que eu já conhecera. Aquelas fachadas, aquela rua deserta, aquelas silhuetas de sentinela no crepúsculo perturbavam-me à maneira insidiosa de um perfume ou de uma canção outrora familiares. E tive a certeza de que muitas vezes, àquela mesma hora, ficava ali, imóvel, à espreita, sem fazer o mínimo gesto, sem ousar sequer acender a luz. Quando tornei a entrar na sala, julguei que já não havia lá ninguém, mas afinal estava a dona da casa estendida no banco de veludo. Dormia. Aproximei-me silenciosamente e sentei-me na outra ponta do banco. Uma bandeja com um bule e duas chávenas, no meio do tapete de lã branca. Tossi um pouco. Ela não acordou. Então, deitei chá nas duas chávenas. Estava frio.

Como seria estranho se as crianças conhecessem como eram os seus pais antes de terem nascido, quando ainda não eram pais, mas simplesmente eles próprios.

A memória em si própria está cheia de ácido, e acabará por não restar mais do que todos os gritos de dor, e de todos os rostos horrorizados do passado, com apelos cada vez mais surdos, dos quais vislumbramos contornos vagos.

Eu acredito que ainda ouvimos nas entradas dos edifícios os passos daqueles que os atravessaram e que, desde então, desapareceram.

O que nos torna a perda de um ser ainda mais sensível, são os códigos de linguagem entre ele e nós, e que de repente se tornam inúteis e vazios.

Os acontecimentos não têm interesse por si próprios, mas sim pela forma como se repercutem na nossa imaginação e nos nossos sonhos.

Quando amamos alguém, temos que aceitar a sua parte de mistério. E é precisamente por isso que amamos.

Por mais que façamos, nunca conheceremos o descanso, a suave quietude das coisas. Caminharemos sempre sobre areia movediça.

Ele escutou-me, sorrindo, mas com aquela solicitude paterna e condescendente por me ter ao seu serviço.

Eu não escrevo propriamente romances, mas sim coisas mais vacilantes, sortidos de sonhos, que vêm do imaginário.

A Cozinha do Escritor

Aquilo que eu mais amo na escrita é o devaneio que a precede. A escrita em si, não, não é muito agradável. Deve-se materializar o sonho na página, assim que se saia do devaneio. Às vezes penso, como é que os outros fazem? Como esses outros autores que, como Flaubert o fazia no século XIX, escrevem e reescrevem, reformulam, reconstruem, e vão condensando a partir da primeira versão até que não reste finalmente quase nada na versão final do livro? Isso soa-me muito assustador. Pessoalmente, contento-me em fazer as correcções num primeiro esboço que se assemelha a um desenho que foi feito de uma vez só. Estas correcções são numerosas e ligeiras, como uma acumulação de actos de microcirurgia. Sim, é preciso medidas drásticas como faz um cirurgião, ser frio o suficiente com o seu próprio texto de uma ponta à outra, corrigindo, suprimindo, enfatizando. Às vezes basta riscar algumas palavras numa página para que tudo mude. Mas é essa a cozinha do escritor, que é suficientemente chato para os outros.