Textos sobre Longe

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Textos de longe escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Vida Que Nos Escapa Entre os Dedos

Volta-se o rico para os prazeres da carne e a maior parte do mundo faz o mesmo. E n√£o sem acerto, porque todas as coisas agrad√°veis devem ser tidas como inocentes, e at√© que se provem culpadas todas as presun√ß√Ķes pendem a seu favor. A vida j√° √© bastante penosa para que ainda a agravemos com proibi√ß√Ķes e obst√°culos aos seus deleites; t√£o arisca se mostra a felicidade que todas as portas por onde ela queira entrar devem permanecer escancaradas. A carne enfraquece muito precocemente – e os olhos olham com melancolia para os prazeres de outrora. Muito r√°pidamente todas as alegrias perdem a vivacidade – e admiramo-nos de como pudessem ter-nos interessado tanto. O pr√≥prio amor torna-se grotesco logo que atinge os seus fins. Guardemos o ascetismo para a esta√ß√£o pr√≥pria – a velhice.
√Č este o grande drama do prazer; todas as coisas agrad√°veis acabam por amargar; todas as flores murcham quando as colhemos, e o amor morre tanto mais depressa quanto √© mais retribu√≠do. Por isso o passado parece-nos sempre melhor que o presente; esquecemos os espinhos das rosas colhidas; saltamos por cima dos insultos e inj√ļrias e demoramo-nos sobre as vit√≥rias. O presente parece muito mesquinho diante de um passado do qual s√≥ retemos na mem√≥ria o bom,

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Mentir sem Prejudicar

Julgar os discursos dos homens atrav√©s dos efeitos que produzem equivale frequentemente a apreci√°-los mal. Tais efeitos, para al√©m de nem sempre serem sens√≠veis e f√°ceis de conhecer, variam infinitamente, tal como as circunst√Ęncias em que esses discursos s√£o proferidos.
A inten√ß√£o daquele que os profere, por√©m, √© a √ļnica que permite apreci√°-los e que determina o seu grau de mal√≠cia ou de bondade. Proferir afirma√ß√Ķes falsas s√≥ √© mentir quando existe inten√ß√£o de enganar, e mesmo essa inten√ß√£o, longe de se aliar sempre √† de prejudicar, tem por vezes um objectivo oposto. Todavia, para tornar inocente uma mentira, n√£o basta que a inten√ß√£o de prejudicar n√£o seja expressa, √© necess√°rio tamb√©m ter a certeza de que o erro em que se induz aqueles a quem se fala n√£o poder√° prejudic√°-los a eles nem a ningu√©m, seja de que maneira for. √Č raro e dif√≠cil ter-se essa certeza e, por isso, √© dif√≠cil e raro que uma mentira seja perfeitamente inocente.

O Egoísta Homem Moderno

Um dos problemas mais complicados e mais dif√≠ceis dos nossos dias, o de encaminhar para um fim ben√©fico e utilit√°rio, para o bem real da nossa sociedade, essa exuber√Ęncia espantosa de prosperidade material, que muito √© de temer n√£o materialize excessivamente o esp√≠rito popular e n√£o o lance na via de uma ambi√ß√£o desenfreada e subversiva. Esta quest√£o considero-a como a √ļnica s√©ria e vital que hoje resta resolver satisfatoriamente, porque a sua resolu√ß√£o √© que h√°-de dizer a raz√£o por que n√≥s gozamos dos incalcul√°veis benef√≠cios do vapor e das suas aplica√ß√Ķes e do tel√©grafo el√©ctrico; porque √© dela que depende a sorte futura da nossa sociedade, e essa resolu√ß√£o √© tanto mais dif√≠cil que ela n√£o pode ser a obra da viol√™ncia, por isso que a viol√™ncia apressaria o termo fatal do desengano sem que a sociedade estivesse suficientemente preparada para um choque t√£o violento, e tornaria sang√ľin√°ria uma revolu√ß√£o que, longe de dever ser um cataclismo para a sociedade, dever√° executar-se brandamente. O governo, que deve saber dirigir a verdadeira opini√£o p√ļblica, pode pela sua ac√ß√£o sobre a instru√ß√£o das classes laboriosas ensinar-lhes a sua posi√ß√£o futura na sociedade e destruir as ambi√ß√Ķes desenfreadas dos pretendidos amigos do povo…

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Imagem Enevoada

Paradoxo: por um lado, a televis√£o fabrica-me representa√ß√Ķes de um mundo long√≠nquo; por outro, esse √© o mundo adequado ao meu mundo. √Č o que me conv√©m: se as imagens do mundo n√£o me dizem respeito, ou me dizem s√≥ longinquamente respeito, ent√£o est√° tudo bem assim, porque a minha imagem tamb√©m s√≥ enevoada me diz respeito.
Eu nem me apercebo do ¬ęlonge¬Ľ, do ¬ęafastamento¬Ľ, da ¬ęaus√™ncia de mim a mim¬Ľ. N√£o h√° paradoxo, porque n√£o h√° consci√™ncia dele. N√£o h√° sobressalto de pensamento. Tudo se mistura, talvez.

Não se Consegue ser Exterior à Nossa Própria Indiferença

A dificuldade da exist√™ncia estava precisamente neste problema concreto: por diversas vezes Walser se vira, ao longe, alegre, e tamb√©m de longe observara a sua pr√≥pria tristeza ou irrita√ß√£o. Nada de mais. Mas o que nunca conseguira era ser exterior √† indiferen√ßa; ser exterior a si nos momentos, in√ļmeros, em que se encontrava neutro face √†s coisas, inerte e em estado de espera perante a possibilidade de um acto ou do seu contr√°rio. Quanto mais intensidade existia no corpo, mais f√°cil era afastar-se, ser testemunha de si pr√≥prio. As dificuldades de observa√ß√£o privilegiada, de uma exist√™ncia que lhe pertencia, surgiam assim, de um modo extremo, quando a intensidade dos sentimentos era quase nula. Se ele j√° l√° n√£o estava ‚Äď na exist√™ncia ‚Äď como se poderia ainda afastar mais?

Mas o que era concretamente este l√°, este outro s√≠tio que por vezes parecia ser o seu centro outras vezes o seu oposto? Sobre a localiza√ß√£o geral desse l√°, Walser n√£o tinha d√ļvidas: era o c√©rebro. Era ali que tudo se passava ou que tudo o que se passava era observado. Ali fazia, e ali via-se a fazer. Como qualquer louco normal, pensou Walser, e sorriu da f√≥rmula.

Gonçalo M.

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A Felicidade Abafa as Contradi√ß√Ķes

Na maior parte dos casos, a condi√ß√£o primordial para a felicidade n√£o consiste em resolver contradi√ß√Ķes, mas em faz√™-las desaparecer, do mesmo modo que numa alameda comprida se fecham as lacunas. E tal como por toda a parte as rela√ß√Ķes vis√≠veis se deslocam diante dos nossos olhos para que surja uma imagem que eles possam abarcar, onde o que √© premente e pr√≥ximo parece grande e ao longe at√© as coisas enormes parecem pequenas, onde as lacunas se fecham e o todo se mostra como algo de acabado e ordenado, assim tamb√©m acontece com as rela√ß√Ķes invis√≠veis, que a raz√£o e o sentimento afastam tanto que da√≠ resulta inconscientemente uma situa√ß√£o em que sentimos que a dominamos completamente.

Felicidade Interiorizada

¬ęPergunta-me onde, neste mundo, se pode encontrar a felicidade?¬Ľ Depois de numerosas experi√™ncias, convenci-me que ela reside apenas na satisfa√ß√£o em rela√ß√£o a n√≥s pr√≥prios. As paix√Ķes n√£o nos conseguem comunicar esse contentamento; desejamos sempre o imposs√≠vel – o que obtemos nunca nos satisfaz. Penso que as pessoas dotadas de uma s√≥lida virtude devem possuir uma grande por√ß√£o dessa satisfa√ß√£o, que me parece imprescind√≠vel para a felicidade; eu, no entanto, como n√£o me sinto suficientemente seguro para me satisfazer comigo pr√≥prio, dessa forma, procuro apoiar-me na verdadeira satisfa√ß√£o que comunica o trabalho.
Este, comunica-nos um bem real e aumenta a nossa indiferen√ßa em rela√ß√£o aos prazeres que s√£o s√≥ de nome e com os quais as pessoas de sociedade se t√™m de contentar. Eis, minha querida amiga, a minha modesta filosofia – a qual, sobretudo quando me encontro bem de sa√ļde, √© de efeito seguro. Isto, contudo, n√£o nos deve afastar das pequenas distrac√ß√Ķes que nos podem ocupar de vez em quando: um pequeno caso sentimental, de circunst√Ęncia, a visita a um belo pa√≠s ou as viagens, de modo geral, podem deixar na nossa mem√≥ria encantadores tra√ßos. Recordamo-nos mais tarde de todas estas emo√ß√Ķes, quando nos encontramos longe ou n√£o conseguimos encontrar outras,

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Parcialidade na Apreciação

Para saberes o que uma pessoa pensa, de facto, da tua pol√≠tica, pede a um homem de confian√ßa que exprima diante dela as tuas pr√≥prias opini√Ķes, fazendo-as passar por suas. Ou ent√£o, l√™ um texto que tu mesmo redigiste, mas dizendo que prov√©m de outra fonte, e observa a sua reac√ß√£o.
Muitas vezes a amizade torna-nos demasiado benevolentes, confundindo a nossa clareza de ideias. N√£o que os nossos amigos n√£o sejam sinceros quando nos elogiam ou nos encorajam nos nossos empreendimentos, mas a sua boa vontade est√° muito longe do verdadeiro ju√≠zo, que consiste em felicitar o interessado depois de nos termos informado a seu respeito e ter estudado em pormenor as suas ac√ß√Ķes e os seus m√©todos.

A Minha Luta

A minha luta √© para encontrar o centro, o n√ļcleo de toda uma infinidade de justifica√ß√Ķes, que superficialmente parecem satisfazer-me e s√£o, afinal, folhas caducas do meu tronco. Determinar, numa palavra, que causa √ļltima me conduz, que for√ßa polariza os meus actos. Mas estou longe dessa descoberta. Eliminei o divino, porque era divino e eu sou humano; superei o pecado, porque viver sem pecado era um absurdo moral; e consegui perceber que a vida n√£o √© tr√°gica por estar balizada pelo nascimento e pela morte, que s√£o condi√ß√Ķes de exist√™ncia e n√£o condena√ß√Ķes dela. Contudo, nada resolvi. Continua a escapar-me das m√£os a sombra de um fantasma paradoxal. Uma sombra que √© uma pura alucina√ß√£o dos sentidos, que sabem que apenas o real lhes merece cr√©dito, e, sobretudo, da raz√£o, que sabe que a √ļnica consci√™ncia do mundo √© ela pr√≥pria, princ√≠pio e fim de si mesma.

A Quimera da Felicidade

(…) do alto de uma montanha, inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, atrav√©s de um nevoeiro, uma cousa √ļnica. Imagina tu, leitor, uma redu√ß√£o dos s√©culos, e um desfilar de todos eles, as ra√ßas todas, todas as paix√Ķes, o tumulto dos imp√©rios, a guerra dos apetites e dos √≥dios, a destrui√ß√£o rec√≠proca dos seres e das cousas. Tal era o espect√°culo, acerbo e curioso espect√°culo. A hist√≥ria do homem e da terra tinha assim uma intensidade que n√£o lhe podiam dar nem a imagina√ß√£o nem a ci√™ncia, porque a ci√™ncia √© mais lenta e a imagina√ß√£o mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensa√ß√£o viva de todos os tempos. Para descrev√™-la seria preciso fixar o rel√Ęmpago. Os s√©culos desfilavam num turbilh√£o, e, n√£o obstante, porque os olhos do del√≠rio s√£o outros, eu via tudo o que passava diante de mim, – flagelos e del√≠cias, – desde essa cousa que se chama gl√≥ria at√© essa outra que se chama mis√©ria, e via o amor multiplicando a mis√©ria, e via a mis√©ria agravando a debilidade. A√≠ vinham a cobi√ßa que devora, a c√≥lera que inflama, a inveja que baba,

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A Minha Família é a Minha Casa

A solid√£o absoluta √© n√£o ter ningu√©m a quem dizer um simples: ‚Äútenho vontade de chorar‚ÄĚ. N√£o precisamos de muito para viver bem ‚Äď para ser feliz basta uma fam√≠lia e pouco mais.

A fam√≠lia √© a casa e a paz. O ref√ļgio onde uma vontade de chorar n√£o √© motivo de julgamento, apenas e s√≥ uma necessidade s√ļbita de… fam√≠lia. De um equil√≠brio para o qual o outro √© essencial… assim tamb√©m se passa com a vontade de sorrir que, em fam√≠lia, se contagia apenas pelo olhar.

Nos dias de hoje vai sendo cada vez mais dif√≠cil encontrar gente capaz de ser fam√≠lia. Os ego√≠smos abundam e cultiva-se, sozinho, o individual. Como se n√£o houvesse espa√ßo para o amor. Dizem que amar √© arriscado, que √© coisa de loucos…
Todos temos sentimentos mais profundos. Cada um de n√≥s √© uma unidade, mas o que somos passa por sermos mais do que um. Parte de unidades maiores. Estamos com quem amamos e quem amamos tamb√©m est√°, de alguma forma, connosco. O amor √© o que existe entre n√≥s e nos enla√ßa os sentimentos mais profundos. Onde uma vontade de chorar √© um sinal de que h√° algo em mim que √© maior do que eu…

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Amo-te com Toda a Loucura dos Meus Primeiros Anos

Meu anjo, minha vida, que sei eu mais? Amo-te com toda a loucura dos meus primeiros anos. Volto a ser para ti o irmão da Amélie; esqueço tudo desde que tu consentiste que eu caísse a teus pés. Sim, espero-te à beira mar, onde tu quiseres, muito longe do Mundo. Enlacei finalmente esse sonho de felicidade que há tanto tempo persigo. Foi a ti que eu adorei tanto tempo antes de te conhecer. Serás a minha vida; verás o que ninguém poderá saber senão após a minha morte; depositá-lo-ei nas mãos daquele que virá depois de nós. Acolhe tudo o que aqui ponho para ti. Amanhã às duas horas serei eu quem irá pedir-to.

A Inutilidade do Viajar

Que utilidade pode ter, para quem quer que seja, o simples facto de viajar? N√£o √© isso que modera os prazeres, que refreia os desejos, que reprime a ira, que quebra os excessos das paix√Ķes er√≥ticas, que, em suma, arranca os males que povoam a alma. N√£o faculta o discernimento nem dissipa o erro, apenas det√©m a aten√ß√£o momentaneamente pelo atractivo da novidade, como a uma crian√ßa que pasma perante algo que nunca viu! Al√©m disso, o cont√≠nuo movimento de um lado para o outro acentua a instabilidade (j√° de si consider√°vel!) do esp√≠rito, tornando-o ainda mais inconstante e incapaz de se fixar. Os viajantes abandonam ainda com mais vontade os lugares que tanto desejavam visitar; atravessam-nos voando como aves, v√£o-se ainda mais depressa do que vieram. Viajar d√°-nos a conhecer novas gentes, mostra-nos forma√ß√Ķes montanhosas desconhecidas, plan√≠cies habitualmente n√£o visitadas, ou vales irrigados por nascentes inesgot√°veis; proporciona-nos a observa√ß√£o de algum rio de caracter√≠sticas invulgares, como o Nilo extravasando com as cheias de Ver√£o, o Tigre, que desaparece √† nossa vista e faz debaixo de terra parte do seu curso, retomando mais longe o seu abundante caudal, ou ainda o Meandro, tema favorito das lucubra√ß√Ķes dos poetas, contorcendo-se em incont√°veis sinuosidades,

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Da Profundidade do Espírito

A profundeza √© o termo da reflex√£o. Quem quer que tenha o esp√≠rito verdadeiramente profundo, deve ter a for√ßa de fixar o pensamento fugidio; de ret√™-lo sob os olhos para considerar-lhe o fundo, e reduzir a um ponto uma longa cadeia de ideias; √© principalmente √†queles a quem esse esp√≠rito foi dado que a clareza e a justeza s√£o necess√°rias. Quando lhes faltam essas vantagens, as suas vistas ficam embara√ßadas com ilus√Ķes e cobertas de obscuridades. No entanto, como tais esp√≠ritos v√™em sempre mais longe do que os outros nas coisas da sua al√ßada, julgam-se tamb√©m mais pr√≥ximos da verdade do que os demais homens; mas estes, n√£o os podendo seguir nas suas sendas tenebrosas, nem remontar das consequ√™ncias at√© a altura dos princ√≠pios, s√£o frios e desdenhosos para com esse tipo de esp√≠rito que n√£o podem mensurar.
E, mesmo entre as pessoas profundas, como algumas o são em relação às coisas do mundo e outras nas ciências ou numa arte particular, preferindo cada qual o objecto cujos usos melhor conhece, isso também é, de todos os lados, matéria de dissensão.
Finalmente, nota-se um ci√ļme ainda mais particular entre os esp√≠ritos vivazes e os esp√≠ritos profundos, que s√≥ possuem um na falta do outro;

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Coração Incoerente

A superior sapi√™ncia das na√ß√Ķes j√° formulou esta lei naquele seu fino ad√°gio: O cora√ß√£o n√£o sente o que os olhos n√£o v√™em. A mais pequenina dor que diante de n√≥s se produz e diante de n√≥s geme, p√Ķe na nossa alma uma comisera√ß√£o e na nossa carne um arrepio, que lhe n√£o dariam as mais pavorosas cat√°strofes passadas longe, noutro tempo ou sob outros c√©us. Um homem ca√≠do a um po√ßo na minha rua mais ansiadamente me sobressalta que cem mineiros sepultados numa mina da Sib√©ria: – e um carro esmagando a pata de um c√£o, em frente √† nossa janela, √© um caso infinitamente mais aflitivo do que a her√≥ica e admir√°vel Joana d’Arc queimada na pra√ßa de Rouen.

Memória vs Recordação РAs Armas da Juventude e da Velhice

Recordar-se n√£o √© o mesmo que lembrar-se; n√£o s√£o de maneira nenhuma id√™nticos. A gente pode muito bem lembrar-se de um evento, rememor√°-lo com todos os pormenores, sem por isso dele ter a recorda√ß√£o. A mem√≥ria n√£o √© mais do que uma condi√ß√£o transit√≥ria da recorda√ß√£o: ela permite ao vivido que se apresente para consagrar a recorda√ß√£o. Esta distin√ß√£o torna-se manifesta ao exame das diversas idades da vida. O velho perde a mem√≥ria, que geralmente √© de todas as faculdades a primeira a desaparecer. No entanto, o velho tem algo de poeta; a imagina√ß√£o popular v√™ no velho um profeta, animado pelo esp√≠rito divino. Mas a recorda√ß√£o √© a sua melhor for√ßa, a consola√ß√£o que os sustenta, porque lhe d√° a vis√£o distante, a vis√£o de poeta. Ao inv√©s, o mo√ßo possui a mem√≥ria em alto grau, usa dela com facilidade, mas falta-lhe o m√≠nimo dom de se recordar. Em vez de dizer: ¬ęaprendido na mocidade, conservado na velhice¬Ľ, poder√≠amos propor: ¬ęmem√≥ria na mocidade, recorda√ß√£o na velhice¬Ľ. Os √≥culos dos velhos s√£o graduados para ver ao perto; mas o mo√ßo que tem de usar √≥culos, usa-os para ver ao longe; porque lhe falta o poder da recorda√ß√£o, que tem por efeito afastar,

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A Mulher de Negro

Os sons da floresta, as √°rvores, a bicicleta e, ao longe, o sil√™ncio im√≥vel de um vulto negro. Aproximei-me e era uma mulher vestida de negro. Um xaile negro sobre os ombros. Um len√ßo negro sobre a cabe√ßa. O som dos pneus da bicicleta a pararem, o som de amassarem folhas h√ļmidas e de fazerem estalar ramos. Os meus p√©s a pousarem no ch√£o. Os olhos da mulher entre o negro. Os olhos pequenos da mulher. O seu rosto branco. Vimo-nos como se nos encontr√°ssemos, como se nos tiv√©ssemos perdido havia muito tempo e nos encontr√°ssemos. O tempo deixou de existir. O sil√™ncio deixou de existir. Pousei a bicicleta no ch√£o para caminhar na direc√ß√£o da mulher. Era atra√≠do por segredos. Durante os meus passos, a mulher estendeu-me a m√£o. A sua m√£o era muito velha. A palma da sua m√£o tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, com todas as suas tentativas. Os seus olhos de pedra. Senti os ossos da sua m√£o a envolverem os meus dedos. N√£o me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu. Senti a sua respira√ß√£o no meu pesco√ßo.

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As L√°grimas e o Amor

As l√°grimas das raparigas refrescam-me. Levantam-me o moral. √Äs vezes lambo-as dos cantos dos olhos. S√£o mini-margaridas, sem √°lcool, inteiramente naturais. Dizer ¬ęN√£o chores¬Ľ funciona sempre, porque s√≥ mencionar o verbo ¬ęchorar¬Ľ emociona-as e liberta-as, dando-lhe a carta branca para chorar ainda mais. S√≥ intervenho com piadas e palavras de esperan√ßa e de amor quando elas v√£o longe demais e come√ßam, por exemplo, a pingar do nariz.

As raparigas, depois de chorar, ficam com vontade de fazer amor. √Č como se tivessem apanhado uma carga de chuva. Ficam todas molhadas. N√≥s somos a toalha que est√° mais √† m√£o. O turco maluco com que se embrulham e enxutam. √Č horr√≠vel, n√£o √©? Mas s√≥ um santo n√£o se aproveitaria.

E as raparigas que choram depois de se virem? Estarão assim tão arrependidas? Comovidas? Simplesmente agradecidas? Gostaria de pensar que sim. As três coisas, pelo menos. Elas próprias não sabem. Riem-se logo de seguida. As piores são as que se riem logo ao princípio. Mas as piores também são muito queridas.

O Problema em Amar

O problema em amar quem te ama √© o de quem te ama te amar como tu amas quem te ama. E depois o encadeamento √© simples: quem te ama quer-te presente por dentro dele a toda a hora, por todo o lado do teu lado; e tu queres quem te ama presente em ti a toda a hora, por todo o lado do teu lado. Mas os corpos ‚Äď por mais que a alma n√£o seja palp√°vel tamb√©m ela tem um corpo ‚Äď t√™m um limite de dilata√ß√£o. A partir de uma certa altura: p√°ra. E j√° n√£o alarga mais. E tu queres enfiar o espa√ßo que quem ama ocupa em ti mesmo ao lado do espa√ßo do que te amas. E n√£o d√°. N√£o d√° para te amares como amas quem amas. E depois quem te ama como tu amas quem te ama vai querer fazer o mesmo contigo. E n√£o d√°. Os corpos ‚Äď repito ‚Äď t√™m um limite de dilata√ß√£o. E chega uma altura em que uma parte de ti n√£o cabe na parte toda de quem amas; e chega uma altura em que uma parte de quem amas n√£o cabe na parte toda de ti.

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Lembrar ou Recordar

A recorda√ß√£o n√£o tem apenas que ser exacta; tem que ser tamb√©m feliz; √© preciso que o aroma do vivido esteja preservado, antes de selar-se a garrafa da recorda√ß√£o. Tal como a uva n√£o deve ser pisada em qualquer altura, tal como o tempo que faz no momento de esmag√°-la tem grande influ√™ncia no vinho, tamb√©m o que foi vivido n√£o est√° em qualquer momento ou em qualquer circunst√Ęncia pronto para ser recordado ou pronto para dar entrada na interioridade da recorda√ß√£o.
Recordar não é de modo algum o mesmo que lembrar. Por exemplo, alguém pode lembrar-se muito bem de um acontecimento, até ao mais ínfimo pormenor, sem contudo dele ter propriamente recordação. A memória é apenas uma condição transitória. Por intermédio da memória o vivido apresenta-se à consagração da recordação.
A diferença é reconhecível logo nas diferentes idades da vida. O ancião perde a memória, que aliás é a primeira capacidade a perder-se. Contudo, o ancião tem em si algo de poético; de acordo com a representação popular ele é profeta, é divinamente inspirado. A recordação é afinal também a sua melhor força, a sua consolação: consola-o com esse alcance da visão poética.
A inf√Ęncia, pelo contr√°rio,

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