Passagens de Simone Weil

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Todas as trag√©dias que se podem imaginar reduzem-se a uma mesma e √ļnica trag√©dia: o transcorrer do tempo.

Apto e Inapto, Verdade e Mentira

A dura√ß√£o, seja os s√©culos para as civiliza√ß√Ķes, seja os anos e as dezenas de anos para o indiv√≠duo, tem uma fun√ß√£o darwiniana de elimina√ß√£o do inapto. O que est√° apto para tudo √© eterno. √Č apenas nisto que reside o valor daquilo a que chamamos a experi√™ncia. Mas a mentira √© uma armadura com a qual o homem, muitas vezes, permite ao inapto que existe em si sobreviver aos acontecimentos que, sem essa armadura, o aniquilariam (bem como ao orgulho para sobreviver √†s humilha√ß√Ķes), e esta armadura √© como que segregada pelo inapto para prevenir uma situa√ß√£o de perigo (o orgulho, perante a humilha√ß√£o, adensa a ilus√£o interior). Subsiste na alma uma esp√©cie de fagocitose; tudo o que √© amea√ßado pelo tempo, para n√£o morrer, segrega a mentira e, proporcionalmente, o perigo de morte. √Č por isso que n√£o existe amor pela verdade sem uma admiss√£o ilimitada da morte. A cruz de Cristo √© a √ļnica porta do conhecimento.

O Passado como Base para o Presente

O tempo, na sua marcha, utiliza e destrói o que é temporal. Também nele existe mais eternidade no passado que no presente. Valor da história efectivamente cumprida, semelhante à da recordação em Proust. Deste modo, o passado apresenta-nos qualquer coisa que é, simultaneamente, real e melhor que nós, e que pode empurrar-nos para cima, coisa que o futuro nunca faz.

Querer a amizade é um grande erro. A amizade é uma joia gratuita, tal como as joias oferecidas pela arte ou pela vida.

Uma doutrina não tem nenhum propósito intrínseco, mas é indispensável que tenha um, nem que seja para evitar ser lograda por falsas doutrinas.

A Amizade Exercita-se

√Č um erro desejar ser compreendido antes de se ser elucidado por si mesmo a seus pr√≥prios olhos. √Č procurar prazeres na amizade, e n√£o m√©ritos. √Č qualquer coisa de mais corruptor ainda do que o amor. Venderias a tua alma por amor.
Aprende a repelir a amizade, ou melhor, o sonho da amizade. Desejar a amizade √© um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que a arte ou a vida oferecem. √Č preciso recus√°-la para se ser digno de a receber: ela √© da categoria da gra√ßa (¬ęMeu Deus, afastai-vos de mim…¬Ľ). √Č dessas coisas que s√£o dadas por acr√©scimo. Toda a ilus√£o de amizade merece ser destru√≠da. N√£o √© por acaso que nunca foste amado… Desejar escapar √† solid√£o √© uma cobardia. A amizade n√£o se procura, n√£o se imagina, n√£o se deseja; exercita-se (√© uma virtude). Abolir toda esta margem de sentimento, impura e enevoada. Schluss!
Ou melhor (pois n√£o √© necess√°rio desbastar-se a si mesmo rigorosamente), tudo o que, na amizade, n√£o passe por altera√ß√Ķes efectivas deve passar por pensamentos ponderados. √Č absolutamente in√ļtil privar-se da virtude inspiradora da amizade. O que deve ser severamente proibido, √© sonhar com os prazeres do sentimento.

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√Č preciso que a vida social esteja corrompida at√© ao seu cerne se os oper√°rios se sentem em casa quando est√£o a fazer greve na f√°brica, e estrangeiros quando trabalham. O contr√°rio √© que devia ser verdadeiro.

O inferno é darmo-nos conta de que não existimos e não nos conformamos com isso.

A Monotonia

A monotonia é o que há de mais belo ou de mais terrível. De mais belo, se for um reflexo da eternidade. De mais terrível, se for indício de uma perenidade imutável. Tempo ultrapassado ou tempo esterilizado. O círculo é o símbolo da bela monotonia, a oscilação pendular da monotonia atroz.

O Tempo Torna Tudo Irreal

O tempo, propriamente dito, n√£o existe (excepto o presente como limite), e, no entanto, estamos submetidos a ele. √Č esta a nossa condi√ß√£o. Estamos submetidos ao que n√£o existe. Quer se trate da dura√ß√£o passivamente sofrida – dor f√≠sica, esperan√ßa, desgosto, remorso, medo -, quer do tempo organizado – ordem, m√©todo, necessidade -, nos dois casos, aquilo a que estamos submetidos, n√£o existe. Estamos, realmente, presos por correntes irreais. O tempo, irreal, cobre todas as coisas e at√© n√≥s mesmos, de irrealidade.

Querer amizade é um grande erro. Amizade é uma jóia gratuita, como as jóias oferecidas pela arte ou pela vida.

O Isolamento do Momento é Indiferença

Se nos examinarmos num determinado momento Рno instante presente, separado do passado e do futuro Рdescobrimo-nos inocentes. Não podemos ser nesse instante mais do que aquilo que somos: todo o desenvolvimento implica uma duração. Está na essência do mundo, nesse instante, que sejamos assim.
Isolar assim um instante implica o perdão. Mas este isolamento é indiferença.

N√£o basta ser santo: √© necess√°ria a santidade que o momento presente exige, uma santidade nova, tamb√©m ela sem precedentes… O mundo precisa de Santos que tenham genialidade, como uma cidade onde grassa a peste tem necessidade de m√©dicos.

O gênio não é mais do que a virtude sobrenatural da humildade no domínio do pensamento.

Nada pode ter como seu destino outra coisa que não sua origem. A idéia oposta, a idéia de progresso, é veneno.