Passagens de Simone Weil

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Um ateu pode ser simplesmente alguém cuja fé e amor estão concentrados nos aspectos impessoais de Deus.

O Homem não é um Ser Egoísta

Todos os homens est√£o prontos a morrer pelo que amam. N√£o diferem a n√£o ser pelo grau da coisa amada e da concentra√ß√£o ou dispers√£o do amor. Ningu√©m se desama a si mesmo. O homem deseja ser ego√≠sta e n√£o consegue. √Č a caracter√≠stica mais tocante da sua desgra√ßa e a fonte da sua grandeza.
O homem dedica-se sempre a uma ordem. No entanto, salvo ilumina√ß√£o sobrenatural, esta ordem tem como n√ļcleo o pr√≥prio ou um ser particular (que pode ser uma abstrac√ß√£o) para o qual se transferiu (Napole√£o para os soldados, a Ci√™ncia, o Partido, etc.). Ordem perspectiva.

O Inventário da Nossa Civilização

Fazer o invent√°rio ou uma an√°lise da nossa civiliza√ß√£o, quer dizer o qu√™? Procurar esclarecer, de uma maneira rigorosa, a armadilha que fez do homem escravo das suas pr√≥prias cria√ß√Ķes. Por onde se infiltrou a inconsci√™ncia entre a ac√ß√£o e o pensamento met√≥dicos? Na vida selvagem, a evas√£o constitui uma solu√ß√£o pregui√ßosa. √Č preciso reencontrar, na pr√≥pria civiliza√ß√£o em que vivemos, o pacto original entre o esp√≠rito e o mundo. De resto, trata-se de uma tarefa imposs√≠vel de concretizar, por causa da brevidade da vida e da impossibilidade da colabora√ß√£o e da sucess√£o. O que n√£o √© raz√£o para n√£o a empreender. Estamos todos em situa√ß√£o an√°loga √† de S√≥crates, o qual, enquanto esperava a morte na pris√£o, aprendeu a tocar lira… pelo menos, teremos vivido…

Criar ra√≠zes qui√ß√° seja a necessidade mais importante da alma humana. √Č uma das mais dif√≠ceis de se definir (…)

Igualdade √© o reconhecimento p√ļblico, efetivamente expresso em institui√ß√Ķes e modos, do princ√≠pio de que um grau igual de aten√ß√£o √© devido √†s necessidades de todos os seres humanos.

Nós não possuímos nada no mundo Рpois o acaso pode tirar-nos tudo Рsalvo a capacidade de dizer eu. Eis o que é preciso dar a Deus, quer dizer, destruir.

A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja; ela exerce-se (é uma virtude).

Dentre os seres humanos, apenas conhecemos completamente a existência daqueles a quem amamos.

Vítimas e Vencidos

A ilusão constante da Revolução está em acreditar que as vítimas da força, estando inocentes das violências que se exercem, se lhes colocássemos na mão a força, a manuseariam com justiça. Mas à excepção das almas que estão bastante próximas da santidade, as vítimas são maculadas pela força como os carrascos. O mal que se encontra no punho da espada é transmitido para a ponta. E as vítimas, chegadas assim a este ponto e inebriadas pela mudança, fazem tanto mal ou mais ainda, e de imediato reincidem.
(…) O socialismo consiste em atribuir o bem aos vencidos, e o racismo aos vencedores. Mas a asa revolucion√°ria do socialismo serve-se daqueles que, ainda nascidos em baixo, s√£o por natureza e por voca√ß√£o vencedores, e assim conduz √† mesma √©tica.

De entre os seres humanos, apenas conhecemos completamente a existência daqueles a quem amamos.

As necessidades de um ser humano s√£o sagradas. Sua satisfa√ß√£o n√£o pode estar subordinada a raz√Ķes de estado, ou por qualquer considera√ß√£o de dinheiro, nacionalidade, ra√ßa ou cor, ou quanto a moral ou qualquer outro valor atribu√≠do ao ser humano em quest√£o, ou a qualquer outro tipo de considera√ß√£o.

Eu vou sugerir que o barbarismo seja considerado como uma caracter√≠stica humana permanente e universal, a qual se torna mais ou menos pronunciada de acordo com o jogo das circunst√Ęncias.

A palavra ”Revolu√ß√£o” √© uma palavra pela qual se mata, pela qual se morre, pela qual se mandam massas populares para a morte. Mas que n√£o tem nenhum conte√ļdo.

Todas as trag√©dias que se podem imaginar reduzem-se a uma mesma e √ļnica trag√©dia: o transcorrer do tempo.

Apto e Inapto, Verdade e Mentira

A dura√ß√£o, seja os s√©culos para as civiliza√ß√Ķes, seja os anos e as dezenas de anos para o indiv√≠duo, tem uma fun√ß√£o darwiniana de elimina√ß√£o do inapto. O que est√° apto para tudo √© eterno. √Č apenas nisto que reside o valor daquilo a que chamamos a experi√™ncia. Mas a mentira √© uma armadura com a qual o homem, muitas vezes, permite ao inapto que existe em si sobreviver aos acontecimentos que, sem essa armadura, o aniquilariam (bem como ao orgulho para sobreviver √†s humilha√ß√Ķes), e esta armadura √© como que segregada pelo inapto para prevenir uma situa√ß√£o de perigo (o orgulho, perante a humilha√ß√£o, adensa a ilus√£o interior). Subsiste na alma uma esp√©cie de fagocitose; tudo o que √© amea√ßado pelo tempo, para n√£o morrer, segrega a mentira e, proporcionalmente, o perigo de morte. √Č por isso que n√£o existe amor pela verdade sem uma admiss√£o ilimitada da morte. A cruz de Cristo √© a √ļnica porta do conhecimento.

O Passado como Base para o Presente

O tempo, na sua marcha, utiliza e destrói o que é temporal. Também nele existe mais eternidade no passado que no presente. Valor da história efectivamente cumprida, semelhante à da recordação em Proust. Deste modo, o passado apresenta-nos qualquer coisa que é, simultaneamente, real e melhor que nós, e que pode empurrar-nos para cima, coisa que o futuro nunca faz.

Querer a amizade é um grande erro. A amizade é uma joia gratuita, tal como as joias oferecidas pela arte ou pela vida.

Uma doutrina não tem nenhum propósito intrínseco, mas é indispensável que tenha um, nem que seja para evitar ser lograda por falsas doutrinas.