Passagens de Simone Weil

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Dentre os seres humanos, apenas conhecemos completamente a existência daqueles a quem amamos.

Vítimas e Vencidos

A ilusão constante da Revolução está em acreditar que as vítimas da força, estando inocentes das violências que se exercem, se lhes colocássemos na mão a força, a manuseariam com justiça. Mas à excepção das almas que estão bastante próximas da santidade, as vítimas são maculadas pela força como os carrascos. O mal que se encontra no punho da espada é transmitido para a ponta. E as vítimas, chegadas assim a este ponto e inebriadas pela mudança, fazem tanto mal ou mais ainda, e de imediato reincidem.
(…) O socialismo consiste em atribuir o bem aos vencidos, e o racismo aos vencedores. Mas a asa revolucion√°ria do socialismo serve-se daqueles que, ainda nascidos em baixo, s√£o por natureza e por voca√ß√£o vencedores, e assim conduz √† mesma √©tica.

De entre os seres humanos, apenas conhecemos completamente a existência daqueles a quem amamos.

As necessidades de um ser humano s√£o sagradas. Sua satisfa√ß√£o n√£o pode estar subordinada a raz√Ķes de estado, ou por qualquer considera√ß√£o de dinheiro, nacionalidade, ra√ßa ou cor, ou quanto a moral ou qualquer outro valor atribu√≠do ao ser humano em quest√£o, ou a qualquer outro tipo de considera√ß√£o.

Eu vou sugerir que o barbarismo seja considerado como uma caracter√≠stica humana permanente e universal, a qual se torna mais ou menos pronunciada de acordo com o jogo das circunst√Ęncias.

A palavra ”Revolu√ß√£o” √© uma palavra pela qual se mata, pela qual se morre, pela qual se mandam massas populares para a morte. Mas que n√£o tem nenhum conte√ļdo.

Todas as trag√©dias que se podem imaginar reduzem-se a uma mesma e √ļnica trag√©dia: o transcorrer do tempo.

Apto e Inapto, Verdade e Mentira

A dura√ß√£o, seja os s√©culos para as civiliza√ß√Ķes, seja os anos e as dezenas de anos para o indiv√≠duo, tem uma fun√ß√£o darwiniana de elimina√ß√£o do inapto. O que est√° apto para tudo √© eterno. √Č apenas nisto que reside o valor daquilo a que chamamos a experi√™ncia. Mas a mentira √© uma armadura com a qual o homem, muitas vezes, permite ao inapto que existe em si sobreviver aos acontecimentos que, sem essa armadura, o aniquilariam (bem como ao orgulho para sobreviver √†s humilha√ß√Ķes), e esta armadura √© como que segregada pelo inapto para prevenir uma situa√ß√£o de perigo (o orgulho, perante a humilha√ß√£o, adensa a ilus√£o interior). Subsiste na alma uma esp√©cie de fagocitose; tudo o que √© amea√ßado pelo tempo, para n√£o morrer, segrega a mentira e, proporcionalmente, o perigo de morte. √Č por isso que n√£o existe amor pela verdade sem uma admiss√£o ilimitada da morte. A cruz de Cristo √© a √ļnica porta do conhecimento.

O Passado como Base para o Presente

O tempo, na sua marcha, utiliza e destrói o que é temporal. Também nele existe mais eternidade no passado que no presente. Valor da história efectivamente cumprida, semelhante à da recordação em Proust. Deste modo, o passado apresenta-nos qualquer coisa que é, simultaneamente, real e melhor que nós, e que pode empurrar-nos para cima, coisa que o futuro nunca faz.

Querer a amizade é um grande erro. A amizade é uma joia gratuita, tal como as joias oferecidas pela arte ou pela vida.

Uma doutrina não tem nenhum propósito intrínseco, mas é indispensável que tenha um, nem que seja para evitar ser lograda por falsas doutrinas.

A Amizade Exercita-se

√Č um erro desejar ser compreendido antes de se ser elucidado por si mesmo a seus pr√≥prios olhos. √Č procurar prazeres na amizade, e n√£o m√©ritos. √Č qualquer coisa de mais corruptor ainda do que o amor. Venderias a tua alma por amor.
Aprende a repelir a amizade, ou melhor, o sonho da amizade. Desejar a amizade √© um grande erro. A amizade deve ser uma alegria gratuita como as que a arte ou a vida oferecem. √Č preciso recus√°-la para se ser digno de a receber: ela √© da categoria da gra√ßa (¬ęMeu Deus, afastai-vos de mim…¬Ľ). √Č dessas coisas que s√£o dadas por acr√©scimo. Toda a ilus√£o de amizade merece ser destru√≠da. N√£o √© por acaso que nunca foste amado… Desejar escapar √† solid√£o √© uma cobardia. A amizade n√£o se procura, n√£o se imagina, n√£o se deseja; exercita-se (√© uma virtude). Abolir toda esta margem de sentimento, impura e enevoada. Schluss!
Ou melhor (pois n√£o √© necess√°rio desbastar-se a si mesmo rigorosamente), tudo o que, na amizade, n√£o passe por altera√ß√Ķes efectivas deve passar por pensamentos ponderados. √Č absolutamente in√ļtil privar-se da virtude inspiradora da amizade. O que deve ser severamente proibido, √© sonhar com os prazeres do sentimento.

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√Č preciso que a vida social esteja corrompida at√© ao seu cerne se os oper√°rios se sentem em casa quando est√£o a fazer greve na f√°brica, e estrangeiros quando trabalham. O contr√°rio √© que devia ser verdadeiro.

O inferno é darmo-nos conta de que não existimos e não nos conformamos com isso.

A Monotonia

A monotonia é o que há de mais belo ou de mais terrível. De mais belo, se for um reflexo da eternidade. De mais terrível, se for indício de uma perenidade imutável. Tempo ultrapassado ou tempo esterilizado. O círculo é o símbolo da bela monotonia, a oscilação pendular da monotonia atroz.

O Tempo Torna Tudo Irreal

O tempo, propriamente dito, n√£o existe (excepto o presente como limite), e, no entanto, estamos submetidos a ele. √Č esta a nossa condi√ß√£o. Estamos submetidos ao que n√£o existe. Quer se trate da dura√ß√£o passivamente sofrida – dor f√≠sica, esperan√ßa, desgosto, remorso, medo -, quer do tempo organizado – ordem, m√©todo, necessidade -, nos dois casos, aquilo a que estamos submetidos, n√£o existe. Estamos, realmente, presos por correntes irreais. O tempo, irreal, cobre todas as coisas e at√© n√≥s mesmos, de irrealidade.

Querer amizade é um grande erro. Amizade é uma jóia gratuita, como as jóias oferecidas pela arte ou pela vida.