Passagens sobre Ação

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Frases sobre a√ß√£o, poemas sobre a√ß√£o e outras passagens sobre a√ß√£o para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Os √önicos Casamentos Felizes

√Č evidente que os √ļnicos casamentos felizes s√£o os de conveni√™ncia, funcionam √†s mil maravilhas, sem conflitos, porque cada um sabe que a realiza√ß√£o das suas ambi√ß√Ķes depende da alian√ßa com o outro. D√° gosto ver como trabalham em equipa os casais que entenderam essa ideia (casamento = sociedade limitada). Desenvolvem-se como uma empresa, apoiando-se um ao outro sem hesitar, cada um deles especializado numa determinada atividade para obterem o m√°ximo rendimento do seu investimento, pois sabem que os ganhos de um beneficiar√£o os dois. As discuss√Ķes em p√ļblico, as desaven√ßas, os an√ļncios de separa√ß√£o fazem cair as a√ß√Ķes da bolsa social e prejudicam a economia dom√©stica, h√° que evitar toda essa merda que os jovens e alguns imbecis publicitam aos quatro ventos, sem se darem conta de que est√£o a desvalorizar-se. Acreditam no amor e no desamor, na trai√ß√£o e no ci√ļme, sem entenderem que, quando se mete de permeio isso a que os romances e as revistas cor-de-rosa chamam amor, est√° tudo fodido. √Č o fim da paz. Quando algu√©m te diz que te amar√° para sempre, a hist√≥ria j√° come√ßou a meter √°gua. O montanhista n√£o pode ficar eternamente parado no cume que conquistou. J√° alcan√ßou o topo.

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Eu gosto de delicadeza. Seja nos gestos, nas palavras, nas a√ß√Ķes, no jeito de olhar, no dia-a-dia e at√© no que n√£o √© dito com palavras, mas fica no ar…

Um acesso de ci√ļme pode levar um homem a cometer a√ß√Ķes t√£o indignas, que, uma vez passada a vertigem da suspeita, ele se encontre grandemente envergonhado.

Todos Nós Hoje Nos Desabituamos do Trabalho de Verificar

Todos n√≥s hoje nos desabituamos, ou antes nos desembara√ßamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. √Č com impress√Ķes flu√≠das que formamos as nossas maci√ßas conclus√Ķes. Para julgar em Pol√≠tica o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manh√£ de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou‚ÄĒapenas nos basta folhear aqui e al√©m uma p√°gina, atrav√©s do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza √© fulminante. Com que soberana facilidade declaramos‚ÄĒ¬ęEste √© uma besta! Aquele √© um maroto!¬Ľ Para proclamar‚ÄĒ¬ę√Č um g√©nio!¬Ľ ou ¬ę√Č um santo!¬Ľ of erecemos uma resist√™ncia mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digest√£o ou a macia luz dum c√©u de Maio nos inclinam √† benevol√™ncia, tamb√©m concedemos bizarramente, e s√≥ com lan√ßar um olhar distra√≠do sobre o eleito, a coroa ou a aur√©ola, e a√≠ empurramos para a popularidade um magan√£o enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar r√≥tulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. N√£o h√° ac√ß√£o individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que n√£o estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opini√£o bojuda E a opini√£o tem sempre,

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A f√© come√ßa onde o orgulho acaba. Tirai a f√©, e tudo perecer√°: ela √© a alma da sociedade e a pr√≥pria subst√Ęncia da vida humana. A f√© dirige e precede necessariamente todas as nossas ac√ß√Ķes; est√° na natureza humana e √© a primeira condi√ß√£o da sua exist√™ncia.

Ambiguidade e Acção

A Mentira é a recriação de uma Verdade. O mentidor cria ou recria. Ou recreia. A fronteira entre estas duas palavras é ténue e delicada. Mas as fronteiras entre as palavras são todas ténues e delicadas.
Entre a recriação e o recreio assenta todo o jogo. O que não quer dizer que o jogo resulta sempre. Resulte seja o que for ou do que for.
A Ambiguidade é a Arte do Suspenso. Tudo o que está suspenso suspende ou equilibra. Ou instabiliza. Mas tudo é instável ou está suspenso.
Pelo menos ainda.
Ainda é uma questão de tempo. Tudo depende da noção de tempo ou duração ou extensão. A aceleração do tempo pode traduzir-se pela imobilidade pois que a imobilidade pode traduzir-se por um máximo de aceleração ou um mínimo de extensão: aceleração tão grande que já não se veja o movimento ou o espaço ou a duração.
Tudo está sempre a destruir tudo. Ou qualquer coisa. Ou alguém. Mas estamos sempre a destruir tudo ou qualquer coisa. Ou alguém.
Os construtores demolem. No lugar onde estava o sopro, pormos pedras ou palavras: sinónimo de construção. Ou destruição. Ou acção.

O Grau da Nossa Emancipação

A esfera da consciência reduz-se na acção; por isso ninguém que aja pode aspirar ao universal, porque agir é agarrar-se às propriedades do ser em detrimento do ser, a uma forma de realidade em prejuízo da realidade. O grau da nossa emancipação mede-se pela quantidade das iniciativas de que nos libertámos, bem como pela nossa capacidade de converter em não-objecto todo o objecto. Mas nada significa falar de emancipação a propósito de uma humanidade apressada que se esqueceu de que não é possível reconquistar a vida nem gozá-la sem primeiro a ter abolido.
Respiramos demasiado depressa para sermos capazes de captar as coisas em si pr√≥prias ou de denunciar a sua fragilidade. O nosso ofegar postula-as e deforma-as, cria-as e desfigura-as, e amarra-nos a elas. Agito-me e portanto emito um mundo t√£o suspeito como a minha especula√ß√£o, que o justifica, adopto o movimento que me transforma em gerador de ser, em artes√£o de fic√ß√Ķes, ao mesmo tempo que a minha veia cosmog√≥nica me faz esquecer que, arrastado pelo turbilh√£o dos actos, n√£o passo de um ac√≥lito do tempo, de um agente de universos caducos.
Empanturrados de sensa√ß√Ķes e do seu corol√°rio, o devir, somos seres n√£o libertos, por inclina√ß√£o e por princ√≠pio,

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O Bem e o Mal

Quando os acontecimentos nos colocam em oposi√ß√£o ao meio envolvente, todos desenvolvemos as for√ßas de que dispomos, ao passo que nas situa√ß√Ķes em que apenas fazemos o nosso dever nos comportamos, compreensivelmente, como quem paga os seus impostos. Daqui se conclui que tudo o que √© mau se pratica com mais ou menos imagina√ß√£o e paix√£o, enquanto o bem se caracteriza por uma inconfund√≠vel pobreza de afecto e mesquinhez.
(…) Se abstrairmos daquela grande fatia central do mundo e da vida ocupada por pessoas em cujo pensamento as palavras bem e mal deixaram de ter lugar desde que largaram as saias da m√£e, ent√£o as margens, onde ainda h√° prop√≥sitos morais deliberados, ficam hoje reservadas √†quelas pessoas boas-m√°s ou m√°s-boas, das quais algumas nunca viram o bem voar nem o ouviram cantar e por isso exigem de todas as outras que se extasiem com elas diante de uma natureza da moral com p√°ssaros empalhados pousados em √°rvores mortas; o segundo grupo, por seu lado, os mortais maus-bons, espica√ßados pelos seus rivais, manifestam, pelo menos em pensamento, uma tend√™ncia para o mal, como se estivessem convencidos de que √© apenas nas m√°s ac√ß√Ķes, menos desgastadas do que as boas, que ainda pulsa alguma vida moral.

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O Que Nos Impede de Agir

Muitas vezes j√° sabemos o que queremos, quais s√£o os pr√≥ximos passos a dar rumo √† concretiza√ß√£o do nosso desejo e, ainda assim, n√£o passamos √† a√ß√£o. Onde √© que estamos ancorados, afinal? O que √© que nos prende? O maior inimigo da a√ß√£o √© o medo e √© precisamente ele que nos impede de agir e, por consequ√™ncia, de atingir os nossos objetivos. O medo amarra-nos a mente e ainda que o corpo esteja solto que nem uma mola e fresco como uma alface, nada conseguir√° fazer. A √ļnica arma capaz de deter este monstro √© a coragem, pois s√≥ munidos dela o conseguiremos encarar de frente e acredita, uma vez olhos nos olhos, o medo desiste sempre primeiro. E desiste porqu√™? Porque o medo √© uma cria√ß√£o da nossa cabe√ßa. N√≥s invent√°mo-lo dando raz√£o aos nossos educadores, acreditando que os medos deles eram tamb√©m os nossos, ou aquando de uma experi√™ncia pessoal menos feliz que tivemos com algo ou algu√©m, ficando com medo de sofrer de novo, de ser novamente enganado ou incapaz outra vez. Independentemente do que sintas e qual a raz√£o para o sentires, uma verdade √© absoluta, apenas tu o conseguir√°s derrotar, mas para isso precisas da composi√ß√£o emocional da coragem,

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A Revolução da Bondade

Acho que a grande revolu√ß√£o, e o livro ¬ęEnsaio sobre a Cegueira¬Ľ fala disso, seria a revolu√ß√£o da bondade. Se n√≥s, de um dia para o outro, nos descobr√≠ssemos bons, os problemas do mundo estariam resolvidos. Claro que isso nem √© uma utopia, √© um disparate. Mas a consci√™ncia de que isso n√£o acontecer√°, n√£o nos deve impedir, cada um consigo mesmo, de fazer tudo o que pode para reger-se por princ√≠pios √©ticos. Pelo menos a sua passagem pelo este mundo n√£o ter√° sido in√ļtil e, mesmo que n√£o seja extremamente √ļtil, n√£o ter√° sido perniciosa. Quando n√≥s olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que h√° milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistem√°tica ac√ß√£o perniciosa contra o resto da humanidade. Nem √© preciso dar-lhes nomes.

. Paulo, Outubro 1995″

O Macho

O macho não é menos a alma,
nem é mais:
ele também está no seu lugar,
ele também é todo qualidades,
é acção e força,
nele se encontra
o fluxo do universo conhecido,
fica-lhe bem o desdém,
ficam-lhe bem os apetites e a ousadia,
o maior entusiasmo e as mais profundas paix√Ķes
ficam-lhe bem: o orgulho cabe a ele,
orgulho de homem à potência máxima
é calmante e excelente para a alma,
fica-lhe bem o saber e ele o aprecia sempre,
tudo ele chama à experiência própria,
qualquer que seja o terreno,
quaisquer que sejam o mar e o vento,
no fim é aqui que ele faz a sondagem.
(Onde mais lançaria ele a sonda,
sen√£o aqui?)

Sagrado é o corpo do homem
como sagrado é o corpo da mulher,
sagrado ‚ÄĒ n√£o importa de quem seja.
√Č o mais humilde numa turma de oper√°rios?
√Č um dos imigrantes de face turva
apenas desembarcados no cais?
S√£o todos daqui ou de qualquer parte,
da mesma forma que os bem situados,
da mesma forma que qualquer um de vocês:
cada qual h√°-de ter na prociss√£o
o lugar dele ou dela.

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O Prazer e a Dor

O prazer e a dor n√£o conhecem a dura√ß√£o. A sua natureza √© dissiparem-se rapidamente e, por conseguinte, s√≥ existirem sob a condi√ß√£o de ser intermitente. Um prazer prolongado cessa logo de ser um prazer e uma dor continua logo se atenua. A sua diminui√ß√£o pode mesmo, por confronto, tornar-se um prazer. O prazer s√≥ √©, pois, um prazer sob a condi√ß√£o de ser descont√≠nuo. O √ļnico prazer um pouco dur√°vel √© o prazer n√£o realizado, ou desejo.
O prazer somente √© avali√°vel pela sua compara√ß√£o com a dor. Falar de prazer eterno √© um contra-senso, como justamente observou Plat√£o. Ignorando a dor, os deuses n√£o podem, segundo Plat√£o, ter prazer. A descontinuidade do prazer e da dor representa a conseq√ľ√™ncia dessa lei fisiol√≥gica: ‚ÄúA mudan√ßa √© a condi√ß√£o da sensa√ß√£o‚ÄĚ. N√£o percebemos os estados cont√≠nuos, por√©m as diferen√ßas entre estados simult√Ęneos ou sucessivos. O tique-taque do rel√≥gio mais ruidoso acaba, no fim de algum tempo, por n√£o ser mais ouvido, e o moleiro n√£o ser√° despertado pelo ru√≠do das rodas do seu moinho, mas pelo seu parar.

√Č em virtude dessa descontinuidade necess√°ria que o prazer prolongado cessa logo de ser um prazer, por√©m uma coisa neutra,

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Historiador Objectivo

A resolu√ß√£o de ignorar o sentido que os pr√≥prios homens forneceram √† sua ac√ß√£o e de reservar ao encadeamento dos factos toda a efic√°cia hist√≥rica – em suma, a idolatria da objectividade – encerra, segundo uma observa√ß√£o profunda de Trotsky, o ju√≠zo mais audacioso quando se trata de uma revolu√ß√£o, j√° que ela imp√Ķe √† priori ao homem de ac√ß√£o, que acredita numa l√≥gica da hist√≥ria e numa verdade do que faz, as categorias de historiador ¬ęobjecitvo¬Ľ, que nisso n√£o acredita.