Textos sobre Ninguém

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Textos de ninguém escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Maior Necessidade do Homem

A maior necessidade do homem √© sentir que √© necess√°rio. Se no mundo n√£o existir ningu√©m que precise de n√≥s, cometeremos suic√≠dio, n√£o conseguiremos viver. √Č estranho – talvez nunca tenham pensado nisto, que estamos continuamente √† procura de quem precise de n√≥s. Isto faz de n√≥s seres preciosos, d√°-nos valor, um certo significado. Talvez as mulheres se casem com os homens apenas para preencher a necessidade de se sentir necess√°ria. E a raz√£o poder√° ser igualmente v√°lida para os homens, talvez desejem sentir que uma determinada mulher precisa deles.

Os homens tentaram impedir as mulheres de ganharem dinheiro, de trabalharem, de se instru√≠rem e educarem. As explica√ß√Ķes para isso s√£o de ordem pol√≠tica, econ√≥mica, entre outras, mas a raz√£o psicol√≥gica reside no facto de os homens desejarem a depend√™ncia das mulheres para que elas nunca deixem de precisar deles e os fa√ßam sentirem-se bem por haver algu√©m que precisa deles. Juntos ter√£o filhos e ambos se sentir√£o bem pelo facto de essas crian√ßas precisarem deles: √© um motivo para viver. Temos de viver pelo bem dessas crian√ßas, temos de viver pelo bem da nossa mulher, temos de viver pelo bem do nosso marido: a vida deixa de ser algo desprovido de sentido.

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Nada é Verdadeiramente Satisfatório

Nada √© verdadeiramente satisfat√≥rio. Mesmo a arte a que um artista √© vocacionado, e sobre a qual e para a qual vive, est√° sempre aqu√©m do seu desejo. Nunca atinge aquele n√≠vel, aquele andar que desejaria. Est√° sempre a tentar, a aproximar-se do limite das possibilidades. No fundo, do absoluto. Um absoluto que se n√£o atinge, [que se] ignora mesmo. A √ļnica coisa que sabemos ao certo √©: ningu√©m nasce sen√£o para morrer. Morrer mais cedo ou morrer mais tarde. Tem esse privil√©gio: acabar com a vida antes do fim natural dela. Se estiver desesperado, acontece. Justamente quando perde a esperan√ßa. Quando perde a esperan√ßa, perdeu tudo, e ent√£o liquida-se.

[Pensou alguma vez? Houve algum momento na sua vida t√£o desesperan√ßado? Teve tantos reveses…]

Não. Suponho que ninguém deixa de pensar na morte. E quando se chega à minha idade, está-se mais consciente de que se aproxima o fim. Portanto, ele tem que se preparar para esse final. Há muita gente que conheci que se suicidou por isto ou por aquilo. E há o problema da eutanásia, quando o sofrimento é muito grande, a experiência é nula e as pessoas não podem sequer matar-se, têm que pedir que alguém as mate.

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Amo-te com Toda a Loucura dos Meus Primeiros Anos

Meu anjo, minha vida, que sei eu mais? Amo-te com toda a loucura dos meus primeiros anos. Volto a ser para ti o irmão da Amélie; esqueço tudo desde que tu consentiste que eu caísse a teus pés. Sim, espero-te à beira mar, onde tu quiseres, muito longe do Mundo. Enlacei finalmente esse sonho de felicidade que há tanto tempo persigo. Foi a ti que eu adorei tanto tempo antes de te conhecer. Serás a minha vida; verás o que ninguém poderá saber senão após a minha morte; depositá-lo-ei nas mãos daquele que virá depois de nós. Acolhe tudo o que aqui ponho para ti. Amanhã às duas horas serei eu quem irá pedir-to.

A Inutilidade do Viajar

Que utilidade pode ter, para quem quer que seja, o simples facto de viajar? N√£o √© isso que modera os prazeres, que refreia os desejos, que reprime a ira, que quebra os excessos das paix√Ķes er√≥ticas, que, em suma, arranca os males que povoam a alma. N√£o faculta o discernimento nem dissipa o erro, apenas det√©m a aten√ß√£o momentaneamente pelo atractivo da novidade, como a uma crian√ßa que pasma perante algo que nunca viu! Al√©m disso, o cont√≠nuo movimento de um lado para o outro acentua a instabilidade (j√° de si consider√°vel!) do esp√≠rito, tornando-o ainda mais inconstante e incapaz de se fixar. Os viajantes abandonam ainda com mais vontade os lugares que tanto desejavam visitar; atravessam-nos voando como aves, v√£o-se ainda mais depressa do que vieram. Viajar d√°-nos a conhecer novas gentes, mostra-nos forma√ß√Ķes montanhosas desconhecidas, plan√≠cies habitualmente n√£o visitadas, ou vales irrigados por nascentes inesgot√°veis; proporciona-nos a observa√ß√£o de algum rio de caracter√≠sticas invulgares, como o Nilo extravasando com as cheias de Ver√£o, o Tigre, que desaparece √† nossa vista e faz debaixo de terra parte do seu curso, retomando mais longe o seu abundante caudal, ou ainda o Meandro, tema favorito das lucubra√ß√Ķes dos poetas, contorcendo-se em incont√°veis sinuosidades,

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A Impossibilidade de Renunciar

Eu decido correr a uma prov√°vel desilus√£o: e uma manh√£ recebo na alma mais uma vergastada – prova real dessa desilus√£o. Era o momento de recuar. Mas eu n√£o recuo. Sei j√°, positivamente sei, que s√≥ h√° ru√≠nas no termo do beco, e continuo a correr para ele at√© que os bra√ßos se me partem de encontro ao muro espesso do beco sem sa√≠da. E voc√™ n√£o imagina, meu querido Fernando, aonde me tem conduzido esta maneira de ser!… H√° na minha vida um bem lamnet√°vel epis√≥dio que s√≥ se explica assim. Aqueles que o conhecem, no momento em que o vivi, chamaram-lhe loucura e disparate inexplic√°vel. Mas n√£o era, n√£o era. √Č que eu, se come√ßo a beber um copo de fel, hei-de for√ßosamente beb√™-lo at√© ao fim. Porque – coisa estranha! – sofro menos esgotando-o at√© √† √ļltima gota, do que lan√ßando-o apenas encetado. Eu sou daqueles que v√£o at√© ao fim. Esta impossibilidade de ren√ļncia, eu acho-a bela artisticamente, hei-de mesmo trat√°-la num dos meus contos, mas na vida √© uma triste coisa. Os actos da minha exist√™ncia √≠ntima, um deles quase tr√°gico, s√£o resultantes directos desse triste fardo. E, coisas que parecem inexplic√°veis, explicam-se assim. Mas ningu√©m as compreende.

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A Desvantagem da Sabedoria

A sua inteligência estorvava-o. Que podia esperar da sabedoria e das suas cinco propriedades?
Primeiro, ele saberia como tratar os problemas dif√≠ceis ligados √† conduta humana e ao sentido da vida. Mas isso n√£o era priorit√°rio para ningu√©m, iam ach√°-lo desalmado e p√īr-lhe toda a esp√©cie de obst√°culos pela frente.
Segundo, a sabedoria exprime uma qualidade superior do conhecimento. Antecipa a avalia√ß√£o das situa√ß√Ķes, por tudo e nada reanima a aten√ß√£o dos outros com os seus conselhos. Depressa √© tratada como importuna e ter√° que recuar ao abrigo da frivolidade.
Terceiro, a sabedoria √© moderada e v√™ as coisas em profundidade. √Č, portanto, inimiga do ju√≠zo f√°cil e das paix√Ķes que s√£o requestadas para dar emo√ß√£o √†s exist√™ncias f√ļteis e cinzentas.
Quarto, a sabedoria é exercida tendo em vista o bem-estar da humanidade. Tem, por isso, mau nome em qualquer publicidade que faz vender produtos de grande lucro, como a guerra, o amor e as máquinas.
Quinto, finalmente: a sabedoria é reconhecida como valor estável pela maioria da população, o que é nocivo para o envolvimento dessa mesma população em qualquer campanha, seja de poder ou de ganho de negócios.
Enfim, ele teria que formar-se e esquecer os seus sonhos de grandeza,

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O Grau da Nossa Emancipação

A esfera da consciência reduz-se na acção; por isso ninguém que aja pode aspirar ao universal, porque agir é agarrar-se às propriedades do ser em detrimento do ser, a uma forma de realidade em prejuízo da realidade. O grau da nossa emancipação mede-se pela quantidade das iniciativas de que nos libertámos, bem como pela nossa capacidade de converter em não-objecto todo o objecto. Mas nada significa falar de emancipação a propósito de uma humanidade apressada que se esqueceu de que não é possível reconquistar a vida nem gozá-la sem primeiro a ter abolido.
Respiramos demasiado depressa para sermos capazes de captar as coisas em si pr√≥prias ou de denunciar a sua fragilidade. O nosso ofegar postula-as e deforma-as, cria-as e desfigura-as, e amarra-nos a elas. Agito-me e portanto emito um mundo t√£o suspeito como a minha especula√ß√£o, que o justifica, adopto o movimento que me transforma em gerador de ser, em artes√£o de fic√ß√Ķes, ao mesmo tempo que a minha veia cosmog√≥nica me faz esquecer que, arrastado pelo turbilh√£o dos actos, n√£o passo de um ac√≥lito do tempo, de um agente de universos caducos.
Empanturrados de sensa√ß√Ķes e do seu corol√°rio, o devir, somos seres n√£o libertos, por inclina√ß√£o e por princ√≠pio,

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O Conflito entre o Conhecimento e a Fé

Durante o √ļltimo s√©culo, e parte do s√©culo anterior, era largamente aceite a exist√™ncia de um conflito irreconcili√°vel entre o conhecimento e a f√©. Entre as mentes mais avan√ßadas prevaleceu a opini√£o de que estava na altura de a f√© ser substitu√≠da gradualmente pelo conhecimento; a f√© que n√£o assentasse no conhecimento era supersti√ß√£o e como tal deveria ser reprimida (…)
O ponto fraco desta concep√ß√£o √©, contudo, o de que aquelas convic√ß√Ķes que s√£o necess√°rias e determinantes para a nossa conduta e julgamentos n√£o se encontram unicamente ao longo deste s√≥lido percurso cient√≠fico. Porque o m√©todo cient√≠fico apenas pode ensinar-nos como os factos se relacionam, e s√£o condicionados, uns com os outros. A aspira√ß√£o a semelhante conhecimento objectivo pertence ao que de mais elevado o homem √© capaz, e ningu√©m suspeitar√° certamente de que desejo minimizar os resultados e os esfor√ßos her√≥icos do homem nesta esfera. Por√©m, √© igualmente claro que o conhecimento do que √© n√£o abre directamente a porta para o que deveria ser. Podemos ter o mais claro e mais completo conhecimento do que √© e, contudo, n√£o ser capazes de deduzir da√≠ qual deveria ser o objectivo das nossas aspira√ß√Ķes humanas. O conhecimento objectivo fornece-nos instrumentos poderosos para a realiza√ß√£o de determinados fins,

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O Risco de Nunca termos Conhecido a nossa Verdadeira Alma

São muito raros aqueles que morrem tendo possuído verdadeiramente a sua alma. Com frequência, nem sequer a conheceram. Desde a primeira idade, tiveram na sua frente os exemplos que lhes pareciam óptimos e, a pouco e pouco, lhes moldaram, comprimiram e mascararam a sua natureza. Se essa natureza era baixa e pobre e os exemplos foram bem escolhidos, a imitação evitou mais um idiota ou delinquente.
Todavia, em muitos casos, trata-se de naturezas ricas e generosas que teriam podido dar mais do que obtiveram com o m√©todo quadr√ļmano – e vale muito mais um talento pequeno, mas novo, do que a imita√ß√£o med√≠ocre de um g√©nio.
Mas quase ningu√©m se atreve a ser o que √© e todos querem ser outros. E como nem a todos se adapta o modelo que escolheram, a imita√ß√£o resulta quase sempre inferior ao modelo: um desenho tosco efectuado numa parede vale sempre mais do que uma c√≥pia da Sibila de Miguel √āngelo.
Mas o homem n√£o pode deixar de copiar e n√£o faz sen√£o copiar: √© um fabricante de duplicados. Porque quer ter uma r√©plica do mundo, reduzida √†s propor√ß√Ķes humanas e aos seus gostos.

A Fraqueza Fundamental do Homem

A fraqueza fundamental do homem n√£o √© nada que ele n√£o possa vencer, desde que n√£o possa aproveitar com a vit√≥ria. A juventude vence tudo, a impostura, a ast√ļcia mais dissimulada, mas n√£o h√° ningu√©m que possa deter no voo a vit√≥ria, torn√°-la viva, porque ent√£o a juventude deixou de existir. A velhice n√£o ousa tocar na vit√≥ria e a nova juventude atormentada pelo novo ataque que se desencadeia imediatamente, deseja a sua pr√≥pria vit√≥ria. √Č assim que o Diabo sem cessar vencido, nunca √© aniquilado.

Possuir-te é Gozar de um Tesouro Infinito

Que suprema felicidade foi hoje a minha, querida desta alma! Como tu estavas, linda, terna, amante, encantadora! Nunca te vi assim, nunca me pareceste t√£o bela! Que deliciosa variedade h√° em ti, minha Rosa adorada! Possuir-te √© gozar de um tesouro infinito, inesgot√°vel. Juro-te que j√° n√£o tenho m√©rito em te ser fiel, em te protestar e guardar esta lealdade exclusiva que te hei-de consagrar at√© ao √ļltimo instante da minha vida: n√£o tenho m√©rito algum nisso. Depois de ti, toda a mulher √© imposs√≠vel para mim, que antes de ti n√£o conheci nenhuma que me pudesse fixar.

E o que eu te estimo e aprecio al√©m disso. A ternura de alma verdadeira que tenho por ti. Onde estavam no meu cora√ß√£o estes afectos que nunca senti, que s√≥ tu despertaste e que d√£o √† minha alma um bem-estar t√£o suave? Realmente que te devo muito, que me fizeste melhor, outro do que nunca fui. O que sinto por ti √© inexplic√°vel. Bem me dizias tu que em te conhecendo te havia de adorar deveras. √Č certo, assim foi, e estou agora seguro deste amor, porque repousa em bases t√£o s√≥lidas que j√° nada creio que o possa destruir.

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A Mulher de Negro

Os sons da floresta, as √°rvores, a bicicleta e, ao longe, o sil√™ncio im√≥vel de um vulto negro. Aproximei-me e era uma mulher vestida de negro. Um xaile negro sobre os ombros. Um len√ßo negro sobre a cabe√ßa. O som dos pneus da bicicleta a pararem, o som de amassarem folhas h√ļmidas e de fazerem estalar ramos. Os meus p√©s a pousarem no ch√£o. Os olhos da mulher entre o negro. Os olhos pequenos da mulher. O seu rosto branco. Vimo-nos como se nos encontr√°ssemos, como se nos tiv√©ssemos perdido havia muito tempo e nos encontr√°ssemos. O tempo deixou de existir. O sil√™ncio deixou de existir. Pousei a bicicleta no ch√£o para caminhar na direc√ß√£o da mulher. Era atra√≠do por segredos. Durante os meus passos, a mulher estendeu-me a m√£o. A sua m√£o era muito velha. A palma da sua m√£o tinha linhas que eram o mapa de uma vida inteira, uma vida com todos os seus enganos, com todos os seus erros, com todas as suas tentativas. Os seus olhos de pedra. Senti os ossos da sua m√£o a envolverem os meus dedos. N√£o me puxou, mas eu aproximei o meu corpo do seu. Senti a sua respira√ß√£o no meu pesco√ßo.

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O Verdadeiro e o Falso

A primeira dilig√™ncia do esp√≠rito √© a de distinguir o que √© verdadeiro do que √© falso. No entanto, logo que o pensamento reflecte sobre si pr√≥prio, o que primeiro descobre √© uma contradi√ß√£o. Seria ocioso procurar, neste ponto, ser-se convincente. Ningu√©m, h√° s√©culos, deu uma demonstra√ß√£o mais clara e mais elegante do caso do que Arist√≥teles: “A consequ√™ncia, muitas vezes ridicularizada, dessas opini√Ķes √© que elas se destroem a si pr√≥prias”.

Porque, se afirmarmos que tudo √© verdadeiro afirmamos a verdade da afirma√ß√£o oposta, e, em consequ√™ncia, a falsidade da nossa pr√≥pria tese (porque a afirma√ß√£o oposta n√£o admite que ela possa ser verdadeira). E, se dissermos que tudo √© falso, essa afirma√ß√£o tamb√©m √© falsa. Se declararmos que s√≥ √© falsa a afirma√ß√£o oposta √† nossa, ou ent√£o que s√≥ a nossa e que n√£o √© falsa, somos, todavia, obrigados a admitir um n√ļmero infinito de ju√≠zos verdadeiros ou falsos.

Porque aquele que anuncia uma afirmação verdadeira, pronuncia ao mesmo tempo o juízo de que ela é verdadeira, e assim sucessivamente, até ao infinito.

A Alma é o Bem Supremo

Devemos circunscrever o bem supremo √† alma: degrad√°-lo-emos se em vez da melhor parte de n√≥s o associarmos antes √† pior, se o pusermos na depend√™ncia dos sentidos que nos animais sem fala s√£o bem mais apurados do que no homem. N√£o devemos atribuir ao corpo o ponto mais alto da nossa felicidade; os bens verdadeiros s√£o aqueles que devemos √† raz√£o – bens firmes e duradouros, insuscept√≠veis de decad√™ncia, incapazes de padecerem qualquer decr√©scimo ou limita√ß√£o! Os restantes bens s√£o-no somente na opini√£o do vulgo; na realidade apenas t√™m de comum o nome com os bens verdadeiros, mas carecem das propriedades que distinguem um ¬ębem¬Ľ real. Chamemos-lhes antes ¬ęutilidades¬Ľ ou, para usar o termo t√©cnico, ¬ęrecursos desej√°veis¬Ľ, mas sem perder de vista que se trata de ¬ęutens√≠lios¬Ľ, n√£o de partes de n√≥s mesmos; tenhamo-los √† m√£o, mas sem esquecer que s√£o exteriores a n√≥s; e mesmo tendo-os √† m√£o atribuamos-lhes um lugar subalterno e secund√°rio, como coisas de que ningu√©m se deve orgulhar. H√° coisa mais est√ļpida do que nos vangloriarmos de algo que n√£o fizemos? Deixemos que todos esses falsos bens nos caibam em sorte mas sem se colarem a n√≥s de modo a que, se ficarmos sem eles,

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A D√ļvida, a Solid√£o, logo… a Escrita

Na vida, chega um momento – e penso que ele √© fatal – ao qual n√£o √© poss√≠vel escapar, em que tudo √© posto em causa: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Tudo menos a crian√ßa. A crian√ßa nunca √© posta em d√ļvida. E essa d√ļvida cresce √† sua volta. Essa d√ļvida, est√° s√≥, √© a da solid√£o. Nasce dela, da solid√£o. Podemos j√° nomear a palavra. Creio que h√° muita gente que n√£o poderia suportar o que aqui digo, que fugiria. Talvez seja por essa raz√£o que nem todos os homens s√£o escritores. Sim. Essa √© a diferen√ßa. Essa √© a verdade. Mais nada. A d√ļvida √© escrever. √Č, portanto, tamb√©m, o escritor. E com o escritor todo o mundo escreve. √Č algo que sempre se soube.
Creio tamb√©m que sem esta d√ļvida primeira do gesto em direc√ß√£o √† escrita n√£o existe solid√£o. Nunca ningu√©m escreveu a duas vozes. Foi poss√≠vel cantar a duas vozes, ou fazer m√ļsica tamb√©m, e jogar t√©nis, mas escrever, n√£o. Nunca.

Um Grande Carácter não é Comparável

Quando vemos um grande homem, imaginamos uma semelhança com alguma personalidade histórica e profetizamos a sequência do seu carácter e do seu destino, dedução que necessariamente falhará. Ninguém jamais resolverá o problema do seu carácter, de acordo com os nossos prognósticos, mas de acordo com a própria orientação, personalíssima e sem precedente.
O car√°cter aspira √† largueza; n√£o se deve misturar com as pessoas, nem ser julgado por epis√≥dios colhidos na velocidade da vida quotidiana ou em poucas ocasi√Ķes. Como um grande edif√≠cio, necessita de perspectiva. N√£o pode formar, e provavelmente n√£o forma, rela√ß√Ķes rapidamente; e n√£o devemos desejar explica√ß√Ķes precipitadas, seja na √©tica popular ou na nossa pr√≥pria, da sua ac√ß√£o.

A Variedade √© a √önica Desculpa da Abund√Ęncia

A variedade √© a √ļnica desculpa da abund√Ęncia. Ningu√©m deveria deixar vinte livros diferentes, a menos que seja capaz de escrever como vinte homens diferentes. As obras de Victor Hugo enchem cinquenta grossos volumes, mas cada volume, cada p√°gina quase, cont√©m todo o Victor Hugo. As outras p√°ginas somam-se como p√°ginas, n√£o como g√©nio. Nele n√£o existia produtividade, mas prolixidade. Desperdi√ßou o seu tempo como g√©nio, por pouco que o tivesse desperdi√ßado como escritor. A opini√£o de Goethe a seu respeito continua a ser suprema, apesar de ter sido precocmente emitida, e uma grande li√ß√£o para todos os artistas: ¬ęDeveria escrever menos e trabalhar mais¬Ľ, disse ele. Este parecer, na sua distin√ß√£o entre o trabalho a s√©rio, que n√£o se espraia, e o trabalho fict√≠cio, que ocupa espa√ßo (pois as p√°ginas nada mais s√£o do que espa√ßo), √© uma das grandes opini√Ķes cr√≠ticas do mundo.
Se conseguir escrever como vinte homens diferentes, é vinte homens diferentes, seja lá como for, e os seus vinte livros têm justificação.

Saber Avaliar as Situa√ß√Ķes

O que perturba os homens não são as coisas, mas os juízos que os homens formulam sobre as coisas. A morte, por exemplo, nada é de temível Рe Sócrates, quando dele a morte se foi aproximando, de maneira nenhuma se apresentou a morte como algo de tremendamente terrível. Mas no juízo que fazemos da morte, considerando-a temível, é que reside o aspecto terrível da morte. Quando somos hostilizados, contrariados, perturbados, atormentados e magoados, não devemos sacar as culpas a outrem, mas a nós próprios, isto é, aos nossos juízos pessoais e mais íntimos. Acusar os outros das suas infelicidades é mera acção de um ignorante; responsabilizar-se a si próprio por todas as contrariedades é coisa de um homem que começa a instruir-se; e não culpabilizar ninguém nem tão pouco a si próprio, então, sim, então é já feito de um homem perfeitamente instruído.

Cada Homem Habita em Todos os Outros

Vossemec√™ aprendeu a desenhar v√°-se l√° saber onde e os seus desenhos parecem-se muito com as coisas, n√£o haja d√ļvida. Mas nenhum homem consegue p√īr o mundo inteiro num livro. Assim como um livro onde todas as coisas estivessem desenhadas n√£o seria o mundo.
Muito bem, Marcus, respondeu o juiz.
Mas n√£o me desenhe a mim, disse Webster. Porque eu n√£o quero fazer parte do seu livro.
O meu livro ou outro livro qualquer, disse o juiz. O que h√°-de vir n√£o se desvia nem um bocadinho do livro onde est√° escrito. Como poderia desviar-se? O livro seria falso, e um livro falso nem sequer merece tal nome.
Vossemecê fala por enigmas como ninguém e eu não vou terçar palavras consigo. Só lhe peço que não ponha a minha venerável carantonha nesse seu caderno porque não me agrada que ande a mostrá-la por aí, se calhar a estranhos.
O juiz sorriu. Seja no meu livro ou não, cada homem habita em todos os outros e em troca alberga-os em si e assim por diante numa infindável complexidade de ser e testenunha até aos confins do mundo.

Captar a Oportunidade no Momento Justo

J√° percebeste que deves subtrair-te a essas tuas ocupa√ß√Ķes ilus√≥rias e nocivas, mas ignoras ainda o modo de o conseguir. Ora h√° coisas que s√≥ estando presente te posso indicar! O m√©dico tamb√©m n√£o pode determinar por carta a hora adequada para a alimenta√ß√£o ou para o banho: tem de tomar o pulso ao doente. Diz um antigo prov√©rbio que o gladiador s√≥ forma o seu plano na arena a partir da observa√ß√£o do rosto do advers√°rio, do modo como move os bra√ßos, da pr√≥pria postura do corpo. Observa√ß√Ķes sobre os costumes, sobre os deveres, √© poss√≠vel faz√™-las de um modo geral e por escrito; s√£o conselhos que se podem dar n√£o s√≥ a ausentes, como at√© √† posteridade. Mas a maneira e a ocasi√£o de tomar uma decis√£o concreta, isso ningu√©m pode aconselh√°-lo √† dist√Ęncia, √© for√ßoso deliberar em face das pr√≥prias circunst√Ęncias.
Para captar a oportunidade no momento justo √© preciso n√£o s√≥ estar presente, como estar atento. P√Ķe-te, por conseguinte na expectativa, e assim que surpreenderes a oportunidade agarra-a com toda a rapidez, com toda a energia, e liberta-te definitivamente desses teus falacciosos deveres! Repara bem no conselho que te dou: em meu entender tens de libertar-te desse tipo de vida,

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