Textos sobre M√°ximos

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Textos de máximos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Sabedoria e a Alegria

Vou ensinar-te agora o modo de entenderes que n√£o √©s ainda um s√°bio. O s√°bio aut√™ntico vive em plena alegria, contente, tranquilo, imperturb√°vel; vive em p√© de igualdade com os deuses. Analisa-te ent√£o a ti pr√≥prio: se nunca te sentes triste, se nenhuma esperan√ßa te aflige o √Ęnimo na expectativa do futuro, se dia e noite a tua alma se mant√©m igual a si mesma, isto √©, plena de eleva√ß√£o e contente de si pr√≥pria, ent√£o conseguiste atingir o m√°ximo bem poss√≠vel ao homem! Mas se, em toda a parte e sob todas as formas, n√£o buscas sen√£o o prazer, fica sabendo que t√£o longe est√°s da sabedoria como da alegria verdadeira. Pretendes obter a alegria, mas falhar√°s o alvo se pensas vir a alcan√ß√°-la por meio das riquezas ou das honras, pois isso ser√° o mesmo que tentar encontrar a alegria no meio da ang√ļstia; riquezas e honras, que buscas como se fossem fontes de satisfa√ß√£o e prazer, s√£o apenas motivos para futuras dores.
Toda a gente, repito, tende para um objectivo: a alegria, mas ignora o meio de conseguir uma alegria duradoura e profunda. Uns procuram-na nos banquetes, na libertinagem; outros, na satisfa√ß√£o das ambi√ß√Ķes, na multid√£o ass√≠dua dos clientes;

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Todo o Génio é um Degenerado

Sendo certo que todo o g√©nio √© um degenerado (nem superior, nem inferior, porque h√° s√≥ degenerados de uma esp√©cie, mau grado a absurda escapat√≥ria dos psiquiatras modern style), cert√≠ssimo √©, sem d√ļvida, que entre os g√©nios, os da intelig√™ncia assumem um relevo m√°ximo de degenera√ß√£o. Um chefe pol√≠tico, um grande general, s√£o, no que g√©nios, degenerados, porque s√£o desvios do tipo normal e originais na sua ac√ß√£o e na sua individualidade. Mas s√£o normais porque s√£o homens de ac√ß√£o, porque vivem no meio da vida, e n√£o se pode fazer isso sem uma certa adapta√ß√£o a ela. O mais revolucion√°rio dos g√©nios pol√≠ticos tem de se adpatar ao que quer destruir para o poder destruir. Tem de mergulhar na vida que quer substituir para poder agir sobre ela.
Não assim na esfera da inteligência e da emoção intelectualizada Рna da filosofia e na da arte, digo. Sobre ser original, o artista, o pensador é um inadaptado às formas normais da vida, por isso que nem age no sentido da actividade normal (porque é original), nem age no que age, age vulgarmente (porque, em lugar de ter uma acção vulgar, orienta a sua vida sobretudo para a sensação e para a inteligência e não para a acção,

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As Janelas da Memória

A mem√≥ria humana n√£o √© lida globalmente, como a mem√≥ria dos computadores, mas por √°reas espec√≠ficas a que chamo de janelas. Atrav√©s das janelas vemos, reagimos, interpretamos… Quantas vezes tentamos lembrar-nos de algo que n√£o nos vem √† ideia? Nesse caso, a janela permaneceu fechada ou inacess√≠vel.

A janela da mem√≥ria √©, portanto, um territ√≥rio de leitura num determinado momento existencial. Em cada janela pode haver centenas ou milhares de informa√ß√Ķes e experi√™ncias. O maior desafio de uma mulher, e do ser humano em geral, √© abrir o m√°ximo de janelas em cada situa√ß√£o. Se ela abre diversas janelas, poder√° dar respostas inteligentes. Se as fecha, poder√° dar respostas inseguras, med√≠ocres, est√ļpidas, agressivas. Somos mais instintivos e animalescos quando fechamos as janelas, e mais racionais quando as abrimos.

O mundo dos sentimentos possui as chaves para abrir as janelas. O medo, a tens√£o, a ang√ļstia, o p√Ęnico, a raiva e a inveja podem fech√°-las. A tranquilidade, a serenidade, o prazer e a afetividade podem abri-las. A emo√ß√£o pode fazer os intelectuais reagirem como crian√ßas agressivas e as pessoas simples reagirem como elegantes seres humanos. Sob um foco de tens√£o, como perdas e contrariedades, uma mulher serena pode ficar irreconhec√≠vel.

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A Dificuldade de Estabelecer e Firmar Rela√ß√Ķes

A dificuldade de estabelecer e firmar rela√ß√Ķes. H√° uma t√©cnica para isso, conhe√ßo-a. Nunca pude meter-me nela. Ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ. √Č realmente f√°cil: prestabilidade, autodom√≠nio. Mas. Ser soci√°vel exige um esfor√ßo enorme ‚ÄĒ f√≠sico. Quem se habituou, j√° se n√£o cansa. Tudo se passa √† superf√≠cie do esfor√ßo. Ter ¬ępersonalidade¬Ľ: n√£o descer um mil√≠metro no trato, mesmo quando por delicadeza se finge. Assumirmos a import√Ęncia de n√≥s sem o mostrar. Darmo-nos valor sem o exibir. Irresistivelmente, agacho-me. E logo: a pata dos outros em cima. Bem feito. Pois se me pus a jeito. E ent√£o reponto. O fim. Ser prest√°vel, colaborar nas tarefas que os outros nos inventam. Col√≥quios, confer√™ncias, organiza√ß√Ķes de. Ah, ser-se um ¬ęin√ļtil¬Ľ (um ¬ęparasita¬Ľ…). Raz√Ķes profundas ‚ÄĒ um complexo duplo que vem da juventude: incompreens√£o do irm√£o corpo e da bolsa paterna. O segundo remediou-se. Tenho desprezo pelo dinheiro. Ligo t√£o pouco ao dinheiro que nem o gasto… Mas ¬ęgastar¬Ľ faz parte da ¬ępersonalidade¬Ľ. Sa√ļde ‚ÄĒ mais dif√≠cil. Este ar apeur√© que vem logo ao de cima. A √ļnica defesa, obviamente, √© o resguardo, o isolamento, a medida.
√Č f√°cil ser ¬ęsimp√°tico¬Ľ, dif√≠cil √© perseverar, assumir o artif√≠cio da facilidade. Conservar os amigos. ¬ęN√£o √©s capaz de dar nada¬Ľ,

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O Homem Amesquinhado

Apesar do quadro negro de uma c√ļpula pol√≠tica e intelectual desvairada e grossa e de um povo abandonado a seu pr√≥prio destino, ainda havia ali, no pa√≠s, naquele espantoso ver√£o de 1955, uma consider√°vel energia vital, uma exaltada alegria de viver, acentuada, em alguns lugares e num ou noutro indiv√≠duo, ainda mais possu√≠do do gozo pleno de um extraodin√°rio senso l√ļdico tropical. Est√°vamos, poder√≠amos nos considerar como estando, num dos √ļltimos redutos do ser humano. Depois disso viria o fim, n√£o, como todos pensavam, com um estrondo, mas com um solu√ßo. A densa nuvem desceria, n√£o, como todos pensavam, feita de mol√©culas radioativas, mas da grosseria de todos os dias, acumulada, aumentada, transmitida, potenciada. O homem se amesquinharia, v√≠tima da mesquinharia do seu semelhante, cada dia menos atento a um gesto de gentileza, a um ato de beleza, a um olhar de amor desinteressado, a uma palavra dita com uma precisa propriedade. E tudo come√ßou a ficar densamente escuro, porque tudo era terrivelmente patrocinado por enlatadores de banha, fabricantes de chouri√ßo e vendedores de desodorante, de modo que toda a pretensa gra√ßa da vida se dirigia apenas √† barriga dos gordos, √† tripa dos porcos, ou, no m√°ximo de finura e eleg√Ęncia,

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Um Mundo de Vidas

N√≥s vivemos da nossa vida um fragmento t√£o breve. N√£o √© da vida geral – √© da nossa. √Č em primeiro lugar a restrita por√ß√£o do que em cada elemento haveria para viver. Porque em cada um desses elementos h√° a intensidade com o que poder√≠amos viver, a profundeza, as ramifica√ß√Ķes. N√≥s vivemos √† superf√≠cie de tudo na parte deslizante, a que √© facilidade e fuga. O resto prende-se irremediavelmente ao escuro do esquecimento e distrac√ß√£o. Mas h√° sobretudo a zona incomensur√°vel dos poss√≠veis que n√£o poderemos viver. Porque em cada instante, a cada op√ß√£o que fazemos, a cada op√ß√£o que faz o destino por n√≥s, correspondem as inumer√°veis op√ß√Ķes que nada para n√≥s poder√° fazer. Um golpe de sorte ou de azar, o acaso de um encontro, de um lance, de uma fal√™ncia ou benef√≠cio fazem-nos eliminar toda uma rede de caminhos para se percorrer um s√≥. Em cada momento h√° in√ļmeros poss√≠veis, favor√°veis ou desfavor√°veis, diante de n√≥s. Mas √© um s√≥ o que se escolheu ou nos calhou.
Assim durante a vida v√£o-nos ficando para tr√°s mil solu√ß√Ķes que se abandonaram e n√£o poder√£o jamais fazer parte da nossa vida. Regresso √† minha inf√Ęncia e entonte√ßo com as milhentas possibilidades que se me puseram de parte.

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A Nulidade como Ideal

A nulidade exige ordem. Tem necessidade de uma hierarquia, de meios de press√£o, de agentes e de uma finalidade que se confunda consigo pr√≥pria. Para manter o ser humano no seu n√≠vel mais baixo, onde n√£o corre o risco de fazer ondas, nada melhor que uma organiza√ß√£o estruturada com n√≠veis de poder e pe√Ķes disciplinados capazes de os exercer. Qualquer estrutura deste tipo aguenta-se de p√© devido √† convic√ß√£o geral de que n√£o √© necess√°rio explicar para se ser obedecido, nem compreender para obedecer. A verdade difunde-se por si s√≥ de cima para baixo pelo mero efeito do ascensor hier√°riquico. A efic√°cia √© proporcional ao grau de complexidade gra√ßas ao qual √© mantida a ilus√£o de uma certa liberdade em todos os n√≠veis de comando.
Quanto mais insignificantes s√£o as engrenagens humanas, mais f√°cil √© convenc√™-las da sua falsa autonomia. As nulidades fornecem as melhores engrenagens, associando o m√°ximo de in√©rcia intelectual ao m√°ximo de aplica√ß√£o no exerc√≠cio de uma ditadura sobre a pequena por√ß√£o de poder que lhes cabe. Essas estruturas, onde todos t√™m raz√£o quando est√£o acima e n√£o a t√™m quando est√£o abaixo, realizam uma esp√©cie de ideal humano feito de equil√≠brio entre arrog√Ęncia e humildade.

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Alimentar o Ego

Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensa√ß√Ķes uma religi√£o e uma pol√≠tica, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, √© o sentir as coisas m√≠nimas extraordin√°ria ‚ÄĒ e desmedidamente. Este √© o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro n√£o √© mais do que isto. Saber p√īr no saborear duma ch√°vena de ch√° a vol√ļpia extrema que o homem normal s√≥ pode encontrar nas grandes alegrias que v√™m da ambi√ß√£o subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou ent√£o nos actos finais e carnais do amor; poder encontrar na vis√£o dum poente ou na contempla√ß√£o dum detalhe decorativo aquela exaspera√ß√£o de senti-los que geralmente s√≥ pode dar, n√£o o que se v√™ ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta ‚ÄĒ essa proximidade do objecto da sensa√ß√£o que s√≥ as sensa√ß√Ķes carnais ‚ÄĒ o tacto, o gosto, o olfacto – esculpem de encontro √† consci√™ncia; poder tornar a vis√£o interior, o ouvido do sonho ‚ÄĒ todos os sentidos supostos e do suposto ‚ÄĒ recebedores e tang√≠veis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as an√°logas suponham-se,

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A Comédia do Ambicioso

Um homem que aspira a coisas grandes considera todo aquele que encontra no seu caminho, ou como meio, ou como retardamento e impedimento, – ou como um leito de repouso passageiro. A sua “bondade” para com os outros, que o caracteriza e que √© superior, s√≥ √© poss√≠vel quando ele atinge o seu m√°ximo e domina. A impaci√™ncia e a sua consci√™ncia de, at√© aqui, estar sempre condenado √† com√©dia ‚Äď pois mesmo a guerra √© uma com√©dia e encobre, como qualquer meio encobre o fim -, estraga-lhe todo o conv√≠vio: esta esp√©cie de homem conhece a solid√£o e o que ela tem de mais venenoso.

Felicidade Simplificada

Se quisermos avaliar a situação de uma pessoa pela sua felicidade, deve-se perguntar não por aquilo que a diverte, mas pelo que a aflige. Quanto mais insignificante for aquilo que, tomado em si mesmo, a aflige, tanto mais ela é feliz, pois é preciso um estado de bem-estar para impressionar-se com bagatelas: na infelicidade, nunca as sentimos.

Guardemo-nos de erguer a felicidade da nossa vida sobre um amplo fundamento, exigindo muito dessa felicidade: pois, estando apoiada sobre tal base, ela desaba mais facilmente, já que oferece muito mais oportunidades para acidentes, que não tardam em faltar. Portanto, a esse respeito, ocorre com o edifício da nossa felicidade o oposto do que ocorre com todos os demais, que se apoiam mais firmemente sobre um amplo fundamento.
Reduzir ao máximo as expectativas em relação aos nossos meios, sejam eles quais forem, é, pois, o caminho mais seguro para escaparmos de uma grande infelicidade.

O que Distingue um Amigo Verdadeiro

N√£o se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conhe√ßam pessoas de quem apetece ser amiga, n√£o se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou melhor: amigo. A preocupa√ß√£o da alma e a ocupa√ß√£o do espa√ßo, o tempo que se pode passar e a aten√ß√£o que se pode dar ‚ÄĒ todas estas coisas s√£o finitas e t√™m de ser partilhadas. N√£o chegam para mais de um, dois, tr√™s, quatro, cinco amigos. √Č preciso saber partilhar o que temos com eles e n√£o se pode dividir uma coisa j√° de si pequena (n√≥s) por muitas pessoas.

Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser amigo de alguém,

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Nas menores circunst√Ęncias √© preciso andar com o m√°ximo cuidado

Nas menores circunst√Ęncias √© preciso andar com o m√°ximo cuidado.

A Felicidade Pertence aos que se Bastam a si Próprios

Cada um deve ser e proporcionar a si mesmo o melhor e o m√°ximo. Quanto mais for assim e, por conseguinte, mais encontrar em si mesmo as fontes dos seus deleites, tanto mais ser√° feliz. Com o maior dos acertos, diz Arist√≥teles: A felicidade pertence aos que se bastam a si pr√≥prios. Pois todas as fontes externas de felicidade e deleite s√£o, segundo a sua natureza, extremamente inseguras, prec√°rias, passageiras e submetidas ao acaso; podem, portanto, estancar com facilidade, mesmo sob as mais favor√°veis circunst√Ęncias; isso √© inevit√°vel, visto que n√£o podem estar sempre √† m√£o.
Na velhice, ent√£o, quase todos se esgotam necessariamente, pois abandonam-nos o amor, o gracejo, o prazer das viagens, o prazer da equita√ß√£o e a propens√£o para a sociedade. At√© os amigos e parentes nos s√£o levados pela morte. √Č quando, mais do que nunca, importa saber o que algu√©m tem em si mesmo. Pois isso se conservar√° por mais tempo. Mas tamb√©m em cada idade isso √© e permanece a √ļnica fonte genu√≠na e duradoura da felicidade. Em qualquer parte do mundo, n√£o h√° muito a buscar: a mis√©ria e a dor preenchem-no, e aqueles que lhes escaparam s√£o espreitados em todos os cantos pelo t√©dio.

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Onde Est√° a Sinceridade ?

Entre as recorda√ß√Ķes que cada um de n√≥s guarda, algumas h√° que s√≥ contamos aos amigos. H√° ainda outras que nem sequer aos amigos confessamos, que s√≥ a n√≥s pr√≥prios dizemos e, mesmo assim, no m√°ximo segredo. Finalmente, h√° coisas que o homem nem sequer se permite confessar a si mesmo. Ao longo da exist√™ncia, toda a pessoa honesta acumulou n√£o poucas destas recorda√ß√Ķes. Diria mesmo que a quantidade √© tanto maior quanto mais honesto o homem. Eu, em todo o caso, n√£o foi h√° muito que me decidi a recordar algumas das minhas antigas aventuras; at√© agora evitava faz√™-lo, ali√°s com um certo desassossego. Por√©m agora, quando as evoco e desejo mesmo anot√°-las, agora vou tirar a prova: ser√° poss√≠vel sermos francos e sinceros, pelo menos com n√≥s pr√≥prios, e dizermo-nos toda a verdade?
Observo, a propósito, que Heine afirma não poderem existir autobiografias exactas e que o homem mente sempre quando fala de si próprio. Em sua opinião, Rousseau enganou-nos à certa nas suas Confessions, e até deliberadamente, por vaidade. Tenho a certeza de que Heine tem razão: compreendo muitíssimo bem que nos possamos acusar de crimes abomináveis apenas por vaidade e também compreendo o que pode ser esse sentimento.

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O Perd√£o e a Promessa

Se n√£o f√īssemos perdoados, eximidos das consequ√™ncias daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um √ļnico acto do qual jamais nos recuperar√≠amos; ser√≠amos para sempre as v√≠timas das suas consequ√™ncias, √† semelhan√ßa do aprendiz de feiticeiro que n√£o dispunha da f√≥rmula m√°gica para desfazer o feiti√ßo. Se n√£o nos obrig√°ssemos a cumprir as nossas promessas n√£o ser√≠amos capazes de conservar a nossa identidade; estar√≠amos condenados a errar desamparados e desnorteados nas trevas do cora√ß√£o de cada homem, enredados nas suas contradi√ß√Ķes e equ√≠vocos – trevas que s√≥ a luz derramada na esfera p√ļblica pela presen√ßa de outros que confirmam a identidade entre o que promete e o que cumpre poderia dissipar. Ambas as faculdades, portanto, dependem da pluralidade; na solid√£o e no isolamento, o perd√£o e a promessa n√£o chegam a ter realidade: s√£o no m√°ximo um papel que a pessoa encena para si mesma.

√Č mister o m√°ximo cuidado no emprego das palavras. Por causa de uma palavra, poderia um homem ser julgado s√°bio, e por causa de uma palavra, poderia ser ele julgado um n√©scio.

Palavras com Poucas Ideias

Os homens tomam as palavras como sendo as marcas regulares e constantes de no√ß√Ķes aceites, quando na verdade n√£o s√£o mais que sinais volunt√°rios e inst√°veis das suas pr√≥prias id√©ias. [… ] Esse abuso, que leva a confiar cegamente nas palavras, n√£o foi em nenhum lugar t√£o disseminado, nem ocasionou tantos efeitos mal√©ficos, como entre os homens de letras. A multiplica√ß√£o e obstina√ß√£o das disputas que t√™m devastado o mundo intelectual deve-se t√£o-s√≥ a esse mau uso das palavras. Pois, ainda que em geral se acredite existir grande diversidade de opini√Ķes nos volumes e variedade das controv√©rsias que agitam o mundo, o m√°ximo que posso constatar √© que, ao discutirem entre si, os doutos em contenda nas diferentes fac√ß√Ķes falam l√≠nguas distintas.

O Egoísmo da Espécie

Os amantes querem pertencer um ao outro, e para toda a eternidade. Exprimem-se de maneira assaz curiosa quando se abra√ßam num instante de profunda intimidade para gozarem assim do m√°ximo prazer e da mais alta felicidade que o amor lhes pode dar. Mas o prazer √© ego√≠sta. N√£o h√° d√ļvida que do prazer dos amantes n√£o se pode dizer que seja ego√≠sta, porque √© rec√≠proco; mas o prazer que ambos sentem na uni√£o √© absolutamente ego√≠sta, se for verdade que nesse abra√ßo j√° se confundem num s√≥ e mesmo ser. Mas est√£o enganados; porque, no mesmo instante, a esp√©cie triunfa sobre os indiv√≠duos; domina-os, rebaixa-os, ao seu servi√ßo.

Julgo isto muito mais ridículo do que a situação considerada cómica por Aristófanes. Porque o cómico desta bipartição reside em ser contraditória, o que Aristófanes não salientou suficientemente. Quem vê um homem, crê ver um ser inteiro e independente, um indivíduo, o que toda a gente admite até que observe que, apoderado pelo amor, ele não passa de uma metade que corre à procura da outra metade.
Nada há que seja cómico na metade de uma maçã; cómico seria tomar por maçã inteira a metade de uma maçã; não há contradição no primeiro caso,

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A Diferença do Amor Sexual Entre Homem e Mulher

O homem tende, por natureza, √† inconst√Ęncia no amor; a mulher, √† const√Ęncia. O amor do homem diminui sensivelmente t√£o logo √© satisfeito: quase todas as outras mulheres o excitam mais do que aquela que ele j√° possui, por isso sente a necessidade de variar. Em contrapartida, o amor da mulher aumenta justamente a partir desse momento. Isso constitui uma consequ√™ncia do objectivo da natureza, que visa conservar a esp√©cie e, portanto, multiplic√°-la o m√°ximo poss√≠vel. Com efeito, o homem pode comodamente gerar mais de cem crian√ßas em um ano se tiver √† disposi√ß√£o outras tantas mulheres; j√° a mulher poderia, por mais homens que tivesse, dar √† luz apenas um filho por ano (excepto no caso de g√©meos). Por essa raz√£o, o homem est√° sempre √† procura de novas mulheres, enquanto estas prendem-se firmemente a apenas um homem: pois a natureza as leva a conservar, instintivamente e sem reflex√£o, aquele que nutrir√° e proteger√° a futura prole.

√Č a Conformidade que Torna a Conviv√™ncia Agrad√°vel

Aqueles que se contentam em recitar os antigos n√£o tornam a sociedade mais √°gil. Mas, quando se busca e se diz uma quantidade de coisas que n√£o prov√©m de quem quer que seja, √© poss√≠vel ao menos encontrar alguma que a sociedade n√£o sabia. Pois √© um grande erro imaginar que n√£o se pode dizer nada que n√£o tenha sido dito. (…) Estraga-se frequentemente aquilo que se deseja muito polir e muito embelezar. O meio de evitar esse inconveniente, tanto para bem escrever como para bem falar, √© ter ainda mais cuidado com a simplicidade do que com a perfei√ß√£o das coisas.
O ar nobre e natural √© o principal atractivo da eloqu√™ncia, e entre a gente da sociedade, o que prov√©m do estudo √© quase sempre mal acolhido. Deve-se at√© mesmo conter o esp√≠rito em muitas ocasi√Ķes, e evitar o que se sabe de maior valor. Admiramos facilmente as coisas que est√£o acima de n√≥s, e que perdemos de vista; mas apenas as amamos raramente, e isso √© o que importa. Os animais buscam apenas os animais da sua esp√©cie, e n√£o seguem os mais perfeitos. √Č a conformidade que torna a conviv√™ncia agrad√°vel, e que faz amar com uma afei√ß√£o rec√≠proca.

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