Textos sobre Iguais

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Textos de iguais escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Instabilidade e Imprevisibilidade do Nosso Comportamento

N√£o deveis estranhar se hoje vedes poltr√£o aquele que ontem vistes t√£o intr√©pido: ou a c√≥lera, ou a necessidade, ou a companhia, ou o vinho, ou o som de uma trombeta, tinham-lhe incutido coragem. N√£o se trata de uma coragem que a raz√£o haja modelado; foram as circunst√Ęncias que lhe deram consist√™ncia; n√£o espanta, pois, que circunst√Ęncias contr√°rias a tenham transformado.
Esta t√£o flex√≠vel varia√ß√£o e estas contradi√ß√Ķes que em n√≥s se v√™em, fizeram com que alguns imaginassem termos duas almas, e que outros supusessem que dois poderes nos acompanham e agitam, cada qual √† sua maneira, um tendendo para o bem, o outro para o mal, j√° que t√£o brutal diversidade n√£o poderia atribuir-se a uma s√≥ entidade.
N√£o somente o vento dos acidentes me agita consoante a direc√ß√£o para que sopra, mas, ademais, eu agito-me e perturbo-me a mim pr√≥prio pela instabilidade da minha postura; e quem, antes do mais, se observar, nunca se achar√° duas vezes no mesmo estado. Confiro √† minha alma ora um rosto ora outro, conforme o lado sobre que a pousar. Se falo de mim de diferentes maneiras √© porque de maneiras diferentes me observo. Toda a sorte de contradi√ß√Ķes se podem encontrar em mim sob algum ponto de vista e sob alguma forma.

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Que um Homem Tenha a Força de ser Sincero

A maior parte das pessoas, seduzidas pelas aparências, deixam-se tomar pelos engodos enganadores de uma baixa e servil complacência; tomam-na por um sinal de uma verdadeira amizade; e confundem, como dizia Pitágoras, o canto das sereias com o das musas. Crêem, digo eu, que produz a amizade, como as pessoas simples pensam que a terra fez os Deuses; em lugar de dizerem que foi a sinceridade que a fez nascer como os Deuses criaram os sinais e as potências celestes.
Sim! √Č de uma for√ßa t√£o bruta que a amizade deve provir, e √© de uma bela origem a que tira de uma virtude que d√° origem a tantas outras. As grandes virtudes, que nascem, se ouso diz√™-lo, na parte da alma mais subida e mais divina, parecem estar encadeadas umas nas outras. Que um homem tenha a for√ßa de ser sincero, e vereis uma certa coragem difundida em todo o seu car√°cter, uma independ√™ncia geral, um imp√©rio sobre si mesmo igual ao exercido sobre os outros, uma alma isenta das nuvens do temor e do terror, um amor pela virtude, um √≥dio pelo v√≠cio, um desprezo pelos que se lhe abandonam. De um tronco t√£o nobre e t√£o belo,

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Cada Indivíduo é Único

A vida √©, intrinsecamente, uma tremenda aceita√ß√£o inconsciente. Aceitou totalmente os seus olhos? Aceitou totalmente o seu corpo? Aceitou totalmente a vida que leva? Esta ideia de aceita√ß√£o total que nos √© imposta torna-nos infelizes, porque est√° continuamente a fazer compara√ß√Ķes. H√° sempre algu√©m que tem uns olhos mais bonitos, um corpo mais forte e que possui mais conhecimentos. E a pessoa sente-se sempre inferior e esta inferioridade vai-nos corroendo o cora√ß√£o. Tornamo-nos cada vez mais infelizes, mas o motivo foi criado desnecessariamente por n√≥s. N√£o h√° necessidade de nos compararmos com os outros, porque n√£o existe ningu√©m com quem nos possamos comparar.
Cada indiv√≠duo √© √ļnico. E seja o que for, √© dessa maneira que a exist√™ncia quer que esse indiv√≠duo seja. Desfrute disso.
Substitua a palavra ¬ęaceita√ß√£o¬Ľ, porque n√£o √© uma palavra muito feliz. Aceita√ß√£o √© uma coisa que tem de se fazer, n√£o h√° alternativa. H√° pessoas mais bonitas, h√° pessoas mais ricas, h√° pessoas mais fortes. E o que √© que podemos fazer? Aceitar.
Eu n√£o ensino a aceita√ß√£o desta maneira. A minha ideia de aceita√ß√£o √© completamente diferente da de todas as religi√Ķes.
Eu proclamo a sua unicidade.
Cada um de n√≥s √© apenas aquela pessoa particular e n√£o existe ningu√©m –

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Sucesso é Realização

O sucesso é a realização de qualquer coisa valiosa para si. Pode ser a paz de espírito e felicidade; união no lar e na família; o gosto pelo trabalho; independência financeira; alegria e satisfação por servir os outros; o desenvolvimento das forças construtivas inerentes ao homem; amar a vida e sentir-se satisfeito com o seu carácter, os seus ideais e os trabalhos realizados.
¬ęTalvez ainda se n√£o tivesse encontrado uma defini√ß√£o de sucesso aplic√°vel a todas as pessoas¬Ľ – escreveu Zu Tavern – ¬ęCada um de n√≥s tem a sua ideia pessoal de sucesso, e essa mesma ideia vai-se modificando com a passagem do tempo. Para alguns, sucesso √© igual a fama; para outros, riqueza em dinheiro; para outros ainda, apenas amor e felicidade.¬Ľ
√Č uma lei da natureza humana realizar, ganjear respeito, ser um trabalhador e construtor activo, deixar o mundo um pouco melhor que o encontrado. O homem foi feito para realizar. A maior satisfa√ß√£o da vida prov√©m da realiza√ß√£o. Isto prova-se pela sua estrutura f√≠sica, mental e moral.
Quando faz qualquer coisa – para os outros ou para o seu pr√≥prio bem – √© feliz e sente-se √ļtil.
O desejo de realizar nasce connosco.

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A Acção Vai Bem sem a Paixão

Fazemos coisas iguais com for√ßas diversas e diferente esfor√ßo de vontade. A ac√ß√£o vai bem sem a paix√£o. Pois quantas pessoas se arriscam diariamente em guerras que n√£o lhes importam, e se sujeitam aos perigos de batalhas cuja perda n√£o lhes perturbar√° o pr√≥ximo sono? Um homem na sua casa, longe desse perigo que n√£o teria ousado encarar, est√° mais interessado no desfecho dessa guerra e tem a alma mais inquieta do que o soldado que p√Ķe nela o seu sangue e a sua vida. Essa impetuosidade e viol√™ncia de desejo mais atrapalha do que auxilia a condu√ß√£o do que empreendemos, enche-nos de acrim√≥nia e suspei√ß√£o contra aqueles com quem tratamos. Nunca conduzimos bem a coisa pela qual somos possu√≠dos e conduzidos.
Quem emprega nisso apenas o seu discernimento e a sua habilidade procede com mais vivacidade: amolda, dobra, difere tudo √† vontade, de acordo com as exig√™ncias das circunst√Ęncias; erra o alvo sem tormento e sem afli√ß√£o, pronto e intacto para uma nova iniciativa; avan√ßa sempre com as r√©deas na m√£o. Naquele que est√° embriagado por essa intensidade violenta e tir√Ęnica vemos necessariamente muita imprud√™ncia e injusti√ßa; a impetuosidade do seu desejo arrebata-o: s√£o movimentos temer√°rios e, se a fortuna n√£o ajudar muito,

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Povos Sem Sorte

As pessoas podem sentir pena de um homem que est√° a passar por tempos dif√≠ceis, mas quando um pa√≠s inteiro √© pobre, o resto do mundo assume que todos os seus cidad√£os s√£o desmiolados, pregui√ßosos, sujos, tolos e desajeitados. Em vez de pena, provocam o riso. √Č tudo uma anedota: a sua cultura, os seus costumes, as suas pr√°ticas. Com o tempo o resto do mundo pode, parte dele, come√ßar a ficar envergonhado por ter pensado dessa maneira, e quando olham em volta e v√™em os imigrantes desse pobre pa√≠s a esfregar o ch√£o e a fazerem os trabalhos pior pagos, eles naturalmente preocupam-se sobre o que poderia acontecer se um dia estes trabalhadores se insurgissem contra eles. Assim, para manter as apar√™ncias agrad√°veis, come√ßam a interessar-se pela cultura dos imigrantes e √†s vezes at√© fingem que pensam neles como se fossem seus iguais.

A Conversa Nunca é Imparcial

√Č espantoso qu√£o f√°cil e rapidamente a homogeneidade ou a heterogeneidade de esp√≠rito e de √Ęnimo entre os homens se faz manifesta na conversa√ß√£o: ela torna-se sens√≠vel √† menor situa√ß√£o. Entre duas pessoas de natureza substancialmente heterog√©nea, que conversam sobre os assuntos mais estranhos e indiferentes, cada frase de uma desagradar√° mais ou menos √† outra, em muitos casos irritar√°. Naturezas homog√©neas, pelo contr√°rio, sentem de imediato, em tudo, uma certa concord√Ęncia, que, tratando-se de grande homogeneidade, logo converge para a harmonia perfeita, para o un√≠ssono.
A partir disso, explica-se, em primeiro lugar, porque os tipos ordin√°rios s√£o t√£o soci√°veis e em qualquer lugar encontram boa companhia com tanta facilidade – gente estimada, am√°vel e honesta. Com os indiv√≠duos incomuns acontece o contr√°rio, e tanto mais quanto mais distintos forem, de tal maneira que, de tempos em tempos, no seu isolamento, podem alegrar-se por terem descoberto em algu√©m, uma fibra, por menor que seja, homog√©nea √† sua! De facto, cada um s√≥ pode ser para outrem o que este √© para ele. Esp√≠ritos verdadeiramente eminentes fazem o seu ninho nas alturas, como as √°guias, solit√°rios. Em segundo lugar, isso explica por que os indiv√≠duos de disposi√ß√£o igual se re√ļnem de imediato,

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Deixa o que Seduz a Multid√£o

Se n√≥s nada fizermos sen√£o de acordo com os ditames da raz√£o, tamb√©m nada evitaremos sen√£o de acordo com os ditames da raz√£o. Se quiseres escutar a raz√£o, eis o que ela te dir√°: deixa de uma vez por todas tudo quanto seduz a multid√£o! Deixa a riqueza, deixa os perigos e os fardos de ser rico; deixa os prazeres, do corpo e do esp√≠rito, que s√≥ servem para amolecer as energias; deixa a ambi√ß√£o que n√£o passa de uma coisa artificialmente empolada, in√ļtil, inconsciente, incapaz de reconhecer limites, t√£o interessada em n√£o ter superiores como em evitar at√© os iguais, sempre torturada pela inveja, e uma inveja ainda por cima dupla. V√™ como de facto √© infeliz quem, objecto de inveja ele pr√≥prio, tem inveja por outros.
N√£o est√°s a ver essas casas dos grandes senhores, as suas portas cheias de clientes que se atropelam na entrada? Para l√° entrares, teria de sujeitar-te a in√ļmeras inj√ļrias, mas mais ainda terias de suportar se entrasses. Passa frente √†s escadarias dos ricos senhores, aos seus √°trios suspensos como terra√ßos: se l√° puseres os p√©s ser√° como estares √† beira de uma escarpa, e de uma escarpa prestes a ruir. Dirige ante os teus passos na via da sapi√™ncia,

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Questionação do Inquestionável

Toda a pergunta implica uma interrogação a um olhar vigilante. Mas a vigília cansa. Nunca porém o soubemos como hoje, porque só hoje verdadeiramente interrogamos Рsó hoje sabemos ser essa a questionação do inquestionável.
Mas reconhecemo-lo precisamente por termos interrogado. Porque ao longo da Hist√≥ria, jamais o homem de facto interrogou, por n√£o saber que interrogava. Esbo√ßada embora h√° muito a quest√£o do fundamental, ela perturbou-se-nos no entusiasmo de lhe responder em positivo ou negativo. Porque a nega√ß√£o n√£o nega, a destrui√ß√£o n√£o destr√≥i, excepto se n√£o h√° mais nada para destruir: at√© l√° constr√≥i ainda – nem que seja o pr√≥prio acto de destruir. Fazer e desfazer, com efeito, s√£o iguais como acto e entusiasmo desse acto. A grande diferen√ßa n√£o √© a que separa um do outro, mas a que os separa a ambos de n√≥s. A grande diferen√ßa √© a que vai da seguran√ßa do falar √† perturba√ß√£o do sil√™ncio; do ¬ęsim¬Ľ ou ¬ęn√£o¬Ľ como limite, ao querer ir al√©m do limite sem mais al√©m para ir. Mas a luz que ilumina, o que iluminou? Que a ci√™ncia te explique o que √© uma simples pedra, explicou por cima do que seria interessante explicar. H√° uma quest√£o ainda,

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O Saber Ajuda em Todas as Actividades

O mero fil√≥sofo √© geralmente uma personalidade pouco admis¬≠s√≠vel no mundo, pois sup√Ķe-se que ele em nada contribui para o be¬≠nef√≠cio ou para o prazer da sociedade, porquanto vive distante de toda comunica√ß√£o com os homens e envolto em princ√≠pios e no√ß√Ķes igualmente distantes de sua compreens√£o. Por outro lado, o mero ig¬≠norante √© ainda mais desprezado, pois n√£o h√° sinal mais seguro de um esp√≠rito grosseiro, numa √©poca e uma na√ß√£o em que as ci√™ncias florescem, do que permanecer inteiramente destitu√≠do de toda esp√©cie de gosto por estes nobres entretenimentos. Sup√Ķe-se que o car√°cter mais perfeito se encontra entre estes dois extremos: conserva igual capacidade e gosto para os livros, para a sociedade e para os neg√≥cios; mant√©m na conversa√ß√£o discernimento e delicadeza que nascem da cultura liter√°ria; nos neg√≥cios, a probidade e a exatid√£o que resultam naturalmente de uma filosofia conveniente. Para difundir e cultivar um car√°cter t√£o aperfei√ßoado, nada pode ser mais √ļtil do que as com¬≠posi√ß√Ķes de estilo e modalidade f√°ceis, que n√£o se afastam em demasia da vida, que n√£o requerem, para ser compreendidas, profunda apli¬≠ca√ß√£o ou retraimento e que devolvem o estudante para o meio de homens plenos de nobres sentimentos e de s√°bios preceitos,

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Os Comunistas

… Passaram bastantes anos desde que ingressei no Partido… Estou contente… Os comunistas constituem uma boa fam√≠lia… T√™m a pele curtida e o cora√ß√£o valoroso… Por todo o lado recebem pauladas… Pauladas exclusivamente para eles… Vivam os espiritistas, os mon√°rquicos, os aberrantes, os criminosos de v√°rios graus… Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos… Viva o c√£o que ladra e que morde, vivam os astr√≥logos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camar√£o, viva toda a gente menos os comunistas… Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que n√£o lavam os p√©s ideol√≥gicos h√° quinhentos anos… Vivam os piolhos das popula√ß√Ķes miser√°veis, viva a for√ßa comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva Andr√© Gide com o seu coribantismo, viva qualquer misticismo… Tudo est√° bem… Todos s√£o her√≥icos… Todos os jornais devem publicar-se… Todos devem publicar-se, menos os comunistas… Todos os pol√≠ticos devem entrar em S√£o Domingos sem algemas… Todos devem festejar a morte do sanguin√°rio Trujillo, menos os que mais duramente o combateram… Viva o Carnaval, os derradeiros dias do Carnaval… H√° disfarces para todos… Disfarces de idealistas crist√£os, disfarces de extrema-esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas… Mas, cuidado, n√£o deixem entrar os comunistas…

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A Nossa Religiosidade

Existe sempre, em cada um de n√≥s, uma religiosidade, mesmo em quem se considera ateu. √Č uma quest√£o civilizacional, que se desvenda em aspectos t√£o prosaicos como acordarmos todos os dias com a certeza de que vamos encontrar o mundo igual ao que deix√°mos no dia anterior. Apesar de nada nos garantir que assim seja, sen√£o a cren√ßa, uma palavra em tudo semelhante √† palavra f√©.

Não abandones um velho amigo, visto que o novo não é igual a ele

Não abandones um velho amigo, visto que o novo não é igual a ele. Vinho novo, amigo novo: deixa-o envelhecer, e o beberás com prazer.

Saber Estar em Sociedade

O homem que n√£o tem mais do que o pr√≥prio valor necessita de ser excelente em grande n√ļmero de virtudes, tal como a pedra que n√£o √© preciosa necessita de ser revestida de metal; mas comummente acontece com a reputa√ß√£o o mesmo que com o lucro, se √© verdadeiro o prov√©rbio que diz: que com leves ganhos se fazem pesadas bolsas, porque estes s√£o frequentes, enquanto os grandes s√≥ chegam de vez em quando; assim, tamb√©m √© verdade que pequenas coisas ganham grande recomenda√ß√£o, porque s√£o de uso e de observa√ß√£o corrente, enquanto a ocasi√£o de manifestar grandes virtudes s√≥ √© dada nos dias-santos. Para adquirir boas maneiras basta apenas n√£o as desdenhar, porque, habituando-nos a observ√°-las nos outros, deixamos confiadamente operar em n√≥s a imita√ß√£o; pois se cuidarmos de as exprimir, perdem logo a sua gra√ßa, a qual √© serem naturais e desafectadas. O comportamento de cada homem deve ser como um verso, no qual todas as s√≠labas s√£o medidas. Como pode um homem ocupar-se de grandes assuntos, se quebra demasiado o seu esp√≠rito com mesquinhas observa√ß√Ķes? N√£o usar completamente de cerim√≥nias √© ensinar aos outros que n√£o as usem tamb√©m, e assim diminuir o respeito pr√≥prio; especialmente, n√£o devem ser omitidas perante estrangeiros e pessoas desconhecidas.

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A Conivência com o Mundo

Nasci dura, her√≥ica, solit√°ria e em p√©. E encontrei meu contraponto na paisagem sem pitoresco e sem beleza. A fei√ļra √© o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual. E desafio a morte. Eu ‚Äď eu sou a minha pr√≥pria morte. E ningu√©m vai mais longe. O que h√° de b√°rbaro em mim procura o b√°rbaro e cruel fora de mim. Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam √†s chamas da fogueira. Sou uma √°rvore que arde com duro prazer. S√≥ uma do√ßura me possui: a coniv√™ncia com o mundo. Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. √Č o m√≠nimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrif√≠cio da noite.

Controlar o Desejo de Posse

√Č dif√≠cil, sen√£o imposs√≠vel, determinar os limites dos nossos desejos razo√°veis em rela√ß√£o √† posse. Pois o con¬≠tentamento de cada pessoa, a esse respeito, n√£o repousa numa quantidade absoluta, mas meramente relativa, a sa¬≠ber, na rela√ß√£o entre as suas pretens√Ķes e a sua posse. Por isso, esta √ļltima, considerada nela mesma, √© t√£o vazia de sen¬≠tido quanto o numerador de uma fra√ß√£o sem denomina¬≠dor. Um homem que nunca alimentou a aspira√ß√£o a cer¬≠tos bens, n√£o sente de modo algum a sua falta e est√° com¬≠pletamente satisfeito sem eles; enquanto um outro, que possui cem vezes mais do que o primeiro, sente-se infe¬≠liz, porque lhe falta uma s√≥ coisa √† qual aspira.
A esse respeito, cada um tem um horizonte pr√≥prio daquilo que pode alcan√ßar, e as suas pretens√Ķes v√£o at√© onde vai esse horizonte. Quando algum objecto se apresenta a ele nos limites desse horizonte, de modo que possa ter confian¬≠√ßa em alcan√ß√°-lo, sente-se feliz; pelo contr√°rio, sente-se in¬≠feliz quando dificuldades advindas o privam de seme¬≠lhante perspectiva. Aquilo que reside al√©m desse hori¬≠zonte n√£o faz efeito sobre ele. Eis por que as grandes posses do rico n√£o inquietam o pobre, e, por outro lado, o muito que j√° possui,

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Receita para o Sucesso e Boa Fama

Nunca te lances em v√°rias empresas ao mesmo tempo: n√£o ser√°s admirado por te dispersares. Mais vale ser bem sucedido numa √ļnica, mas brilhante. Falo por experi√™ncia.
No início da tua carreira, não te poupes nem a longas horas de reflexão nem aos mais rudes esforços. Também não tomes iniciativas, se não tiveres a certeza de ter bom êxito. Tão brilhante quando te estreias como em qualquer outra coisa: uma vez conquistada a fama, mesmo os teus erros serão títulos de glória.
Quando estiveres assoberbado por um assunto que te compete, recusa completamente tudo o que possa distrair a tua aten√ß√£o. De facto, se se perceber que faltaste – ainda que minimamente – aos deveres do teu cargo, imediatamente isso te ser√° apontado. E, n√£o obstante tudo o mais que possas ter feito, n√£o obstante o fardo das preocupa√ß√Ķes que te oprimiam, a tua falha ser√° imputada a essa tarefa suplementar.
Quando te lan√ßas numa empresa, nunca te associes a uma pessoa mais competente ou mais experiente que tu. De igual modo, quando visitas algu√©m, n√£o te fa√ßas acompanhar por um terceiro que tenha melhores rela√ß√Ķes com o anfitri√£o que tu.
Se tiveres de deixar um cargo,

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A Doutrina Perfeita

Muitas vezes as pessoas dirigem-se a mim, dizendo: ¬ęvoc√™, que √© independente¬Ľ. N√£o sou assim; continuamente devo ceder a pequenas f√≥rmulas sofisticadas que corrompem, que d√£o um sentido inverso √† nossa orienta√ß√£o, que fazem com que a transpar√™ncia do cora√ß√£o se turve. Continuamente a nossa inseguran√ßa, o ego√≠smo, o esp√≠rito legalista, a mesquinhez, a vaidade, toda a esp√©cie de circunst√Ęncias que tomam o partido da vida como desfrute √† sensa√ß√£o se sobrep√Ķem √† luz interior. S√≥ a f√© √© independente. S√≥ ela est√° para al√©m do bem e do mal.

Estar para al√©m do bem e do mal aplica-se a Cristo. ¬ęPerdoa ao teu inimigo, oferece a outra face¬Ľ – disse Ele. N√£o √© um conselho para humilhados, n√£o √© um preceito para m√°rtires. Nisso aparece Cristo mal interpretado, a ponto de o cristianismo ter sido considerado uma religi√£o de escravos. Mas esquecemos que Cristo, como Homem, teve a experi√™ncia-limite, uma vis√£o do inconsciente absoluto, o que quer dizer que a sua consci√™ncia foi saturada, para al√©m do bem e do mal. Esse homem que perdoa ao seu inimigo n√£o o faz por contrariedade do seu instinto, por repara√ß√£o dos seus pecados; mas porque n√£o pode proceder de outra maneira.

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Teoria e Pr√°tica

Toda a teoria deve ser feita para poder ser posta em pr√°tica, e toda a pr√°tica deve obedecer a uma teoria. S√≥ os esp√≠ritos superficiais desligam a teoria da pr√°tica, n√£o olhando a que a teoria n√£o √© sen√£o uma teoria da pr√°tica, e a pr√°tica n√£o √© sen√£o a pr√°tica de uma teoria. Quem n√£o sabe nada dum assunto, e consegue alguma coisa nele por sorte ou acaso, chama ¬ęte√≥rico¬Ľ a quem sabe mais, e, por igual acaso, consegue menos. Quem sabe, mas n√£o sabe aplicar – isto √©, quem afinal n√£o sabe, porque n√£o saber aplicar √© uma maneira de n√£o saber -, tem rancor a quem aplica por instinto, isto √©, sem saber que realmente sabe. Mas, em ambos os casos, para o homem s√£o de esp√≠rito e equilibrado de intelig√™ncia, h√° uma separa√ß√£o abusiva. Na vida superior a teoria e a pr√°tica completam-se. Foram feitas uma para a outra.

Femeeiro L√≠rico e Femeeiro √Čpico

Os homens que têm a mania das mulheres dividem-se facilmente em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a ideia que eles próprios têm da mulher tal como ela lhe aparece em sonhos, o que é algo de subjectivo e sempre igual. Aos outros, move-os o desejo de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino objectivo.
A obsess√£o dos primeiros √© uma obsess√£o l√≠rica; o que procuram nas mulheres n√£o √© sen√£o eles pr√≥prios, n√£o √© sen√£o o seu pr√≥prio ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desilus√£o, porque, como sabemos, o ideal √© precisamente o que nunca se encontra. Como a desilus√£o que os faz andar de mulher em mulher d√°, ao mesmo tempo, uma esp√©cie de desculpa melodram√°tica √† sua inconst√Ęncia, n√£o poucos cora√ß√Ķes sens√≠veis acham comovente a sua perseverante poligamia.
A outra obsessão é uma obsessão épica e as mulheres não vêem nela nada de comovente: como o homem não projecta nas mulheres um ideal subjecitvo, tudo tem interesse e nada pode desiludi-lo. E esta impossibilidade de desilusão encerra em si algo de escandaloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do femeeiro épico não tem remissão (porque não é resgatada pela desilusão).

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