Louco por ti

Frases, poemas e pensamentos sobre as loucuras feitas por amor

    Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam, a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.

    Ser Escritor

    E, então, porque não podemos viver de outra maneira, escrevemos. E cai-nos o cabelo e apodrecem-nos os dentes, como dizia Flannery O’Connor.

    E somos uns chatos. E somos maus maridos e maus filhos e maus amigos. E sentimos culpa, e sentimo-nos indignos de estima, e continuamos, mesmo assim, a n√£o responder quando falam connosco.

    E n√£o telefonamos nos anos, nem aparecemos nos churrascos, nem vamos ao caf√©. E, se vamos, a √ļnica coisa de que falamos √© disso: do livro. E tudo aquilo sobre que se conversa pode servir ao livro, caso contr√°rio n√£o nos importa.

    E somos os maiores quando um par√°grafo nos sai bem, e ficamos de rastos quando n√£o encontramos um verbo. E sabemos que tem de ser mesmo assim, porque se n√£o for o romance fica uma merda. Mas sentimos culpa na mesma.

    E não pagamos as contas, e esquecemo-nos de pedir a garrafa do gás, e calçamos meias de pares diferentes. E de repente queremos fumar dois maços de cigarros e beber meia garrafa de uísque, sozinhos no jardim, a olhar para a noite e a chorar.

    E temos de fazer um esforço para mudar de roupa,

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    Dispers√£o

    Perdi-me dentro de mim
    Porque eu era labirinto,
    E hoje, quando me sinto,
    √Č com saudades de mim.

    Passei pela minha vida
    Um astro doido a sonhar.
    Na √Ęnsia de ultrapassar,
    Nem dei pela minha vida…

    Para mim é sempre ontem,
    N√£o tenho amanh√£ nem hoje:
    O tempo que aos outros foge
    Cai sobre mim feito ontem.

    (O Domingo de Paris
    Lembra-me o desaparecido
    Que sentia comovido
    Os Domingos de Paris:

    Porque um domingo é familia,
    √Č bem-estar, √© singeleza,
    E os que olham a beleza
    Não têm bem-estar nem familia).

    O pobre mo√ßo das √Ęnsias…
    Tu, sim, tu eras alguém!
    E foi por isso também
    Que te abismaste nas √Ęnsias.

    A grande ave dourada
    Bateu asas para os céus,
    Mas fechou-as saciada
    Ao ver que ganhava os céus.

    Como se chora um amante,
    Assim me choro a mim mesmo:
    Eu fui amante inconstante
    Que se traíu a si mesmo.

    Não sinto o espaço que encerro
    Nem as linhas que projecto:
    Se me olho a um espelho,

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    O Belo Retrato do S√°bio

    Voltemos √† feliz esp√©cie dos loucos. Passada a vida alegremente, sem medo ou pressentimento da morte, emigram directamente para os Campo El√≠sios e v√£o deleitar com as suas fac√©cias as almas ociosas e pias. Comparai agora ao destino do louco o de um s√°bio √† vossa escolha. Citai-me um modelo de sabedoria que tenha gasto a sua inf√Ęncia e a juventude no estudo das ci√™ncias e que tenha perdido o mais belo tempo da sua vida em vig√≠lias, cuidados e trabalhos sem fim e que se tenha privado, para o resto da sua vida, de todos os prazeres. Vereis que foi sempre pobre, miser√°vel, triste, t√©trico, severo e duro para consigo mesmo, insuport√°vel e desagrad√°vel para com os outros, p√°lido, magro, servil, envelhecido antes do tempo, calvo antes da velhice, votado a uma morte prematura. Que importa, ali√°s, que morra, se nunca chegou a viver! Tal √© o belo retrato deste s√°bio.

    Qual √© a sua estrada, homem? – a estrada do m√≠stico, a estrada do louco, a estrada do arco-√≠ris, a estrada dos peixes, qualquer estrada… H√° sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunst√Ęncia. Como, onde, por qu√™?