Passagens de Henry Miller

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Frases, pensamentos e outras passagens de Henry Miller para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O Sexo Como Factor de Génio

O facto de o sexo desempenhar um maior ou menor papel na vida de algu√©m parece relativamente irrelevante. Algumas das maiores realiza√ß√Ķes de que temos not√≠cia foram empreendidas por indiv√≠duos cuja vida sexual foi reduzida ou nula. Em contrapartida, sabemos pela biografia de certos artistas – figuras de primeira grandeza – que as suas obras imponentes nunca teriam sido realizadas se eles n√£o tivessem vivido mergulhados em sexo. No caso de alguns poucos, os per√≠odos de criatividade excepcional coincidiram com per√≠odos de extrema licen√ßa sexual. Nem a abstin√™ncia nem a licen√ßa explicam seja o que for.
No campo do sexo como noutros campos, costumamos referir-nos a uma norma – mas a norma indica apenas o que √© estatisticamente verdade para a grande massa dos homens e das mulheres. Aquilo que pode ser normal, razo√°vel, salutar, para a grande maioria, n√£o nos fornece um crit√©rio de comportamento no caso do indiv√≠duo excepcional. O homem de g√©nio, quer pela sua obra, quer pelo seu exemplo pessoal, parece estar sempre a proclamar a verdade segundo a qual cada um √© a sua pr√≥pria lei, e o caminho para a realiza√ß√£o passa pelo reconhecimento e pela compreens√£o do facto de que todos somos √ļnicos.

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Ah, a Moral!

Ah, a palavra ¬ęmoral¬Ľ! Sempre que aparece, penso nos crimes que foram cometidos em seu nome. As confus√Ķes que este termo engendrou abarcam quase toda a hist√≥ria das persegui√ß√Ķes movidas pelo homem ao seu semelhante. Para al√©m do facto de n√£o existir apenas uma moral, mas muitas, √© evidente que em todos os pa√≠ses, seja qual for a moral dominante, h√° uma moral para o tempo de paz e uma moral para a guerra. Em tempo de guerra tudo √© permitido, tudo √© perdoado. Ou seja, tudo o que de abomin√°vel e infame o lado vencedor praticou. Os vencidos, que servem sempre de bode expiat√≥rio, ¬ęn√£o t√™m moral¬Ľ.
Pensar-se-√° que, se realmente glorific√°ssemos a vida e n√£o a morte, se d√©ssemos valor √† cria√ß√£o e n√£o √† destrui√ß√£o, se acredit√°ssemos na fecundidade e n√£o na impot√™ncia, a tarefa suprema em que nos empenhar√≠amos seria a da elimina√ß√£o da guerra. Pensar-se-√° que, fartos de carnificina, os homens se voltariam contra os assassinos, ou seja, os homens que planeiam a guerra, os homens que decidem das modalidades da arte da guerra, os homens que dirigem a ind√ļstria de material de guerra, material que hoje se tornou indescrivelmente diab√≥lico. Digo ¬ęassassinos¬Ľ, porque em √ļltima an√°lise esses homens n√£o s√£o outra coisa.

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A √ļnica disciplina que a vida imp√Ķe, se formos capazes de a assumir, √© aceitar a vida sem a questionar.

Trame, planeje, calcule, postule, o quanto quiser. Sempre existirão surpresas à sua frente. Conte com isso!

Desenvolva o interesse pela vida, como voc√™ a v√™, as pessoas, coisas, literatura, m√ļsica, o mundo √© t√£o rico, simplesmente pulsando com seus tesouros, com as almas das pessoas bonitas e interessantes.

As Restri√ß√Ķes dos Guardi√Ķes Morais

Parece-me a mim que o pressuposto em que se baseiam as ac√ß√Ķes restritivas dos nossos guardi√Ķes morais √© simplesmente o de que o acesso √† literatura proibida nos pode levar a comportar-se como animais. Mas pensar assim √© insultar o reino animal. E, ao mesmo tempo, transformar paix√£o, o maior atributo do homem, numa caricatura. A gama da paix√£o humana √© quase ilimitada, atingindo alturas e profundidades impens√°veis. Precisamente por abarcar tais extremos √© a paix√£o a aut√™ntica pedra de toque da nossa humanidade, e talvez tamb√©m da nossa divindade. De todas as criaturas da terra, o homem √© a √ļnica de comportamento imprevis√≠vel. H√° em n√≥s alguma coisa de toda a cria√ß√£o. Quando nos √© negada a menor parcela de liberdade, ficamos espiritualmente limitados e mutilados. √Č a plena consci√™ncia da nossa natureza m√ļltipla e a integra√ß√£o da mir√≠ade de elementos de que somos compostos que nos faz completos, que nos faz humanos. A religi√£o faz de n√≥s santos, ou apenas bons cidad√£os, mas o que faz de n√≥s homens, o que nos faz humanos at√© ao √Ęmago, √© a liberdade. √Č uma palavra terr√≠vel, a liberdade, para aqueles que viveram toda a vida mentalmente algemados.

Liberdade Sofrida

Em tempos pensei que tinha sido ferido como homem algum jamais o fora. Por sentir isso, jurei escrever este livro. Mas muito antes de come√ßar a escrev√™-lo a ferida cicatrizou. Como jurara cumprir a minha tarefa, reabri a horr√≠vel ferida. Deixem-me explicar por outras palavras. Talvez ao abrir a ferida, a minha pr√≥pria ferida, tenha fechado outras feridas, feridas de outras pessoas. Morre qualquer coisa, floresce qualquer coisa. Sofrer na ignor√Ęncia √© horr√≠vel. Sofrer deliberadamente, para compreender a natureza do sofrimento e aboli-lo para sempre, √© muito diferente. O Buda, como sabemos, teve toda a vida um pensamento fixo no esp√≠rito: eliminar o sofrimento humano.
Sofrer é desnecessário. Mas temos de sofrer para compreender que é assim.
Al√©m disso, √© s√≥ ent√£o que o verdadeiro significado do sofrimento humano se torna claro. No derradeiro momento desesperado – quando n√£o podemos sofrer mais! – acontece qualquer coisa que tem a natureza de um milagre. A grande ferida aberta pela qual se escoava o sangue da vida fecha-se, o organismo desabrocha como uma rosa. Somos ¬ęlivres¬Ľ, finalmente (…). N√£o s√£o as l√°grimas que mant√™m viva a √°rvore da vida, mas sim o conhecimento de que a liberdade √© real e eterna.

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Não Existe Início Nem Fim da Civilização

√Č minha convic√ß√£o que aquilo a que decidimos chamar civiliza√ß√£o n√£o come√ßou em nenhum desses pontos do tempo que os nossos eruditos, com o seu saber e intelig√™ncia limitados, fixam como origens. N√£o vejo in√≠cio nem fim em lugar nenhum. Vejo a vida e a morte, avan√ßando lado a lado, como g√©meos unidos pela cintura. Vejo que em todos os estados de evolu√ß√£o ou de involu√ß√£o, independentemente da paz ou da guerra, da ignor√£ncia ou da cultura, da idolatria ou da espiritualidade, h√° apenas e sempre a luta do indiv√≠duo, o seu triunfo ou derrota, a sua emancipa√ß√£o ou servid√£o, a sua liberta√ß√£o ou exterm√≠nio. Essa luta, de natureza c√≥smica, desafia toda a an√°lise, quer cient√≠fica, quer metaf√≠sica, religiosa ou hist√≥rica.

A Irrelev√Ęncia da Escrita Controversa

Suponhamos que amanh√£, como consequ√™ncia de terem lido Henri Miller, todas as pessoas come√ßavam a usar uma linguagem livre, uma linguagem de sarjeta, se quiserem, e a agir de acordo com as suas cren√ßas e convic√ß√Ķes. E ent√£o ? A minha resposta √© que, acontecesse o que acontecesse, seria como nada tivesse ocorrido, nada, insisto, se o compararmos com os efeitos da explos√£o de uma √ļnica bomba at√≥mica. E isto √©, confesso, a coisa mais triste que um indiv√≠duo criador como eu pode admitir. √Č minha convic√ß√£o que estamos hoje a atravessar um per√≠odo a que se poderia chamar de ¬ęinsensibilidade c√≥smica¬Ľ, um per√≠odo em que Deus parece, mais do que nunca, ausente do mundo, e o homem se v√™ condenado a enfrentar o destino que para si pr√≥prio criou. Num momento como este, a quest√£o de saber se um homem √© ou n√£o culpado de usar de uma linguagem obscena em livros impressos parece-me perfeitamente inconsequente. √Č quase como se eu, ao atravessar um prado, descobrisse uma erva coberta de esterco e, curvando-me para a ervilha obscura, lhe dissesse em tom de admoesta√ß√£o: ¬ę

Tudo aquilo que não podemos incluir dentro da moldura estreita de nossa compreensão, nós rejeitamos.

O homem que confessa os seus pecados, os seus crimes ou os seus erros nunca é o mesmo que os cometeu.

O verdadeiro líder não tem necessidade de liderar Рcontenta-se em apontar o caminho.

Envolvê-la nos Meus Braços

Tr√™s minutos depois de voc√™ ter partido. N√£o, n√£o consigo reprimi-lo. Digo-lhe o que j√° sabe: amo-a. √Č isto que destru√≠ vezes sem conta. Em Dijon, escrevi-lhe cartas longas e apaixonadas (se voc√™ tivesse permanecido na Su√≠√ßa ter-lhas-ia enviado), mas como posso eu envi√°-las para Louveciennes?

Anais, n√£o posso dizer muito agora – encontro-me demasiado alterado. Quase n√£o consegui conversar consigo, porque estava continuamente prestes a levantar-me e a envolv√™-la nos meus bra√ßos. Tinha esperan√ßas de que voc√™ n√£o tivesse de ir jantar a casa… De que pud√©ssemos ir a algum lado jantar e dan√ßar. Voc√™ dan√ßa… J√° sonhei com isso vezes sem conta… Eu a dan√ßar consigo, ou voc√™ a dan√ßar sozinha com a cabe√ßa inclinada para tr√°s e os olhos semicerrados. Algum dia tem de dan√ßar para mim dessa maneira. Esse √© o seu Eu espanhol, o tal sangue andaluz destilado.

Estou sentado no seu lugar e j√° levei aos l√°bios o copo onde voc√™ bebeu. Mas n√£o sei o que dizer. O que voc√™ me leu p√īs-me a cabe√ßa √†s voltas. A sua linguagem √© ainda mais avassaladora do que a minha. Comparado consigo, n√£o passo de um petiz… porque, quando o √ļtero que h√° em si fala,

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