Passagens sobre Espera

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Frases sobre espera, poemas sobre espera e outras passagens sobre espera para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Inf√Ęncia

Passa lento o tempo da escola e a sua ang√ļstia
com esperas, com infinitas e monótonas matérias.
Oh solid√£o, oh perda de tempo t√£o pesada…
E então, à saída, as ruas cintilam e ressoam
e nas praças as fontes jorram,
e nos jardins √© t√£o vasto o mundo ‚ÄĒ.
E atravessar tudo isto em cal√ß√Ķes,
diferente de como os outros v√£o e foram ‚ÄĒ:
Oh tempo estranho, oh perda de tempo,
oh solid√£o.

E olhar tudo isto √† dist√Ęncia:
homens e mulheres; homens, homens, mulheres
e crian√ßas, t√£o diferentes e coloridas ‚ÄĒ;
e ent√£o uma casa, e de vez em quando um c√£o
e o medo surdo trocando-se pela confiança:
Oh tristeza sem sentido, oh sonho, oh medo,
Oh infind√°vel abismo.

E então jogar: à bola e ao arco,
num jardim que manso se desvanece
e por vezes tropeçar nos crescidos,
cego e embrutecido na pressa de correr e agarrar,
mas ao entardecer, com pequenos passos tímidos,
voltar silencioso a casa, a m√£o agarrada com for√ßa ‚ÄĒ:
Oh compreens√£o cada vez mais fugaz,
Oh ang√ļstia,

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Uma Mulher sem Areia Nenhuma

Tenho o santo horror da frieza calculada, da boa educa√ß√£o, do prudente ju√≠zo duma mulher. Aos homens pertence tudo isso, e a mulher deve ser muito feminina, muito espont√Ęnea, muito cheia de pequeninos nadas que encantem e que embalem. Meu amigo, se esperas ter uma mulher sem areia nenhuma, morres de aborrecimento e de frio ao p√© dela e n√£o ser√° com certeza ao p√© de mim… Comigo h√°s-de ter sempre que pensar e que fazer. H√°s-de rir das minhas tolices, h√°s-de ralhar quando elas passarem a disparates (h√£o-de ser pequeninos…) e h√°s-de gostar mais de mim assim, do que se eu fosse a pr√≥pria deusa Minerva com todo o ju√≠zo que todos os deuses lhe deram.

Nunca se Escreve para Si Mesmo

O escritor não prevê nem conjectura: projecta. Acontece por vezes que espera por si mesmo, que espera pela inspiração, como se diz. Mas não se espera por si mesmo como se espera pelos outros; se hesita, sabe que o futuro não está feito, que é ele próprio que o vai fazer, e, se não sabe ainda o que acontecerá ao herói, isto quer simplesmente dizer que não pensou nisso, que não decidiu nada; então, o futuro é uma página branca, ao passo que o futuro do leitor são as duzentas páginas sobrecarregadas de palavras que o separam do fim.

Assim, o escritor só encontra por toda a parte o seu saber, a sua vontade, os seus projectos, em resumo, ele mesmo; atinge apenas a sua própria subjectividade; o objecto que cria está fora de alcance; não o cria para ele. Se relê o que escreveu, já é demasiado tarde; a sua frase nunca será a seus olhos exactamente uma coisa. Vai até aos limites do subjectivo, mas sem o transpor; aprecia o efeito dum traço, duma máxima, dum adjectivo bem colocado; mas é o efeito que produzirão nos outros; pode avaliá-lo, mas não senti-lo.
Proust nunca descobriu a homossexualidade de Charlus,

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Saber Sair na Hora Certa

N√£o esperar at√© ser sol poente. √Č m√°xima do cordo deixar as coisas antes que elas o deixem. Que se saiba converter em triunfo o pr√≥prio fenecer, pois √†s vezes mesmo o sol, ainda brilhante, costuma retirar-se numa nuvem para que n√£o o vejamos cair, e nos deixa suspensos, n√£o sabendo se ele se p√īs ou n√£o. Furte-se aos ocasos para n√£o rebentar de desdouros; n√£o espere que lhe voltem as costas, porque o sepultar√£o vivo para o sentimento e morto para a estima. O atilado dispensa a tempo o cavalo em que corre, e n√£o espera que, caindo, fa√ßa erguer-se o riso no meio da corrida; que a beleza quebre o espelho com tempo e com ast√ļcia, e n√£o com impaci√™ncia depois, ao ver o seu desengano.

Usar as Palavras dos Outros com Cuidado

Um escritor exprime-se em palavras que j√° foram usadas porque elas exprimem melhor a sua ideia do que ele mesmo o pode fazer, ou porque s√£o belas e espirituosas, ou porque espera que elas toquem uma corda de associa√ß√£o na mente do seu leitor, ou porque deseja mostrar que √© culto e lido. As cita√ß√Ķes devidas a este √ļltimo motivo falham invariavelmente: o leitor inteligente descobre-o e passa a desprezar o autor; o leitor menos avisado talvez fique impressionado, mas ao mesmo tempo sente repulsa, pois as cita√ß√Ķes pretensiosas s√£o o caminho mais seguro para o t√©dio.

Henri Watson Fowler (1858-1933) e F.G.

Recordação

E tu esperas, aguardas a √ļnica coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordin√°rio,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e j√° perdidas.

E ent√£o de s√ļbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti est√£o
ang√ļstia e forma e ora√ß√£o
de certo ano que passou.

Tradução de Maria João Costa Pereira

Aos que a felicidade √Č sol, vir√° a noite. Mas ao que nada espera Tudo que vem √© grato.

A Vida é uma Eternidade

Sabemos que vamos morrer e que estaremos mortos tanto tempo como n√£o estivemos √† espera para nascer. √Č banal dizer-se que a vida √© um intervalo ou uma passagem ou um instante. N√£o √©. A vida √© uma excep√ß√£o generosamente comprida √† regra nem triste nem alegre da inexist√™ncia.
A vida est√° para o nada como o planeta Terra est√° para o sistema solar a que pertence. Sim, pode haver vida noutros planetas. Mas ser√° uma vida que vale a pena viver? Ou que apenas vale a pena estudar?

Sabemos que temos muito tempo de vida: muito mais do que precisamos. O direito à preguiça e à procrastinação está consagrado na nossa vida e faz logo, à partida, parte dela.
Sabemos que somos obrigados a pensar, errada e repetidamente, que o tempo em que estamos vivos √© importante. E que as nossas no√ß√Ķes de decl√≠nio (“dantes √© que era bom; os jovens de hoje n√£o sabem o que perdem”) s√£o lugares-comuns de todas as gera√ß√Ķes antes de n√≥s.

Sabemos que não há ninguém que não envelheça, desde o bebé que nasceu neste segundo até ao velho que, por ter morrido agora mesmo, deixou de envelhecer.

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O Eterno é a Própria Vida

Segundo a express√£o de Lavelle, a morte d√° ¬ęa todos os acontecimentos que a precederam esta marca do absoluto que nunca possuiriam se n√£o viessem a interromper-se¬Ľ. O absoluto habita em cada uma das nossas empresas, na medida em que cada uma se realiza de uma vez para sempre e n√£o ser√° nunca recome√ßada. Entra na nossa vida atrav√©s da sua pr√≥pria temporalidade. Assim o eterno torna-se fluido e reflui do fim ao cora√ß√£o da vida. A morte j√° n√£o √© a verdade da vida, a vida j√° n√£o √© a espera do momento em que a nossa ess√™ncia ser√° alterada. O que h√° sempre de incoactivo, de incompleto e de constrangedor no presente n√£o √© j√° um sinal de menor realidade.
Mas ent√£o a verdade de um ser j√° n√£o √© aquilo em que se tornou no fim ou a sua ess√™ncia, mas o seu devir activo ou a sua exist√™ncia. E se, como Lavelle dizia em tempos, nos julgamos mais perto dos mortos que am√°mos do que dos vivos, √© porque j√° nos n√£o p√Ķem em d√ļvida e daqui para o futuro podemos sonh√°-los a nosso gosto. Esta piedade √© quase √≠mpia. A √ļnica recorda√ß√£o que lhes diz respeito √© a que se refere ao uso que faziam de si pr√≥prios e do seu mundo,

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A Profundidade do Ser

E de vez em quando descer √† gravidade de mim, √† profundidade do meu ser. E verificar ent√£o que tudo se transfigura. Que √© que significa este garatujar quase gratuito, este riso superficial, todo este modo de ser menor? A melancolia profunda, t√£o de dentro que ela se iguala √† alegria sem medida. Espa√ßo rarefeito de n√≥s, √© o lugar da grandeza do homem, do que √© nele fundamental, o lugar do aparecimento de Deus. Mas Deus n√£o me aparece – aparece apenas a inunda√ß√£o que me vem da infinita beatitude, da grandeza e do assombro. N√≥s vivemos habitualmente √† superf√≠cie de n√≥s, ligados ao que √© da vida imediata, enredados nas mil futilidades com que se nos enchem os dias. Mas de vez em quando, o abismo da natureza, um livro ou uma m√ļsica que dos abismos vem, abre-nos aos p√©s um precip√≠cio hiante e tudo se dilui num sentir que est√° antes e abaixo e mais longe que esse tudo. H√° uma harmonia que em n√≥s espera por um som, um acorde, uma palavra, para imediatamente se organizar e envolver-nos. E a√≠ somos verdade para a infinidade dos s√©culos.

Conhecimento do Amor

Amor, como o compreendo agora, é mais
ren√ļncia que desejo. Outrora hostil,
agressivo, hoje s√ļplica, murm√ļrio
íntimo, cinzas em silêncio, amor,
à morte assemelhando-se, besouro
em agonia, dor da perda, o sonho
estraçalhado, renunciar, renu-
nciar sempre, e sem espera, ao corpo amado.

A vida me consente essa amargura
e é preciso vivê-la sem demora,
abrir os olhos, aceitar a sombra,
meditar sem rancor a decep√ß√£o ‚ÄĒ
instante em que a mulher se distancia
e a voz ao telefone ri tranquila
anunciando a partida: outros braços,
agora, amor, mesclado de impotência
e irris√£o, l√°grimas que n√£o se mostram.

Toda ren√ļncia comp√Ķe jogo amargo
de desespero e morte. Renunciar,
ainda que de joelhos, deitado, o corpo
ansiando pelo teu amor se fira,
e o coração, tumulto, empalideça
e nada reste enfim que a vida mesma,
percorrida com calma e indiferença.

Assim, amor, te compreendo agora:
‚ÄĒ devo√ß√£o malquerida a toda hora.

O movimento dos corpos parecia desenrolar uma longa película-cinematográfica, projetando sobre o rosto, como que sobre a tela de um televisor, um filme cativante cheio de perturbação, de espera, de explosão, de dor, de gritos, de emoção e de raiva.

O Encanto da Vida

Todas as noites acordado at√© desoras, √† espera da √ļltima cena de pancadaria num jogo de futebol, do √ļltimo insulto num debate parlamentar, do √ļltimo discurso demag√≥gico num com√≠cio eleitoral, da √ļltima pirueta dum cabotino entrevistado, da √ļltima farsa no palco internacional. Crucifica√ß√Ķes masoquistas, que a prud√™ncia desaconselha e a imprud√™ncia imp√Ķe. Vou deste mundo farto de o conhecer e faminto de o descobrir.

Mas n√£o h√° perspic√°cia, nem const√Ęncia de aten√ß√£o capazes de lhe prefigurar os imprevistos. O que acontece hoje excede sempre o que sucedeu ontem. A viol√™ncia, o facciosismo, a ambi√ß√£o de poder, a crueldade e o exibicionismo n√£o t√™m limites. Felizmente que a abnega√ß√£o, a generosidade e o altru√≠smo tamb√©m n√£o. E o encanto da vida √© precisamente esse: nenhum excesso nela ser previs√≠vel. Nem no mal nem no bem. E n√£o me canso de o verificar, de surpresa em surpresa, √† luz dos acontecimentos.

Quando julgo que estou devidamente informado sobre o amor, sobre o ódio, sobre a santidade, sobre a perfídia, sobre as virtudes e os defeitos humanos, acabo por concluir que soletro ainda o á-bê-cê da realidade. Cabeçudo como sou, teimo na aprendizagem. Hoje fizeram-me a revelação surpreendente de que um avarento meu conhecido,

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Abertura

Eu abria o r√°dio
eu abria o aparelho
era uma flor branca que eu abria
de sopro
eu soprava e eu abria a flor
A flor tocava m√ļsica com as v√°rias m√£os
das pétalas
A flor tocava uma simbolização dum tempo
caído podre de espera de cor branca
O tempo espera-se em pintar-se
de branco
para cegar uma cor
mas a minha flor abria-se de
pétalas
e as v√°rias m√£os escreviam um
piano por cima de teclas gr√£os v√°rios
seguidos uns aos outros.
Era assim uma harmonia
entre flor
tempo a querer-se de cor branca em cegar
era assim umas teclas cantarem filhos de gr√£os
por dentro dos gr√£os mesmos
unidos que eram em dimens√£o de lado
era assim um cantar-me o tempo todo
n√£o era assim um cantar-me o tempo todo
era assim um pairar-me
o tempo todo em Nijinsky
o tempo em um fazer-me ballet pelo quarto inteiro
quando eu tinha aberta a cabeça que imagino
da m√ļsica
Abria a pétala favorita do harém
onde no centro um sult√£o da flor
no centro que era o amarelo da flor
abria a pétala favorita da flor
e ent√£o
e era ent√£o que me soava dentro da manh√£
do quarto
uma m√ļsica desfibrada de tempo ser√īdio
como se tudo me fosse em longe
como se a m√ļsica levasse longe
o céu.

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Estoicismo

(A Manoel Duarte de Almeida)

Tu que não crês, nem amas, nem esperas,
Espírito de eterna negação,
Teu hálito gelou-me o coração
E destro√ßou-me da alma as primaveras…

Atravessando regi√Ķes austeras,
Cheias de noite e cava escurid√£o,
Como n’um sonho mau, s√≥ oi√ßo um n√£o,
Que eternamente ecoa entre as esferas…

‚ÄĒ Porque suspiras, porque te lamentas,
Cobarde coração? Debalde intentas
Op√īr √° Sorte a queixa do ego√≠smo…

Deixa aos tímidos, deixa aos sonhadores
A esperan√ßa v√£, seus v√£os fulgores…
Sabe tu encarar sereno o abismo!

N√£o H√° Amor Suficiente

N√£o h√° amor
(N√£o, n√£o o suficiente)
Vivemos sem auxílio,
Morremos sozinhos.

O recurso à comiseração
Ressoa no vazio,
Os nossos corpos est√£o estropiados
Mas a carne continua √°vida.

Desaparecidas as promessas
De um corpo adolescente,
Entramos na velhice
Onde nada nos espera

Resta a memória vã
Dos dias desaparecidos,
Um sobressalto de avers√£o
E o desespero despido.

Soneto das Metamorfoses

A Edmundo Morais

Carolina, a cansada, fez-se espera
e nunca se entregou ao mar antigo.
N√£o por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada que ent√£o era,
despiu, humildemente, as vestes pretas
e incendiou navios e corvetas
j√° cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume
escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife:
abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.