Sonetos sobre Tarde

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Sonetos de tarde escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Soneto III

A D. Fern√£o Martins Mascarenhas quando o fizeram Bispo.

Espanta crecer tanto o Crocodilo
Só por seu acanhado nascimento,
Que se maior nascera, mais isento
Estivera d’espanto o p√°trio Nilo.

Em v√£o levantar√° meu baixo estilo
Vosso Pontifical novo ornamento,
Pois no ventre o imortal merecimento
Vo-lo talhou, para despois visti-lo.

Tardou, mas veio, que a quem mais merece
Muito mais tarde vir o prémio é certo,
E sempre tarda, inda que venha cedo.

Os Céus, que do primeiro estão mais perto,
Mais devagar se movem; quem soubesse
Tr√°s d’aquele segredo, este segredo?

N√£o Choreis os Mortos

N√£o choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escurid√£o das sepulturas.
Deixai crescer, à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos v√£os adormecidos.

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,
Agonizar… guardai, longe, as do√ßuras
Das vossas ora√ß√Ķes, calmas e puras,
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,
Da multid√£o sem fim dos que s√£o vivos,
Dos tristes que n√£o podem esquecer.

E, ao meditar, ent√£o, na paz da Morte,
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

A uma Mulher

Pra vós são estes versos, pla consoladora
Graça dos olhos onde chora e ri um sonho
Doce, pla vossa alma pura e sempre boa,
Versos do fundo desta aflição opressora.

Porque, ai! o pesadelo hediondo que me assombra
Não dá tréguas e, louco, furioso, ciumento,
Multiplica-se como um cortejo de lobos
E enforca-se com o meu destino que ensanguenta!

Ah! sofro horrivelmente, ao ponto de o gemido
Desse primeiro homem expulso do Paraíso
Não passar de uma écloga à vista do meu!

E os cuidados que vós podeis ter são apenas
Andorinhas voando à tarde pelo céu
‚ÄĒ Querida ‚ÄĒ num belo dia de um Setembro ameno.

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Frutas De Maio

Maio chegou — alegre e transparente
Cheio de brilho e m√ļsica nos ares,
De cristalinos risos salutares,
Frio, porém, ó gota alvinitente.

Corre um fluido suave e odorescente
Das laranjeiras, como dos altares
O incenso — e, como a gaze azul dos mares,
Leve — h√° por tudo um beijo, docemente.

Isto bem cedo, de manh√£ — adiante
Pela tarde um sol calmo, agonizante,
P√Ķe no horizonte resplendentes franjas.

H√° carinhos, da luz em cada raio,
Filha — e eu que adoro este frescor de maio
Muito, mas muito — trago-te laranjas.

Minha Terra

A. J. Emídio Amaro

√ď minha terra na plan√≠cie rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu p√£o e a minha casa…

Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha… a dormitar…
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!

Minha terra onde meu irm√£o nasceu…
Aonde a m√£e que eu tive e que morreu,
Foi mo√ßa e loira, amou e foi amada…

Truz… truz… truz… Eu n√£o tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, √© quase noite…
Terra, quero dormir… d√°-me pousada!

Luar

Pelas esferas, nuvens peregrinas,
Brandas de toques, encaracoladas,
Passam de longe, tímidas, nevadas,
Cruzando o azul sereno das colinas.

Sombras da tarde, sombras vespertinas
Como escumilhas leves, delicadas,
Caem da serra oblonga nas quebradas,
V√£o penumbrando as coisas cristalinas.

Rasga o silêncio a nota chã, plangente,
Da Ave-Maria, — e ent√£o, nervosamente,
Nuns inef√°veis, espont√Ęneos jorros

Esbate o luar, de forma admir√°vel,
Claro, bondoso, elétrico, saudável,
Na curvilínea compridão dos mortos.

Onde o Homem n√£o Chega

Onde o Homem não chega tudo é puro,
dessa pureza da primeira inf√Ęncia.
Tudo √© medida, ritmo, concord√Ęncia,
tudo é claro e auroral: a noite, o escuro.

E nem o vendaval √© disson√Ęncia
mas promessa de sol e de futuro.
Quem levantou esse primeiro Muro
que do perto fez longe, ergueu dist√Ęncia?

Foi o Homem, com suas m√£os de barro,
com suas m√£os perjuras, fel e sarro
de in√ļtil sofrimento e vil prazer.

Não é tarde, porém: sacode a lama,
ergue o facho, levanta a Deus a chama
e recomeça: acabas de nascer.

Sem um Filho te Apagar√°s no Poente

A luz real ergueu-se a oriente
com a coroa de fogo na cabeça:
e o nosso olhar, vassalo obediente,
ajoelha ante a visão que recomeça.

Enquanto sobe, Sua Majestade,
a colina do céu a passos de oiro,
adoramos-lhe a adulta mocidade
que fulge com as chamas dum tesoiro.

Mas quando o carro fatigado alcança
o cume e se despenha pela tarde,
desviamos os olhos já sem esperança:

no crep√ļsculo est√©ril nada arde.
Assim tu, meio dia ainda ardente,
sem um filho te apagar√°s no poente.

Tradução de Carlos de Oliveira

√öltimas Vontades

Na branca praia, hoje deserta e fria,
De que se gosta mais do que de gente,
Na branca praia, onde te vi um dia
Para sonhar, j√° tarde, eternamente,

Achei (ia jurá-lo!) à nossa espera,
Intacto o rasto dos antigos passos,
Aquela praia, inamovível, era
Espelho de pés leves, depois lassos!

E doravante, imploro, em testamento,
Que, nesta areia, a espuma seja a tiara
Do meu cad√°ver, preso ao teu e ao vento…

‚ÄĒ Vaiv√©m sexual, que o mar lega aos defuntos? ‚ÄĒ
Se em vida, agora, tudo nos separa
√ď meu amor, apodre√ßamos juntos!

√āngelus

Desmaia a tarde. Além, pouco e pouco, no poente,
O sol, rei fatigado, em seu leito adormece:
Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece
Do √āngelus ao solu√ßo agoniado e plangente.

Salmos cheios de dor, impregnados de prece,
Sobem da terra ao céu numa ascensão ardente.
E enquanto o vento chora e o crep√ļsculo desce,
A ave-maria vai cantando, tristemente.

Nest’hora, muita vez, em que fala a saudade
Pela boca da noite e pelo som que passa,
Lausperene de amor cuja m√°goa me invade,

Quisera ser o som, ser a noite, ébria e douda
De trevas, o silêncio, esta nuvem que esvoaça,
Ou fundir-me na luz e desfazer-me toda.

O Coveiro

Uma tarde de abril suave e pura
Visitava eu somente ao derradeiro
Lar; tinha ido ver a sepultura
De um ente caro, amigo verdadeiro.

L√° encontrei um p√°lido coveiro
Com a cabeça para o chão pendida;
Eu senti a minh’alma entristecida
E interroguei-o: “Eterno companheiro

Da morte, que matou-te o cora√ß√£o?”
Ele apontou para uma cruz no ch√£o,
Ali jazia o seu amor primeiro!

Depois, tomando a enxada gravemente,
Balbuciou, sorrindo tristemente: –
“Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!”

Uma Doen√ßa C√ļmplice

uma doen√ßa c√ļmplice, marcas p√ļrpura
dão ao teu rosto a expressão do exílio
a que te submetes, gemeste
toda a noite, soçobraste

à febre alta do final da tarde, uma prega,
vincada no teu rosto,
mantém-te inanimado
entre a vig√≠lia e a inj√ļria

que há no sacrifício
e te p√Ķe a carne em chaga.
uma doença altiva, a consistência

do silêncio é como aço e o transe
permanece, é superiormente excessiva
tanta ang√ļstia.

O Sexo

Neste corpo, a densa neblina, quase um h√°bito,
lentamente descida, sedimento e sede,
subtilmente o acalma. Ancora que se desloca,
movediça e infirme. Só no olhar, além

da luz e da cal, se distinguem os desejos
e a mestria das palavras. E n√£o h√° remos
nem astros. Convido a neblina a esta
mesa de chumbo, onde nada levanta o fogo

solar ou os signos se alteiam. √Č a hora
em que o corpo treme e a sombra lavra as frouxas
manhãs. O que serão as tardes, sob a névoa,

quando o vigor agoniza e o v√£o das √°guas abre
o caos e os ecos? Estaremos em paz,
usando a palavra, √ļltima herdeira das areias.

A Morte РO Sol Do Terrível

(com tema de Renato Carneiro Campos)

Mas eu enfrentarei o Sol divino,
o Olhar sagrado em que a Pantera arde.
Saberei porque a teia do Destino
n√£o houve quem cortasse ou desatasse.

N√£o serei orgulhoso nem covarde,
que o sangue se rebela ao toque e ao Sino.
Verei feita em top√°zio a luz da Tarde,
pedra do Sono e cetro do Assassino.

Ela vir√°, Mulher, afiando as asas,
com os dentes de cristal, feitos de brasas,
e h√° de sagrar-me a vista o Gavi√£o.

Mas sei, também, que só assim verei
a coroa da Chama e Deus, meu Rei,
assentado em seu trono do Sert√£o.

II

Leia a posteridade, ó pátrio Rio,
Em meus versos teu nome celebrado;
Por que vejas uma hora despertado
O sono vil do esquecimento frio:

Não vês nas tuas margens o sombrio,
Fresco assento de um √°lamo copado;
Não vês ninfa cantar, pastar o gado
Na tarde clara do calmoso estio.

Turvo banhando as p√°lidas areias
Nas por√ß√Ķes do riqu√≠ssimo tesouro
O vasto campo da ambição recreias.

Que de seus raios o planeta louro
Enriquecendo o influxo em tuas veias,
Quanto em chamas fecunda, brota em ouro.

A Um Moribundo

N√£o tenhas medo, n√£o! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, √† tarde, uma pomba que tem sono…

A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono…

O que h√° depois? Depois?… O azul dos c√©us?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?

Que importa? Que te importa, ó moribundo?
– Seja o que for, ser√° melhor que o mundo!
Tudo ser√° melhor do que esta vida!…

Desengano

A pensionista p√°lida que gosta
(Fundada pretens√£o!) que a digam bela,
E do colégio, à tarde, na janela,
Para dar-me um sorriso se recosta;

Que me escreve nas férias, de Bemposta,
Aonde vai visitar a parentela,
Pedindo-me que não me esqueça dela
E dando-me uns beijinhos…, pela posta;

Essa ninfa gentil dos olhos pretos,
Essa beleza de anjo… oh, sorte varia;
Vergonha eterna para os meus bisnetos!

Com um pançudo burguês, uma alimária
Que n√£o a sabe amar, nem faz sonetos,
Vai casar-se amanh√£ na Candel√°ria.

Estranha Encruzilhada

N√£o sei por que cruzou com a tua a minha estrada,
o destino √© inconsciente e n√£o sabe o que faz…
РEncontro-te, e afinal, já sei que tu és amada,
encontras-me, e afinal, j√° √© bem tarde demais…

Já não posso esquecer a existência passada,
perdi meu cora√ß√£o – o amor n√£o tenho mais…
Рjá não tens coração, e a tua alma, coitada,
sofrendo h√° de ficar sem me esquecer jamais…

Até hoje nesse amor não tínhamos pensado:
é por isso talvez que em silêncio tu choras,
e em silêncio também meu pranto é derramado

Eu cheguei… Tu chegaste… Estranha encruzilhada:
se eu tenho que partir depois que tu me adoras,
se, tu tens que ficar sabendo-te adorada!…

Never More

A uma falsa amiga

I

N√£o te perd√īo, n√£o, meu tristes olhos
N√£o mais hei de fitar nos teus, sorrindo:
Jamais minh’alma sobre um mar de escolhos
H√° de chamar por ti no anseio infindo.

Jamais, jamais, nos delicados folhos
Do cora√ß√£o como n’um ramo lindo,
H√° de cantar teu nome entre os abrolhos
A √°ria gentil de meu sonhar j√° findo.

N√£o te perd√īo, n√£o! E em tardes claras,
Cheias de sonhos e delícias raras,
Quando eu passar à hora do Sol posto:

N√£o rias para mim que sofro e penso,
Deixa-me s√≥ neste deserto imenso…
Ah! se eu pudesse nunca ver teu rosto!

Se me Comovesse o Amor

Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua m√£o, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso n√£o me procures, n√£o me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.