Passagens de Florbela Espanca

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O Teu Olhar

Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pendÔes ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
CĂ©us do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde nĂŁo cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de herĂłis e marinheiros,
Lanças nuas em rĂștilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-te tĂŁo grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

Nervos D’Oiro

Meus nervos, guizos de oiro a tilintar
Cantam-me n’alma a estranha sinfonia
Da volĂșpia, da mĂĄgoa e da alegria,
Que me faz rir e que me faz chorar!

Em meu corpo fremente, sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilhĂŁo sinto-As passar!

O coração, numa imperial oferta.
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mĂŁo,
É uma rosa de pĂșrpura, entreaberta!

E em mim, dentro de mim, vibram dispersos,
Meus nervos de oiro, esplĂȘndidos, que sĂŁo
Toda a Arte suprema dos meus versos!

Sou uma criatura que necessita de trabalhar e trabalhar muito; felizmente que um trabalho como o meu Ă© muito bem pago e tem as suas compensaçÔes, principalmente uma, que em extremo me agrada: distrair-me. É isto que eu procuro na vida, sempre e a propĂłsito de tudo, com um afĂŁ com que todos os mortais procuram a sempre decantada e fugidia felicidade.

Sou uma criatura vulgarmente educada, vulgarmente inteligente, vulgarmente cultivada. Tudo vulgar, querida, tudo!

Para mim? Para ti? Para ninguĂ©m. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensĂ”es de estilo, sem anĂĄlises filosĂłficas, o que os ouvidos dos outros nĂŁo recolhem: reflexĂ”es, impressĂ”es, ideias, maneiras de ver, de sentir — todo o meu espĂ­rito paradoxal, talvez frĂ­volo, talvez profundo.

Dizes contentar-te com pouco; Ă© essa, na realidade, a suprema sabedoria mas eu fui sempre a grande revoltada e a grande ambiciosa que sĂł quer a felicidade quando ela seja como um turbilhĂŁo que dĂȘ a vertigem e que deslumbre!

O costume portuguĂȘs Ă© deixar-se tudo em palavras mas palavras que sĂŁo bolas de sabĂŁo deitadas ao ar para distrair pequeninos de seis anos.

Neurastenia

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Marias!
LĂĄ fora, a chuva, brancas mĂŁos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza…

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estĂŁo nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza…

Chuva…tenho tristeza! Mas porquĂȘ?!
Vento…tenho saudades! Mas de quĂȘ?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu nĂŁo posso !!…

Digo para mim quando oiço
O teu lindo riso franco,
“SĂŁo seus lĂĄbios espalhando,
As folhas dum lĂ­rio branco”.

O Que Alguém Disse

“Refugia-te na Arte” diz-me AlguĂ©m
“Eleva-te num vĂŽo espiritual,
Esquece o teu amor, ri do teu mal,
Olhando-te a ti própria com desdém.

SĂł Ă© grande e perfeito o que nos vem
Do que em nĂłs Ă© Divino e imortal!
Cega de luz e tonta de ideal
Busca em ti a Verdade e em mais ninguĂ©m!”

No poente doirado como a chama
Estas palavras morrem… E n’Aquele
Que Ă© triste, como eu, fico a pensar…

O poente tem alma: sente e ama!
E, porque o sol Ă© cor dos olhos d’Ele,
Eu fico olhando o sol, a soluçar…

Queria ser a erva humilde
Que pisasses algum dia,
Pra debaixo de teus pés
Morrer em doce agonia.

NĂŁo me enleiem mais com filosofias, com arguiçÔes e com queixas. (…) Eu nĂŁo sei o que Ă© a justiça, eu nĂŁo sei o que Ă© a verdade, eu nĂŁo sei o que Ă© o amor, eu nĂŁo sei nada.

Mais Triste

É triste, diz a gente, a vastidão
Do mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!

É triste e dilacera o coração
Um poente do nosso Portugal!
E nĂŁo vĂȘem que eu sou…eu…afinal,
A coisa mais magoada das que o sĂŁo?!…

Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto Ă© meu
É um triste poente de amargura!

E a vastidĂŁo do Mar, toda essa ĂĄgua
Trago-a dentro de mim num mar de MĂĄgoa!
E a noite sou eu prĂłpria! A Noite escura!!

O Meu Soneto

Em atitudes e em ritmos fleumĂĄticos,
Erguendo as mĂŁos em gestos recolhidos,
Todos brocados fĂșlgidos, hierĂĄticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos…

E os meus olhos serenos, enigmĂĄticos
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristĂ­ssimos, extĂĄticos,
SĂŁo letras de poemas nunca lidos…

As magnĂłlias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados dÂŽamor trazem de rastros…

E a minha boca, a rĂștila manhĂŁ,
Na Via LĂĄctea, lĂ­rica, pagĂŁ,
A rir desfolha as pétalas dos astros!..

RuĂ­nas

Se Ă© sempre Outono o rir das Primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida Ă© um constante derruir
De palĂĄcios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruĂ­nas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida Ă© um contĂ­nuo destruir
De palĂĄcios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rĂștilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguĂȘ-los
Mais alto do que as ĂĄguias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
SĂŁo como os beijos duma linda boca!
Sonhos!… Deixa-os tombar… Deixa-os tombar.

Voz Que Se Cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as ĂĄguas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De coraçÔes que sentem e não falam,
Tudo o que Ă© Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nĂłs!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mĂ­sero Destino!…

A Noite Desce

Como pĂĄlpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce… Ah! doces mĂŁos piedosas
Que os meus olhos tristĂ­ssimos fechassem!

Assim mĂŁos de bondade me beijassem!
Assim me adormecessem! Caridosas
Em braçados de lírios, de mimosas,
No crepĂșsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz…
Perfume de baunilha ou de lilĂĄs,
A noite pÔe embriagada, louca!

E a noite vai descendo, sempre calma…
Meu doce Amor tu beijas a minh’alma
Beijando nesta hora a minha boca!

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reĂșne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou AlguĂ©m cĂĄ neste mundo …
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho … E nĂŁo sou nada! …