Passagens de Florbela Espanca

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O Que Alguém Disse

“Refugia-te na Arte” diz-me Algu√©m
“Eleva-te num v√īo espiritual,
Esquece o teu amor, ri do teu mal,
Olhando-te a ti própria com desdém.

Só é grande e perfeito o que nos vem
Do que em nós é Divino e imortal!
Cega de luz e tonta de ideal
Busca em ti a Verdade e em mais ningu√©m!”

No poente doirado como a chama
Estas palavras morrem… E n’Aquele
Que √© triste, como eu, fico a pensar…

O poente tem alma: sente e ama!
E, porque o sol √© cor dos olhos d’Ele,
Eu fico olhando o sol, a solu√ßar…

Queria ser a erva humilde
Que pisasses algum dia,
Pra debaixo de teus pés
Morrer em doce agonia.

N√£o me enleiem mais com filosofias, com argui√ß√Ķes e com queixas. (…) Eu n√£o sei o que √© a justi√ßa, eu n√£o sei o que √© a verdade, eu n√£o sei o que √© o amor, eu n√£o sei nada.

Mais Triste

√Č triste, diz a gente, a vastid√£o
Do mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!

√Č triste e dilacera o cora√ß√£o
Um poente do nosso Portugal!
E n√£o v√™em que eu sou…eu…afinal,
A coisa mais magoada das que o s√£o?!…

Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
√Č um triste poente de amargura!

E a vastid√£o do Mar, toda essa √°gua
Trago-a dentro de mim num mar de M√°goa!
E a noite sou eu própria! A Noite escura!!

O Meu Soneto

Em atitudes e em ritmos fleum√°ticos,
Erguendo as m√£os em gestos recolhidos,
Todos brocados f√ļlgidos, hier√°ticos,
Em ti andam bailando os meus sentidos…

E os meus olhos serenos, enigm√°ticos
Meninos que na estrada andam perdidos,
Dolorosos, tristíssimos, extáticos,
S√£o letras de poemas nunca lidos…

As magnólias abertas dos meus dedos
São mistérios, são filtros, são enredos
Que pecados d¬īamor trazem de rastros…

E a minha boca, a r√ļtila manh√£,
Na Via Láctea, lírica, pagã,
A rir desfolha as pétalas dos astros!..

Ruínas

Se é sempre Outono o rir das Primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida é um constante derruir
De pal√°cios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De pal√°cios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus r√ļtilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais alto do que as √°guias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
S√£o como os beijos duma linda boca!
Sonhos!… Deixa-os tombar… Deixa-os tombar.

Voz Que Se Cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as √°guas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De cora√ß√Ķes que sentem e n√£o falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e m√≠sero Destino!…

A Noite Desce

Como p√°lpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce… Ah! doces m√£os piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim m√£os de bondade me beijassem!
Assim me adormecessem! Caridosas
Em braçados de lírios, de mimosas,
No crep√ļsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz…
Perfume de baunilha ou de lil√°s,
A noite p√Ķe embriagada, louca!

E a noite vai descendo, sempre calma…
Meu doce Amor tu beijas a minh’alma
Beijando nesta hora a minha boca!

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que re√ļne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Algu√©m c√° neste mundo …
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho … E n√£o sou nada! …

Guardar-me intacta, como um cristal transparente, para qu√™? Mas n√£o imitemos Jeremias… s√≥ na alma √© que a lama se n√£o apaga; aquela com que nos salpicam, sai com √°gua limpa.

N√£o falaremos de pol√≠tica nem de religi√£o; n√£o nos entender√≠amos. Sou pag√£ e anarquista, como n√£o poderia deixar de ser uma pantera que se preza…

Diz-me, porque n√£o nasci igual aos outros, sem d√ļvidas, sem desejos de imposs√≠vel? E √© isso que me traz sempre desvairada, incompat√≠vel com a vida que toda a gente vive.

Mas se eu pudesse, a m√°goa que em mim chora, contar, n√£o a chorava como agora, irm√£os, n√£o a sentia como sinto!

A Flor Do Sonho

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa t√£o rara flor abriu assim! …
Milagre… fantasia… ou, talvez, sina…

√ď flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles s√£o tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…

A questão dinheiro não me prende duma maneira exagerada, se bem que me não desagradasse ganhar algum para satisfazer os meus dois vícios: flores e livros.

Errante

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Pa√ßo da Ventura…

Meu cora√ß√£o n√£o chega l√° decerto…
N√£o conhece o caminho nem o trilho,
Nem h√° mem√≥ria desse s√≠tio incerto…

Eu tecerei uns sonhos irreais…
Como essa m√£e que viu partir o filho,
Como esse filho que n√£o voltou mais!