Passagens de Florbela Espanca

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À Janela De Garcia De Resende

Janela antiga sobre a rua plana…
Ilumina-a o luar com seu clar√£o…
Dantes, a descansar de luta insana,
Fui, talvez, flor no po√©tico balc√£o…

Dantes! Da minha glória altiva e ufana,
Talvez…Quem sabe?…Tonto de ilus√£o,
Meu rude coração de alentejana
Me palpitasse ao luar nesse balc√£o…

Mística dona, em outras Primaveras,
Em refulgentes horas de outras eras,
Vi passar o cortejo ao sol doirado…

Bandeiras! Pajens! O pend√£o real!
E na tua m√£o, vermelha, triunfal,
Minha divisa: um cora√ß√£o chagado!…

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente dir√°, fechando o livro docemente: – Versos s√≥ nossos, s√≥ de n√≥s os dois!…

Dizem-me que te n√£o queira
Que tens, nos olhos, traição.
Ai, ensinem-me a maneira
De dar leis ao coração!

Alma a Sangrar

Quem fez ao sapo o leito carmesim
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?

Quem cinzelou estrelas no jasmim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?

Quem nos deu asas para andar de rastros?
Quem nos deu olhos para ver os astros
– Sem nos dar bra√ßos para os alcan√ßar?!…

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
√Č sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as m√£os, Amor, devagarinho…
como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beija-mas bem!…Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas m√£os,
Os beijos que sonhei pr√° minha boca!…

O fado não é da terra,
O fado criou-o Deus,
O fado é andar doidinha
Perdida pelos olhos teus.

Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimentos cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!

Cinzento

Poeiras de crep√ļsculos cinzentos.
Lindas rendas velhinhas, em pedaços,
Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços,
Como brancos fantasmas, sonolentos…

Monges soturnos deslizando lentos,
Devagarinho, em misteriosos passos…
Perde-se a luz em l√Ęnguidos cansa√ßos…
Ergue-se a minha cruz dos desalentos!

Poeiras de crep√ļsculos tristonhos,
Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos,
A névoa das saudades que deixaste!

Hora em que teu olhar me deslumbrou…
Hora em que a tua boca me beijou…
Hora em que fumo e n√©voa te tornaste…

Um livro √© uma vaidade! Que importa ao mundo a c√īr da nossa imagina√ß√£o, e as formas do nosso pensamento?

Silêncio!

No fadário que é meu, neste penar,
Noite alta, noite escura, noite morta,
Sou o vento que geme e quer entrar,
Sou o vento que vai bater-te √† porta…

Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu j√° n√£o vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa, a procurar
Beber-te a voz, apaixonada, absorta!

Estou junto de ti e n√£o me v√™s…
Quantas vezes no livro que tu lês
Meu olhar se pousou e se perdeu!

Trago-te como um filho, nos meus braços!
E na tua casa…Escuta!…Uns leves passos…
Sil√™ncio, meu Amor!…Abre! Sou eu!…

Meu Mal

A meu irm√£o

Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipreste, caravela, dor!

Fui tudo que no mundo h√° de maior:
Fui cisne, e lírio, e águia, e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou, um c√≠nico riso de Chamfort…

Fui a her√°ldica flor de agrestes cardos,
Deram as minhas m√£os aroma aos nardos…
Deu cor ao eloendro a minha boca…

Ah! de Boabdil fui l√°grima na Espanha!
E foi de l√° que eu trouxe esta √Ęnsia estranha,
Mágoa não sei de quê! Saudade louca!

Meu coração é ruína
Caindo todo a pedaços,
Oh, dai-lhe a hera piedosa
Bendita desses teus braços!

Sem Remédio

Aqueles que me têm muito amor
N√£o sabem o que sinto e o que sou…
N√£o sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio.
A mesma ang√ļstia funda, sem rem√©dio,
Andando atr√°s de mim, sem me largar!

Quando um peito amargurado
Adora seja quem for,
Por muito infame que seja
Bendito seja esse amor!

√Č uma resposta aos que chamam ao suic√≠dio um fim de cobardes e de fracos, quando s√£o unicamente os fortes que se matam! Sabem l√° esses pseudo-fortes o que √© preciso de coragem para friamente, simplesmente, dizer um adeus √† vida, √† vida que √© um instinto de todos n√≥s, √† vida t√£o amada e desejada a despeito de tudo, embora esta vida seja apenas um p√Ęntano infecto e imundo!

Nihil Novum

Na penumbra do pórtico encantado
De bruges, noutras eras, j√° vivi;
Vi os templos do Egipto com Loti;
Lancei flores, na √ćndia, ao rio sagrado.

No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao B√≥sforo errei, pensando em ti!…
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de n√°car e brocado…

Mordi as rosas brancas de Ispa√£
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca b√°rbara e deserta,

Triste, a florir, numa ansiedade v√£!
Sempre da vida — o mesmo estranho mal,
E o cora√ß√£o — a mesma chaga aberta!

Tenho horror a tudo quanto de perto ou de longe se assemelha √† popularidade. Abomino mesmo o meu pobre nome por n√£o ser um nome como o de toda a gente; desta maneira, dentro do movimento liter√°rio portugu√™s, sou no meu tempo, e guardadas as devidas dist√Ęncias, um Gustave Flaubert rabugento, desdenhoso das turbas e fechada em mim como num sacr√°rio.